Mostrar mensagens com a etiqueta poemas. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta poemas. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 13 de janeiro de 2025

poemas recuperados 35






Giorgio de Chirico (1888-1978), “The Evil Genius of a King,” Paris 1914–1915, óleo s7tela 61 x 50,2 cm. MoMA Museum of Modern Art, N.Y.


inventário 2

Onicocriptose

 

uma ruína caída em esquecimento

uma repentina curva num percurso

um espectador isento sem assento

um arabesco estranho por impulso

 

um esmorecido ânimo já cansado

um perigo com um aviso ignorado

um presságio de bloqueio adiado

um mal-estar de sorriso cambado

 

uma arenga tão insípida e dilatada

um arguido em liberdade malcriada

uma angústia pela seca prolongada

uma mais valia de sucesso elevada

 

uma discussão política desajeitada

uma incerteza pela lei ser aprovada

uma sucata de viatura abandonada

e um poema nesta unha encravada

 

 

 

terça-feira, 19 de novembro de 2024

poemas curtos 8

 

Dois poemas curtos sobre a cidade

 

“Ei-la a cidade prometida

esperamos por ela tanto tempo

que tememos olhar o seu perfil exacto

flor da raiz que somos

meu amor.” Daniel Filipe *

 

 

Para recordar e prever

 

secreta e inebriante esperança

memoria vertiginosa desta cidade

 

Aqui nasci para tudo ver

 

Cidade dormente por entre frescura amena

coberta de pesar por estas casas em ruina

 

 *Daniel (Damásio Ascenção) Filipe (1925-1964), Canto e lamentação da cidade ocupada 1. In A invenção do amor e outros poemas (1961) 2ª edição Colecção Forma Editorial Presença 1972 (pág. 27).


Nadir Afonso (1920-2013) Praça da <liberdade e Avenida dos Aliados s/d (anos 40). Técnica mista sobre papel 21, 5x31 cm. Fundação Nadir Afonso.

 

domingo, 17 de novembro de 2024

poemas curtos 7

 lavando de vergonha a memória

pelo erro de existir e não pensar


(atribuido a) Rembrandt (1606-1669), An Old Man in an Armchair1650s óleo s/tela,111×88 cm The National Gallery, London.

quinta-feira, 7 de novembro de 2024

poemas curtos 4

 

A paz que pelo mundo se deseja

as asas que no voo vai perdendo

 

 



René Magritte (1898-1967), "The Large Family" 1963, óleo s/ tela 40 x 50 Wikioo.org - The Encyclopedia of Fine Arts 

quarta-feira, 6 de novembro de 2024

Poemas curtos 3

 

essa palavra foi a pedra tão usada

que alguém colocou na minha mão



Fernando Lanhas (1923-2012) P13-66. 1966 in Lanhas Ed. da Galeria Quadrado Azul novembro 1994. Museu Nacional de Arte contemporânea Museu do Chiado.

poemas curtos 2

 

Douro arrogante cortando montes

tempo e lugar onde esmorecemos

 

.



Simão César Dordio Gomes, (1890 - 1976) O Rio Douro1935 Óleo s/ madeira 50 x 60 cm. Museu Nacional de Arte Contemporânea-Museu do Chiado.

poemas curtos 1

 

o que me resta de tantas lutas e leituras

tantas e tantas do Quixote tristes figuras




fig.
1 - Charles-Édouard Jeanneret dit Le Corbusier (1887-1965) Don Quichotte. 06 de outubro 1953. Pormenor de página

 


fig. 2 - Charles-Édouard Jeanneret dit Le Corbusier (1887-1965) Don Quichotte, Cheval de Troie et Cheval tirant un fiacre, 06 de outubro 1953 Litografia a negro. 54,2 x 35,3. No centro da página “without money ! / il faut se battre contre des moulins ! / il faut renverser Troie... / il faut être cheval de fiacre tous les jours !” / 6 octobre 53 / Bon courage ! Votre L-C”

 

 

quarta-feira, 9 de outubro de 2024

poemas recuperados 33

 


John Martin (1789-1854), The great day of His wrath. 1851/53, óleos/tela 196,5 x 303,2 cm. Tate Gallery Londres

 

sem arte nem grandezas


Acordo a vaguear em pavorosos e pesados pesadelos

por corredores sinistros de esquecidos palácios velhos

onde nas poças, aromas e destroços rolam em novelos,

criando viscosos lodos que tornam imundos os cabelos.

 

De todo o lado cai a chuva de nuvens negras e raivosas

troam muito maldosamente lívidas tormentas pelos ares

estalam em fúria tufões e ventanias inquietas revoltosas

em funestos longes urram horrendamente roucos mares.

 

Soltam-se em pavor as assustadoras refregas e rajadas

como facas irrompem garras e afiando aguçados dentes

das cruéis e ferozes feras que selvagemente acordadas

no violento vento que cuspido vai secando as nascentes.

 

Estão ateados os incêndios em venenosas roxas brasas

as suas cinzas agitam nos ares redemoinhos que ardem 

amontoando negros pedaços das velhas confusas casas

que arruinadas espalham caos em redundante desordem.

 

A tempestade ergue negras pedras agrestes enfurecidas

duros e maduros rochedos se estilhaçam despedaçados

ávidos sopros vão rasgando o linho de velas esquecidas,

espalhando no mar farrapos maléficos e esfrangalhados.

 

Tudo faz com que o estremecer de medo e terror pareça

esse pântano viscoso de pavor sem arte e sem grandeza

as incessantes ânsias e raivosas tempestades na cabeça

se confundam com os loucos e mortais gritos da natureza.

terça-feira, 17 de setembro de 2024

poemas recuperados 32

 





António Carneiro (1872-1930) povoação com barcos Vila do Conde 1905 óleo s/painel 20 x 25,5 cm. Art Net.

 

Não há nada lento.

Roubaram ao tempo

O tempo que êle teve.

Tudo agora· é breve

Só dura um momento.

Carlos Queiroz canção depressa*

 

impressão

 

Súbita inquietação no olhar desse longe ausente

muro do cais onde voa tanta fatal poeira imunda

ancorados estão pelo paredão cansados barcos

perto do jardim de uma casa antiga e moribunda.

 

A encher o ar brandas nuvens de brisas a soprar

murmura na praça arruinada uma fonte sonolenta

sentindo a luz calma do sol com luminoso apetite

esmorecendo o lugar vai caindo a tarde poeirenta

 

Vigiando horizontes que não poderemos alcançar

jorra em canção lenta, monótona, suave melodia

que rompe os ritmos perfeitos do lugar ano a ano

 

Réstia de sol tremendo declina a luz frágil do estio

já só se ouve esse cantar de uma balada sombria

a solene ilusão que sempre engana o desengano.

 

*Carlos Queiroz (José Carlos Queiroz Nunes Ribeiro 1907-1949) canção depressa* in Altura Cadernos de Poesia n.º 2, direc. Maya Vilaça. Enciclopédia Portuguesa Limitada Ed. Altura. Porto Maio de 1945. (pág. 7).

 

terça-feira, 3 de setembro de 2024

poemas recuperados 31

 


Rudolf Schlichter (1890-1955), Saloon 1917, aguarela e lápis s/papel 41,5 x 27,5 cm.
Mutual Art.


Esquisito Inventário 

À maneira de Jacques Prévert (1900-1977) ou Alexandre O’Neil) (1924-1986).


“(…) Ao cabo de misérias e tormentos,

Continua

A ser a minha imagem que flutua

  Na podridão dos charcos luarentos.”

Miguel Torga*

 

um inconveniente não coberto pelo seguro

um peso pesado que se pensa peso pluma

uma janela basculante de um cristal impuro

uma banheira cheia sem suficiente espuma

 

um boi de carga com olhar manso e pacato

uma dermatite de um novo rico embriagado

um cavalo empinado relinchando alucinado

um veneno atrofiante sempre que respirado

 

um adormecido oligarca russo endinheirado

um internato discreto com esgares de aflitos

um sorriso teclado naquele piano desafinado

uma pirueta maluca que põe todos aos gritos

 

uma luz lívida e pálida escorrendo pelo muro

um longe que é mais perto que um perto lugar

um espanto feminino por não ver o seu futuro

uma paixão malcurada que até nos fez corar

 

uma alma perdida com as raízes arrancadas

uma praia solitária onde o mar é espumante

uma ferida no segredo da condição humana

uma eternidade durando apenas um instante

 

um navio afundado pelas névoas do alto mar

um jardim vazio do perfume de flores alheias

uma mãe que diz que é feio um dedo apontar

um poeta morrendo pela iniquidade das ideias

 

*Miguel Torga Inventário de Cântico do Homem 1950 in Miguel Torga Antologia Poética 7ª edição D. Quixote 2014 (pág. 107)

quarta-feira, 14 de agosto de 2024

poesia

 


Pierre-Auguste Renoir (1841-1919) Oignons 1881, óleo s/tela 39,1 x 60,6 cm.  The Clark Art Institute, Williamstown, Massachusetts USA.


Pablo Neruda (1904-1973)

ODA A LA CEBOLLA*

Cebolla
luminosa redoma,
pétalo a pétalo
se formó tu hermosura,
escamas de cristal te acrecentaron
y en el secreto de la tierra oscura
se redondeó tu vientre de rocío.
Bajo la tierra
fue el milagro
y cuando apareció
tu torpe tallo verde,
y nacieron
tus hojas como espadas en el huerto,
la tierra acumuló su poderío
mostrando tu desnuda transparencia,
y como en Afrodita el mar remoto
duplicó la magnolia
levantando sus senos,
la tierra
así te hizo,
cebolla,
clara como un planeta,
y destinada
a relucir,
constelación constante,
redonda rosa de agua,
sobre
la mesa
de las pobres gentes.

Generosa
deshaces
tu globo de frescura
en la consumación
ferviente de la olla,
y el jirón de cristal
al calor encendido del aceite
se transforma en rizada pluma de oro.

También recordaré cómo fecunda
tu influencia el amor de la ensalada
y parece que el cielo contribuye
dándote fina forma de granizo
a celebrar tu claridad picada
sobre los hemisferios de un tomate.
Pero al alcance
de las manos del pueblo,
regada con aceite,
espolvoreada
con un poco de sal,
matas el hambre
del jornalero en el duro camino.
Estrella de los pobres,
hada madrina
envuelta
en delicado
papel, sales del suelo,
eterna, intacta, pura
como semilla de astro,
y al cortarte
el cuchillo en la cocina
sube la única lágrima
sin pena.
Nos hiciste llorar sin afligirnos.

Yo cuanto existe celebré, cebolla,
pero para mí eres
más hermosa que un ave
de plumas cegadoras,
eres para mis ojos
globo celeste, copa de platino,
baile inmóvil
de anémona nevada

y vive la fragancia de la tierra
en tu naturaleza cristalina.

 

*Pablo Neruda (1904-1973), Odas Elementales (1ª ed. Editorial Losada S. A. Buenos Aires 1954) in Antología fundamental.  Selección de Jorge Barros. Pehuen Poesia. Santiago de Chile 1988. (pág. 182 a 184).


domingo, 4 de agosto de 2024

poemas recuperados 30

 


Liam Gillick, Factories in the snow 2016. Foto de Filipe Braga, Fundação de Serralves, Álvaro Siza, Museu de Serralves. Porto.



Um piano em Serralves

 “Todos os dias estarás refazendo o teu desenho.

Não te fatigues logo. Tens trabalho para toda a vida.”

Cecília Meireles *

 

Na sala branca que uma janela faz

um piano negro ao sol adormece.

No espanto luminoso do soalho

só na sombra a longa cauda mexe.

 

Nada perturba o repouso musical

da janela onde se abre todo mundo.

Ninguém ocupa o vazio espaço

que anseia algo limpo e profundo.

 

A esquecida melodia esvanecida

se adivinha nas folhas do arvoredo

soa pelos jardins da bela e antiga

moradia agora d’arte e seu segredo

 

A que abrigo de sonho pertence a sala

um gesto de mão pensante nos informa

quem desenhou um tão inefável espaço

que de obscura matéria a luz conforma.

 

* Cecília Meireles (1901-1964), Desenho de O estudante empírico (1959-1964) in Poesia Completa Livro 2, organização de Antonio Carlos Sechin. Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro: 2001. (pág. 1455).




terça-feira, 23 de julho de 2024

poemas recuperados 29

 


Rene Magritte (1898-1967), Le lieu commun 1964. Óleo s/tela 100 x 81 cm. col. particular.


viscoso musgo do destino

"Past and to come seems best; things present, worst."

Shakespeare *

 

A quem darei funestas frases vaporosas

e demais enigmas dispersos em papiros

onde cantavam as liberdades luminosas

e as verdades escondidas dos vampiros

 

Não ando já como eu andava mal curado

d’um sossegado repouso íntimo e sereno

ao caminhar doente desfeito e maltratado

com secreta raiva de ingerir tanto veneno.

 

Ventando na flauta pobre som da melodia

insatisfeito prazer que em nós se entranha

por qualquer modo descuidado e repentino

 

No levantar da iluminada tenda d’alegria

momento onde todo divertimento se acaba

escorre em mim viscoso musgo do destino.

 

*W. Shakespeare, Henrique IV parte 2 acto 2 cena 3.(pág. 233) in The Dramatic Works of William Shakespear vol. 6 London 1809.

domingo, 7 de julho de 2024

poemas recuperados 28

 

Francis Bacon (1909-1992), autorretrato 1973. Óleo s/tela 198 x 147 cm. col. particular


Narciso decadente me fabrico no espelho

“Ayer se fue; mañana no ha llegado

hoy se está yendo sin parar un punto;

soy un fue, y un seré y un es cansado”. Francisco de Quevedo*

 

 Acumulando escondidas angústias ocultos revezes

ácidas ânsias em cada ano que a vida me foi dando

arrebatamentos que por vezes vivi quase ao acaso

em aventuras sem rasgo que sempre fui quebrando.

 

Discreta, confusa e banal personagem adormecida

vencido naquilo que não fui e no que pudera ter sido

obscura figura sem grandeza apenas distante na vida

meditando pelo que me calhou podia não ter nascido.

 

No correr da vida o que pudera ter sido e que não fui

púrpuras penumbras que vão ofuscando a claridade

miséria disfarçada no desdém de um agora já velho

 

Delicada alta montanha da esquecida dor do que vivi

que só no cume se sabe o lesto passar finito da idade

quando em narciso decadente me fabrico ao espelho.

 

*Francisco de Quevedo (1580-1645), Represéntase la brevedad de lo que se vive, y cuán nada parece lo que se vivió In Obras Completas de Don Francisco de Quevedo Villegas. Tomo terceiro y segundo de las poesias. Sociedad de Bibliofilos Andaluces. Imp. De Francisco de P. Diaz. Sevilla 1902 (pág. 382).