quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Soneto à cidade onde nasci


“Uma cidade de pedra e de água, de rumores
verticais, de ténues transparências,
que sede a surpreende inicial,
quem abraça no voo de um nascimento? (...)

Todas as superfícies oscilam à claridade do vento.”

António Ramos Rosa [1]

“Soy un pueblero y ya no sé de esas cosas,

soy hombre de ciudad, de barrio, de calle:

los tranvías lejanos me ayudan la tristeza

con esa queja larga qué sueltan en las tardes.”

Jorge Luis Borges [2]

“Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
É como que um terraço
Sobre outra coisa ainda.” 

Fernando Pessoa [3]



Nils af Ström (1903-1971), Paisagem (Ribeira do Porto) 1952. óleo s/ tela 49 x 60 cm.Col. particular.

 

porque revejo procuro nunca encontro

onde falece o pujante canto o meio-dia

pelas ruas praças e avenidas da cidade

já não ecoam canções que então ouvia

 

erro e defeito eu nunca soube corrigir 

a pedra adormecida em tempo agreste

caindo em mim nunca busco discernir

em que espelho a melancolia se veste

 

estéril vão segredo rachado pelo vento

lamentoso devaneio de alma peregrina

ondulação morta pelo caudal do tempo

 

longo rio de tristeza na distância perdida

ressoam ecos e fadiga na cor clandestina

serão como fragmentos acasos desta vida

 

 



[1] António Ramos Rosa, A Cidade que Habito de No calcanhar do vento (1987), in Obra Poética I. Assírio & Alvim- Porto editora. Porto 2018. (pág. 1164).

[2] Jorge Luis Borges (1899-1986), Dulcía Linquimus Arva* in Obras completas. Emecê Editoras Buenos Aires 1974.  (pág.68 e 69). *"abandonamos os nossos doces campos". P. Virgilli Maronis (Virgílio) Égloga I, 3, de Bucolica.

[3] Fernando Pessoa (1888-1935), Isto. In Obra Poética. Organização, introdução e notas de Maria Aliete Galhoz (1929-2020). Companhia Aguilar Editora Rio de Janeiro 1965. (pág.165).

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