Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux. Marcel Proust - A La Recherche du Temps Perdu















segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Boas Festas e Feliz Ano Novo

 

natividadeAtribuído à oficina de Gregório Lopes - Natividade 1523 - óleo sobre madeira de carvalho 128,5 x 87,5 cm. Museu Nacional de Arte Antiga

sábado, 22 de dezembro de 2012

BARROQUISMOS VII (13) 1ª parte

A cidade baixa na gravura de Teodoro de Sousa Maldonado
Agostinho Rebello da Costa na sua Descripção Topographica e Historica da Cidade do Porto afirma que a cidade ribeirinha dentro da muralha estende-se “…entre estes dous Montes” ,do Olival e da Sé , onde “medea huma dilatada planice, que se divide em tres Valles sobranceiros huns aos outros”. Assim a zona ribeirinha apresenta-se na gravura de Teodoro de Sousa Maldonado, em três planos, correspondentes à estrutura dos espaços públicos (ruas, largos, praças) e tendo significativamente ao centro o convento de S. Domingos, no enfiamento da Torre dos Clérigos e da porta da Lingueta.

1 – Um primeiro plano que “abrange a Ribeira, Fonte Taurina, e toda a Revoleirra, até a Porta Nova”
2 – Um segundo plano continua por toda a Rua Nova de S. Nicolao

Os quais foram tratados neste blogue.

 3 – Um terceiro plano que  dilata-se desde o Convento de S. Bento das Freiras até S. Domingos”. E que se prolonga pela rua de Belmonte até ao Largo e ao convento de S. João Novo.fl0

Na gravura de T. S. Maldonado, neste percurso estão assinalados: o convento de S. João Novo (n.º10), o convento e O.T. de S. Domingos (n.os 19 e 23) e ligados à assistência, a Misericórdia (n.º 26) e o Hospital de S. Crispim (n.º 30).fl1Este percurso, eixo principal da cidade desde o século XVI, centrava-se no largo de S. Domingos e estendia-se para Nascente pela manuelina rua das Flores, ao longo do vale do rio de Vila, até à Porta de Carros e, para Poente pela rua de Belmonte até ao largo de S. João Novo. Estas ruas, que desde o século XVI, se vão edificando, atribuem um papel de charneira ao Largo de S. Domingos.fl5As ruas, portas da muralha e edifícios principais na primeira metade do século XVIII, na planta de 1839fl134

A importância da rua (de Santa Catarina) das Flores e do Largo de S. Domingos no século XVIII

Refere Agostinho Rebello da Costa: o “Bairro da Sé, tem entre as principaes Ruas o primeiro lugar, a das Flores, obra d’El Rey D. Manoel, e que contém as lojas mais ricas da Cidade, tanto em fazendas de lam, e seda, como em todo o género de Mercearia, Porcelanas, lojas de Ourives d’ouro, prata &c.”

Rebello da Costa refere ainda o conjunto de ruas que articulam a o eixo da rua das Flores com a cidade como “as Ruas dos Canos, Ponte Nova, Banharia, Mercadores,” e ainda a (…) Rua Nova de S. João, …aberta no anno de 1765., e está firmada sobre grossos arcos de cantaria, que formaõ huma espécie de Rua subterrânea, e pela qual passa o Rio chamado da Villa.”

O trânsito fazia-se através das estreitas ruas dos Mercadores, das Congostas, e da Ferraria de Baixo, até à abertura, já no século XIX, das ruas Ferreira Borges e Mouzinho da Silveira. fl5a

É ainda referida por Agostinho Rebello da Costa na sua Descripção Topographica e Historica da Cidade do Porto a Praça de S. Roque embora não desenhada ou numerada na gravura de T.S. Maldonado.

1 - O Convento e o Largo de S. Domingos (invocação de Nossa Senhora dos Fiéis de Deus)

O convento de S. Domingos assinalado na gravura de Maldonado com o N.º 23 Dominicos, dominando a cidade baixa (colocado no centro da gravura e no enfiamento da Torre dos Clérigos), é de facto até ao início do século XIX, o edifício central da cidade e onde se realizam as principais reuniões e se tomam as principais decisões sobre o Porto.fl12

Agostinho Rebello da Costa refere-o como “… o mais antigo de todos, fundado no anno de mil e duzentos e trinta e nove, em huma formosa Praça, á qual elle deu o nome. A sua Igreja, que era de três naves, foi devorada pelo fogo em mil settecentos e settenta e sette: presentemente servem-se os seus Religiosos da Capella pertencente á Ordem Terceira da Santissima Trindade.”

O convento de S. Domingos (n.º 5) na gravura de Duncalf.fl137De facto “He o Convento da cidade do Porto terceiro em tempo, e ordem do antiguidade dos que temos em Portugal: mas o primeiro, que foi pedido por conselho, e decreto de Bispo, e Cabido no Reino.” (1). Dada a sua situação junto ao Largo a que dá o nome, na confluência dos percursos entre a portas Nova e de Carros e entre a praça da Ribeira, a rua de S. Nicolau (actual rua do Infante) e o largo de S. Domingos, o convento ocupa desde o século XVI, uma posição privilegiada e central na zona ribeirinha da cidade. Ou como diz Frei Luís de SousaPorque, como a cidade está situada em lugar dependurado, e o Convento lhe fica no meio, e como no coração d’ella, não ha lugar mais a propósito pera ser frequentado dos negociantes, juntando-se a commodidade da igreja, e o amparo, que o alpendre dá pera Sol, e agoa. A vista dos dormitórios cae sobre o Douro, que faz porto á cidade, e lava as muralhas, que decem a beber na agoa. Assi he o posto aprazível, e sadio.” (2)

(1) Manuel de Sousa Coutinho (c.1555-1632) conhecido como Frei Luís de Sousa, Historia de S. Domingos Particular do Reino e Conquistas de Portugal, Livro III,cap. IX Da origem, e principio do Convento da cidade do Porto : e das cousas que houve pera se aceitar pola Provincia, 1623/26

(2) idem, Livro III cap. XIII, Faz a Rainha dona Mafalda doação do padroado de uma Igreja á Sé do Porto, pera de todo pacificar o Bispo, e Cabido com os Frades. Procede o Bispo com elles em amizade: faz- lhes esmolla de duas fontes pera o Convento. 1623/26.

Em 1728 o Convento de S. Domingos é o palco central dos festejos que mobilizaram toda a cidade, por ocasião dos “…felices despozorios do Serenissimo Senhor D. Joseph Principe do Brasil com a Serenissima Senhora Dona Maria Anna Victoria Infanta de Castella, e do Serenissimo Senhor D. Fernando Principe das Asturias com a Serenissima Senhora Dona Maria Barbara Infanta de Portugal…”. (3)

(3) Relaçaõ dos Festivos Applausos com que na Cidade do Porto se Congratularaõ os felices despozorios dos Serenissimos Senhor Dom Joseph Principe do Brasil, e Senhora D, Maria Anna Victoria Infanta de Castella, e dos Serenissimos Senhor D. Fernando Principe das Asturias, e Senhora D. Maria Barbara Infanta de Portugal., Lisboa Occidental, Na Officina da Musica, anno 1728.

fl12a

O “grande alpendre que cobre o adro” no dizer de Frei Luís de Sousa e a que se refere Rebello da Costa  “servia de recreaçaõ e casa de negocios naturaes”, e aí se realizavam as principais reuniões e eventos civis da cidade, entre os quais sessões da Câmara e outras.

Em 1914, Firmino Pereira em O Porto d’outros tempos (4) aponta a importância que teve o Convento de S. Domingos e em particular o seu alpendre: “O edifício ficou concluído em 1245, mas só em 1320 é que terminaram as obras do pátio ou alpendre, que ficou celebre na historia do Porto por ali se reunir varias vezes o senado da Camara para deliberar sobre assuntos em que estava empenhada a honra da cidade. Foi no alpendre de S. Domingos que funcionou a primeira Bolsa que houve no Porto; que se reuniram os homes boos para aclamar D. João I; e que o senado da Camará decidiu mandar sair da cidade o orgulhoso fidalgo Ruy Pereira, senhor da Terra de Santa Maria, que ousara demorar-se no Porto mais tempo do que era permitido pelos decretos reaes.

Sob a espaçosa arcaria do alpendre levantavam-se igualmente vistosas barracas ou tendas onde se vendiam jóias e panos vindos de Veneza, Nápoles e Florença. Era, no século XIV, o ponto de reunião da gente grada do Porto, onde, como diz o douto Novaes (5), “se franquea la conversacion de todos
los caballeros y ciudadanos, abrigados del sol y lluvia en seo grandíssimo âmbito y debaxo do seu techo.”

(4) Firmino Pereira O Porto d’outros tempos – Notas Históricas – Memórias – Recordações, Livraria Chardron, de Lello & Irmão.
Rua das Carmelitas, 144 — Porto 1914

(5) Manoel Pereira de Novaes. Anacrisis historial del origen i fundacion i antiguidad de la mui noble y siempre leal ciudad de o Porto, c. de 1690 B.P.M.P Porto : Typ. Progresso, de Domingos Augusto da Silva, 1912-1919

Planta reconstituída do Convento de S. Domingos in Arqueologia n.º 10fl161 – Igreja 2 – Claustro 3- Cerca 4 – Igreja dos Terceiros 5 - Ermida

"Junto à igreja d'este convento (1), havia uma ermida antiquíssima (5), para a qual se subia por uma escadaria muito íngreme e de muitos degraus, e suppõe o chronista, ser esta a igreja que o bispo D. Pedro offerecia aos frades, na mensagem que mandou ao capitulo de Lugo, e n'aquella ermida, ou igreja velha, existiu muitos annos uma confraria, que n'ella instituiram os mercadores da cidade, por contrato feito com os frades, em 1556".

“O claustro (2), localizado a sul da igreja, tinha onze nichos abertos nas paredes, quatro na parte do dormitório, dois do lado do refeitório, quatro na parede que dava para a igreja e um junto ao capítulo, todos de pedra lavrada, com postas de castanho pintadas e dentro deles os passos da via-sacra.”

“Por cima da casa do Capítulo ficava um dormitório com três janelas para a rua das Congostas, uma sala grande, com duas janelas, uma para nascente e outra para norte, uma sala grande com duas janelas para a rua das Congostas, protegidas por grades de madeira e quatro alcovas com quatro camas para servir de casa de hospedaria. A sul ficava o dormitório grande, comunicando com o outro através de um arco. Tinhas dois andares de celas, ocupando os priores o de baixo.”

"A velha igreja conventual, (1)  com orientação nascente / poente, era constituída por três naves "sendo a do meio mais elevada, iluminava o interior com o seu clerestório", divididas em quatro tramos, por arcos ogivais assentes em pilares "sem bases, subindo lisos até aos capitéis" distanciados uns dos outros de 5,73 m. O comprimento tomado desde o cruzeiro à fachada principal não ultrapassava os 27,28 m, e de largura de parede a parede 16,50m " (6)

(6) in  Soares de Oliveira A IGREJA DE S. DOMINGOS NO PORTO – Apontamentos para a sua história, por , Separata do Boletim Cultural da Câmara Municipal do Porto, Vol. XV, Porto, 1952

A Igreja dos Terceiros de S. Domingos

Ainda no século XVII, é inaugurada em 1686 uma capela dos irmãos terceiros junto à igreja dos frades. Estes nos meados do século XVIII e numa ausência dos Terceiros, saídos em procissão, ocuparam-na definitivamente, num conflito apenas resolvido pelo papa Bento XIV quando extingue a Ordem Terceira de S. Domingos e é criada a Ordem Terceira da Trindade.

fl14Joaquim Villanova  Egreja de S. Domingos

A história é contada por J.M.P.Pinto    da seguinte maneira:

“Os frades apossaram-se da igreja e pertenças da ordem terceira, que lhes era contígua, na occasião em que esta tinha sahido com a sua pro­cissão, tendo-se elles previamente introduzido humil­demente e a muitos rogos, sob pretexto de dizerem missa e celebrarem os officios divinos, em quanto não reedificassem a sua igreja. Pouco depois de sahir a procissão dos Terceiros, os frades trancaram as portas, obstando a que a procissão se recolhesse, ficando os Terceiros d'esta maneira expulsos para todo o sempre, apesar das grandes demandas que houveram, e indo-se depois d'isto alojar na igreja de S. Chrispim, donde se mudaram para a capella de N. S.a da Batalha, e depois para a igreja do Cal­vário, defronte de S. José das Taipas. Mais tarde por bulla do Papa, foram reformados de Terceiros de S. Domingos que eram, para Terceiros da ordem da SS. Trindade, com a clausula de não ficarem su­jeitos a ordem fradesca. Por este motivo foram edi­ficar a sua igreja no largo do Laranjal.” (7)

(7) J. M. P. Pinto – Apontamentos para a Historia da Cidade do Porto, juntos e coordenados por J. M. P. Pinto,  Porto Typographia Commercial Bellomonte, 1869

Esta igreja foi demolida em 1835 para a abertura da rua Ferreira Borges.

fl136Plano topographico que representa a actual direcção da rua Ferreira Borges pelas linhas marcadas de preto, e ao mesmo tempo a direcção que pode tomar para empedir a demolição de hua parte da igreja de S. Francisco, segundo as linhas que terminam em A.B. Joaquim da Costa Sampaio Lima 1838 AHMP

2 - O Largo de S. Domingos

Manoel Pereira de Novaes, descreve o largo de S. Domingos nos finais do século XVII:

“…sigue la Calle de Santo Domingo plana e derecha hasta su plaça, que alli la hase Capacissima y espaciosa hasta la Misericordia, y lo fuera Mayor si el Atrio desse Convento no lo estorvara…” (8)

(8) Manoel Pereira de Novaes. Anacrisis historial del origen i fundacion i antiguidad de la mui noble y siempre leal ciudad de o Porto, c. de 1690 B.P.M.P Porto : Typ. Progresso, de Domingos Augusto da Silva, 1912-1919

No século XVIII, reflectindo a importância que o Largo de S. Domingos vem assumindo, são elaborados projectos de intervenção.

T. S. Maldonado projecta uma reorganização do Largo a partir da deslocação do Paço. Em 1835 (foi) demolido o Passo que existia no lugar «em que a rua de S. Domingos se juntava ao largo do mesmo nome». (9)fl116Planta do Largo de S. Domingos e ruas limítrofes sem data e assinada por Teodoro de Sousa Maldonado AHMP na legenda - “A – Largo e chafariz de S. Domingos B - Terreno público C- paço de S. Domingos D- Largo para onde pode ser mudado o Paço E- Rua Nova de S. João F – Misericórdia”

Em 1774, o cônsul John Whitehead, elabora um projecto, com uma fundamentação geométrica, iluminista e racional,  baseado no prolongamento da rua Nova de S. João até à fachada da igreja da Misericórdia e reorganizando o largo, dando-lhe uma forma de um triângulo, a partir desse prolongamento e da correcção das ruas das Flores e de Belmonte.

O Largo em 1774fl19Planta 1774 atribuída a John Whitehead AHMP, Livro de Plantas

O projecto de John Whiteheadfl4 - CópiaJohn Whitehead Planta da praça de S. Domingos 1774 AHMP Livro de Plantas

Na legenda - As letras A. B. C. D. na Planta mostrão huma pequena Praça publica, Projectada por baixo de S. Domingos. A. D. I. G. mostrão outra Planta de uma Praça Projectada triangularmente e de mayor tamanho, em que se inclui a direcção da Rua S, João atté à esquina da Igreja da Misericórdia, terminada pela letra X. Na mesma Planta: e afin de effectuar a execução deste último projecto he preciso cortar as casas, incluídas nos três triângulos = D.C.I. = G.M.L. = e A.E.F. na planta ou escolher a pequena praça por baixo de S. Domingos. Foi projectado em 1774 pelo cônsul de Inglaterra.”

fl4dfl4 cópia

Este projecto por razões várias, nunca foi, no entanto, realizado. Mas persistiu no imaginário da cidade, até à abertura da rua de Mouzinho da Silveira (nos anos 70 do século XIX), em que o projecto deixa de ter sentido.

Na gravura de Joaquim Cardoso Villanova, de 1833, a rua de S. João aparece tendo ao fundo a fachada da igreja da Misericórdia.fl147Joaquim Villanova Ruas de S. João e dos Mercadores.

Nas plantas que no século XIX, para além do levantamento da cidade pretendem incluir alguns arranjos urbanos de uma forma ou outra subsiste a ideia do cônsul inglês.

fl133Teodoro de Sousa Maldonado Planta do largo de S. Domingos sem data  AHMP Livro de Plantas

fl133cLegenda: “A letra A na planta indica que a rua nova de S. João foi primeiramente projectada continuar-se segundo a linha 1, 2. Depois houve novo projecto em se demolir o que fosse necessário para a área da rua ou até à linha 3, 4. Ultimamente projectou-se terminar a rua do Largo B e demolirem-se as casas que ficam ao poente da linha 1, 5 e então se demolia a casa que ocupara a área n.º 6. Agora, porém, julgando-se desnecessário tanta área com muita despesa pública se examinou em vistoria, que podiam conservar-se as casas n.º 7 e ceder-se a casa n.º 8 à área n.º 6, segundo os limites das suas linhas, cortando da casa n.º 8 o triângulo a b c para ficar mais larga aquela servidão, e o triângulo a b c – 365, que tirados da quantia a tinta ficam líquidos 2 567,8”.

Na planta de José Francisco de Paiva (anterior a 1824), o largo de S. Domingos é remodelado com uma pequena inflexão na ligação da rua de S. João com a rua das Flores e com a abertura de dois arruamentos a nascente. Um que se dirige para a praça de S. Roque ( correspondente a um troço da futura Mouzinho da Silveira) e outra ligando o largo com a Sé.

se24azul

Nesta planta de Joaquim Costa Lima de 1835, (in Porto Antigo http://www.portoantigo.org/) está apontado o Projecto da Ex.ma Camara para a abertura da rua Ferreira Borges, até ao prolongamento da rua das Flores, decorrentes da instalação da Associação Comercial no convento de S. Francisco, e do Banco de Lisboa (filial do Banco de Portugal) no Convento de S. Domingos.fl18

Desenho de Joaquim da Costa Sampaio Lima (1835)

Para além da referência a um Projecto do Exmo Brigad.ro Paulet é de notar a referência ao Antigo projecto de prolongar a rua de S. João até à fachada da igreja da Misericórdia, e da rua das Flores até à (futura) rua Ferreira Borges. De notar a igreja de S. Crispim, (que veremos mais adiante) e o chafariz do Largo de S. Domingos.

Desenho de Joaquim da Costa Sampaio Lima (1835)

Na planta de 1839, elaborada por Joaquim da Costa Lima Júnior (1806-1864) persiste o plano de Whitehead.fl114

O chafariz de S. Domingos

Arnaldo Gama em Um Motim à cem anos, o romance em que descreve a revolta dos taberneiros contra a Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto-Douro, também denominada Real Companhia Velha, e que provocou a vinda para o Porto de João de Almada, refere o largo de S. Domingos, com o seu chafariz, o oratório e o murinho:  “O tropel rodeia o antigo chafariz, de que de certo se há-de lembrar, porque a camara, ainda há poucos anos, o fez desaparecer, substituindo-o pela fonte que construiu mais adiante ao voltar para a rua de Bellomonte, a piquenissima distancia do local onde havia o passadiço de pedra conhecido pelo murinho de S. Domingos, célebre nos annaes da bisca lambida e dos gallegos e vadios do Porto, Havia também ahi um oratório ou passo, como se diz em língua devota.” (…) A camara mandou derruba-lo n’um dos primeiros mezes do anno (…) 1845. Esse chafariz era um dos muitos que havia no Porto, todos eles pertencentes, na maior parte, aos seculos XVI e XVII. N’essa época o chafariz era luxo, era considerado adorno das cidades. Nas praças e logares mais públicos era pobreza e miséria construir fontes. O Porto tinha oito públicos: o da Ribeira, o de S. Domingos, o das Taipas, o da porta do Olival, o da Fabrica, o da rua Chã, o de Santo Ildefonso, e o da Sé.”  (10)

(10) Arnaldo Gama Um Motim Ha Cem Annos, Chronica Portuense do Seculo XVIII, 2.ª Edição revista pelo author, Porto Typographia do Commercio, Ferraria de Baixo n. 108, 1865

O chafariz do Largo de S. Domingos  foi transferido em 1845 para o Largo do Laranjal e encontra-se junto à Igreja da Trindade. A Câmara mandou então erguer uma fonte, em S. Domingos, junto ao prédio de Manuel Francisco Araújo o fundador da Papelaria Araújo & Sobrinho, que ainda hoje ali existe.

fl24

Magalhães Bastos O Porto do Romantismo

Enfiando pela rua das Flores, ladeada de lojas de panos e ourivesarias, iremos dar a S. Domingos A rua das Flores vem ter a rua que deve o nome à velhíssima ponte nova, por onde se atravessa para a outra margem do infecto riacho de imun­dícies— o rio da vila, de que falámos. Do meio do largo de S. Domingos fora retirado recentemente o chafariz que ali ha­via, tendo a Câmara construído a fonte que até há não muitos anos existia nos baixos da casa da centenária papelaria Araújo & Sobrinho.

Obras importantes realizadas neste largo e na rua do mesmo nome tinham tornado mais suave o acesso às ruas de Belo-monte e das Flores, do lado da rua de S. João.

Entretanto com a construção do Palácio da Bolsa, no antigo convento de S. Francisco e com a a abertura da rua Ferreira Borges, “O convento que occupavam os religiosos domi­nicanos, foi em parte demolido, para se abrir a rua do Ferreira Borges, e outra parte alugada no 1.° de junho de 1834 á Caixa filial do Banco de Portugal.” (9)

(9) Artur de Magalhães Basto, O Porto do romantismo, Coimbra : Universidade, 1932

O edifício do Convento de S. Domingos teve em 1822 um primeiro projecto de adaptação para Alfândega.fl135"modelo para uma nova Alfândega 1822 "Planta n.º 6 Frente do Convento de S. Domingos" do Arquivo Histórico do Ministério das Obras Públicas AHMOP in catálogo da exposição  "Alfândega Nova - O Sítio e o Signo, Museu dos Transportes e Comunicações, 1995.

E foi depois ocupado pela Filial do Banco de Portugal, e posteriormente pela companhia de seguros Douro, e é actualmente o Palácio das Artes da Fundação da Juventude.fl20Joaquim Villanova Convento de S. Domingos (Hoje Caixa Filial do Banco de Portugal)

Um outro chafariz que possivelmente se encontrava no claustro do Convento de São Domingos foi transferido para o Jardim de São Lázaro.

fl107     fl90

O Largo de S. Domingos na planta de 1892Imagem4 cópia

3 - O Hospital e capela de S. Crispim

Na gravura de Teodoro de Sousa Maldonado com o N.º 30 Hospital de S. Crispim.fl21

E no texto de Rebello da Costa “Segue-se a Irmandade de S. Crispim pertencente aos Çapateiros;…”

O Hospital de S. Crispim, dos Palmeiros ou dos Sapateiros, foi doado em 1307, “…por documento tabeliónico lavrado no alpendre do Mosteiro de S. Domingos, onde costumavam reunir-se os sapateiros da Confraria e em cuja igreja deviam sufragar as almas dos fundadores, seus pais e irmão” e destinava-se aos “muytos pobres Romeyros que vão, e vem para o Senhor San Tiago, e se em elle colhem, e podem colher ao diante” segundo um documento do Arquivo Nacional da Torre do Tombo referido por Geraldo J. A. Coelho Dias. (11)

(11) Geraldo J. A. Coelho Dias “A Irmandade de S. Crispim e S. Crispiniano: uma relíquia da Idade Média no Porto moderno”, in Estudos em homenagem ao Professor Doutor José Marques, vol. 2, Faculdade de Letras da Universidade do Porto, 2006.

E “…que a louvor de Deos e da Virgem Maria Sua Madre e do glorioso São Domingos, pelas custas e despesas proprias e seu próprio haver, e trabalhos de seus corpos, grandes fizerão e edeficarão na sua herdade da Ponte de São Domingos, hum hospital em o dito logo, e hora hedeficado, e assentado, em o qual edeficamento, e acabamento deste hospital despenderão muyto do seu haver, e considerando como desse hospital recresce e recrescerá de cada dia muyto serviço a Deos, por muytos pobres Romeyros, que vão, e vem para o Senhor San Tiago, e se em elle se colhem, e podem colher ao diante...” (12)

(12)Maria Helena Mendes da Rocha Oliveira “A Confraria de S. Crispim e S. Crispiniano e o seu Hospital na Idade Média” Dissertação de Mestrado apresentada na Faculdade de Letras da Universidade do Porto 2001

Ficava na Rua da Ponte de S. Domingos "hindo do Convento de S. Domingos para bayxo fazendo fronte por hum lado a rua das Congostas".Desenho de Joaquim da Costa Sampaio Lima (1835)

A benção fez-se a 16/X/1795 e o Provedor do Porto, em 13/X/1795, homologando um alvará da Rainha Dª Maria I, honorificava a instituição como “Real Irmandade”, modificando-lhe o brasão, que passava a ser encimado pela coroa real e com as armas de Portugal.

Sousa Reis descreve a igreja, dizendo que o todo “se torna digníssimo de estima geral desta Cidade, que neste templo possue uma peça de muito merecimento” e “foi lá que se guardou, desde 1821 até ser depositada no Museu de Arte Sacra do Seminário Maior, a célebre imagem de Santa Ana, que o tripeiro Almeida Garrett imortalizou no “Arco de Sant´Ana”. (13)

(13) Sousa Reis -  Apontamentos para a verdadeira história antiga e moderna da Cidade do Porto,I Volume, Porto, Biblioteca Pública Municipal do Porto, 1984 (citado por Geraldo J. A. Coelho Dias)fl22Joaquim Villanova Capella de S. Crispim

Em 1872, com a abertura da rua de Mouzinho da Silveira é desmantelado e reconstruído num terreno ao cimo da Rua de S. Jerónimo (Santos Pousada) em frente do jardim da Póvoa de Cima (Praça Rainha D.ª Amélia), sendo a igreja consagrada em 1878. (14)

(14 )cf. Arnaldo Sousa Melo, Henrique Dias, Maria João Oliveira e Silva Palmeiros e Sapateiros – A Confraria de S. Crispim e S. Crispiniano do Porto (séculos XIV a XVI) Editora Fio da Palavra, Colecção Fio do Norte, 2008.

CONTINUA

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

breve resposta a um pedido de Portojo


O edifício DKV, de 1950 de Arménio Losa e Cassiano Barbosa é o último edifício do lado esquerdo da rua Sá da Bandeira (quem sobe) em frente à capela de Fradelos.167763957_5d77fe037a_o170792949_4b742524b4_o
O edifício em frente, do outro lado da rua (onde se situa a Cunha) é o edifício EMPORIUM, do arquitecto Arthur Almeida Júnior de 1939, como se refere neste blogue em “Os Planos para o Porto – dos Almadas aos nossos dias 7 V”.
P2150291ab4foto dos anos 90

terça-feira, 27 de novembro de 2012

BARROQUISMOS VII (12)

 

O Porto do século XVIII a partir da gravura de Teodoro de Sousa Maldonado. A zona ribeirinha.

Continuação do n.º 2 – Um segundo plano continua por toda a Rua Nova de S. Nicolaonic1

Ou seja correspondente à ampla rua, inicialmente rua Nova, no século XVIII de S. Nicolau, depois dos Ingleses e actualmente do Infante D. Henrique, que aberta por D. João I, ainda constitui nesta época, a principal rua (quase uma praça) da cidade.

Estão assinalados na gravura: o convento e a O.T. de S. Francisco (n.os 13 e 14), a igreja de S. Nicolau (n.º18), a Alfândega (n.º 28) e a Casa Antiga da Moeda (n.º22).

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56 Tr.de S. João  57 R. da Alfândega

Do conjunto de São Francisco, fazem parte o Convento e a Igreja de S. Francisco, que já tratamos, a Igreja da Ordem Terceira de S. Francisco, a Casa do Despacho e  o Hospital.

Igreja da Venerável Ordem Terceira de São Francisco (13)

A igreja da Ordem Terceira de S. Francisco começou por ser no século XVII uma capela dos claustros do convento.

Segundo Ricardo Pinto de Mattos (1839?-1882) na Memoria Historica e Descriptiva da Ordem Terceira de S. Francisco no Porto… (*) de 1880 “…a Ordem Terceira de S. Fran­cisco, no Porto, teve principio no anno de 1633, n'uma cappella dos claustros do convento de S. Francisco, e ahi edificaram os terceiros capella pró­pria sua em 1657, como consta d’um documento da Ordem, apesar de já em 1646 terem edificado outra capella independente fora dos claustros dos religiosos, no mesmo sitio, onde agora teem a sua magestosa egreja.

Em 1676 foi esta capella dos terceiros reedi­ficada, e accrescentada a capella mor em 1711.

E não era ella já tão pequena, pois que alem do altar mor, tinha quatro collateraes, sendo um de N. Senhora da Conceição, outro de santa Anna, outro de santa Izabel, e outro de santo António. O da Senhora da Conceição e o de santa Anna tinham con­frarias. “ (*)

(Para conhecer a história da igreja da Ordem Terceira de S. Francisco consultar Joaquim Jaime B. Ferreira Alves – Elementos para o estudo da arquitectura das duas primeiras capelas da Venerável Ordem Tercira de São Francisco do Porto, Revista da Faculdade de Letras Ciências e Técnicas do Património, I Série vol.II Porto, 2003)

Esta capela aparece já representada na gravura de Duncalf  que Jaime Ferreira Alves descreve do seguinte modo: “…apresenta-nos o lado poente do corpo e a fachada da capela, vendo-se ainda as estruturas que correspondiam à sacristia, casa do despacho e hospital.
A capela-mor, de menor altura em relação à nave não está visível. A estrutura quadrangular da nave, ladeada por pilastras de canto rematadas por pináculos, é rasgada, no lado poente, por cima do telhado da sacristia, por uma janela. Na fachada vê-se uma portada, duas janelas e na empena, rematada por uma cruz, a mancha negra que se vê na imagem poderá ser interpretada como um óculo.
(**)nic21OPORTO. H. Duncalf delin. H. Toms sculp. Publish'd According to Act o f Parliament Augt. 3. 1736 Água-forte colorida 38 x 61 cm. Tem uma fita superior com O PORTO e uma legenda com dez números em Português e Inglês dos principais edifícios.CMPnic4aDetalhe da gravura de Duncalf

Também na gravura de Teodoro de Sousa Maldonado que acompanha a Descripção Topographica e Historica da Cidade do Porto Que contém a sua origem, situaçaõ, e antiguidades: a magnificencia dos seus templos, mosteiros, hospitaes, ruas, praças, edificios, e fontes..., de Agostinho Rebello da Costa e que serve de base a este percurso pelo Porto do século XVIII, a capela está representada com o n.º13 e na legenda como Terceiros Francisc.osnic22nic12

Rebello da Costa refere na sua Descripção: “A primeira, he a Capella da V. Ordem Terceira de S. Francisco em que há huma bellissima Caza de Consistorio, hum sumptuoso Hospital, aonde se tractaõ com exemplar Caridade, e decência os Irmaõs enfermos;e independente deste huma grande enfermaria em que habitaõ continuamente vinte e seis Irmaõs entrevados. Tem esta Capella Lausperenne em todas as quartas feiras do anno.”

E a capela aparece ainda representada na gravura de Manoel Marques de Aguilar

nic25Vista da Cidade do Porto, desde a Torre da Marca athe as Fontainhas, tomada da parte de Filia Nova do sítio chamado Choupello. Dedicada Ao Ulmo. e Exmo. Senhor JOZE DE SE ABRA DA SILVA, Ministro e Secretario de Estado de Sua MAGESTADE FIDELÍSSIMA da Repartição dos Negócios do Reyno. Por Manoel Marques de Aguilar, Alumno das Aulas Regias, Náutica, e Dezenho, estabelecidas na dita Cidade.  Aguilar Delin e Esculp no Anno de 1791 e da por Completos os Edifícios dos Números seguintes No. 11. 28. 29. 34.

nic24Jaime Ferreira Alves:

“Na fachada, rematada por uma empena onde se abre um óculo circular, rasgam-se três vãos (portada e duas janelas de ombreiras e lintel lisos). A portada, enquadrada lateralmente
por grandes aletas, (…) forma com o nicho que a sobrepuja e as armas da Venerável Ordem Terceira de São Francisco que coroa o nicho, um eixo que acentua a verticalidade do frontispício. No nicho, com o mesmo tipo de decoração lateral apontada na gravura de Aguilar, estava colocada a imagem de pedra da Rainha Santa Isabel (1689-1690)…”
(**)


(**) Joaquim Jaime B. Ferreira Alves – Elementos para o estudo da arquitectura das duas primeiras capelas da Venerável Ordem Tercira de São Francisco do Porto, Revista da Faculdade de Letras Ciências e Técnicas do Património, I Série vol.II Porto, 2003)

Pinto de Mattos aponta de seguida a reformulação da capela, que adquire então o aspecto actual: “ Obtido o terreno, encommendou a Ordem a planta e risco da egreja a Damião Pereira d'Azevedo, afamado architecto, e este a apresentou, mas não serviu, e pediu pelo seu trabalho cem moedas de ouro. Foi encommendada nova planta a outro ar­chitecto, por nome Theodoro (***) , que a não chegou a concluir. Foi finalmente incumbido de a apresentar o architecto, António Pinto de Miranda, bem como a da sacristia e tribuna da capella mor; foi o risco d'este architecto o que se executou, pelo que levou 144:000 réis.

(***) Teodoro de Sousa Maldonado

O entalhador Manoel Moreira da Silva, foi quem executou o risco da tribuna, retábulo e sacrário, ordem corinthia e composita(*)

N'este mesmo dia resolveu a Ordem em Meza, proceder á reedificação a fundamentis do corpo da egreja, e tendo já carreiro para sepultura de seus irmãos Ministros, n'este mesmo anno de 1795, deliberou em Meza, mandar fazer o cemité­rio subterrâneo sob o pavimento da nova egreja. Foram então consultados para se começar esta obra importante, não só o architecto da Ordem, António Pinto de Miranda, mas tambem o architecto italiano, Vicente Mazzoneschi, que a esse tempo se achava construindo o theatro de S. João, d'esta cidade. (*)

A 16 de Maio de 1798, foi resolvido mandar fazer o vazamento no corpo da egreja, para o ce­mitério subterrâneo, obra administrada por João Salgado d’Almeida, e ao mesmo tempo se deu prin­cipio ao pateo da egreja, obra feita de empreitada por José Corrêa, bem como o arco, que tudo termi­nou em 1803.”(*)

nic17Joaquim Cardoso Villanova Egreja dos Terceiros Franciscanos 1833

A fachada da igreja, tal como hoje se apresenta, pertence já ao ciclo da arquitectura neoclássica da transição do século XVIII para o XIX. Por isso não é referida por Agostinho Rebello da Costa, mas Pinto de Mattos descreve-a do seguinte modo:

O frontispício d’esta egreja é de architectura moderna e elegante, de muito trabalho e muito dispêndio, mas afasta-se bastante do uso seguido no nosso paiz em edifícios d'este género. Ainda assim pena é não estar em sitio mais alto e desa­frontado, para melhor se poder gosar. É adornado de oito boas columnas, quatro doricas, e quatro jónicas, do mais fino granito que ha nos subúrbios d’esta cidade, bem como toda a mais obra da egre­ja.(*)

De facto a fachada sul está dividida em dois andares, divididos em três tramos, sendo que o inferior apresenta quatro colunas dóricas e o superior quatro colunas jónicas.

nic17bAinda Pinto de Mattos: “…coroam o edifício as estatuas das três virtudes theologaes, Fé, Esperança e Caridade. No centro do frontão aber­to, estão as armas da Ordem.”(*)

Ou seja, remata a fachada um frontão triangular de tímpano quebrado, tendo ao centro as armas da Ordem com coroa real.

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Sobre o frontão, ao centro a escultura da Fé e nas extremidades do ático as imagens da Esperança e Caridade

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Fotos SIPA/IHRU

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“Os vãos das quatro primeiras columnas aos lados da porta principal são occupados pelas esta­tuas da Penitencia e da Humildade,…”(*)

nic17d

Segundo Pinto de Mattos foi

“Manoel Joaquim Alves de Sousa Alão (quem) modelou a estatua da Humildade em 26 de julho de 1799, por 9:600 réis, e Bernardo Moreira executou-a por 96:000 réis.

E foi, também “Manoel Joaquim Alves de Sousa Alão (quem) modelou a estatua da Penitencia, e João José Bra­ga, insigne estatuário em barro, d'esta cidade, (quem) mo­delou as estatuas da Fé, Esperança e Caridade, e foram executadas por Bernardo Moreira, artista no­tável em trabalhos em pedra.(*)

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A PenitênciaOLYMPUS DIGITAL CAMERAPinto de Mattos refere ainda que: “…Por cima da porta está esculpida na pedra es­ta inscripção: Pavete ad sanctuarium meum. Ego Dominus. Em portuguez diz: Tremei diante do meu sanctuario. Eu sou o Senhor. Lev. XXVI, 2.(*)OLYMPUS DIGITAL CAMERA

(*) Memoria Historica e Descriptiva da Ordem Terceira de S. Francisco no Porto
com as vidas dos Santos cujas imagens costumam ser conduzidas na sua Procissão de Cinza.
Ordenada por R. Pinto Mattos Porto Livraria Portuense 121 rua do Almada 123 Typographia Occidental, 1880

O conjunto de S. Francisco nos meados do século XIX

Com a realização da Exposição Universal no Palácio de Cristal em 1865, surgem algumas publicações destinadas aos estrangeiros que nessa ocasião visitaram a cidade. Entre elas o Elucidário do Viajante no Porto de Francisco Ferreira Barbosa, onde o autor refere a:

Egreja dos Frades Franciscanos.

“…apresenta um frontispício magestoso e digno de attencão, offerecendo no seu exterior um contraste sensível com o da egreja, de que acima fizemos menção (a igreja de S. Francisco). O seu interior, construído no gosto moderno, apresenta um notável trabalho em madeira e estuques, notando-se o mesmo na cappella-mor e sa­cristia : o corpo da egreja tem quatro altares, collocados dois de cada lado. Tem Lausperene ás quartas feiras. Foi esta egreja edificada no anno de 1634.” (Elucidário do Viajante no Porto de Francisco Ferreira Barbosa, Coimbra Imprensa da Universidade 1864)

E no Guia Histórico do Viajante no Porto e Arrabaldes de Francisco Gomes da Fonseca, também de 1864, o autor escreve:

Capella de S. Francisco. “… E' elegante e d’architectura moderna. Está conservada com muito aceio, e tem quadros de Vieira Portuense. E' mui digno d’attenção o amplo e famoso cemitério subterrâneo, sem igual em Portugal; é todo d'abobada e semelha essas catacumbas que tanto se admira­ram em Roma.” (GUIA HISTÓRICO do VIAJANTE NO PORTO e ARRABALDES, F.G.F. EDITOR, PORTO NA LIVRARIA E TYPOGRAPHIA DE F. G. DA FONSECA – 72 Rua DO BOMJARDIM, 72 NAS LIVRARIAS DA VIUVA MORÉ Porto e Coimbra. NA DE J. P. M. LAVADO Rua Augusta n.° 31. — Lisboa 1864)

nic15Francisco Rocchini (?) – Igreja de S. Francisco 1849-1873 papel albuminado, pb : 40,4 x 31,6 cm Album pittoresco e artistico de Portugal. colecção Thereza Christina Maria - Biblioteca Nacional (Brasil)PORTOw_Panorama - CópiaAutor não identificado  Panorâmica do Porto depois de 1865 (originais em vidro do Museu Nacional de Soares dos Reis Porto) cópia cedida por gentileza do arquitecto Manuel Magalhãesnic30Detalhe da panorâmica do Porto, com o conjunto de S.Francisco e a abertura da rua Nova da Alfândega

No catálogo (ver adiante) A Alfândega do Porto e o Despacho Aduaneiro, refere-se com o nº 287 um pormenor de uma fotografia atribuída ao Arquivo da Casa Alvão existente no A.H.M.P., de que se reproduz o conjunto de S. Francisco. A tratar-se da mesma fotografia (o que aliás tudo leva a crer) a datação de c. de 1861 não é rigorosa já que o Palácio de Cristal já está construído.nic35

O cemitério subterrâneo

Pinto de Mattos refere que a Ordem “… proceder á reedificação a fundamentis do corpo da egreja, e tendo já carreiro para sepultura de seus irmãos Ministros, n'este mesmo anno de 1795, deliberou em Meza, mandar fazer o cemité­rio subterrâneo sob o pavimento da nova egreja. Foram então consultados para se começar esta obra importante, não só o architecto da Ordem, António Pinto de Miranda, mas tambem o architecto italiano, Vicente Mazzoneschi (***), que a esse tempo se achava construindo o theatro de S. João, d'esta cidade.” (*)

(***) Vincenzo Mazzoneschi

“A 16 de Maio de 1798, foi resolvido mandar fazer o vazamento no corpo da egreja, para o ce­mitério subterrâneo, obra administrada por João Salgado d’Almeida, e ao mesmo tempo se deu prin­cipio ao pateo da egreja, obra feita de empreitada por José Corrêa, bem como o arco, que tudo termi­nou em 1803.”(*)

SIPAImage6

“Este magnifico cemitério subterrâneo, á imita­ção das catacumbas de Roma, com cinco altares e que occupa toda a extensão e dependências da egre­ja e o pateo até á rua, por onde tem duas entradas e outra por baixo das escadas da casa da secretaria, admirado por nacionaes e estrangeiros, é o melhor que n^este género se conhece no nosso paiz.

Como aqui cessaram os enterramentos desde 1866, a Ordem em 1870, adquiriu terreno em Agramonte, contíguo ao cemitério municipal e ao da Trindade, para seu cemitério privativo, onde desde essa época sepulta seus irmãos terceiros, e lá mesmo tem uma linda capella.”(*)

SIPAImage6a

fotos SIPA/IHRU

O interior

otsf4A igreja tem uma única nave dividida em seis tramos e a capela-mor dividida em três tramos.

Pinto de Mattos assinala: “Os quatro altares collateraes do corpo da egreja, obra de muito ornato bem executado e gosto novo em obras d'este género, foram feitos por Luiz Chiari, bem como o da sacristia, e os três da capella de santo António, hoje da Senhora das Do­res.

Tanto o altar da sacristia como o da Senhora das Dores, são adornados de columnas da ordem composita, e o de santo António e o que lhe fica defronte são do mesmo género de architectura, que os lateraes do corpo da egreja.”

E de seguida refere as pinturas encomendadas a Vieira Portuense:

“Em 8 de maio de 1799 tratou a Ordem com Domingos Francisco Vieira, pintor n'esta cidade, de incumbir a seu filho Francisco Vieira, então resi­dente em Londres, de fazer quatro pinturas para os quatro altares collateraes da nova egreja, a sa­ber: N. Senhora da Conceição, santa Izabel, rai­nha de Portugal, S. Luiz, rei de França, e santa Margarida de Cortona, sendo-lhe estipulado o pre­ço de onze moedas de ouro, por cada quadro; tudo 211:200 réis, com a condição de que seriam pos­tos aqui á custa do pintor, dentro em nove mezes. E com effeito os quadros appareceram collocados nos altares a que eram destinados, no dia de Pen­tecostes de 1800, depois deterem sido retocados, logo que chegaram de Inglaterra, diz o assento), por se terem damnificado alguma cousa em viagem, pelo qual retoque pagou a Ordem 96:000 réis.”

O quadro A morte de Santa Margarida de Cortona encontra-se hoje na Casa do Despacho

nic36Detalhe de foto SIPA/IHRU

Na Biblioteca Nacional existe uma gravura reproduzindo o quadro de Vieira Portuense.nic32

Vieira Portuense (1765-1805) Santa Margarida de Cortona, gravura de Guilherme António Correia (1829-1901) 51 x 28,5 cm Lith. de Lopes & Bastos Lisboa 1850 http://purl.pt/6990 BND. Na legenda S.ta Margarida de Cortona / O quadro original existe na Capella dos Terceiros de S. Francisco do Porto/ Ao Ill.mo Snr. Joaquim Torquato Alvares Ribeiro/ Dedica G. A. Correia

(Joaquim Torquato Álvares Ribeiro(1803-1868) matemático, foi professor da Academia Politécnica do Porto)

Existe ainda um outro quadro semelhante, provavelmente um estudo, no Museu Nacional de Arte Antiganic33Francisco Vieira [Vieira Portuense]Morte de Santa Margarida de Cortona (1799) Óleo sobre tela 35 x 23 cm Museu Nacional de Arte Antiga

No terceiro tramo da igreja, um retábulo de talha branca e dourada de invocação a São Luís Rei de França do lado da Epístola e a Santa Margarida Cortona do lado do Evangelho.otsf6Retábulo lateral de São Luís de França, Foto 1962/64 de Robert Chester Smith (1912-1975) Biblioteca da Fundação Calouste Gulbenkian

No quinto tramo, um outro retábulo em talha branca e dourada de invocação a Santa Isabel do lado da Epístola e a Nossa Senhora da Conceição do lado do Evangelho.

Adossada do lado do Evangelho e com acesso pelas portas laterais da nave, a Capela de Nossa Senhora das Dores.otsf5fotos SIPA/IHRU

A igreja tem um órgão de tubos com caixa em talha branca e dourada, a que se refere Pinto de Mattos:

“Em 20 de novembro de 1799, mandou a Or­dem fazer o novo órgão, que é um dos bons cres­ta cidade, ao organeiro Manoel de Sá Couto, do logar da Ponte, freguezia de santa Marinha de Lou-sada, do Couto de Landim, arcebispado de Braga, pela quantia de 740:000 reis, e o órgão velho.

O risco d'este órgão foi feito pelo architecto da Ordem.”

otsf6aFoto Robert Smith Biblioteca da Fundação Calouste Gulbenkian

otsf6bFoto SIPA/IHRU

No Guia de Portugal coordenado por José Augusto Santana Dionísio (1902-1991) e publicado pela F.C.G. a igreja é assim descrita:

Ao lado, voltado ao sul, está outro templo. É a Igr. da Ordem Terceira de S. Francisco (mon. nac.), templo de estilo neoclássico (dos fins do séc. XVIII) de mediano vulto, mas muito simples e harmónico. Risco do Arq. Pinto de Miranda. A construção começou em 1792 e concluiu-se em 1805. Foi erguida, pois, como tantas outras obras perdu­ráveis, dentro da gerência catalizante do desembargador Francisco de Almada. As esculturas que adornam a fachada são atribuídas ao escultor portuense João Joaquim Alão. A fachada, embrechada entre o edifício da Bolsa e a casa da confraria (castiço tipo de moradia portuguesa do séc. XVIII) tem patente beleza. Toda a construção é de granito, de grão fino. O pórtico, rectangular, é flanqueado por quatro colunas, intercaladas por duas imagens de escultura (figurando a Inocência e a Humildade), de gosto italiano. No segundo piso, outra colunata simétrica, de ordem jónica. Ao alto, um frontão quebrado, sobrepujado por três figuras esbeltas, mas amaneiradas, simbolizando a Fé, a Esperança e a Caridade. No conjunto, o alçado é de rara elegância e equilíbrio.

O interior não é menos esmerado, na estrutura como na decoração. Nave mesurada e exacta, bem iluminada e concebida, de inspiração renascentista. São de notar as pilastras jónicas e o bem ritmado entablamento, denticulado, em que assenta a abóbada. Os estuques são do italiano Luigi Chiari. Retábulo do altar-mor, de madeira, de J. Tei­xeira Barreto, artista portuense e antigo ingresso de Tibães. Como obra de pintura estimável, a Ordem possui qua­tro interessantes painéis de Vieira Portuense (1765-1805): S. Luís, rei de França, N.a S.z da Conceição,  Últimos momentos de Sta. Margarida e Sta. Isabel. O terceiro, que é o mais notável, guarda-se na sala das sessões da Confraria. Os outros estão na igreja, mas encontram-se, em regra, ocul­tos, nos altares laterais. Só nos dias de grandes festividades são alçados. Sob o templo, ampla cripta.

Casa do Despacho da Venerável Ordem Terceira de São Francisco

No lado poente deste pátio ergue-se a Casa do Despacho, construída entre 1746 e 1752, antes da reformulação da igreja, segundo projecto de Nicolau Nasoni, e por isso com uma expressão barroca.nic3a

No Guia de Portugal acima citado refere-se: “Ao lado da igreja está a sede da Confraria (edifício castiço e típico do séc. XVIII), com uma boa e velha sala de sessões, de tecto apainelado e um pequeno museu de arte sacra (ab. das 10 às 17 h), com algumas imagens reli­giosas de escultura, uma custódia de prata dourada, numerosas vitrines com paramentos e peças litúrgicas. Nas paredes, vários retratos a óleo, incluindo alguns de Roquemont, (Auguste Roquemont 1804-1852) além do apontado e belo quadro de Vieira Portuense (Francisco Vieira 1765-1805) .

Na escadaria e na antecâmara da sala das sessões há ainda algumas dezenas de retratos de mesários, na sua maio­ria comuns, mas alguns muito dignos de estudo.”

Na porta destaca-se o brasão da ordem. OLYMPUS DIGITAL CAMERA

Igreja de S. Nicolau (18)

Igreja de S. Nicolau N.º 18 na gravura nic2a

nic12aAgostinho rebello As outras Igrejas notaveis saõ as das Parochias, principalmente a de S. Nicolau, que alem de ses sgrada, he a mais rica de todas, por causa do grande número de Commerciantes, que della saõ freguezes, e se disvellaõ em desempenhar as suas funçoens com a mais plausivel magnificencia: nella foi collocado no dia vinte e hum de Dezembro do anno de mil setecentos e oitenta e cinco o Corpo de S. Vicente Martyr, que mandou conduzir de Roma a sua custa, e com a maior popmpa, e despeza, Thomaz da Rocha Pinto (****), Cavalleiro professo na Ordem de Christo, e hum dos principaes Commerciantes desta Praça.

(****) Thomaz da Rocha Pinto, (1748-1815)

nic18Joaquim Cardoso Villanova  Egreja de S. Nicolau

Antes da igreja, existia desde 1247, uma ermida de S. Nicolau, que pertencia à Albergaria de Santa Catarina, instituição destinada ao tratamento dos leprosos na Reboleira. Em 1671 o bispo D. Nicolau Monteiro, manda edificar uma nova igreja, que será consagrada em 1676. Esta igreja é destruída por um incêndio em 1758 e no mesmo ano inicia-se a sua reconstrução segundo risco de Frei Manuel de Jesus Maria. A nova igreja é aberta ao culto em 1762. Os retábulos laterais elaborados entre 1762 e 1763, por José Teixeira Guimarães e Francisco Pereira Campanhã são dedicados a Santo Elói e a Nossa Senhora da Conceição. A fachada da igreja é em 1861 revestida a azulejo.

nic18b

A fachada principal apresenta dois pares de pilastras toscanas rematadas sobre a cornija por plintos onde assentam altos corochéus piramidais.

O portal é ladeado por dois pares de coluna e mísula coríntias sobre pedestais, que sustentam frontão triangular interrompido pela pedra de armas do bispo D. Frei António de Sousa. (Fonte Sipa/IHRU)nic18dSobre o portal, grande janelão moldurado com frontão curvo interrompido por nicho com a imagem do orago e frontão triangular com óculo oblongo.nic18cfoto SIPA/IHRUOLYMPUS DIGITAL CAMERAfoto RF

Nos meados do século XIX, a igreja é menosprezada na sua arquitectura, como no GUIA HISTÓRICO do VIAJANTE NO PORTO e ARRABALDES, que considera o edifício de pouco interesse descrevendo-o do seguinte modo: “ S. Nicoláo.—Na rua dos inglezes. E' antigo e d’architectura pouco elegante. Foi reedificada pelo bispo D. Nicolao Monteiro, que havia sido baptisado nesta parochia, e que regeu o bispado de 1671 a 1672. Abrasada por um incêndio, ha mais d'um sé­culo, foi outra vez reedificada pelo bispo d'esta dioce­se, D. Fr. António de Sousa, a cuja dignidade episco­pal fora elevado em 1756. Antes do incêndio possuía algumas obras d’arte; é uma das mais antigas parochias do Porto: data de 1583.”

Ou no Elucidário onde apenas tem uma pequena referência:

“Egreja de S. Nicolau Acha-se situada na rua d’este nome: notam-se nella algumas decorações admiraveis.”

O Interior

nic31Joseph James Forrester (1809-1861), George Childs (1826-1873) Richard James Lane (1800-1872) Igreja de S. Nicholao, Porto 1835  Church of St Nicholas, Oporto / J. J. Forrester del.t ; J. R. Lane direxit ; G. Childs lith.. - Oporto : J. J. Forrester ;. - London : J. Dickinson, 1835 gravura : litografia aguarelada, colorida 38 x 28 cm. BND Portugal http://purl.pt/6130

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Alfandega (28) e Casa da Moeda (29)

Não importa aqui fazer a história do edifício da Alfândega Velha (hoje Casa do Infante e Arquivo Histórico Municipal do Porto), remetendo-se para o artigo do professor da FAUP,  Rui Tavares Do Almazém Régio à Alfândega Nova: Evolução de um tipo de arquitectura portuária in AA.VV. A Alfândega do Porto e o Despacho Aduaneiro, catálogo da Exposição organizada pelo Arquivo Histórico Municipal do Porto, Casa do Infante Porto 1990

nic12bDetalhe da gravura de T. S. Maldonado onde estão assinaladas a Alfândega (28) e a Casa da Moeda (29)

Agostinho Rebello da Costa, na sua Descripção, e coerentemente com a sua promoção do Porto como cidade de comércio e negócios, dá uma particular importância à Alfândega, já que “…tudo quanto se embarca, ou desembarca, de sorte, que os Navios, por maiores que sejaõ se descarregaõ nellas as suas fazendas, para dali serem conduzidas ás cazas da Alfandega.”

Assim faz uma descrição do funcionamento da Alfândega:

XIII Descreve-se a Alfandega

As fazendas, que entraõ e shaem nestes Navios, despachaõ-se em huma Alfandega na qual assiste hum Juiz, que he juntamente Inspector da Marinha do Douro, e Administrador geral dos portos seccos das tres Provincias do Norte…”

E do seu edifício e localização:

“Esta Grande Caza da Alfandega, está situada no interior da Cidade, e immediata ao Rio Douro, aonde he a geral descarga dos Navios: a sua figura exterior he antiga, e sem gosto algum, porém o seu interior he extenso, bem que naõ muito accomodado, para conter em boa ordem as fazendas, quando o concurso he grande.”

Rebello da Costa faz então referência às obras do tempo de D. Pedro II:

“No anno de 1677, sendo Principe e Governador deste Reino El-Rei Pedro II., foi edificada no sitio em que hoje existe por direcçaõ do Marquez da Fronteira, Gentil-homem da Camara do mesmo Principe.”

E à Casa da Moeda:

“O chantre da sé d'Evora Manoel Severim de Faria diz que "a primeira Casa de Moeda que houve em Portugal foi no Porto onde os primeiros reis deste reino fizerão bater moeda mandando vir oficiaes do extrangeiro porque os não havia no reino,.”

Demonstrando o enorme incremento da actividade do porto do Douro, a partir dos anos 20 do século XIX, iniciam-se estudos para a construção de uma nova Alfândega, que se concretizarão – não sem polémica – a partir dos anos 60, na construção da Nova Alfândega, segundo o projecto do engenheiro Jean François G. Colson.

O Guia do Viajante 1864, refere a velha Alfândega como um “…edifício de exterior simples e desgracioso, foi levantado no anno de 1677, sob a direcção do marquez da Fronteira, fidalgo da casa do príncipe D. Pe­dro II, que então governava o Reino. Da antiga casa do Almazem, erecta por meado do século XIV, poucos vestígios existem. Ahi se hospedavam os nos­sos soberanos quando vinham ao Porto, e nasceu tam­bém o sábio e illustre Infante D. Henrique.”

E assinala a construção da Nova Alfândega: “Na praia de Miragaya está em construcção o edifício da Nova Alfândega, qual convém á segunda cidade do reino. Está situada na rua dos Inglezes.”

 

O Elucidário também publicado durante as obras da construção da Nova Alfândega, refere a polémica em torno da localização e do custo do edifício:

“Alfândega. Quem se dirigir á rua dos Inglezes en­contra 'num vasto, mas arruinado edifício, a alfândega, que pelas suas paredes velhas e privação de luz mais se assemelha a um cárcere:1 pedia pois a necessidade o o grande movimento commercial, um outro edifício mais próprio á nobre classe dos negociantes, e mais di­gno d'ésta cidade: estas considerações levaram o governo ao propósito da construcção de uma alfândega, prece­dendo o alvitre do corpo commercial, que opinou pela edificação na mesma rua com a expropriação das casas sitas na rua dos Banhos: esta opinião ajustava-se com a conveniência do local, com o aformoseamento d'ésta rua mui transitada e com menor dispêndio: o governo, desprezando todas estas considerações bem cabidas, e levado, ou por conselhos alheios (que revertem quasi sempre em beneficio do proponente) ou por parecer próprio, julgou mais acertado o local na alameda de Mi­ragaia, onde, por falta de base solida no terreno, se tom consumido e enterrado sommas enormes para uma boa collocaçao de alicerces, que excederam consideravelmente o custo das expropriações necessárias para a edificação da alfândega no sítio primitivamente escolhido pelo corpo commercial. Desconsiderou, pois, o governo a classe, não attendendo ao seu parecer, inutilisando um dos mais lindos passeios da margem do Douro.

A nova alfândega vae já muito adiantada, e a con­clusão d'ésta obra pelo menos revelará o fabuloso custo de centenares de contos de réis.

1 Em tempos remotos vinham hospedar-se os reis de Portu­gal nesta casa, e foi nella que nasceu o grande Infante D. Henrique

A Feitoria Inglesa

A Feitoria Inglesa, em construção na altura da publicação da Descripção  Historica  e Topographica, e pertencendo já ao período do “palladianismo” neo-clássico, é elogiada por Agostinho Rebello da Costa, em mais de três páginas, já que se trata do maior e mais requintado edifício civil existente na cidade, cumprindo as funções ligadas ao comércio  e à exportação, que Rebello da Costa pretende destacar como principal actividade da cidade do Porto.

Agostinho Rebello da Costa sobre a “…bellissima, e extença Caza da Feitoria Ingleza” refere que “…he bem digna de hum lugar distincto entre os Edifícios públicos da Cidadee que se principiou a “…edificar em o mez de Fevereiro de mil settecentos e oitenta e cinco, e trabalhando successivamente na sua construcção mais de cento e cincuenta pedreiros, carpinteiros, trabalhadores, cayadores, e outros officiaes, ainda agora, que tem passado mais de dous anos, está incompleta.”

E de seguida Rebello da Costa faz uma pormenorizada descrição do edifício, quer do seu exterior quer do seu interior incluindo a utilização de diversas salas.vila0067Joaquim Cardoso Villanova Feitoria Ingleza

“A sua grandeza he admiravel; porque faceando com as duas Ruas Novas de S. Joaõ e de S. Nicolau, tem da parte desta cento e dez palmos de comprido, e daquella cento e quarenta: a sua altura he de cem. Pela parte da Rua Nova de S. Joaõ eleva-se a cinco andares alem do subterraneo; o primeiro he aberto em nove portas largas e altas; o segundo em outras tantas janellas de peitoril: o terceiro em outras tantas rasgadas, e por cima com seus Romanos de differentes figuras ornando-se cada huma com sua espaçosa sacada cingida com grades de ferro lavrado á moderna: o quarto andar , que tem o mesmo numero de janellas he rematado por outro andar, que inclue as agoas furtadas, e ao redor dellas huma varanda de pedra lavrada toda descoberta, e faixeada da mesma pedra fina, que finaliza em huma formosa cornija igualmente lavrada.feitoria10

Da parte da Rua Nova de S. Nicolau tem no primeiro andar, que facea coma a Rua sette arcos de pedra, todos lavrados em Rusticos, e delles péga para a parte interior outra arcada da mesma pedra, por baixo da qual se forma hum passeio de quatorze palmos de largo, e cento e dez de comprido. Por cima dos arcos exteriores há huma cornija sobre que se forma o segundo andar com sette janellas de peitoril, e sobre este corre o terceiro com o mesmo número de janellas rasgadas. Finalmente o quarto andar he aberto em outras tantas janellas de peitoril. Tudo remata huma cornija, pela qual decorre outra varanda descoberta, repartida em balaustes com seus fustoens no meio, e por cima outra cornija em que finaliza todo o Edificio.

feitsruLevantamento SRU Porto Vivo

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feitoria6A porta principal compoem-se de seis columnas de ordem Toscana, e rematadas em doze barretes de pedra bem polida, e correspondente a esta grande faxada: daqui até o fim do portal formaõ-se mais tres lanços com hum pateo de 35 palmos de comprido, e de largo dez: os outros dous arcos, hum da parte Nascente, outro do Poente saõ os que correspondem ás escadas particulares, e que se dirigem aos quartos interiores e ultimos andares.feitoria

Estas escadas que todas saõ de pedraria, rodeaõ a caza toda, sustentando-se em si mesmas sem auxilio de columnas, bazes, ou pedestaes, e isto com uma architectura taõ particular que as faz unicas e singulares. Todas ellas tem balaustes de ferro, e formaõ no superior andar huma extensa varanda illustrada com huma clara-boia de 25. palmos de circumferencia, alem de outra, que dá luz para as escadas particulares.

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O interior de toda esta maquina consta de huma grande sala chamada do Café, e mais quatro cazas, que já se alugaraõ a duzentos mil reis cada huma; e por cima destas cazas há, outras quatro salas e quatro cozinhas pegadas.

feitoria9Há mais duas salas, cada huma de 30. palmos de comprido, e 25. de largo: outra de 60,  e 25: outra de 82, e 41: outra de 72, e 25: outra de 64, e 26: outra de 60, e 25: duas de 25. em quadra: huma de 26. igualmente em quadra: outra de 26., e 23.: outra de 20. em quadra: huma dispensa de 28. em quadra: huma cozinha de 50., e 28.feitoria3feitoria1feitoria2Fotos em Restos de Colecção http://restosdecoleccao.blogspot.pt/

Todas estas salas occupaõ os tres andares acima do primeiro da rua, e para elles se vai pelas escadas que acima fallei.

Nas agoas furtadas pela parte da entrada, acha-se huma caza com 82. palmos de comprido, e 42. de largo, e nesta há tres portas com sahida para a varanda.

Da parte Nascente tem outra caza de 90. palmos de comprido, e de largo 26. com seu oculo para a Rua Nova de S. Joaõ, e duas portas para a varanda: mais outra caza de 72., e 26. com duas portas para a mesma varanda.Compoem-se esta famosa caza de todos os cómmodos precizos para Viajantes illustre de todas a s Naçoens, e com especialidade para os da Naçaõ Britanica à qual pertence inteiramente, destinando-a tambem para as suas Assembleas, e outros exercisios do seu caracter.

Nella há muitos quartos para mossos graves, e de libré, além de multiplicadas cavallariças, cocheiras &c. Tem agoa perenne para o seu serviço, e hum Vergél interior destinado para Jardim.

Em 1795, James Murphy (1760-1814) no seu livro Travels in Portugal, para além de uma gravura, também assinala a Feitoria Inglesa: “The annexed plate exibits a view of a building which is nearly completed, and intended principally for the use of the British factory. The groun-story is to be the Exchange; the next (over the mezzanine) the Ball-room, which is fifty-five feet long by thity broad, and as two tier of windows in the front. The whole is carried on from the designs of William Whitehead esq. the British consul.”nic20James Murphy (1760-1814) Travels in Portugal through The Provinces of Entre Douro e Minho, Beira, Estremadura, and Alem-Tejo. In the Years 1789 and 1790. Consisting of Observations or the Manners, Customs, Trade, Public Buildings, Arts, Antiquities &cc. of that Kingbom. By James Murphy, Architec. Illustrated with Plates. London Printed for A.Strahan, and T. Cadell Jun. and W. Davies (Successors to Mr. Cadell) in the Strand. 1795

Ao descrever a cidade do Porto por ocasião da Exposição Universal de 1865, a Feitoria é referida por  Francisco Ferreira Barbosa no seu Elucidario:

Feitoria Ingleza. É digno de minuciosa descripcao este edifício, onde os inglezes se reúnem frequentes ve­zes, e onde os nossos reis têm recebido provas de es­tima e de deferência pelos sumptuosos bailes, que alli têm dado. Teve esta casa principio no mez de fevereiro de 1785; a sua grandeza é admirável; porque, faceando com as ruas de S. João e dos Inglezes, tem da parte d'ésta 24,20 metros, e d'aquella 30,80 metros: a sua altura 22 metros.

Pela parte da rua de S. João eleva-se a cinco anda­res, alem do subterrâneo: o primeiro é aberto em nove portas largas e altas; o segundo em outras tantas janellas de peitoril; o terceiro em outras tantas espaçosas janellas de sacada, cingidas com grades de ferro lavrado á moderna; o quarto andar, que tem o mesmo número de janellas, é rematado por outro andar, que inclue as aguas furtadas, e ao redor d’ellas uma varanda de pe­dra lavrada, toda descoberta, e faixeada da mesma pe­dra fina, que finalisa em uma formosa cornija egualmente lavrada.

Da parle da rua dos Inglezes tem no primeiro andar, que faceia com a rua, septe arcos de pedra, todos lavra­dos, e d’ellas pega para a parte interior outra arcada da mesma pedra, por baixo da qual se forma um pas­seio de 3,80.metros de largo, e 24,20 metros de com­prido. Por cima dos arcos exteriores ha uma cornija, sobre que se forma o segundo andar com septe janellas de peitoril, e sobre este corre o terceiro com o mesmo número de janellas rasgadas. Finalmente, o quarto an­dar é aberto em outras tantas janellas de peitoril. Tudo remata uma cornija, pela qual decorre outra varanda descoberta, repartida em balaustres, com seus fustões no meio, e por cima outra cornija, em que finalisa todo o edifício. A porta principal compõe-se de seis columnas de ordem toscana, e rematadas em doze barretes de pedra bem polida e correspondente a esta grande fa­chada; d’aqui até o fim do portal formam-se mais três arcos de pedra: o do meio e o da escada principal, que se reparte em três lanços com. um pateo de 7,70 me­tros de comprido, e 2,20 metros de largo; os outros dois arcos, um do nascente, outro do poente, são os que correspondem ás escadas particulares, e que se di­rigem aos quartos interiores, e últimos andares. Estas escadas, que todas são de pedraria, rodeiam a casa toda, sustentando-se em si mesmas sem auxílio de co­lumnas, bases, ou pedestaes, e isto com uma architectura tão particular, que as faz únicas e singulares. Todas ellas tem balaustres de ferro, e formam no andar superior uma extensa varanda, illuminada com uma claraboia de 6 metros de circumferencia, alem d’outra, que dá luz para as escadas particulares.

O interior de toda esta grande máchina consta de muitas salas, gabinetes, quartos, etc. O custo total d'esta obra chegou a oitenta contos de réis.(Elucidário do Viajante no Porto de Francisco Ferreira Barbosa, Coimbra Imprensa da Universidade 1864)

Contrastando com esta extensa referência F. G.  da Fonseca no seu Guia do Viajante, apenas faz uma breve referência à Feitoria Ingleza. — Possue esta Associação um edi­fício de grandiosa construcção, que mandou levantar em 1785, na rua dos Inglezes, então de S. Nicoláo. Reunem-se ali os súbditos de S. M. B.; todos os annos dão um luzido baile, para o qual convidam mui­tas pessoas illustres do Porto. (GUIA HISTÓRICO do VIAJANTE NO PORTO e ARRABALDES, F.G.F. EDITOR, PORTO NA LIVRARIA E TYPOGRAPHIA DE F. G. DA FONSECA – 72 Rua DO BOMJARDIM, 72 NAS LIVRARIAS DA VIUVA MORÉ Porto e Coimbra. NA DE J. P. M. LAVADO Rua Augusta n.° 31. — Lisboa 1864)