sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Poema do arquitecto 16

 

Vãos e Janelas 1

 


Robert Delaunay (1885-1941), Les Fenêtres simultanées sur la ville. 1re partie, 2e motif, 1912. Óleo s/tela 40 x 46 cm. Hamburg Kunsthalle

“tudo assim me é conduzido no espaço
Por inúmeras interseções de planos
Múltiplos, livres, resvalantes.”

Mário Sá-Carneiro [1] 


“O mundo é grande e cabe

nesta janela sobre o mar.”

Carlos Drummond de Andrade [2] 

 

 

São espelho repentino onde nos revemos

onda de ternura que tudo embala no olhar

reflexo fosco eco de onde desaparecemos

vãos por onde reluzindo treme todo o mar

 

Casa onde o muro musgoso se desprende

deslumbrante janela faz o lugar acontecer

soltando vazios de luz que ora surpreende

o claro sentido de todo o mundo a oferecer

 

Aberta à brisa para o feliz profundo respirar

moldura que separa palpitando a irrealidade

polígono aberto e desejo de mundo apreciar

 

Dolorosas paredes recíprocas e pertinentes

penumbras que desvanecem em intensidade

na tecida incerteza de mundos tão diferentes

 

 



[1] Mário de Sá-Carneiro (1890-1916) Manicure, Poemas sem Suporte in ORPHEU 2 Ática S.A.R.L. Lisboa 1979 (pag.27).

[2] Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), O Mundo é grande. De Amar se Aprende Amando In Poesia e prosa. Nova Aguilar, Rio de Janeiro 1983.

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