Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux. Marcel Proust - A La Recherche du Temps Perdu















sábado, 20 de maio de 2017

O rio e o mar na foz do Douro 8




III Parte - Deriva pela Foz do lado do mar
 
A Foz do lado do mar. Da Senhora da Luz a Matosinhos.
 
fig. 1 - Pormenor de Vista Panoramica do Porto. Tirada do mar a 4.000 metros da costa. Cópia 1911 in Fernando de Sousa e José Fernandes Alves, Leixões uma história portuária, APDL S.A. 2002.

fig. 2 - Pormenor de Vista Panoramica do Porto. Tirada do mar a 4.000 metros da costa. Cópia 1911. In Fernando de Sousa e José Fernandes Alves, Leixões uma história portuária, APDL S.A. 2002.
 
O mar da Foz por Severo Portela e quatro pinturas de Arthur Loureiro
 
Severo Portela descreve a Foz do Douro nas quatro estações do ano, em um texto intitulado O mar da Foz, a que acrescentei quatro pinturas do mar da Foz de Arthur Loureiro. [1]
 
O mar da Foz
Paisagem marinha, nenhuma outra de Portugal possui porventura o dom de transmitir a comoção das quatro estações como essa que, espraiando-se das salsugens da Cantareira, dois passos da Foz do Douro, atinge o máximo após as docas arquitecturais de Leixões, ou seja, em pleno Atlântico já.
A dispersão de rochedos por toda a costa onde diríeis bivacar uma legião de titanes, as coercíveis dunas que se transvertem mal ali encrespam cordoveias do Nordeste, as cambiantes sempre renovadas do azul celeste e do azul aquático fazem com que a imaginação caracterize romanticamente esse panorama trabalhado num ardor místico de beleza.
A Primavera líquida sobrevém, em regra, com florescên­cias de rainúnculos iridescentes e torsos marmóreos de virgens, uma e outras vogando de sol a sol na euritmia das ondas. É a quadra eleita dos mareantes a quem a vez pri­meira o coração se alvoroça, nupcial; é o tempo querido das romagens juvenis aos pinheirais onde os pássaros aco­dem a descansar enleados.
 
fig. 3 - Arthur Loureiro (1853-1932), Marinha, Farol da Foz) c.1905, óleo s/madeira 21 x 80 cm. Col. Particular.

O Estio, surpreendido na distenção dessa faixa magnífica, desentranha-se em tumefacções de água translúcida onde calam lisonjeiras as quilhas dos saveiros que se alam à pesca na madrugada luminosa e só recolhem ao bater trindades. É então que braços de remadores fenícios desprendem as vastas redes do enxugadouro no areal, e as coreias das sanjoaneiras, em cuja face há sangue rubro, descantam para o sol um hino mágico. Feerias imperscrutáveis acodem da submersa babilónia múrmura mal o luar empoalhe a curva do horizonte. Das algas erráticas, vaporam-se exalações que a brisa só muito além consegue dispersar, e, na rota das embarcações veleiras que demandam a barra, brincam rebanhos de cordeiros alvíssimos.
 
fig. 4 - Arthur Loureiro (1853-1932), Praia do Molhe 1906, óleo sobre madeira 22,5 x 84,8 cm. Col. Particular.
 
Evocador das pálidas tristezas apenas sentidas pelos poetas, sobrevém o Outono: o Cabedelo arruivou numa soledade que vela o coração; pelas rochas taciturnas, as humidades evocam com os dolorosos frios da campina que vai hibernar; o céu nítido revela e identifica pronto as distâncias, os pinhais de Matosinhos, as casinhas de Leça, os areais de Lavadores...
 
fig. 5 - Arthur Loureiro (1853-1932), Praia de Carreiros 1906, óleo sobre madeira 23 x 60,5 cm. Col. Particular.
 
Vem, por fim, o Inverno! Tremeluzem dos faróis as pupilas perscrutadoras. Às amuradas do Passeio Alegre, em Carreiros, no Castelo do Queijo, o oceano soergue-se como um formidável Titan derredor do qual se instrumentassem sonoridades de uma imponente orquestra.
Jamais a areia branqueja como então. Na asa das ventanias revoam legendas de naufrágio. Em arrepio, a bandada das gaivotas aflora o lume de água. Todavia, agora um, logo outro, os caíques desamarraram e, ei-los em fileira a sumirem-se na cerração dos longes. [2]
 
fig. 6 - Arthur Loureiro, (1853-1932), Tempestade 1914, óleo s/tela 92 x 146 cm. Col. Particular.


[1] As pinturas são reproduzidas - com uma fraca qualidade - do Catálogo da Exposição Artur Loureiro 1853 – 1932, realizada de Dezembro de 2010 a Abril de 2011, no Museu Nacional de Soares dos Reis.
[2] Severo Portela (1875-1945) in Guia de Portugal IV Entre Douro e Minho I Douro Litoral, 3ª edição Fundação Calouste Gulbenkian 1994. (pág.306 e 307).
 
As praias da orla marítima
 
Minha praia ardorosa e solitária
aberta ao grande vento e ao largo mar
tu me viste querer-lhe com a doce
piedade das sombras do luar
teus cabos se adiantam como braços
para abraçar as ninfas receosas
que fugindo oferecem sobre as vagas
suas nítidas formas amorosas
braços paralisados por desejo
que o mundo e sua lei não permitiu
ou suspendeu amor que livre jogo
maior que posse em fugaz tempo viu
e como vós me alongo e como tu
areia me ofereço a toda sorte
por sua liberdade ou por destino
que por só dela seja belo e forte.
[1]

fig. 7 - As praias da Foz do Douro no Google Earth.
Legenda com os nomes actuais
1 – Passeio Alegre
2 – Praia das Pastoras
3 – Praia do Carneiro
4 – Praia do Ourigo
5 – Praia dos Ingleses
6 – Praia da Senhora da Luz
7 – Praia de Gondarém
8 – Praia do Molhe
9 – Praia do Homem do Leme
10- Praia do Castelo do Queijo

As praias na planta de 1892

fig. 8 - Pormenor da planta de 1892. Escala 1:5 000.
1 – Passeio Alegre
2 – Antiga Praia dos Ingleses (Praia das Pastoras)
3 – Praia de Banhos (Praia do Carneiro)
4 – Praia de Banhos (Praia do Ourigo)
5 – Nova Praia dos Ingleses
6 – Antiga Praia de Gondarém (Praia da Senhora da Luz)
7 – Praia da Caramujeira (Nova Praia de Gondarém)
8 – Praia de Carreiros (Praia do Molhe)
9 – Praia da Robaleira (Praia do Homem do Leme)
10- Praias do Castelo do Queijo
 


[1] Agostinho da Silva (1906-1994), in Poemas.
 
1 - As praias da “Foz Velha”
 
José Augusto Vieira referia no seu Minho Pittoresco que a Foz apezar de augmentar dia a dia, como povoação, pouco de interessante tem que offerecer ao touriste, além do seu movimento piscatório, ou do bello panorama sobre o mar, gosado do paredão que margina o seu vasto Passeio Alegre. [1]
E Alberto Pimentel evocava em 1881 a Foz dos meados do século XIX, referindo:
Materialmente, uma bella praia. Horisontes desafogados. Largos passeios, inundados de ar. Rio, mar e campo. O forte cheiro da maresia para um lado; para outro, o cheiro forte e salutar dos pinheiros. Bellas praias para as crianças brincarem, fortificando-se: a da Meia-Laranja e a do Castello. Uma bella avenida para correrem: a de Carreiros. Água clara e limpa para tomar banho.
Socialmente, muito inferior. Conserva-se ainda a divisão das castas. Algumas famílias, de uma fidalguia mais ou menos recente e mais ou menos cara, consideram a Foz um solar seu, uma propriedade sua. Ha trinta annos que andam a medir os passos no Passeio Alegre, sempre desconfiados de que alguém lhes queira roubar um palmo de terra. A noite, cada um aborrece-se como pode, e alguns que procuram divertir-se na roleta vem de lá muito mais aborrecidos do que foram, por que se às vezes custa ganhar o dinheiro, o perdel-o é sempre muito mais fastidioso. Na maior parte das ruas, as casas conservam-se illuminadas até às onze horas da noite. O que se faz nas salas, ninguém sabe dizel-o. Ha quem suspeite, porem, que as familias dormem, e que essa luz é a da lamparina… [2]
 
As praias antes do jardim do Passeio Alegre
 
De notar que a praia entre o Real Instituto de Socorro a Náufragos (Salva Vidas) e o Castelo da Foz, era então a Praia dos Inglezes. Com a construção do Jardim do Passeio Alegre e os molhes de Felgueiras, ficou reduzida a uma pequena praia agora chamada de Praia das Pastoras. Na figura está ainda assinalada, a norte, a Praia de Banhos, hoje as praias do Carneiro e do Ourigo. 

fig. 9 - Pormenor da representação hidrográfica do Douro 1862 In Fernando de Sousa e José Fernandes Alves, Leixões uma história portuária, APDL S.A. 2002.
 
Camilo Castelo Branco em Scenas Contemporâneas escreve sobre esta praia dos Inglezes
A scena é na Foz, justamente na praia dos Inglezes.
Senhoras e homens tomando banhos; outros entrando nas barracas horrivelmente desfigurados, ou, antes, taes quaes a natureza os fez. Sobre os penedos, pinhas de povo que pasmam diante dos ensaios do salvavidas.
Estes podem dizer o que quizerem a tal respeito.
O author dá carta branca ao actor para que diga centenares de parvoices: pode até discorrer sobre o dropp se lhe aprouver; mas o melhor é calar-se.
  [3]

fig. 10 – Emílio Pimentel e J. Pedrozo *, A Praia de Banhos in (José Duarte) Ramalho Ortigão (1836-1915), As Praias de Portugal, guia do banhista e do viajante, Com desenhos de Emílio Pimentel, Livraria Universal de Magalhães & Moniz, Editores, 12, Largo dos Loyos, 14, Porto 1876.
*João Pedrozo Gomes da Silva (1823-1890). 


A praia das Pastoras (nº 2 na fig. 3) 

O rio, que verás tão socegado,
Que te parecerá que se arrepende
De levar agua doce ao mar salgado.
Nem cabra, nem ovelha alli offende
Herva, folha, nem flor, ou ferro duro:
A planta polo ár livre se estende.
 [4]

fig. 11 - Pormenor da planta de 1892. Escala 1:5 000.
 
Em 1892 a praia das pastoras era uma pequena praia limitada pelos Molhes de Felgueiras, fazendo parte do que se denominava de Praia de Banhos.
 
fig. 12 - Pormenor da planta de 1892 na versão colorida. Escala 1:500. Quadrícula 38. AHMP.
 
O seu nome deriva do tempo em que pastoras para aqui traziam a pastar mansas ovelhas junto d'agua fria. [5]
 
fig. 13 – Postal. Porto-Foz do Douro-Praia das Pastoras. Delcamp.
 
 fig. 14 - A praia das pastoras em 1967. AHMP.
 
fig. 15 - A praia das pastoras em 1967. AHMP.


[1] José Augusto Vieira (1856-1890), O Minho Pittoresco. Livraria de Antonio Maria Pereira, 50, Rua Augusta, 52 Editor, Lisboa 1887. (pág.729 e 730).
[2] Alberto Pimentel (1849-1925), O que anda no ar, Officina Typographica da Empreza Litteraria de Lisboa,1 a 5, Calçada de S. Francisco, 1 a 5, Lisboa 1881. (pág.128).
[3] Camillo Castello Branco Scenas Contemporâneas por Camillo Castello Branco. Acto II, 2ª Edição, Porto em Casa de Cruz Coutinho – Editor, Porto 1862. (pág.14).
[4] Luís de Camões, Ecloga XI, Anzino e Limiano, Obras de Luís de Camões, Lello & Irmão, 144, Rua das Carmeliras, Porto 1970. (pág. 622).
[5] Luís de Camões, Ecloga VI, ao Duque de Aveiro, Obras de Luís de Camões, Lello & Irmão, 144, Rua das Carmeliras, Porto 1970. (pág. 586).
 
A Praia de Banhos (praia do Carneiro e do Ourigo) (n.º 3 e 4 da fig. 3) 

As praias que hoje se chamam do Carneiro e do Ourigo, também faziam parte dessa Praia de Banhos. 

A praia do Carneiro ou do Caneiro
 
fig. 16 - Pormenor da planta de 1892. Escala 1:5 000.
 
fig. 17 - Pormenor da planta de 1892 na versão colorida. Escala 1:500. Quadrículas 36, 37 e 38.

 Referindo-se a esta praia, José Augusto Vieira - que não apreciava ou não conhecia a Foz - no seu Minho Pittoresco, escreve um texto mordaz.
Como praia chega a ser detestável a Foz; penhascosa e ouriçada de calhaus, apezar dos melhoramentos que ultimamente lhe tem sido feitos, só os robustos e sólidos pés dos portuenses são capazes de voltar do banho sem virem triturados. As voluptuosidades da areia loira, docemente acariciada pelo sol da manhã, desconhecem-se lá; quem vae tomar banho ou tem de atirar-se de um penedo para o mar, ou de ser levado ao mar, junto da Foz ao collo do banheiro para se não ferir; não fazendo isto, conte que tem os pés contusos para uma semana, pelo menos.
Tal é a belleza da praia — porque não diremos o nome?— do caneiro, onde o banhista o que menos faz é banhar-se, visto que a agua repartida por todos não chega senão a molhar uma terça parte de cada um; em compensação sahe d'ali com os pés magoados, e muitas vezes com o fato roto pelo visinho ou visinhos, que enchiam com elle, pele-mele, a estreita bacia pedregosa, chamada por ironia a praia.
A pequena gravura que damos n'esta pagina traz levemente á idéa o que seja a costa penhascosa, onde vem enrolar-se impetuosamente a desnevada espuma das vagas, ainda nos mais bellos dias aquecidos pelo nosso formoso sol peninsular. É interessante vêr um navio, que pretende entrar no Douro, approximar-se da barra, onde o perigo o ameaça a cada instante, apezar do auxilio dedicado e corajoso dos pilotos, que para elle avançam nas catraias com o fim de o guiarem através dos canaes estreitos e restingas perigosissimas. [1]
 
fig. 18 – João de Almeida *, A pequena gravura no Minho Pittoresco.
*João Hilário Pinto de Almeida (1847-?).

fig. 19 - Postal da praia de banhos no inicio do século XX.
 
fig. 20 – A praia do Carneiro em dia de S. Bartolomeu.


[1] José Augusto Vieira (1856-1890), O Minho Pittoresco. illustrada com mais de tresentos desenhos de João de Almeida, Livraria de Antonio Maria Pereira, 50, Rua Augusta, 52 Editor, Lisboa 1887. (pág. 729).
 
Praia do Ourigo (antiga praia do Caneiro)
 
Da praia do Ourigo temos uma pintura de Arthur Loureiro. 

fig. 21 - Arthur (José de Sousa) Loureiro (1853-1932), Praia do Ourigo, Foz do Douro, s/d, óleo sobre tela 50 x 97 cm. Col. particular.
 
fig. 22 - Postal Foz do Douro - Praia do Ourigo, início do século XX.
 
fig. 23 – Postal. Porto-Foz do Douro-Praia do Ourigo, início do século XX.
 
E de novo José Augusto Vieira refere como excepção, à normal falta de gente, os dias de S. Bartholomeu e da Senhora da Luz, em que, sem bem se saber porquê, toda a gente dos arrabaldes e da cidade vae à Foz, que toma assim um aspecto extraordinário de formigueiro, passeando lentamente à beira mar. [1]
No dia de S. Bartolomeu era, e é, tradição mergulhar no “banho santo” nesta praia e na do Carneiro na Foz do Douro. 

fig. 24 – A praia em dia de S. Bartolomeu. Postal. Porto-Foz do Douro-Praia do Ourigo. início do século XX.
 
fig. 25 - Postal. Porto-Foz do Douro-Praias do Ourigo e Caneiro, c.1909.
 
Entre a Praia do Ourigo e as Praias da Senhora da Luz, em Outubro de 2015, no Centenário da morte de Ramalho Ortigão, O Progresso da Foz e o Rotary Clube, tomaram a iniciativa de colocar uma placa evocativa do insigne escritor nascido na Foz.
Na placa lê-se uma citação de As Praias de Portugal, as primeiras linhas do capítulo dedicado à Foz do Douro.
Foz! Saudosa Foz!
Residência querida da minha infância…
 
fig. 26 - A placa evocativa de Ramalho Ortigão.
 
fig. 27 – A placa evocativa de Ramalho Ortigão.


[1] José Augusto Vieira (1856-1890), O Minho Pittoresco. Livraria de Antonio Maria Pereira, 50, Rua Augusta, 52 Editor, Lisboa 1887. (pág. 729).

 
As praias da Senhora da Luz
 
fig. 28 – Praia dos Ingleses e mais a norte a Praia da Luz. Pormenor da planta de 1892. Escala 1:5 000
.
Vão para as praias da Luz com a sua trouxa sobraçada, aos ranchos, por que um lençol chega para quatro.
Elles entendem por um acertado instincto suino, que quanto mais salgados ficarem, melhor. Mettem-se entre os fragoedos. Homens e mulheres vão de branco, ligeiramente vestidos; a côr da roupa faz com que deixem no banho o ligeiramente e saiam sem adverbio e sem decência.
Esperam a onda, de bruços na areia, com a cabeça virada para a terra, e a parte opposta para o mar. Isto poderia offender os peixes, se os peixes tivessem brios.
Mergulham sete vezes, porque, para elles, de sete em sete ondas, vem uma que traz grande virtude curativa.
Depois vão a correr para entre as fragas, cheios d'areia e d'agua, e limpam-se ao lençol a que já se limparam três.
Isto é invariável.
E o diabo, que anda às soltas n'este dia.
[1]

fig. 29 - Edgar Degas (1834-1917), Scène de plage, 1869/70, óleo s/tela 47,5 x 82,9 cm. The National Gallery, Londres.
 
As praias coalham-se de barracas de lona branca, de forma cúbica, deselegantes, abafadas, sem respiro pelo tecto, dando lugar a que se desenvolva dentro, com a reacção do banho, uma humidade morna, que me não parece inteiramente benéfica para os nervos da população balnear. [2]
 
fig. 30 – A. Gama ?, As barracas de lona branca, de forma cúbica, deselegantes, abafadas, sem respiro pelo tecto, 1917. Pormenor.


[1] Alberto Pimentel, Entre o caffé e o cognac, Imprensa Portugueza, Rua do Bomjardim 181, Porto 1873. (pág. 164).
[2] Ramalho Ortigão As Praias S. João da Foz 1883, in As Farpas 1. Décimo Volume. Círculo de Leitores, Lisboa 1988. (pág. 113).
 
A nova Praia dos Ingleses (com o n.º 5 na fig.3). 

Nesta planta de 1854, a Praia de Banhos está confinada à actual Praia do Ourigo e a Praia dos Ingleses no local onde se encontra na actualidade. 

fig. 31 – Plan denoting course of the proposed Line of Tram-way no Relatório de William Freebody, Londres 1854. Arquivo da APDL. In Porto de Leixões, Fotografias de Domingos Alvão. Emílio Biel. APDL 1998.
 
É uma pequena praia entre vários rochedos junto à rua da Senhora da Luz. No século XIX tinha dois pontões de apoio aos banhistas que ainda se podem observar na maré baixa. 

fig. 32 - Pormenor da planta de 1892. Escala 1:5 000.
 
fig. 33 - Pormenor da planta de 1892 na versão colorida. Escala 1:500. Quadrícula 25. AHMP.


A praia dos Ingleses vista do Norte

fig. 34 - Henri Edouard Huguenin Virchaux (1878-1958). 1916.
 
fig. 35 – A praia na actualidade.

fig. 36 – Postal Porto-Foz do Douro-Barra.

A pintora portuense Maria Amélia de Magalhães Carneiro pintou em 1934, uma marinha, tendo por fundo o paredão de Felgueiras, um mar agitado e um penedo em primeiro plano. 

fig. 37 – Maria Amélia de Magalhães Carneiro (1883-1970), "Marinha-Foz do Douro" 1934, óleo s/tela. Colecção particular.

A praia dos Ingleses vista do sul

Os penedos
 
Dois impassíveis penedos, que não são pedras ou rochas mas mistérios do mar, limitam a norte esta praia, separando-a da praia da Luz. 

fig. 38 - A nova Praia dos Ingleses. Postal. Porto-praia da Foz do Douro.
 
Como escreve Victor Hugo, …Les deux rochers, tout ruisselants encore de la tempête de la veille, semblaient des combattants en sueur.
Le vent avait molli, la mer se plissait paisiblement, on dévinait à fleur d’eau quelques brisants où les panaches d’écume retombaient avec grâce; il venait du large un murmure semblable à un bruit d’abeilles. [1]
[…Os dois rochedos, ainda encharcados da tempestade da véspera, parecem dois lutadores cobertos de suor.
O vento tinha amansado, o mar ondeava pacificamente, e advimhava-se à tona da água algumas quebras onde plumas de espuma caiam graciosamente; vinha do largo um murmúrio semelhante ao zumbir de abelhas.]
Arthur Loureiro pintou por diversas vezes esses rochedos, escolhendo isolar um que mais o atraía. 

fig. 39 - Arthur Loureiro (1853-1932), Marinha (Foz) 1908, óleo sobre madeira 20,2 x 30,5 cm. Museu Nacional de Soares dos Reis.

 
Este penedo côncavo e sombrio,
Que de cangrejos vês estar coberto,
Nos dá abrigo do sol, quieto e frio… 
[2]
 
fig. 40 – Arthur Loureiro Marinha s/d óleo sobre madeira 46,2 x 37,2 cm. Museu Nacional de Soares dos Reis.


Um dos penedos destacados em primeiro plano. Ao fundo o Gilreu.
 
fig. 41 – A praia dos Ingleses na actualidade.
 
Os dois rochedos vistos do restaurante Praia dos Ingleses. 

fig. 42 – Os rochedos vistos do restaurante Praia dos Ingleses.
 
fig. 43 - Os rochedos vistos do restaurante Praia dos Ingleses.


[1] Victor Hugo, l’Ecueil, de Les Travailleurs de la Mer, tome II, Librairie Internationale, 15, Boulevard Montmartre, A. Lacroix, Verboeckhoven et C.ª Éditeurs, Paris 1866. (pág. 134).
[2] Luís Vaz de Camões (c.1524-1580), Écloga VI ao Duque de Aveiro, Obras de Luís de Camões, Lello & Irmão, 144, Rua das Carmelitas, Porto 1970. (pág. 585).
 
A praia da Luz, antiga praia de Gondarém (com o n.º 6 na fig.3).

In su l’estremità d’un’alta ripa
Che facevan gran pietre rotte in cerchio,… 
[1]

fig. 44 - Praia da Luz vista do norte 1920.
 
É uma pequena praia entre vários rochedos junto à rua da Senhora da Luz. No século XIX tinha dois pontões de apoio aos banhistas que ainda se podem observar na maré baixa. 

 fig. 45 - Pormenor da planta de 1892. Escala 1:5 000.
 
fig. 46 – Praia da Luz vista do sul. AHMP.

 
fig. 47 – A praia dos ingleses e a praia da Luz. AHMP.
 
fig. 48 – A praia da Luz na actualidade.
 
A praia da Luz, a praia dos Ingleses e os rochedos que as separam, vistas do norte, nos anos 60 do século passado. 

fig. 49 – Praia da Luz e praia dos Ingleses.


[1] Dante Alighieri, Inferno Canto XI, versos 1 e 2, A Divina Comedia. Tradução de Vasco Graça Moura, Quetzal Editores, Lisboa 2011. (pág.110).  [ Tradução: No extremo de alta arriba em que se feche / Um círculo de pedras mal lascadas,]
 
Camões na foz do Douro
 
Se não espantam as homenagens a Ramalho Ortigão e a Raul Brandão, portuenses e moradores na Foz, poderá parecer, aparentemente, estranho uma escultura de Camões na Foz do Douro.
Mas como Camões é universal, um busto do poeta da autoria de Irene Vilar, foi erigido junto à praia da Luz, por ocasião do Centenário da morte do poeta. 

fig. 50 - Irene Vilar (1930-2008), Camões 1980. Foto (com a devida vénia) de J. Portojo.
 
Camões não se referindo propriamente à Foz, canta muitas vezes a praia e o mar.
Numa Écloga, Camões coloca o pastor Agrário descendo da montanha para a orla costeira onde encontra o pescador Alieuto que lhe descreve a beleza e os perigos do mar e da praia.
Pois se agora o mar vês brando e sereno,
E estender-se estas ondas pola areia,
Amansadas das mágoas com que peno,

Logo verás o como desenfreia
Éolo o vento polo mar undoso,
De sorte que Neptuno se arreceia.  
[1]

fig. 51 - Irene Vilar (1930-2008), Camões 1980. Foto de wikimedia.

 
E o poeta também refere, embora indirectamente a praia, citando logo no início de um Soneta os elementos da natureza, Ar (o céu e o vento), Terra, Água (o mar) e o Fogo (o amor de Aónio pela sua ausente amada).

O céu, a terra, o vento sossegado...
As ondas, que se estendem pela areia...
Os peixes, que no mar o sono enfreia...
O nocturno silêncio repousado...

O pescador Aónio, que, deitado
Onde co vento a água se meneia,
Chorando, o nome amado em vão nomeia,
Que não pode ser mais que nomeado:

- Ondas – dezia – antes que Amor me mate,
Tornai-me a minha Ninfa, que tão cedo
Me fizeste à morte estar sujeita.

Ninguém responde; o mar de longe bate;
Move-se brandamente o arvoredo;
Leva-lhe o vento a voz, que ao vento deita.
 [2]


[1] Luís Vaz de Camões (c.1524-1580), Écloga VI ao Duque de Aveiro, Obras de Luís de Camões, Lello & Irmão, 144, Rua das Carmelitas, Porto 1970. (pág. 583).
[2] Luís Vaz de Camões (c.1524-1580), Soneto CXV, Obras de Luís de Camões, Lello & Irmão, 144, Rua das Carmelitas, Porto 1970. (pág. 61).
 
CONTINUA pela “FOZ NOVA”