Vãos e janelas 2
René Magritte (1898-1967) La clef des champs1936.
Óleo s/ tela 80 x 60 cm. Museo Nacional Thyssen-Bornemisza,
Madrid.
“Olha
por tantas janelas
só
em espelho está a olhar
mais
vê, aí, seu coração:
que
o mar é lágrimas e luar.”
João
Guimarães Rosa [1]
“Strana cosa una finestra!
Può essere sia ciò che divide, sia ciò che è diviso,
secondo che l’attenzione si
fermi sul telaio o sul paesaggio.
Impossibile d’altra parte
non pensare ad una prigione e
a tutti gli stati d’animo che
sono propri della prigioni.”
Alberto Moravia [2]
Basta uma fresta por onde brota luz
flutuante e se esvanece pela parede
lúcido instante que corrompe a treva
resplandece claridade moendo sede
fenda aberta e moldura de paisagem
poeira escondida onde a imaginação
aberta para o dia
dos que espremem
o ruído ingénuo cansado da multidão
as janelas nos espiam todo o tempo
quadro onde jaz um canto do mundo
resumo estranho apenas do momento
gesto enigmático circulante e obscuro
janela estilhaçada em gesto profundo
espelho irreal
esconde abismo escuro
[1]
João Guimarães Rosa (1908-1967), o Aloprado
do livro Ave, palavra (1970 póstumo). Nova Fronteira,
6ª ed., Rio de Janeiro: 2009. (pág.66).
[2] Estranha coisa, uma janela! Pode ser o que divide, como o que é
dividido,
conforme a atenção se
detenha na tela ou na paisagem.
Impossível, por outro lado,
não pensar numa prisão e
em todos os estados de alma
que são próprios das prisões.
Alberto Moravia (1907-1990)
Finestra aperta (1941) in l’epidemia, racconti surrealisti e satirici Editorial:
Bompiani, Milano 1956

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