Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux. Marcel Proust - A La Recherche du Temps Perdu















sábado, 19 de agosto de 2017

O Porto através de uma Panorâmica de c.1870



fig. 1 - Autor não identificado  Panorâmica do Porto c. 1870 (originais em vidro do Museu Nacional de Soares dos Reis Porto) cópia cedida por gentileza do arquitecto Manuel Magalhães.

A Fotografia

A fotografia realizada provavelmente em 1871, como veremos, foi tirada de manhã, sob luz nascente, da margem direita do Douro do local conhecido como Castelo de Gaia, e abrangendo um panorama que se estende do morro de Vilar onde se situa o Palácio de Cristal até ao estaleiro de Vila Nova de Gaia.
Deveria ser uma hora muito matinal, possivelmente de um Domingo, já que não se vê nenhuma das cerca de cem mil pessoas que então habitavam no Porto. [1]
O Fotógrafo procurou um ponto de vista que pudesse apresentar o Porto como uma cidade portuária, dinâmica, em progresso, com o Palácio de Cristal, a Alfândega Nova em construção e a abertura da sua rua de acesso, evitando o cliché da vista tradicional da cidade histórica sobre o vale do rio de Vila, centrada na Torre dos Clérigos e na praça da Ribeira. Na ocasião preparava-se a visita do imperador do Brasil, importante acontecimento para a cidade do Porto.


[1] Entre 1864, data do primeiro recenseamento geral, o Porto tem 86 761 habitantes e em 1878 sobe para 105 838.


Primeira tentativa (provisória e incompleta) de identificação de alguns dos edifícios e locais da cidade, incluindo Vila Nova de Gaia. 

fig. 2 – Panorâmica legendada.
Legenda:

1.       Palácio de Cristal
2.       Palacete Pinto Leite concluído c.1865 (foi o Conservatório de Musica do Porto e é actualmente propriedade particular)
3.       Circo Olympico (Museu Commercial e Industrial em 1886)
4.       Quartel da Torre da Marca (Regimento de Infantaria 6, Metralhadoras 3 C.I.C.A.P. do Regimento de Artilharia da Serra do Pilar, Reitoria da UP, Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar U.P.)
5.       Palácio dos Carrancas (Palácio Real, Museu Nacional Soares do Reis)
6.       Telégrafo
7.       Igreja da Lapa (concluída em 1863)
8.      Quartel de S. Ovídio
9.       Casa dos Pamplonas
10.   Rua dos Carrancas Rua da Liberdade Rua de Aires Gouveia Hotel do Louvre
11.    Hospital de Santo António (Fachada Sul)
12.    Igreja das Carmelitas
13.    Praça do Peixe - Mercado do Peixe (c.1869). Entre a Praça da Cordoaria a nascente e a Rua dos Fogueteiros a poente.
14.    Igreja da Graça (demolida em 1899)
15.    Hospício dos Expostos
16.    Academia Polytechnica (Faculdade de Ciências, Reitoria da UP)
17.    Capela das Almas (Igreja de S. José das Taipas)
18.   Torre dos Clérigos e Edifício na antiga Porta do Olival
19.    Convento de S. Bento da Vitória e Cadeia da Relação
20.   Cubelo da Muralha junto ao convento de Santa Clara
21.    Igreja da Vitória
22.   Igreja do Bonfim (ao longe com uma só torre)
23.   Igreja de S. Ildefonso
24.   Antigo Teatro de S. João (destruído por um incêndio em 1908) e Casa Pia (Governo Civil)
25.   Convento de Ave-Maria de S. Bento (demolido para dar lugar à estação de S. Bento)
26.   Sé Catedral
27.   Casa do Cabido
28.   Paço Episcopal
29.   Zona de S. Lázaro
30.   Muralha
31.    Passeio das Fontainhas
32.   Ruínas do Seminário
33.   Quinta da China
34.   Monte Castro
35.   Gaia Mosteiro da Serra do Pilar
36.   Gaia Aqueduto
37.   Gaia morros do Choupelo e das Devezas
38.   Quinta dos sete Campos (Casa do Roseiral)
39.   Rua da Restauração (Rua Nova da Bandeirinha, Rua de D. Miguel I 1825-1832)
40.    Museu Allen Municipal
41.    Casa Albuquerque, Rua dos Fogueteiros (Cooperativa Árvore)
42.    Passeio das Virtudes
43.    Clube dos Ingleses
44.    Muralha
45.    Convento e igreja de S. Lourenço (Grilos)
46.    Convento de Santa Clara
47.    Gaia
48.    Gaia Calçada de Villa Nova (Estrada Real, rua General Torres)
49.    Gaia
50.    Gaia Quinta da Belavista
51.    Convento de Monchique
52.    Convento de Monchique (Bairro Inez)
53.    Casa das Sereias
54.    Quinta, Jardim e Fonte das Virtudes
55.    Igreja e Convento de S. João Novo
56.    Ruinas do Convento de S. Domingos (Caixa Filial do Banco de Portugal)
57.    Banco (Instituto do Vinho do Porto)
58.    Hospital de S. Francisco
59.    Palácio da Bolsa
60.    Igreja de S. Francisco, Igreja da Ordem Terceira e Casa do Despacho
61.    Capela da Confraria de St. Elói, demolida em 1872.
62.    Igreja de S. Nicolau e entrada na rua dos Ingleses (rua do Infante D. Henrique)
63.    Ponte D. Maria II (ponte pênsil)
64.    Gaia
65.    Cais Novo
66.    Miragaia
67.    Alfândega Nova em construção
68.    Igreja de S. Pedro de Miragaia
69.    Praia e Frente urbana de Miragaia
70.    Abertura da rua da Alfândega Nova - Porta Nobre (demolida em 1872) e baluarte Manuelino
71.    Abertura da rua da Alfândega Nova – Cais e Postigo de Banhos (aqui se localizou o Hospital dos Ingleses
72.    Abertura da rua da Alfândega Nova – entrada da rua da Fonte Taurina – rua do Cimo de Muro
73.    Gaia Cais (Largo de D. Luís e Avenida Diogo Leite) Nossa Senhora da Piedade da Areia
74.    Gaia
75.    Gaia Armazéns de Vinho do Porto (Ferreira e Ramos Pinto)
76.    Gaia Estaleiro naval
77.    Gaia Edifício ainda hoje existente, no morro do Castelo de Gaia junto do local onde foi tirada a fotografia.




1865 - O ano da Exposição Internacional Portuguesa no Porto


Para a compreensão desta Panorâmica utilizaremos alguns documentos da época, pelo que devemos recuar até à realização da Exposição Internacional do Porto, em 1865.


Esta exposição, consagrou o impulso decisivo da cidade que, tendo por memória o Paris do Segundo Império, o Porto vinha, desde os anos 50 do século XIX, então desenvolvendo.
D. Pedro V escreve no seu Diário que Passou o reinado dos ideólogos, dos poetas, e dos homens das abtracções, e começou o dos homens prosaicos e positivos, afirmando com isso que era o tempo do progresso ultrapassando a cultura romântica das primeiras décadas do século. [1]

Para essa Grande Exposição, para além da construção do Palácio de Cristal, publicaram-se vários documentos destinados a orientar e mostrar o Porto aos (muitos) que se previa aqui se deslocariam para assistir ou participar nesse acontecimento.
Dois Guias são publicados em 1864: o Guia Historico do Viajante na Cidade do Porto e seus Arrabaldes [2] e o Elucidário do Viajante no Porto[3], a que podemos acrescentar o Roteiro do Viajante no Continente e nos Caminhos de Ferro de Portugal em 1865. [4]
E ainda, com um objectivo semelhante, em 1865 a publicação da Planta da Cidade do Porto contendo o Palacio de Christal, Nova Alfandega, e diversos melhoramentos posteriores a 1844 por F. Perry Vidal uma actualização do autor da planta que produzira em 1844.

fig. 3 - Planta da Cidade do Porto contendo o Palacio de Christal, Nova Alfandega, e diversos melhoramentos posteriores a 1844 por F. Perry Vidal.

Esta planta publicada no ano seguinte da chegada do caminho-de-ferro a Gaia e nas vésperas da Exposição Universal do Porto em 1865 é uma reformulação do levantamento de 1844 e pretende criar uma planta actualizada, com um objectivo claramente turístico, para todos os que se deslocarem ao Porto na ocasião da grande Exposição.


[1] D. Pedro V (1837-1861), Diário 29 de Maio de 1855, in Júlio Vilhena (1845-1928), D. Pedro V e o seu Reinado, Volume II, Imprensa da Universidade, Coimbra 1921. (pág.358).
[2] F. G. Fonseca Guia Historico do Viajante no Porto e Arrabaldes, Na Livraria e Typographia de F. G. da Fonseca, Editor, rua do Bomjardim 72, Porto 1864.
[3] Francisco Ferreira Barbosa, Elucidário do Viajante no Porto, Imprensa da Universidade, Coimbra 1864.
[4] João Antonio Peres de Abreu, Roteiro do Viajante no Continente e nos Caminhos de Ferro de Portugal em 1865, Imprensa da Universidade, Coimbra 1865.


Para atingir esse objectivo a planta, para além de incluir o Palácio de Cristal, centro da Exposição Internacional, a Nova Alfândega então ainda em projecto, e a Ponte Pênsil (D. Maria II), principal acesso à cidade do Porto, apresenta duas cartelas onde se apontam as características da Cidade e os seus principais monumentos e equipamentos, em português e em francês.
Nessa cartela é referido que os principaes edifícios publicos são o hospital real – a cathedral – a soberba igreja dos clerigos cuja torre é a mais alta do reino (…) A casa da Relação e cadeia, o grande quartel de S.to Ovidio (…) o paço episcopal, o palacio da Camara Municipal, na praça de D. Pedro, a Igreja de N. S.a da Lapa (…) o real theatro de S. João, comparavel com os milhores de Italia, o Tribunal e praça do Commercio, (…) as bellas e novas praças do Anjo, e Bulhão, (…) o Campo da Regeneração, a Praça da cordoaria pelo seu tamanho, o bello palacio de christal e o magnifico ponto de vista do seu parque, o museu Allen Municipal, os palacios particulares, - dos Carrancas – hoje pertencentes à Casa Real; - da Feitoria Inglesa; do Visconde de Beire, e o de Joaquim Pinto Leite, de bellissima architectura e recentemente concluido com manificencia.
 

fig. 4 – A Cartela em português.

E para melhor sublinhar esse objectivo turístico a planta de 1865 apresenta uma legenda numerada de 2 a 64, onde se destaca a referência às Hospedarias (5), aos Hospitais (4), aos Bancos (2) e Companhias de Seguros (3), aos Teatros (3), ao Correio Geral, ao Museu Municipal, aos principais largos e praças e ainda aos principais monumentos.
 

fig. 5 – Legenda da Planta de 1865.



O local de onde foi realizada a panorâmica

Na fotografia o local de onde é tirada é facilmente identificado pelo edifício em primeiro plano (n.º77), que ainda hoje existe.

fig. 6 – Pormenor da Panorâmica tendo no primeiro plano com o n.º 77 o edifício no Castelo de Gaia.

Na planta de Perry Vidal podemos assinalar o local de onde a fotografia foi tirada, na margem direita do Douro e conhecido como Castelo de Gaia, abrangendo um panorama que se estende do morro de Vilar onde se situa o Palácio de Cristal até ao estaleiro de Vila Nova de Gaia.

fig. 7 – O local de onde foi fotografada a cidade na planta de 1865.

Esta local, o Castelo de Gaia e as suas imediações onde Almeida Garrett viveu em criança como ele próprio relata num texto escrito em Lisboa a 24 de Janeiro 1847:
…eu abri os olhos á primeira luz da razão nos proprios sitios em que se passam as principaes scenas deste romance. Dos cinco aos dez annos de edade vivi com meus pães n'uma pequena quinta, chamada 'O Castello' que tínhamos Aquém Doiro, e que se diz tirar esse nome das ruinas que alli jazem do Castello mourisco. [1]

Foi um dos locais tradicionalmente escolhidos para realizar vistas da cidade do Porto. Assim assinalemos os desenhos, gravuras e fotografias de Pier Maria Baldi, de H. Duncalf, António Joaquim de Sousa, Frederik William Flower, Francis Frith, Nogueira da Silva, Jean Laurent, Domingos Alvão e muitos outros.

Cesário Augusto Pinto na litografia intitulada Gaia, publicada no álbum As margens do Douro, collecção de doze vistas, de 1849, mostra o Morro do Castelo e o local de onde foi tirada a fotografia. [2]

 
fig. 8 - Cesário Augusto Pinto (1825-1896), Gaia in As margens do Douro, collecção de doze vistas. 1849.

No blogue Memórias Gaienses da Biblioteca Pública Municipal de V. N. de Gaia, sobre esta gravura de Cesário Augusto Pinto refere-se:

Na atualidade mantêm-se a maior parte das construções, a saber: o Lar Pereira Lima, ao alto que pertence à Misericórdia do Porto, a capela de Nossa Senhora da Bonança (ou do Bom Jesus de Gaia), os armazéns do vinho do Porto, a casa junto às escadas da Rua do Salgado. Na cota baixa, de nascente para poente, ainda existem as paredes e belas janelas dos dois primeiros edifícios e todo o casario ribeirinho do Cais de Gaia que aqui parte com o Cais da Fontinha, bem assim o Oratório e escadas da Boa Passagem. Era aqui que se situava o pelourinho de Vila Nova de Gaia que foi derrubado e semidestruído na cheia de 1909. A poente, na cota média, pode ver-se o edifício da Quinta da Bela Vista onde existia a cerâmica do Vale da Piedade. [3]


[1]  Almeida Garrett, Miragaia, capítulo VII de Romanceiro. Tomo I, Romances da Renascença, Terceira edição. Em Casa da Viuva Bertrand e Filhos, Lisboa 1853. (pág. 202 e 203).
[2] Cesário Augusto Pinto (1825-1896), Gaia in As margens do Douro, collecção de doze vistas. Litografia 16 x 25 cm. de Joaquim Victoria Villa Nova —Rua do Campo Pequeno n.º1849, Porto 1848.
[3] A melhor coleção oitocentista de vistas de Gaia, da autoria de Cesário Augusto Pinto - Parte I in Memórias Gaienses da Biblioteca Pública Municipal de V. N. de Gaia. http://memoriasgaiensesbibliotecadegaia.blogspot.pt/2014/03/a-melhor-colecao-oitocentista-de-vistas_7019.html






E nesta fotografia de autor desconhecido vê-se o morro do Castelo e o local de onde a Panorâmica foi tirada.


fig. 9 – Foto da Ribeira de Gaia c.1887. A foto está reproduzida no blogue Porto de Agostinho Rebelo da Costa aos nossos Dias http://portoarc.blogspot.pt/2015/11/rio-douro-xxiv.html

O mesmo local numa panorâmica da Casa Alvão, posterior a 1886, já que nela figura a ponte Luís I. [1]

 
fig. 10 - Pormenor da referida panorâmica (no álbum entre as fotografias 56 e 57).


O local no Google Earth assinalado a vermelho.


fig. 11 – imagem do Google Earth.

E o local apontado por uma seta na actualidade.


fig. 12 – Foto de Manuel de Sousa in Wikimedia Commons mostrando o local em 2007.


[1] A Cidade do Porto na Obra do Fotografo Alvão (1872:1946), com prefácios de Fernando Távora e Joaquim Vieira, Edição da Fotografia Alvão, Porto 1993.


A datação da fotografia

Esta fotografia – como uma outra semelhante mas anterior - têm sido, por vezes, atribuídas a Domingos Alvão (1872-1946). Na verdade o conhecido fotógrafo do Porto nunca poderia ter sido o seu autor, já que nasceu em 1872, ano em que as fotografias já tinham sido realizadas. Poderão como alguma outras, terem sido recuperadas por Alvão no acervo da sua Casa Fotográfica. [1]

A data em que esta foi realizada, como veremos pela sua análise, é seguramente posterior a 1865, data em que o Palácio de Cristal está já concluído, e onde se realizou a Exposição Internacional do Porto.
E podemos considerar que a fotografia terá sido realizada em 1871/72, data da conclusão da construção do edifício central da Alfândega Nova, e da abertura da Rua da Nova Alfândega, contemporânea da instalação da primeira linha do Americano no Porto [2].
Como elementos de datação ainda assinalaremos a Praça (Mercado) do Peixe e a capela da Confraria dos Ourives (de Santo Elói).

O edifício da Alfândega Nova (n.º67)


 
fig. 13 - O corpo central da Alfândega na Panorâmica em estudo.

Comparando o edifício central da Alfândega Nova que, nesta Panorâmica em estudo está praticamente concluído, com o mesmo edifício na conhecida fotografia de Jean Laurent, que sabemos estar datada de 1869, constatamos que nesta o corpo central da Alfândega está ainda em construção. Podemos assim concluir que a fotografia de que nos ocupamos é posterior a 1869.


  fig. 14 - Juan ou Jean Laurent Minier (1816-1886) Porto Portugal. 867. Vue Panoramique de Porto (2 imagens). Panorâmica do Porto, 1869. Colecção Manuel Magalhães. O negativo de vidro, original, de colódio húmido, tem o formato panorâmico de 27 x 60 cm. Mede exactamente 27 x 59,6 cm. E está conservado no "Archivo fotográfico Ruiz Vernacci", del "Instituto del Patrimonio Cultural de España", del Ministerio de Cultura de España.



fig. 15 - O corpo central da Alfândega na fotografia de Jean Laurent de 1869.


Sabemos que a construção da Alfândega Nova segundo o projecto de Jean-François Colson foi decidida em 1859, e a sua construção iniciada no ano seguinte a partir do edifício mais a poente, sendo o primeiro núcleo inaugurado em 1869.


fig. 16 – A Alfândega Nova em construção na Panorâmica.

Francisco Ferreira Barbosa no Elucidário escreve sobre a Alfândega Velha e sobre a Alfândega Nova, fazendo eco dos que criticavam a escolha da praia de Miragaia para a implantação do edifício e refere que em 1864 a nova alfandega vae já muito adiantada, e a conclusão d'esta obra pelo menos revelará o fabuloso custo de centenares de contos de réis. [3]


Mas sabemos por Júlio Máximo de Oliveira Pimentel o Visconde de Villa Maior que o moderno e grandioso edifício da Alfandega [que] ocupa uma grande parte da praia em frente de Miragaya está já concluído em 1876 por uma gravura com desenho de Emílio Pimentel e gravada por João Pedroso, inserida em O Douro Illustrado. [4]
 

fig. 17 - Emílio Pimentel (des.); João Pedroso (grav.), Alfandega do Porto. Gravura representando uma vista do Rio Douro e da Alfândega do Porto, tirada de Vila Nova de Gaia. In Visconde de Villa Maior, O Douro Illustrado, pág.160.

E Alberto Pimentel, no mesmo ano, descreve assim o edifício acabado.
O novo edificio consta de tres corpos, funccionando no do centro as repartições, e servindo de armazem os lateraes. Os alicerces d’este edifício foram assentes em estacaria cravada no alveo do rio.
Reune, pois, a nova alfandega do Porto á elegância da construcção todos os requesitos a que deve attender-se em edificações d’aquelle genero. [5]


[1] Como assinala Nuno Cruz no blogue A Porta Nobre https://aportanobre.blogspot.pt/2011/09/vista-antiga-do-porto.html?m=1
[2] Em 9 de Março de 1872 foi a abertura da linha do Infante à Foz (Castelo) ao longo do rio pela Companhia Carril Americano do Porto até à Foz e  Matosinhos. Abertura oficial foi em 15 de Maio.
[3] Francisco Ferreira Barbosa, Elucidário do Viajante no Porto, Imprensa da Universidade, Coimbra 1864. (pág.73).
[4] Visconde de Villa Maior (1809-1884), O Douro Illustrado, Editores Magalhães & Moniz. 12, largo dos Loyos,14. Porto 1876. (pág.160).
[5] Alberto Pimentel, Guia do Viajante na Cidade do Porto e seus Arrabaldes, livraria Central de J. E. da Costa Mesquita Editor, Rua de D. Pedro 87, Porto 1877. (pág.121).



A Rua da Alfândega Nova (n.ºs 70,71 e 72)



fig. 18 - A abertura da rua da Nova Alfândega. Pormenor da Panorâmica.
Legenda:
               60.   Igreja de S. Francisco, Igreja da Ordem Terceira e Casa do Despacho
               61.    Capela da Confraria de St. Elói, demolida em 1872.
               62.   Igreja de S. Nicolau e entrada na rua dos Ingleses (rua do Infante D. Henrique)

            70. Abertura da rua da Alfândega Nova - Porta Nobre (demolida em 1872) e baluarte Manuelino
            71.   Abertura da rua da Alfândega Nova – Cais e Postigo de Banhos (aqui se localizou o Hospital dos Ingleses
            72.  Abertura da rua da Alfândega Nova – entrada da rua da Fonte Taurina – rua do Cimo de Muro

A construção do novo edifício destinado a Alfândega na praia de Miragaia implicou a abertura de uma rua que lhe desse um amplo e fácil acesso.

Escreve Pinho Leal no seu Portugal Antigo e Moderno:

A nova alfândega construída na praia de Miragaya, reclamava uma communicação fácil e condigna da grandiosidade do edifício; houve differentes alvitres, pensando-se em communical-a pela parte baixa da cidade, posta já em contacto fácil pela rua de S. João ou de Ferreira Borges; e também se pensou em abrir uma nova rua por detraz de Monchique a entroncar na Restauração (calçada de Monchique, rua de Sobre--o-Douro). Prevaleceu porém o primeiro alvitre, adoptando-se o projecto, em verdade arrojado, e que se levou já a seu termo.
A nova rua, parte da dos inglezes, e fazendo uma curva defronte do antigo convento de S. Francisco, corre depois um alinhamento parallelo á alfândega, entroncando com a rua marginal de Miragaya.
A construcção foi feita a expensas do municipio, que já gastou com ella 318:5195733 réis, a maior parte absorvidos em expropriações (Abril de 1875).
Com a abertura da nova rua desappareceu o bairro dos Banhos, um dos mais immundos da cidade; a Porta Nobre, o postigo dos Banhos, a maior parte da rua de Cima do Muro e uma parte da da Reboleira.
A rua está ao abrigo das cheias e absorveu enorme volume de terras, pela maior parte extrahidas do corte feito para o alargamento da rua de Ferreira Borges.
A porção construída pela camara é desde a rua dos Inglezes até um pouco adiante da antiga Porta Nobre. Não esta empedrada ainda, havendo, porem, já em deposito grande porção de parallelipipedos (pedra de esteio, de Canellas).
Na parte direita da rua estão-se construindo já novos prédios, subordinados na fachada a um typo apresentado pela camará. [1]


Em 9 de Outubro de 1856 tinha sido aprovado o Plano e perfil da Rua, que se projecta rasgar desde a Rua dos Ingleses até à Porta Nobre, pela Câmara Municipal presidida pelo Visconde de Alpendurada. [2]

Neste plano que serviu de base ao que foi efectivamente executado pode vêr-se o conjunto de expropriações e demolições necessárias à sua realização, ainda assim muito menos do que seria necessário para a execução da proposta inicial de construir a Alfandega Nova na área compreendida entre a Igreja de S. Nicolau e a Praça da Ribeira. [3]

 
 fig. 19 - Joaquim da J. Costa Lima Júnior (1806-1864), Plano e perfil da Rua, que se projecta rasgar desde a Rua dos Ingleses até à Porta Nobre. Planta Aprovada em 9 de Outubro de 1856. AHMP.

O fotógrafo Francis Frith que viajou por Portugal e Espanha entre 1860 e 1870 realizou uma fotografia mostrando o local antes da abertura da Rua da Nova Alfândega.


 fig. 20 - Francis Frith (1822-1898) & Co., Oporto from an elevated viewpoint looking down over the river toward the city. 1860-1870, albumina 15,9 x 21 cm. David Balsells etc al. Napper I Frith. Un viatge fotogràfic per la Ibéria del segle XIX with an essay by Martin Barnes. Barcelona, Museu Nacional d'Art de Catalunya, 2007.

E numa outra Panorâmica da Casa Alvão, no álbum publicado em 1994, e sensivelmente semelhante à foto anterior, também podemos observar o local antes da abertura da Rua da Alfândega Nova.

 
fig. 21 - Pormenor da fotografia panorâmica in A Cidade do Porto na Obra do Fotógrafo Alvão.


[1] Augusto Soares de Azevedo Barbosa de Pinho Leal (186-1884), Portugal Antigo e Moderno: Diccionario Geographico, Estatistico, Chorografico, Heraldico, Archeologico, Historico, Biographico e Etymologico de todas as cidades, villas e freguezias de Portugal e de grande numero de aldeias. Se estas são notaveis, por serem patria d’homens celebres, por batalhas ou noutros factos importantes que nellas tiveram logar, por serem solares de familias nobres, ou  por monumentos de qualquer natureza, alli existentes. Noticia de muitas cidades e outras povoações da Lusitania de que apenas restam vestígios ou somente a tradição. Em 12 volumes, Livraria Editora de Mattos Moreira Companhia Praça de D. Pedro 68, Lisboa 1873 e 1890. (V Volume 1875, pág.297).
[2] António Joaquim Vieira de Magalhães (1822-1903) foi presidente da Câmara Municipal do Porto entre 1856 e 1858.
[3] Cf. Rui Tavares, Do Almazem Regio à Alfândega Nova: evolução de um tipo de arquitectura portuária, Junho de 1990, in A Alfândega do Porto e o Despacho Aduaneiro, catálogo da Exposição organizada pelo Arquivo Histórico Municipal do Porto, Casa do Infante Porto 1990. (pág.39 a 63).  
[Nota- inserida neste texto aparece um pormenor da Panorâmica que estudamos (fig.26 e n.º do Catálogo 287), assinalada como Fotografia do Arquivo Alvão, e datada de c.1861. pertencente ao AHMP].


A Praça ou Mercado de Peixe (n.º13)


Está fotografado na Panorâmica um outro edifício, que nos permite a sua datação.
É a Praça ou Mercado de Peixe, construído entre 1869 e 1874, data em que foi inaugurado pelo então Presidente Francisco Pinto Bessa (1821-1878).
Foi demolido nos anos 60 do século XX para no local se erguer o Palácio da Justiça.

 

fig. 22 - Pormenor da Panorâmica. Com o nº 13 a Praça ou Mercado do Peixe.
Legenda
12. Igreja das Carmelitas
13. Praça do Peixe - Mercado do Peixe (c.1869). Entre a Praça da Cordoaria a nascente e a Rua dos Fogueteiros a poente.
14. Igreja da Graça (demolida em 1899)
15. Hospício dos Expostos

41. Casa Albuquerque, Rua dos Fogueteiros (Cooperativa Árvore)
42. Passeio das Virtudes


Na planta de 1865, está apenas referenciada a sua localização ao ar livre como Pescaria, e há ainda uma referência de 1869 no Código de Posturas Municipaes do Porto, que existe um Mercado ao Poente do Campo dos Martyres da Pátria (Novo Passeio Público) onde se vende peixe, carne verde e miúdos de boi, diariamente. [1]

 
fig. 23 - Pescaria Pormenor da Planta da Cidade do Porto contendo o Palacio de Christal, Nova Alfandega, e diversos melhoramentos posteriores a 1844 por F. Perry Vidal.


A fachada poente do Mercado de Peixe

 fig. 24 - Fotografia Alvão, Porto, Mercado de Peixe.


A fachada nascente para a Cordoaria do Mercado se Peixe.

fig. 25 - Fotografia Alvão Porto, Mercado de Peixe.


Mas com data de Agosto de 1871, Eça de Queiroz publica em As Farpas um texto em que descreve o edifício como concluído.

Nesse delicioso e divertido texto, de As Farpas e datado de Agosto 1871, que não resisto a publicar, Eça de Queiroz afirma o que deveria ser a arquitectura de uma praça de peixe e que o escritor havia visto em outra paragens (curiosamente será, posteriormente, assim construído o Mercado Ferreira Borges) comparando-a, de uma forma irónica, com a do edifício então construído na Cordoaria.

A honrada Câmara Municipal do Porto quis dotar a cidade com uma praça de peixe.
Nada mais higiénico, mais justo. De todo o tempo, nas grandes cidades, o peixe teve os seus aposentos definitivos, porque a vadiagem do peixe pelas ruas – fazendo concorrência à vadiagem dos filhos famílias – é sobremodo insalubre! Mas uma praça de peixe não é um teatro nem uma casa de banhos – nem mesmo um quartel. Tem uma arquitectura própria, condições especiais de ar, de luz, de água, etc….Assim, em toda a parte, as praças de peixe são uma construção ligeira, aberta e devassada pelos ventos, com leves colunatas de ferro sustentando um tecto de madeira ou de vidraça, lavadas por um perpétuo escorrer de água, cercadas de árvores…Enfim, um lugar são fresco, higiénico, livre, desinfectado.
Pois bem! A Câmara Municipal do Porto, com uma nobre solicitude pelo peixe, para quem parece ser uma extremosa mãe, e receando, com um carinho assustado, que o peixe se constipasse, ou sofresse a indiscrição dos vizinhos, construiu-lhe uma praça fechada, com altas e fortes paredes, varandas, gabinetes interiores, corredores, alcovas, casa bem reparada, quase um palacete. E tudo de tal modo tranquilo, aconchegado, confortável, que a Câmara hesita se há-de pôr ali peixes, se livros – e se fará daquilo um mercado ou uma biblioteca!
A nós parece-nos, que, com mais alguma despesa, a Câmara daria ao País o exemplo de uma grande dedicação pelo peixe! – Era mandar tapetar a praça, colocar nos recantos sofás, e não esquecer um piano. O peixe deslizaria aí dias de grande doçura: os robalos estariam deitados em divãs de seda: o polvo teria livrarias para se instruir! O comprador seria introduzido por criados de libré. A peixeira conduzi-lo-ia a uma alcova, com as janelas cerradas, ergueria os cortinados de um leito, e mostraria inocentemente adormecidas, sob uma coberta de damasco – duas pescadinhas-marmotas.
O comprador tiraria o chapéu comovido. E a peixeira, com lindos modos:
– Suas Ex.as recolheram-se tarde... São a 80 réis cada uma!

Ah! A Câmara tem decerto grandes planos!
Como estão bem feitas, rasgadas, esbeltas, as largas varandas de ferro da fachada da praça! Alguns malévolos riem. Mas nós sabemos que essas varandas na praça do peixe, tão amplas e cómodas, têm um destino que ninguém – a não ser inspirado pelas injustiças da inveja – poderá condenar.
Aquelas varandas são para que, aos domingos – o peixe venha tomar café para a janela! [2]


Talvez respondendo a este texto de Eça de Queiroz, Pinho Leal refere em 1875 a construção da Praça do Peixe e o novo edifício que um espirituoso jornalista contemporâneo, fallando d 'esta praça do peixe, a denominou palácio do peixe, recordando as péssimas condições de falta de higiene que o anterior local, chamado de Pescaria, então apresentava.

Escreve Pinho Leal:
Praça do Peixe. — Está situada no poente da rua Occidental do Jardim da Cordoaria, nos limites d'esta parochia de Miragaya, e occupa o chão denominado — os celleiros — por ter havido alli celleiros públicos, que mais tarde se transformaram em quartel de uma companhia de infanteria do corpo da guarda real de policia d'esta cidade (que foi substituído pela guarda municipal) e foi este quartel completamente devorado pelas chammas, em 19 de março de 1832, quando alli se achava também um destacamento de cavallaria, da mesma polícia, perecendo 7 pessoas e 15' cavallos.
Foi collocada com solemnidade e assistência da camará municipal, junta d'obras, etc, a primeira pedra d'esta praça no cunhal do angulo truncado (extremidade S.) da fachada principal, em abril de 1869, e n'ella uma lamina metallica, tendo gravada a inscripção seguinte, composta pelo muito digno e intelligente cartorário paleographo da camará, o sr. Antonio Justino Pereira: — Piscarium hoc Fórum, publicis expensis, a Portucalensi Município constituíam, anno millesimo octogentesimo sexagésimo nono, quarto Idus Aprilis, regnante Ludovico Primo.
E com esta lamina se collocaram também alli exemplares das moedas de prata e ouro, d'este reino, correntes n'aquella data; sendo presidente da camará, o sr. Francisco Pinto Bessa, deputado às cortes, etc.
Celebrou- se a abertura ou inauguração da dita praça com musica, bandeiras, fogo artificial e extraordinário concurso de visitantes, no dia 8 de março de 1874.
Um espirituoso jornalista contemporâneo, fallando d 'esta praça do peixe, a denominou palácio do peixe, pois em verdade tem a apparencia de um bonito palacete, emquanto que a antiga praça do peixe, e que estava no local que medeia entre a fachada principal da nova e a rua Occidental do Jardim, era a coisa mais immunda e mais humilde que imaginar-se possa, e o maior foco de infecção que havia na cidade. Mesmo dentro do jardim muitas vezes se não podiam supportar as suas pestiferas exhalações.
Reduzia- se a um simples telheiro, ou coberto, voltado para o nascente, sem divisão alguma, com bancas de pinheiro, encrustadas de immundieie, e uma dúzia de carunchosas barracas demadeira voltadas para o poente, entulhadas com fressuras, peixe salgado…e lixo.
O novo palácio do peixe é uma obra monumental, que recommenda o Porto. Tem a frente voltada para o jardim, e entesta pelo poente com a rua dos Fogueteiros, em terreno muito em declive, o que favorece os esgotos, e toma o chão que occupavam muitas casas, que foram expropriadas, da rua e travessa dos Fogueteiros. Pelo N. confina com a travessa dos Fogueteiros, e pelo S. com o hospício dos expostos.
Tem quatro pavimentos o edifício — um ao nivel da rua Occidental do Jardim, formando um lindo terraço (ainda em construcção) lageado a granito, tendo a meio uma ampla escadaria, que desce para o segundo pavimento ou terreiro, à face das soleiras das portas de entrada do corpo prinçipal, tendo este terreiro ao nascente 14 compartimentos destinados para carne de porco e peixe salgado, e ficando estes compartimentos debaixo do terraço do primeiro pavimento, e divididos pela escadaria em dois grupos de 7.
O corpo principal tem, na frente, ao centro, tres grandes portas, e uma em cada extremidade, com doze grandes janellas que occupam o restante da fachada, e na face N. cinco janellas eguaes, e dezoito, também eguaes, na face do poente.

Todo o vão d'este pavimento é coberto com telha sobre armação de ferro e madeira, formando 3 cumes sustentados por 16 columnas de ferro, e decoram a frente d’este corpo as armas da cidade e 4 pyramides de granito, primorosamente trabalhadas.
Na extremidade do S. deste pavimento ha uma larga escadaria de comunicação com o mercado das fressureiras, que fica em plano muito mais baixo, e tem 24 compartimentos voltados ao nascente sobre um terreiro descoberto, e a meio d'este, encostado ao muro de supporte do pavimento inferior, um chafariz com duas bicas.
Tem este mercado das frescuras 58m, de comprimento a nascente,— 61m,30 a poente, — 16m,80 ao sul,— e 16m, 10 ao norte. Total em metros quadrados 1075m,205 — E o corpo principal tem de comprimento ao nascente 58m — ao poente 59,20 — ao sul 126m,30 — e ao norte 30m,20. Total em metros quadrados, 1871m2,50.
Calcula-se em perto de 100 contos de réis o custo total da obra, comprehendendo as expropriações.  [3]


 fig. 26 - Foto Alvão. Interior do Mercado de Peixe

Finalmente Lady Jackson na sua A Formosa Lusitânia também descreve uma algo caótica Cordoaria de mercados e de carros de bois que os abastecem.

Passamos perto da igreja dos Clérigos, e do mercado de hortaliças, fructos e gallinhas; e também junto de outro onde se vendem panellas, cassarolas e outros objectos de barro, pannos de lã e algodão, fatos, meias e carapuças, fiado, nastros, botões, quadros e imagens de santos, crucifixos, vazos para agua benta, brinquedos de crianças, quekes, pão branco e broa, e milhares de outras couzas mais.
Eis-nos agora no bonito jardim da Cordoaria.
Do outro lado do nosso caminho, á sombra de grandes arvores, veem-se centenares de bois e uma chusma de carros rústicos, pertencentes a lavradores que vieram trazer ao principal mercado a producção das hortas e campos das visinhanças. Os bois são jungidos por uma comprida e forte peça de madeira que lhes passa sobre os cachaços, medindo cerca de um pé de alto, vazado ou esculpido em figurações fantásticas, com tufos de cabello ou cerdas ao correr do cimo, parecendo-se o seu tanto com uma escova. Bois de serviço são mais uzados no Porto que em Lisboa. Ordinariamente guiam-nos mulheres, que parecem aqui fazer quazi todo o serviço.
Homens e rapazes estão deitados no chão junto dos animaes que guardam, ou assentados em cestos ou tripeças comem o seu almoço. [4]



A Praça do Peixe na planta de Telles Ferreira de 1892


fig. 27 - A Praça do Peixe na planta de Telles Ferreira de 1892.

 
fig. 28 - Quadrícula 237 da planta de Telles Ferreira de 1892.


[1] Código de Posturas Municipaes do Porto, Imprensa Portugueza, rua do Almada, 161, Porto 1869.
[2] José Maria Eça de Queiroz (1845-1900), XXVII A praça de peixe do Porto, e o luxo da sua mobília Agosto 1871 de As Farpas in Uma Campanha Alegre Volume I, Lello & Irmão Editores, Porto 1979 (pág. 175 a 177). Todos os realces são da minha autoria.
[3] Augusto Soares de Azevedo Barbosa de Pinho Leal (186-1884), Portugal Antigo e Moderno…Em 12 volumes, Livraria Editora de Mattos Moreira Companhia Praça de D. Pedro 68, Lisboa 1873 e 1890. (V Volume 1875, pág.280 e 281).
[4] Catharina Carlota Lady Jackson, A Formosa Lusitânia. Versão do inglez. Prefaciada e anotada por Camillo Castelo Branco, Livraria Portuense Editora, Rua do Almada 121-123, Porto 1877. (pág.297).


Capela dos Ourives ou da Confraria de Santo Elói (n.º61)

Ainda um terceiro edifício que surge na Panorâmica (com o nº 61) e que nos permite considerar a data de 1871/72 para a execução da fotografia, é a Capela da Confraria de Santo Elói ou dos Ourives, uma pequena edificação adossada à Igreja de São Francisco, e que sabemos ter sido expropriada e mandada demolir pela câmara em 28 de Agosto de 1871 para o rompimento da Rua Nova da Alfândega, o que foi concretizado em 1872. [1]

Segundo Pinho Leal a Capela teria sido demolida em 1870, o que não é possível pela Panorâmica ora apresentada. Escreve Pinho Leal:

Também havia ao sul d'esta egreja, um capella com a invocação de Santo Eloy, que foi demolida em 1870 quando se abriu a rua da nova alfandega, rua que ainda hoje (maio de 1875) não se acha concluída. [2]



fig. 29 - Pormenor da Panorâmica. Com o n.º61 a capela da Confraria de Santo Elói ou dos Ourives.

Legenda


46. Convento de Santa Clara
       59.   Palácio da Bolsa
       60. Igreja de S. Francisco, Igreja da Ordem Terceira e Casa do Despacho
       61.    Capela da Confraria de St. Elói, demolida em 1872.
       62.   Igreja de S. Nicolau e entrada na rua dos Ingleses (rua do Infante D. Henrique)

A Capela ainda está assinalada junto da Igreja de S. Francisco na planta de Perry Vidal.


fig. 30 – A Capela dos Ourives assinalada na planta de 1865.


E numa panorâmica da Casa Alvão publicada em A Cidade do Porto na obra do fotógrafo Alvão de 1993.


fig. 31 – A Capela de santo Elói ao centro, junto à igreja de S. Francisco. Pormenor da fotografia da Casa Alvão publicada no álbum de 1993.


[1] A Capela foi reconstruída na Rua de Gondarém na Foz do Douro.
[2] Augusto Soares de Azevedo Barbosa de Pinho Leal (186-1884), Portugal Antigo e Moderno…Em 12 volumes, Livraria Editora de Mattos Moreira Companhia Praça de D. Pedro 68, Lisboa 1873 e 1890 (Volume 7, 1876, pág.406).



CONTINUA
Apontamentos sobre os edifícios e locais da cidade identificados na Panorâmica