quinta-feira, 11 de junho de 2026

Aspectos da cidade do Porto em 1926 3 II parte

 

[Nota importante – Para conhecer a história, objectiva e documentada, do Gás e da Electricidade no Porto é imprescindível consultar de Ana Cardoso de Matos (coordenadora), Fátima Mendes e Fernando Faria, “O Porto e a Electricidade”, publicação do Museu da Electricidade. EDP. 2003.]

 

As fontes de Energia no Porto

1.2. O Gás

 

“Nas nossas ruas, ao anoitecer,

Há tal soturnidade, há tal melancolia,

……………………………….….

O céu parece baixo e de neblina,

O gás extravasado enjoa-me, perturba-me

Cesário Verde [1]

 

O Gás de cidade, em que o carvão era essencial para a sua produção, foi largammente utilisado na segunda metade do século XIX e nas primeiras décadas do século XX, mas, no Porto, foi sendo substituído pela electricidade. O Gás nesta cidade, pouco utilisado para uso doméstico, serviu, contudo para a iluminação pública.  

 

A iluminação pública a gás

 

“Um fantástico véu cobria as longas praças;

E o gás ria através da grande cerração

Que em lágrimas descia ao longo das vidraças

E em flocos de alva neve humedecia o chão.”

Guilherme de Azevedo [2]

 

No seu centro, a cidade iluminada pelo gás, nas suas ruas, edifícios públicos, nos estabelecimentos comerciais e em qualquer acontecimento mundano, criou a vida nocturna essa orgia, ao longe, que em clarões cintila…” [3]


Figura 1 - Camille Pissarro (1830-1903) Boulevard Montmarte la nuit.1897. óleo s/ tela53,5 x 65cm. National Gallery Londres.

 Mas, nas periferias, a noite nas suas praças e ruas, era ainda carregada de penumbras e escuridões, apenas pontuadas pela fraca luz dos candeeiros de gás, por esta e aquela janela iluminada, e pela luz da lua e das estrelas em noites limpas.


Dois quadros de Vincent van Gogh, sensivelmente da mesma data mostram isso mesmo.



Figura 2  - Vincent van Gogh, Café terrasse la nuit (Place du Forum), c.1888, óleo s/ tela 80,7 x 65,3 cm. Kollektion des Kröller-Müller Museums.



Figura 3 - Vincent van Gogh (1853-1890), La Nuit étoilée 1888 óleo s/tela 72 x 92 cm. Musée d’ Orsay. Paris.

 


António Carneiro, no princípio do século XX pinta alguns nocturnos.


Figura 4 - António Teixeira Carneiro Júnior (1872-1930).  Nocturno 1910. Óleo s/ tela 55 x 81,9 cm. Museu Nacional de Arte Contemporânea-Museu do Chiado.

 

Na cidade do Porto, em 1926 o gás, que nos finais do século XIX era ainda a principal fonte da iluminação da cidade, estava praticamente substituido pela electricidade.

O seu uso para consumo doméstico, ao contrário de Lisboa, não teve grande aceitação, e foi, sobretudo utilizado, desde os meados do século XIX, para a iluminação pública iniciada em 1855.

Em 1891 "o Porto dispõe já de mais de 2 500 candeeiros, instalando-se nesse ano mais 107 em toda a cidade e mais 42 de luz intensiva entre a Batalha e os Clérigos, cabendo 40 destes candeeiros à Rua de Santo António, Praça de D. Pedro e Rua dos Clérigos. Dez anos depois, há já mais de 3 800 candeeiros colocados, registando-se um aumento significativo do consumo particular."


Figura 5
 – Projectos para candeeiros a gás no Porto. 1. Reprodução de um projecto de candeeiros e consolas para a iluminação pública a gás no Porto, 1854. 2. Desenho de um candeeiro público, de 1855. 3. – Candeeiro de iluminação a gás 18??. Desenho de projeto para candeeiro de iluminação pública. Escala: ca. 1:8. AHMP.

 

Em Outubro de 1885, na recepção aos exploradores João Carlos de Brito Capelo (1831-1901) e Roberto Ivens (1850-1898), a Câmara Municipal (edifício demolido em 1916), bem como algumas ruas adjacentes, aparecem iluminadas a gás, como relata a revista O Occidente: “à noite iluminaram brilhantemente a gaz os edifícios da Câmara Municipal, da Associação Commercial, da Sociedade de Geographia e muitos outros estabelecimentos públicos e particulares.” [4]



Figura 6 - João Ribeiro Christino da Silva (1858 - 1948) (des.). Illuminação dos Paços do Concelho. Gravura.  publicada na revista O Occidente, de 21 de Outubro de 1885. (pág. 240).

 

E O Occidente refere o aparecimento da luz eléctrica:

“Do mesmo modo a rua Sá da Bandeira, que estava vistosamente ornamentada, ostentou uma formosa illuminação minhota e a de Passos Manuel resplandecia à claridade intensa de duas grandes lâmpadas electricas.” [5]



Figura 7 - João Ribeiro Christino da Silva (1858 - 1948). (des.); Alberto Caetano da Silva (1843–1924) (grav.). As Illuminações na rua Sá da Bandeira (desenho do natural por J. Christino). gravura publicada na revista O Occidente, de 21 de Outubro de 1885. (pág. 240).

 

O gás de cidade era produzido na Fábrica do Gás no Ouro pela Companhia de Gaz do Porto.

Destacavam-se os grandes gasómetros, enormes e visíveis depósitos de acumulação de gás.


 


Figura 8
 Figura 8 - Porto – Fábrica do gaz. Postal 165 Editor Alberto Ferreira P. da Batalha Porto AHMP.

 


Figura 9 - Folha 129 da planta da cidade do Porto, à escala 1:500, levantada sob direção de Augusto Gerardo Telles Ferreira.

Os Gasómetros, como monumentais símbolos da cidade industrial moderna no final do século XIX e início do século XX, foram, também, tema da pintura em diversas cidades de vários países.

 


Figura 10 - Paul Signac (1863-1935), Le Gazometre de Clidhy 1886. Óleo s/tela 65 x 81 cm. MNational Gallery of Vitoria Australia.


Figura 11 - Mario Sironi (1855-1961) gazometro 1919. Óleo s/painel 100 x 70 cm Galleria d'Arte Moderna Milano

 



Figura 12 - Lyonel Feininger (1871-1956), Gasometer in Berlin-Schöneberg, 1912, óleo s/tela, 69 × 93,5 cm., Stadtmuseum, Berlim.

 Curiosamente na cidade do Porto e ao contrário dos edifícios e das pontes metálicas, os gasómetros e a fábrica de gás, foram apenas fotografados, não sendo (por mim) conhecidas pinturas das fábricas de gás do Porto ou de Lisboa.



[1] Cesário Verde (1855-1886). O Sentimento de um Ocidental. In O Livro de Cesário Verde 1873-1886. Typographia Elzeviniana Lisboa 1887. (pág. 60).

[2] Guilherme Avelino Chaves de Azevedo (1839-1882), Astro da rua in A Alma Nova 1874 (pág. 17 e 18).

[3] Camilo Pessanha (1867-1926), Clepsidra. Imprensa Nacional-Casa da Moeda Lisboa 2014. (pág.84).

[4] O Occidente, 21 de Outubro de 1885 (pág. 240).

[5] A rua Passos Manuel beneficiava já da existência de uma pequena central eléctrica aí existente, como veremos no capítulo Electricidade.

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