sexta-feira, 3 de abril de 2026

O Rosto da Cidade VIII

 O Rosto da Cidade na pintura do século XX

 

fig. 1 – Domingos Pinho (1937-2024), sem título in 21 Retratos do Porto para o Século XXI. ASA Editores S. A. Porto 2004. (pág. 93).

 

O 25 de Abril de 1974 e o Rosto da Cidade

 

um dia passamos numa cidade do norte / e alguém nos falou de um sítio que estava a degradar-se...

(...) “do urbanismo e trabalho / comoveu-nos aquela / presença da razão a organizar um espaço / artesanal e antigo…”  Vasco Graça Moura [1]

 

o Cruarb

Logo após o 25 de Abril, a escandalosa situação das freguesias ribeirinhas do Porto, impuseram a necessidade de uma enérgica intervenção.

 A par do Saal (Serviço ambulatório de apoio local) foi criado o CRUARB – (Comissariado para a Renovação Urbana da Área Ribeira-Barredo) [2] cujo objectivo era intervir na área degradada da Ribeira/Barredo. A sua direção e coordenação competiam a um comissário, e beneficiando de um conjunto de condições de actuação - financiamento do Estado, autonomia da Câmara Municipal do Porto, possibilidades de expropriação por utilidade pública (decreto  276/75), esta operação rapidamente teve uma actuação que lhe permitiu intervir na zona ribeirinha da cidade.

Nesse início da sua actividade um conjunto de arquitectos a trabalhar (no e com) o Cruarb procurou delinear uma teoria global e uma estratégia que desse um suporte operacional e urbano a toda a operação.

Essa teorização, cujos contributos mais interessantes foram, do ponto de vista metodológico e do projecto, o alargamento do conceito de património a conservar e a recuperar a todo o construído e uma actuação - sem complexos - de integração entre moderno e antigo lembrando o Grupo 7 italiano que em 1926 já exprimia esta preocupação:

“Entre o nosso passado e o nosso presente não existe incompatibilidade Nós não queremos romper com a tradição: é a tradição que se transforma, assumindo novos aspectos, sob os quais poucos a reconhecem.”  [3]

No Antigo, integrando elementos qualquer que fosse a data da sua realização, mesmo recentes, e que fizessem parte do património colectivo da população.

No Moderno, quer nos usos das tecnologias construtivas modernas, sempre que necessárias e sem prejuízo das tecnologias tradicionais, quer no desenho e na formalização, evitando-se os "pastiches" e mesmo as "réplicas", contrariando aqueles para quem a conservação e a recuperação do património não é mais do que um alibi, para encobrir a recusa a enfrentar o futuro e máscara de ausência de projectos criativos.

A preocupação de integrar a zona na cidade - já que a sua marginalização era uma das causas, não menores, da sua degradação - conduziu à consideração da operação "como uma intervenção pontual", mas que "podia representar um ponto de partida para uma actuação global que promova uma nova forma de pensar e de actuar na cidade" [4].

Entendendo esta no seu sentido mais amplo e que "o centro histórico adquira o seu direito de cidade e nela se integre naturalmente, sem constituir guetos visitados por turistas, arrabaldes de cidade terciária ou reserva de futura especulação".[5]

Em 1977 a zona de intervenção foi alargada [6] abrangendo a área correspondente à muralha medieval (as freguesias de S. Nicolau, Miragaia, Sé e Vitória).

Esta situação manteve-se até1979, quando o Cruarb se torna departamento da Câmara Municipal do Porto.

Em 1996 o Centro Histórico do Porto é classificado como Património Cultural da Humanidade pela UNESCO.

Em 2003, no seguimento da intervenção do Porto capital da Cultura, para dinamizar a intervenção incluindo a área central da cidade (a Baixa do Porto), a CMP extingue o Cruarb e cria a Porto Vivo – Sociedade de Reabilitação Urbana.

Não importa aqui fazer qualquer balanço crítico das intervenções sociais e arquitectónicas no conjunto edificado a que chamamos o Rosto da Cidade.

Por isso destacamos, um estudo de Álvaro Siza, uma intervenção que dava esse sentido urbano a uma intervenção arquitectónica.

 



[1] Vasco Graça Moura (1942-2014), um dia passamos numa cidade do norte. in instrumentos para a melancolia com 3 desenhos de José Rodrigues. O Oiro do Dia. Porto Setembro 1980 (pág. 107). E em Vasco Graça Moura, poesia reunida. Vol. I 1962-1997. Quetzal Editores Lisboa 2012. (pág. 212).

[2] Despacho conjunto dos Ministérios da Administração Interna e do Equipamento Social e do Ambiente, de 28 de setembro de 1974, nos termos do Decreto-Lei n.º 315/74 de 9 de Julho.

[3] Tra il passato nostro e il nostro presente non esiste incompatibilità. Noi non vogliamo rompere con la tradizione: è la tradizione che si trasforma, assume aspetti nuovi, sotto i quali pochi la riconoscono. Gruppo 7, Architettura I, in “La Rassegna Italiana”, dicembre 1926.

[4] “Relatório da Equipa de Projectistas" apresentado ao Comissário em 1975

[5] idem

[6] Decreto Regulamentar, n.º 54/85 de 12 de Agosto.



Álvaro Siza

 “Um sítio vale pelo que é, e pelo que pode ou deseja ser  -   -     coisas talvez opostas, mas nunca sem relação.”  Álvaro Siza [1]

 Desses arquitectos que inicialmente colaboraram com o Cruarb, Álvaro Siza um dos autores daquele “relatório”, lembra que “Depois do 25 de Abril conseguimos intervir no interior de um movimento de transformação muito importante. Não se tratava de um problema de mudança de método ou de pensamento, significava ter a possibilidade de realizar um trabalho prático com toda a riqueza que pode ter o contacto quotidiano com uma realidade em contínua transformação. Não fomos nós que mudámos, mas as condições do nosso trabalho.”   [2]

 

Álvaro Siza, em 1976 esboça um conjunto de desenhos do Rosto da Cidade, para projectar uma intervenção no largo da Lada na Ribeira, um estudo, procurando reconstruir os percursos e as memórias dos edifícios destruídos pela construção do túnel rodoviário.



fig. 2 - Álvaro Siza (n. 1933), Barredo Abril 1976 in 21 retratos do Porto para o século XXI Edições Asa Porto 2004.

 Siza propunha uma linguagem ("Le plus difficile pour ce projet a été de trouver le langage” [3]), recusando qualquer "pastiche", (de) mostrando como era possível integrar uma realização moderna no contexto histórico. Infelizmente e irresponsavelmente este estudo não teve continuidade, por incompreensão dos, então, responsáveis do CRUARB.


fig. 3 - - Álvaro Siza (n. 1933), esquisso para o Largo da Lada. Barredo 1976.

 


[1] Álvaro Siza, Oito pontos de Quaderns d’Arquitectura i Urbanisme n.º 159 Out.Dez. 1983. In Álvaro Siza, – Textos Álvaro Siza, edição de texto por Carlos Campos Morais, Civilização Editora, rua Alberto Aires de Gouveia, 27. Porto 2009. (pág. 27).

[2] Álvaro Siza. entrevista à A. M. C., n.º 44, 1978.

[3] O mais difícil neste projecto foi encontrar a linguagem. Álvaro Siza.


O Rosto da Cidade como imagem turística do Porto

O conjunto das (mais felizes ou menos conseguidas) intervenções do Cruarb; a relação urbana das recuperações do centro histórico; a valorização dos edifícios e dos espaços públicos monumentais; a classificação de Património da Humanidade; a relação com o rio Douro, agora com novas actividades, e a integração europeia, provocaram um aumento do Turismo – cada vez mais com um papel determinante na economia da cidade – tornando a cidade do Porto um destino atractivo, para o turismo de lazer e cultural.

E assim “Devagar, como se tivéssemos que a ajustar à nossa memória os lugares já doutra vez encontrados, mas em que não puséssemos nem pensamento nem paixão, eis-nos a reconhecer a cidade.” [1]

Esse reconhecimento da cidade como exemplar destino turístico, e a sua promoção com os indispensáveis meios de publicidade, provocaram que o Rosto da Cidade regressasse como tema da Pintura, da Fotografia, do Cartaz e da Ilustração, criando aliás um mercado para essas obras.  E como em 1907 escrevia Zacharias d’Aça:

“É a paizagem, o que hoje mais avulta em todas as exposições de arte. Os modelos estão em toda a parte, ao alcance de todos, firmes nos mesmos logares, e, suprema vantagem, mantêm a mesma posição, conservam indefinidamente a pose, e são de graça.” [2]

O Rosto do Porto na Pop-Art

Se a Pop-Art fora criada em Inglaterra e nos Estados Unidos nos anos 60, é sobretudo nos anos seguintes que em Portugal se desenvolve, como contestação do regime e após o 25 de Abril como crítica da sociedade capitalista e de consumo.

Tom Wesselmann

“Toda pintura é um facto, e isso basta: as pinturas são carregadas da sua própria presença. A situação, as ideias físicas, a presença física.”  Tom Wesselmann [3]

Tom Wesselmann (1931-2004), que não se considerava um artista Pop, utiliza a imagem do Porto, do Rosto da Cidade, numa pintura do início da série intitulada Great American Nude realizada entre 1961 e 1973.

A pintura de Tom Wesselmann, recuperava e criticando, os ícones dos grandes painéis publicitários que visavam o aumento do seu consumo.

Mas Tom Wesselmann, procurava criar imagens que pela sua estrutura formal e plástica, criassem a sua própria personalidade artística.


A pintura nº 10 da série intitulada Great American Nude.
 


 
fig. 4-  Tom Wesselmann (1931–2004), Great American Nude no. 10, 1961, óleo e colagem de papel sobre madeira, 120.,7 x 120,7 cm. Colecção particular.

O quadro inscreve-se num círculo, dividido em três faixas horizontais.

Duas pintadas com tons vibrantes de vermelhos, brancos e azuis. Na faixa superior surge a colagem de uma fotografia da cidade do Porto, o cliché por excelência do Porto, a imagem do Rosto da Cidade do Porto, esta cidade tão masculina.” [4] provavelmente uma imagem de um cartaz ou de uma revista, como habitualmente fazia Tom Wesselmann, para criticar a cultura de consumo.

 

fig. 5 - Pormenor Tom Wesselmann (1931–2004), Great American Nude no. 10, 1961.

Na faixa central uma figura feminina deliberadamente lembrando Matisse, nua e numa pose lânguida e estilizada, sobre um fundo azul marinho, que imediata e publicitariamente chama docemente a nossa atenção, deslocando-a para uma dimensão impalpável e convidativa.

fig. 6 - Pormenor Tom Wesselmann (1931–2004), Great American Nude no. 10, 1961.

 Na faixa inferior, onde se reclina a figura feminina, uma vaga sugestão da bandeira americana, tanto ao gosto das referências patrióticas dos artistas da Pop-Art.


[1] Agustina Bessa Luís, A Muralha. Guimarães Editores Lisboa 1957. (pág. 42).

[2] Zacharias d’Aça (1838-1908) in Lisboa Moderna, Livraria Editora Viúva Tavares Cardoso, Lisboa 1907. (pág. 328)

[3] Tutta la pittura è un fatto, e cio è sufficiente: i dipinti sono carichi della loro stessa presenza. La situazione, le idee fisiche, la presenza física. Tom Wesselmann citado por Achille Bonito Oliva, Figure americane, in PopArt evoluzione di una generazione. Electa Editrice Milano 1980. (pág.182).

[4] Eugénio de Andrade, escrevendo sobre Pedro Homem de Mello e citando o poema Divórcio do livro "Grande, Grande Era a Cidade..." in O Tripeiro 7ª Série, Ano XXV, Número 1 Janeiro de 2006.


O Rosto do Porto em Rodrigo Cabral

 « Tempora mutantur, nos et mutamur in illis »  Ovídio [1]

 Rodrigo Cabral é um artista cívica e politicamente engagé, com uma permanente atitude crítica e denunciadora, procurando neste período da sua pintura sublinhar, ironicamente os objectos banais ou “kitsch”, desmitificando a sua promoção pelo consumismo e pelo conformismo social, sem nunca perder, contudo, a dimensão plástica e estética da pintura.

Uma pintura que não quer ser interrogada, mas que quer interrogar.

Uma pintura que mostra e interroga os, então, símbolos e mitos, da cidade do Porto. O futebol, o vinho do Porto, ou do país como o Galo de Barcelos e mesmo a bandeira nacional.

fig. 7  - Rodrigo Cabral “Pipa Voadora” 1983. acrílico s/ tela 95 x 70 cm.cm. Col. particular.

O quadro sobre um fundo dividido em faixas e em que domina a cor azul, tem rigorosamente ao centro e atraindo a atenção do espectador a figura de um jogador de futebol cavalgando uma pipa, voando sobre o Rosto da cidade do Porto.

A figura central do quadro cavalga uma pipa com as mitológicas asas da Fama, de onde escorrem, sobre a cidade, num apontamento inesperado, poético e surrealista, uvas brancas como as uvas da alegria.” [2] 

Na pipa está escrito Real Companhia Velha, remetendo para a história centenária do Vinho do Porto que, a partir do século XVIII - daí a paisagem da cidade que figura no quadro - com a criação da Real Companhia das Vinhas do Alto Douro, se tornou uma das bases da economia da cidade e natural componente da sua identidade.

Por isso a pipa bate as asas da Fama exportando-se do Porto para o mundo.

 "Vinho do Porto

Vinho de Portugal

E vai à nossa
À nossa beira-mar
À beira Porto
Há vinho Porto mar
Há-de haver Porto
Para o nosso mar”
[3]

 Um desses países era (e é) o Brasil. Brasil onde uma pipa voadora é o que nós chamamos de papagaio de papel com que brincámos nas praias.

 Na base do quadro um perfil da cidade naquela hora onde uma transcendência de melancolia paira e comove-nos”. [4]  

Sob um céu onde “um pouco das sombras serenas / que as nuvens transportam por cima do dia”, [5] surgem nuvens douradas quando o sol se põe e ilumina o Porto, a cinzenta cidade de granito que aqui se quer setecentista, portuária e atlântica, já que nela sobressai o símbolo que é a Torre dos Clérigos simultaneamente austera e exuberante, junto do Paço Episcopal, que irrompe subitamente branco no seu reboco, ocultando a Sé onde apenas as suas bolbosas Torres se erguem no seu granito escurecido.

O perfil da cidade apresenta-se como um cartaz podendo servir para uma promoção de um qualquer evento na cidade ou mesmo para a promoção da cidade do Porto.



fig. 8 – O Perfil da Cidade. Pormenor da pintura Pipa Voadora de Rodrigo Cabral.

 Na parte superior do quadro, os emblemas dos outros dois clubes da cidade com êxitos desportivos, o Boavista Futebol Clube e o Sport Comércio e Salgueiros (agora despromovidos) e mais abaixo o emblema do FCP parcialmente representado.

Todos estão assombrados pela silhueta colorida do Galo de Barcelos.

Evocando a revolucionária irreverência que então se afirmava contra a austera e retrógrada sociedade portuguesa, no lugar da cabeça do futebolista surge uma referência simétrica ao logotipo Tongue ou Hot Lips da banda inglesa Rolling Stones, uma provocadora língua de fora às reumáticas convenções sociais e artísticas que persistiam no Portugal de então.

Destes barros de Barcelos, o galo, animal carregado de múltiplos e muito antigos simbolismos.

Rodrigo Cabral utiliza-o na sua figuração mais turística, nesta e em outras pinturas desta época, por vezes colando pequenos Galos de Barcelos na parte superior dos seus quadros, como uma crítica ao uso e ao abuso do Galo como símbolo de Portugal.

“ó Portugal, se fosses só três sílabas
de plástico, que era mais barato!”
[6]
 

A Bandeira Nacional, como o tema entre todos o mais reconhecível, é um dos temas utilizados pela Pop Art nomeadamente Jasper Jonhs (1930) com a sua série de Bandeiras dos Estados Unidos realizada a partir de 1951.

 Na verdade, a pintura A Pipa Voadora de Rodrigo Cabral, vista nos nossos dias parece uma visão precoce dos símbolos e dos mitos da cidade e de Portugal.

O Vinho do Porto agora acompanhado pelos vinhos de mesa do Douro tornou-se de novo um dos valores seguros da economia da cidade.

A zona histórica do Porto foi promovida, em 1996, a Património da Humanidade e a Torre dos Clérigos, é agora o símbolo por excelência da cidade.

O Galo de Barcelos, nas suas diversas variantes, e apesar das suas origens, tornou-se o símbolo da cidade de Barcelos e o mais identificador de Portugal. É o mais procurado objecto de artesanato pelos turistas mesmo pelos que visitam a cidade do Porto.

O Futebol hoje tornou-se global e como cultura dominante no nosso país é um obsessivo tema da comunicação social em jornais e programas diários na rádio e na televisão. E o F.C. do Porto, depois das vitórias europeias e nacionais, por vezes com alguma intolerância desportiva, foi sendo associado à cidade como um dos elementos da sua internacionalização.

A Bandeira Nacional só se tornou um símbolo verdadeiramente popular com a sua exibição por todo o país, durante o Campeonato Europeu de Futebol, realizado em Portugal em 2004.



[1] Os tempos mudam e nós mudamos com eles. Citação em latim, inspirada em Ovídio e popularizada no século XVI, in Adolf Loos (1870-1933), Paroles dans le vide (1897-1900) tradução em francês de C. Heim, Ivréa, Paris, 1994. Como no célebre soneto de Camões: Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades…

[2] Carlos (Manuel de Marques) Paião (1957-1988), Vinho do Porto, vinho de Portugal, com Cândida Branca Flor (1949-2001) EMI (Electric and Musical Industries Ltd.) 1983.

[3] Carlos (Manuel de Marques) Paião (1957-1988), Vinho do Porto, vinho de Portugal, com Cândida Branca Flor (1949-2001) EMI (Electric and Musical Industries Ltd.) 1983.

[4] Agustina Bessa-Luís, A Muralha, Guimarães editores Lisboa 1957. (pág. 41)

[5] Cecília Meireles, Murmúrio in Viagem Poesia 1929-1937. Edições Ocidente Editorial Império Lisboa 1940. (pág. 33). Versão para eBook eBooksBrasil.com. Março 2006.

[6] Alexandre O'Neill, in Feira Cabisbaixa, Editora Ulisseia, Lisboa1965. (pág.211).

O regresso da pintura ao Rosto da Cidade
Algumas pinturas e alguns artistas

““houve pintores do porto

que inventaram assim

para seu uso o porto,…” [1]

 Cesar Netto

  “ o nevoeiro se dissipa / Quando o sol sobe sobre o rio, / E há farrapos de coisas que começam // A fazer sentido /E voam pombos em espiral / Pelo topo dos casarios.”  [2]

 

fig. 9  – Cesar Netto (n.1944), Neblina na Ribeira 1984. Óleo s/tela, espatulado s/dim. Col. particular.

 A pintura de César Netto (n.1944) está centrada na praça da Ribeira que como “Um buraco negro "aspira" todos os buracos negros, todos os olhos, todos os rostos, enquanto a paisagem é um fio que se enrola até à sua extremidade em torno do buraco.” [3]

 

António Bessa


E por vezes, no Rosto da Cidade, com as suas sombras negras e douradas” [4] a ponte esconde-se na vela de um rabelo, para mostrar o rio e a cidade aguarelados em azul e ouro.


fig. 10 –  António Bessa (n. 1953), Ribeira. António Bessa Facebook

 

Dois desenhos de arquitectos: António Moura e Gerard Michel

“Não há um rosto que não envolva uma paisagem desconhecida, inexplorada, não existe uma paisagem que não seja povoada por um rosto amado ou sonhado, que não desenvolva um rosto ainda por vir ou já passado.”  [5]

António Moura


 António Moura trabalhou no Cruarb durante largos anos e por isso conhece muito bem a Ribeira e o Centro Histórico do Porto.

 


fig. 11 – António Moura, Da Ribeira até à Sé.1984. Desenho aguarelado. s/dim. António Moura, Facebook 17/03/2015.

Dos inúmeros desenhos que produziu sobre o Porto e a sua zona ribeirinha, destaca-se esta aguarela, em que o autor não procura um desenho pormenorizado do alçado da cidade, mas sobretudo evocar o seu ambiente, a sua luminosidade, a sua cor. E Tudo isto, porém, tudo isto, de novo eu refiro ao Ar / Pois toda esta Beleza ondeia lá também.” [6]

Gerard Michel

“Que respiração tão alta da brisa fluvial!
Afluem energias de uma violência suave
Minúcias musicais sobre um fundo de brancura
A certeza de estar na fluidez animal” 
[7]

fig. 12 Gerard Michel (n.1946) Porto 23-03-2012.

No desenho do Porto de Gérard Miche (n. 1946), o olhar seco e rigoroso com que o arquitecto desenha, numa grafia minuciosa nos seus detalhes, a colina da Sé, é interrompido pela pincelada, gesto verde e informal, que cria a sombra da ponte caindo sobre o Douro, dando ao desenho uma profundidade que humaniza o Rosto da Cidade.

 

 Vasco d’Orey Bobone

“Oh! cidade, cidade, que trasbordas
De vícios, de paixões e de amarguras!”   
Alexandre Herculano  [8]

 Vasco d’Orey Bobone (n.1944), um pintor de visita ao Porto, pinta o Porto, como nota Agustina Bessa-Luís “…levemente (…) desmaia da sua sombra, como alguém que sorri não sabendo bem o que isso é.”  [9].

 

 

fig. 13 – Vasco d’Orey Bobone () (vista do Douro) 2003. Aguarela in Espírito do Porto (pág. 43).

Vasco d’Orey Bobone aguarelou os recantos mais significativos da cidade, entre os quais esta vista panorâmica do Douro entre o Porto e Gaia "Dois rostos frente a frente, mas de perfil para o observador, cujo encontro já está marcado por uma separação ilimitada. Ou então rostos que se evitam, pela traição a que os levaram." [10]

 

Joaquim Costa

 Um regresso à consolidada imagem do Rosto da Cidade, vista do miradouro da Serra do Pilar.



fig. 14 – Joaquim Costa (n.1958) Vista do Porto Facebook

 Para terminar citemos Alberto Savinio [11]

 “Na fachada dos edifícios não está apenas inscrita a data da sua construção, mas os estados de espírito, os costumes e os pensamentos mais secretos do seu tempo.” [12]

O que Alberto Savinio escreve sobre a fachada dos edifícios pode estender-se à fachada de uma cidade ou a estas imagens do Porto, o Rosto da Cidade.



[1] Vasco Graça Moura, poesia reunida. Vol. I 1962-1997. Quetzal Editores Lisboa 2012. (pág. 413)

[2] Vasco Graça Moura, XIII, o sol sobre o rio, o concerto campestre poesia reunida. Vol. I 1962-1997. Quetzal Editores Lisboa 2012. (pág. 417).

[3]  Un trou noir « accrête » tous les trous noirs, tous les yeux, tous les visages, en même temps que le paysage est un fil qui s'enroule à son extrémité finale autour du trou. Gilles Deleuze (1925-1995) e Felix-Pierre Guattari (1930-1992), Mille Plateaux. Les éditions de minuit, Paris 1980.  (pág. 224).

[4] Vasco Graça Moura, poesia reunida. Vol. I 1962-1997. Quetzal Editores Lisboa 2012. (pág. 212)

[5] Pas un visage qui n 'enveloppe un paysage inconnu, inexploré, pas de paysage qui ne se peuple d'un visage aimé ou rêvé, qui ne développe un visage à venir ou déjà passé. Gilles Deleuze (1925-1995). Felix-Pierre Guattari (1930-1992), Mille Plateaux. Les éditions de minuit, Paris 1980.  (pág. 212).

[6] Mário Sá-Carneiro, Manicure. Poemas sem Suporte in ORPHEU 2 Ática S.A.R.L. Lisboa 1979 (pag.29).

[7] António Ramos Rosa (1924-2013), Vive-se quando se vive a substância intacta in António Ramos Rosa Obra poética. vol. II. Assírio & Alvim – Porto Editora. Porto 2020. (pág.42).

[8] Alexandre Herculano, A Arrábida (1930) in A Harpa do Crente. Tentativas poéticas. Na Typ. Da Sociedade Propagadora dos Cinhecimentos Uteis. Lisboa1838 (pág. 56)

[9] Agustina Bessa-Luís, Aguarelas – o Porto in Espírito do Porto Global Notícias 2004. (pág. 6).

[10] Deux visages face à face, mais de profil pour l 'observateur, et dont la réunion se trouve déjà marquée d'une séparation illimitée. Ou bien les visages qui se détournent, sous la trahison qui les emportent. Gilles Deleuze (1925-1995). Felix-Pierre Guattari (1930-1992), Mille Plateaux. Les éditions de minuit, Paris 1980. (pág. 224).

[11] Andrea Francesco Alberto de Chirico (1891-1952), escritor, pintor e compositor. Era o irmão mais velho do pintor Giorgio De Chirico.

[12] Sulla facciata degli edifici non è scritta soltanto la data della loro nascita, ma sono scritti gli umori pure, i costumi i pensieri più segreti del loro tempo.» Alberto Savinio (1891-1952) Ascolto il tuo cuore città, (1944) 6ª ed. Adelphi, Milano 2013, (pág, 215).