“Uma cidade
de pedra e de água, de rumores
verticais, de ténues transparências,
que sede a surpreende inicial,
quem abraça no voo de um nascimento? (...)
Todas as superfícies oscilam à claridade do vento.”
António Ramos Rosa [1]
“Soy un pueblero y ya no sé de esas cosas,
soy
hombre de ciudad, de barrio, de calle:
los tranvías lejanos me ayudan la tristeza
con esa queja larga qué sueltan en las tardes.”
Jorge Luis Borges [2]
“Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
É como que um terraço
Sobre outra coisa ainda.”
Fernando Pessoa [3]
Nils af
Ström (1903-1971), Paisagem (Ribeira do Porto) 1952. óleo s/ tela 49 x 60
cm.Col. particular.
porque
revejo procuro nunca encontro
onde falece o pujante canto o meio-dia
pelas ruas praças e avenidas
da cidade
já não ecoam canções que então ouvia
erro e defeito eu nunca
soube corrigir
a pedra adormecida
em tempo agreste
caindo em mim nunca busco
discernir
em que espelho a melancolia se veste
estéril
vão segredo rachado pelo vento
lamentoso devaneio de alma
peregrina
ondulação
morta pelo caudal do tempo
longo rio de tristeza na distância perdida
ressoam ecos e fadiga na cor clandestina
serão como fragmentos acasos desta vida
[1] António
Ramos Rosa, A Cidade que Habito de No
calcanhar do vento (1987), in Obra Poética I. Assírio & Alvim- Porto
editora. Porto 2018. (pág. 1164).
[2] Jorge
Luis Borges (1899-1986), Dulcía Linquimus
Arva* in Obras completas. Emecê Editoras Buenos Aires 1974. (pág.68 e 69). *"abandonamos os nossos
doces campos". P. Virgilli Maronis (Virgílio) Égloga I, 3, de
Bucolica.
[3] Fernando Pessoa (1888-1935), Isto. In Obra Poética. Organização,
introdução e notas de Maria Aliete Galhoz (1929-2020). Companhia Aguilar
Editora Rio de Janeiro 1965. (pág.165).

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