[Nota importante –
Para conhecer a história, objectiva e documentada, do Gás e da Electricidade no
Porto é imprescindível consultar de Ana Cardoso de Matos (coordenadora), Fátima
Mendes e Fernando Faria, “O Porto e a Electricidade”, publicação do Museu da
Electricidade. EDP. 2003.]
As fontes de Energia no Porto
1.2. O Gás
“Nas nossas ruas, ao anoitecer,
Há tal soturnidade, há tal melancolia,
……………………………….….
O céu parece baixo e de neblina,
O gás extravasado enjoa-me, perturba-me”
Cesário Verde [1]
O Gás de cidade, em que o carvão era essencial
para a sua produção, foi largammente utilisado na segunda metade do século XIX
e nas primeiras décadas do século XX, mas, no Porto, foi sendo substituído pela
electricidade. O Gás nesta cidade, pouco utilisado para uso doméstico, serviu, contudo
para a iluminação pública.
A iluminação pública a gás
“Um fantástico véu cobria
as longas praças;
E o gás ria através da
grande cerração
Que em lágrimas descia ao
longo das vidraças
E em flocos de
alva neve humedecia o chão.”
Guilherme de
Azevedo [2]
No seu centro, a cidade iluminada pelo gás, nas suas ruas, edifícios públicos, nos estabelecimentos comerciais e em qualquer acontecimento mundano, criou a vida nocturna essa “orgia, ao longe, que em clarões cintila…” [3]
Figura 1 - Camille Pissarro (1830-1903) Boulevard Montmarte la nuit.1897. óleo s/ tela53,5 x 65cm. National Gallery Londres.
Dois quadros de Vincent van Gogh,
sensivelmente da mesma data mostram isso mesmo.
Figura 2 - Vincent van Gogh, Café terrasse la nuit (Place du Forum), c.1888, óleo s/ tela 80,7 x 65,3 cm. Kollektion des Kröller-Müller Museums.
Figura 3 - Vincent van Gogh (1853-1890), La Nuit étoilée 1888 óleo s/tela 72 x 92 cm. Musée
d’ Orsay. Paris.
Figura 4 - António Teixeira Carneiro Júnior
(1872-1930). Nocturno 1910. Óleo s/ tela
55 x 81,9 cm. Museu Nacional de Arte Contemporânea-Museu do Chiado.
Na cidade do Porto, em 1926 o gás, que nos finais
do século XIX era ainda a principal fonte da iluminação da cidade, estava
praticamente substituido pela electricidade.
O seu uso para consumo doméstico, ao contrário de
Lisboa, não teve grande aceitação, e foi, sobretudo utilizado, desde os meados
do século XIX, para a iluminação pública iniciada em 1855.
Em 1891 "o Porto dispõe já de mais de 2 500
candeeiros, instalando-se nesse ano mais 107 em toda a cidade e mais 42 de luz
intensiva entre a Batalha e os Clérigos, cabendo 40 destes candeeiros à Rua de
Santo António, Praça de D. Pedro e Rua dos Clérigos. Dez anos depois, há já
mais de 3 800 candeeiros colocados, registando-se um aumento significativo do
consumo particular."
Figura 5
Em Outubro de 1885, na recepção aos exploradores João Carlos de Brito Capelo (1831-1901) e Roberto Ivens (1850-1898), a Câmara Municipal (edifício demolido em 1916), bem como algumas ruas adjacentes, aparecem iluminadas a gás, como relata a revista O Occidente: “à noite iluminaram brilhantemente a gaz os edifícios da Câmara Municipal, da Associação Commercial, da Sociedade de Geographia e muitos outros estabelecimentos públicos e particulares.” [4]
Figura 6 - João Ribeiro Christino da Silva (1858 - 1948) (des.). Illuminação
dos Paços do Concelho. Gravura. publicada na revista O Occidente, de 21 de
Outubro de 1885. (pág. 240).
E O Occidente refere o aparecimento da luz
eléctrica:
“Do mesmo modo a rua Sá da
Bandeira, que estava vistosamente ornamentada, ostentou uma formosa illuminação
minhota e a de Passos Manuel resplandecia
à claridade intensa de duas grandes lâmpadas electricas.” [5]
Figura 7 - João Ribeiro Christino da Silva (1858 - 1948). (des.); Alberto
Caetano da Silva (1843–1924) (grav.).
As Illuminações na rua Sá da Bandeira
(desenho do natural por J. Christino). gravura publicada na revista O
Occidente, de 21 de Outubro de 1885. (pág. 240).
O gás de
cidade era produzido na Fábrica do Gás no Ouro pela Companhia de Gaz do Porto.
Destacavam-se
os grandes gasómetros, enormes e visíveis depósitos de acumulação de gás.
Figura 9 - Folha 129 da planta da cidade do Porto, à escala 1:500, levantada sob direção de Augusto Gerardo Telles Ferreira.
Os Gasómetros, como monumentais
símbolos da cidade industrial moderna no final do século XIX e início do século
XX, foram, também, tema da pintura em diversas cidades de vários países.
Figura 10 - Paul Signac (1863-1935), Le Gazometre de
Clidhy 1886. Óleo s/tela 65 x 81 cm. MNational Gallery of Vitoria Australia.
Figura 11 - Mario Sironi (1855-1961)
gazometro 1919. Óleo s/painel 100 x 70 cm Galleria d'Arte Moderna Milano
Figura 12
- Lyonel Feininger (1871-1956), Gasometer in Berlin-Schöneberg, 1912, óleo s/tela, 69
× 93,5 cm., Stadtmuseum, Berlim.
[1] Cesário Verde (1855-1886). O Sentimento de um
Ocidental. In O Livro de Cesário Verde 1873-1886. Typographia Elzeviniana
Lisboa 1887. (pág. 60).
[2] Guilherme Avelino Chaves de Azevedo
(1839-1882), Astro da rua in A Alma Nova 1874 (pág. 17 e 18).
[3] Camilo Pessanha (1867-1926), Clepsidra. Imprensa Nacional-Casa da Moeda Lisboa 2014. (pág.84).
[4] O
Occidente, 21 de Outubro de 1885 (pág. 240).
[5]
A rua Passos Manuel beneficiava já da existência de uma pequena central
eléctrica aí existente, como veremos no capítulo Electricidade.












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