As infraestruturas urbanas
“Acaso
vemos o frio,
O
ar, a electricidade,
Ou
como obra nas sementes
O
calor e a humidade?
Vemos
acaso os agentes
D'um
e d'outro magnetismo
Do
movimento e da força
Vemos além do organismo?”
Anónimo 1855 [1]
Figura 1 – Postal. Pôrto – 25 – Rio Douro e Praça da Ribeira. Ed. PC.
Para além do edificado e do espaço público,
qualquer cidade se faz pelas suas necessárias, embora menos visíveis,
infraestruturas: fontes e redes de energia, de águas e saneamento, de
comunicações, de transporte e acessibilidades, etc..
1 A Energia
O ano de 26 situa-se a meio período que
corresponde ao final da I Grande Guerra e que se prolonga até às consequências
na Europa da grande crise económica de 29. Vivido pelos seus contemporâneos,
nas grandes cidade, como anos de uma certa euforia na procura da modernidade,
num período marcado pela "segunda
revolução industrial", ou seja o início do uso do petróleo e
da electricidade, os quais vão substituindo o carvão e o gás, tornando-se lentamente as principais fontes de
energia.
Inicia-se um período marcado pelo desenvolvimento da indústria química, metalúrgica e eléctrica, marcado pelo início da difusão do automóvel, do cinema e da rádio, e ainda pelo desenvolvimento da aviação. Há um crescimento da publicidade e do desenho industrial, encarados como fazendo parte do processo produtivo, aproveitando o desenvolvimento e difusão dos meios de comunicação quer sejam a imprensa ilustrada, a rádio ou o cinema.
Estas novidades provocam a transformação do quotidiano
dos habitantes da cidade. A noção de conforto e de consumo altera-se pelo menos
para as elites urbanas.
As fontes de Energia no Porto dos anos vinte
1.1 O carvão
“Enquanto o velho
mundo arfando de cansaço
prostrado cai na luta; em fumo negro e denso
levanta-se a espiral desse moderno incenso
que ofusca os deuses vãos, anuviando o espaço!”
Guilherme de Azevedo (1839-1882) [2]
O Porto é ainda, em 1926, uma cidade a carvão.
É ainda o carvão a principal fonte de energia, que faz movimentar as máquinas das indústrias e da ferrovia, e é o carvão que permite – para os que podem - o conforto doméstico, quer no aquecimento e na preparação de alimentos, quer no tratamento da roupa (o ferro de engomar a carvão).
Para essas múltiplas utilizações do carvão, não era suficiente a extracção nacional (escoado através do rio Douro nos rabões negros), mas tornava-se necessária uma considerável importação de carvão estrangeiro, o qual era uma das principais mercadorias, descarregada nas margens do Douro, no cais de Gaia e no Porto nos cais da Ribeira, da Alfândega, de Massarelos e do Ouro.
Figura 2 – Postal. Porto-caes d’Alfandega e aspecto do Rio
Douro. Ed. JO 104.
Figura 3 – Postal. Porto-
Caes das Pedras – Massarelos.
Figura 4 – A descarga de carvão no Cais do Ouro. Postal
Arnaldo Soares.
Essa importação de carvão era demasiado dispendiosa como
afirma Ezequiel de Campos em 1923: “compreende-se
a grandeza do tributo ao estrangeiro pelo carvão e pelo transporte marítimo, e
a grande importância de trabalho e de dinheiro que gastamos em Portugal para
movimentar permanentemente os recursos de força importados.” [3]
A descarga do carvão na Ribeira
“Descalças!
Nas descargas de carvão,
Desde
manhã à noite, a bordo das fragatas;
E apinham-se num bairro aonde miam gatas,
…”
Cesário Verde [4]
Figura 5 - Abel Salazar (1889-1946), "A Descarga do carvão" óleo s/madeira 213x153 cm. 40 x 64 cm. Col. particular.
Almada
Negreiros numa passagem pela Ribeira escreve em 1926, escreve sobre as mulheres
que se ocupavam das descargas no Porto e em Lisboa:
E' uma raça diferente da do mercado. Poucas vezes me foi dado compreender melhor o que
significam aquelas palavras: ganhar o pão de cada
dia, do que ao vêr essas mulheres que
iam e vinham sobre duas e compridas
pranchas de madeira lançadas
desde a borda
da fragata até ao caes, uma distancia parecida com uns dez metros. O equilíbrio
dessas
mulheres não tinha uma hesitação situado à altura de três homens da agua, e em menos de três palmos de largura durante os dez metros. Acrescente-se a isto que levavam à cabeça as
canastras, umas vezes vazias e outras
vezes cheias ati cima em pirâmide, conforme iam ou
vinham da fragata. Daquela vez, não
me lembro do que descarregavam; apetecia-me que
fossem laranjas, mas não insisto com a memoria, tenho, contudo, ainda na mente a maneira
rapida como davam conta
daquele serviço, conservando sempre um tempo ginastico, e não
digo militar, porque além dos gestos sóbrios e simplificados,
corrigidos para o próprio trabalho
repetido em que andavam, havia
também uma beleza de linhas e de formas à
qual não era extranha
a sua natureza feminina. O gesto de abaixarem-se para acertar a cabeça
ao
melo da canastra carregada, a marcha
sobre a prancha com o peso todo à cabeça, o modo
de despejar a canastra inclinando o
corpo de lado pela cintura, eram exactos e cheios
de
graça.
As alcochetanas que descarregam das fragatas o carvão inglês nos caes de Lisboa por este mesmo processo, não podem infelizmente serem-lhes comparadas, se não lhes falta a graça é outra, mas não dispõem das ossaturas opulentas das mulheres do norte e muito menos daquela dignidade externa a qual me surpreendeu em mulheres de pé descalço.” [5]
Figura 6 – Mulheres descarregando sal no cais. Foto Beleza/Mário Ferreira.
Se
Abel Salazar pintou as mulheres do Porto, Mário Eloy pinta em 1928 as mulheres
da Ribeira de Lisboa. Se em primeiro plano, uma varina com o menino pela mão
parece quase cair ao peso da canasta, repare-se em segundo plano duas varinas
(nuas!) transportando o carvão.
Figura 8 - A
descarga de carvão na Ribeira Foto 11 do
Álbum Porto Margens do Tempo. Texto
de Mário Cláudio e Fotos “Fotografia Beleza”.
Livraria Figueirinhas Porto /Lisboa 2001.
Havia ainda o carvão da “Empreza
Minas de Carvão de S. Pedro da Cova” cujo alvará data de 29 de Novembro de
1913, que era transportado por barco pelo rio Douro e pelo carro eléctrico, mas,
desde 1914 por um teleférico de S. Pedro da Cova em Gondomar até ao Monte
Aventino nas Antas com passagem e paragem em Rio Tinto.
Figura 9 – o teleférico da Empreza Minas de Carvão. São
Pedro da Cova Gondomar.
Figura 10 - Entrada
da Estação de Rio Tinto. O teleférico das minas de S. Pedro da Cova.
O carvão e o ferro de engomar
Pela indispensável utilização do ferro de engomar, a figura da Engomadeira (Repasseuse), na sua árdua tarefa, torna-se tema na literatura e na pintura.
Cesário Verde fala da “pobre engomadeira” de quem lamenta a sua condição.
“E estou melhor; passou-me a colera. E a visinha?
A pobre engommadeira ir-se-ha
deitar sem ceia?
Vejo-lhe luz no quarto.
Inda trabalha. É feia...”
Que mundo! Coitadinha!”
Cesário Verde [6]
“Ah o som de
abanar o ferro da engomadeira
À janela ao lado da minha infância debruçada!” Álvaro de Campos [7]
Figura 11 - Edgar Degas (1834-1917), La
Repasseuse c.1869. óleo s/tela 92,5 x 73,5 cm. Neue Pinakothek Munique.
A Engomadeira olha-nos de frente, a face pálida,
com um olhar cansado e seco, enquanto passa o ferro por um branco lençol de
linho (Quem poluiu, quem rasgou os
meus lençóis de linho…) [8]
estendido sobre a mesa.
A alvura do lençol estende-se a toda a composição, onde a blusa da engomadeira e as peças penduradas criam um ambiente, um cheiro a roupa recentemente lavada e repassada.
Como a actividade se mantém por longos anos, no século XX, o poeta francês Pierre Reverdy descreve poeticamente o árduo labor da engomadeira - com o ferro levantando nuvens de vapor da peça de linho - com a sua alma de resistente dobrando-se como depois de passado se dobra um lençol.
“Em outros tempos, as suas mãos deixavam
manchas rosadas no linho brilhante que ela passava a ferro. Mas na loja, onde o
fogão brilhava com um vermelho intenso, o seu sangue evaporou-se gradualmente.
Foi ficando cada vez mais branca, e no vapor ascendente, ela mal se distinguia
no meio das ondas cintilantes das rendas.
Os seus cabelos loiros flutuavam no ar em
caracóis como raios, e o ferro continuava a sua viagem, levantando do linho
nuvens — e em redor da mesa, a sua alma ainda resistente, a sua alma de
engomadeira, corria e se dobrava como o linho, cantarolando uma canção — sem
que ninguém a escutasse.” [9]
“Um dia a mãe comprou chapéu pra ir em pessôa pedir à dona da engomadoria que não deixásse a filha passar a ferro as ceroulas dos homens porque parecia mal a uma menina decente.”
Mais
tarde estudará e pintará, com o mesmo título, uma conhecida tela.
Figura 12 - José de Almada Negreiros (1893-1970), Estudo para A Engomadeira
[1938], grafite s/papel 32 x 22 cm. E «A
Engomadeira», 1938. Assinado / Datado. Óleo sobre tela. 50 x 40 cm.
Catálogo da Exposição “José de Almada Negreiros. uma maneira de ser moderno”. fevereiro-junho 2017. Museu Calouste Gulbenkian. (pág. 339).
No estudo e na pintura, para
além da posição esforçada, mas elegantemente contorcida da engomadeira.
Figura 13 – O Ferro de engomar no quadro de Almada e um
(ferrugento!) modelo a carvão do início do século XX.
CONTINUA
[1] Anónimo (Alexandre José da Silva de Almeida Garrett
1797-1847, irmão do conhecido João Baptista Almeida Garrett 1799-1854) In As Viagens a Leixões ou a troca das Nereidas. Canto XII. Typographia de Sebastião
José Pereira Porto 1855. (pág.280).
[2] Guilherme Avelino Chaves de Azevedo (1839-1882), Ó Máquinas febris in A Alma Nova, (1874). Iba Mendes Editor Digital. (pág. 26)
[3]
Ezequiel de Campos, A Crise Portuguesa –Subsídios para a Política de
Reorganização Nacional (1923) in Textos de Economia e Política Agrária e
Industrial. (1918-1944). Banco de Portugal Lisboa 1988. (pág.121).
[4] Cesário
Verde (1855-1886). O Sentimento de um Ocidental. In O Livro de Cesário Verde
1873-1886. Typographia Elzeviniana Lisboa 1887. Embora Cesário se refira a
Lisboa os seus versos, como descrições urbanas podem aplicar-se a muitas
cidades inclusive o Porto.
[5] José d’Almada Negreiros (1893-1970), Desgraçador. Primeiro esboço do terceiro capítulo do novo romance de José de Almada Negreiros “Nome de Guerra” in Contemporânea 3ª série. Nº3. Julho-Outubro 1926. (pág. 108 e 109).
[6]
Cesário Verde (1855-1886). Contrariedades.
in O Livro de Cesário Verde Typographia Elzeviniana Lisboa 1887. (pág. 24).
[7]
Álvaro
de Campos. (Fernando Pessoa), Livro de Versos (Edição crítica),
Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes. Editorial
Estampa, Lisboa 1993. (pág. 315)
[8] Camilo Pessanha (1867-1926), in Clepsidra (1920),
Imprensa Nacional-Casa da Moeda Lisboa 2014. (pág.63).
[9] Pierre
Reverdy (1889–1960) Poèmes en prose (1915) in Plupart du temps 1915-1922. NRF Gallimard coll. Poésie. Paris 1969. (pag.38)
« Autrefois ses mains
faisaient des taches roses sur le linge éclatant qu'elle repassait. Mais dans
la boutique où le poêle est trop rouge son sang s'est peu à peu évaporé. Elle
devient de plus en plus blanche et dans la vapeur qui monte on la distingue à
peine au milieu des vagues luisantes des dentelles.
Ses cheveux blonds flottent
dans l'air en boucles de rayons et le fer continue sa route en soulevant du
linge des nuages — et autour de la table son âme qui résiste encore, son âme de
repasseuse court et plie comme le linge en fredonnant une chanson -- sans que personne y prenne garde. »












