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terça-feira, 18 de março de 2025

uns apontamentos sobre Camilo e a Foz do Douro

 

No bicentenário de Camilo Castelo Branco (1825-1890) que se comemorou em 16 de Março uns apontamentos sobre Camilo e a Foz do Douro.

Camilo Castelo Branco fez algumas estadias na Foz, como se constata numa carta dirigida à filha onde refere o Hotel Mary Castro, também referido, noutros textos, como o Hotel inglez.

“Cartas VII

M * QUERIDA FILHA

Fui p.ª a Foz, Hotel Mary & Castro. E' o quarto onde estivemos no 1.º andar. Saudades, e presentim.os de q. não nos aguentaremos aqui mais. O S.r Pinto está no Central, Entre Paredes com o Narciso.” [1]


 

fig. 1 – o Hotel Mary Castro (hotel inglez) na rua das Motas. Ed. “A Nossa Foz do Douro” in blog. Porto de Antanho https://portodeantanho.blogspot.com/search/label/Hotel%20e%20Pens%C3%A3o%20Mary%20Castro

 

Camilo Castelo Branco como editor publica em 1870, sob o pseudónimo de João Junior, um livro que intitulou Scenas da Foz. Onde curiosamente pouco se fala da Foz do Douro.

 E Camilo Castelo Branco como editor escreve

“Declaro que encontrei uma serie de scenas, que tanto podiam ser de S. João da Foz como de Freixo-de-Espada-á-Cinta. Entretanto, os quadros comicos são desenhados com um pouco mais sal que um artigo de fundo. Os episodios funebres estão escriptos em estylo de cavallo de carruagem, como dizia Voltaire.” [2]

E acrescenta

 “Pergunta o leitor o que tem isto com as Scenas da Foz?

Se me começam com perguntas, estamos mal aviados! Um homem na minha idade, com a reputação feita, escreve as cousas como ellas lhe escorregam dos bicos da penna. Nem acizelo o estylo, nem torneio o pensamento, nem traço plano. Não me apoquentem. Lá vamos á Foz.” [3]

 No livro, apenas três referências a Carreiros por onde se passeavam as personagens e uma referência à benéfica e romântica presença que o oceano provoca no coração:

“Deveis de saber, leitores pudicos, que D. Vicencia Raposo, quando chegou á Foz, sentiu, na presença do occeano, rejuvenescer-se o coração, desenrugar-se-lhe a alma, e esvoaçarem-lhe de redor candidos amorinhos. Souvent l'onde irrite la flamme, disse Corneille, e D. Vicencia, aspirando o ar nitrico do mar, cobrou vigor de peito, e com o vigor novo readquiriu as necessidades velhas, as ilusões de 1801, as realidades de 1809, e até o amargo prazer de experimentar os desenganos de 1819, época da sua fatal decadencia.” [4]

Camilo e o Castelo da Foz

Mas Camilo no n.º 2 da Gazeta Literária, uma publicação por ele dirigida, escreve sobre a fortaleza de S. João Baptista conhecida como o Castelo da Foz.

“O CASTELLO DE S: JOÃO DA FOZ

Nas salas da pacifica fortaleza da cidade do Porto, ha quatorze annos que fugiam as noites, e alvoreciam as manhãs, esmaiando, sem poder quebrantar, a formosura das graciosas damas que dispartiam à volta d’ellas o excedente da sua felicidade. Em noites calmas e alumiadas da lua era bello vel-as, as gentis senhoras que ali moravam, por sobre os baluartes e revelim, vestidas de branco, ora quietas e contemplativas voltadas ao mar, ora correndo ao longo dos terraços, como creanças para quem o crepúsculo da manhã da vida havia de esvair-se nos alvores do dia eterno.”

“Se haverá dos que viram o Porto de ha quatorze annos quem não tenha saudados das noites do Castello da Foz! Eu de mim não sei o que hoje la passa; mas ouvi dizer que as brizas baloiçam as solitarias ervas dos baluartes e o vento silva nos vigamentos das salas onde estrondeavam as musicas.” 

E depois de resumir a história do castelo da Foz bosquejadas umas notas subsidiarias para quem mais espaciadamente quizer historiar a formação do Castello da Foz” mais adiante escreve:

 “N’outro artigo coordenarei as notas que tiver acerca da importância guerreira e política do Castello. A guerreira já de antemão posso assegurar que foi mediana. A política não tanto assim, consideradas as agonias que gemeram nos calabouços d’aquella casa, onde eu, há catorze anos, as imaginei, durante as delícias d’um baile.

Os que ali padeceram nas masmorras e muitos dos que eu la vi bebendo a haustos de felicidade o néctar da vida, tudo resvalou no sorvedouro da eternidade…

Findei tristemente como comecei. C.CASTELLO-BRANCO.” [5]

 



fig. 2 - Cesário Augusto Pinto (1825-1895). O Castelo da Foz 1849. In As margens do Douro, collecção de doze vistas Litografia 160 x 250 mm. por J. C. V. V.a  Nova*. Rua do Campo Pequeno, Porto, 1849

.


*J.C.V. V.ª Nova - Joaquim Cardoso Vitória Vila Nova (c.1793-1850)


Ainda sobre o Castelo da Foz refira-se que Lady Johnson no seu Fair Lusitania, a escritora descreve um fim do dia de tempestade junto ao Castelo.

E como foi Camilo que traduziu o livro, com o título de A Formosa Lusitania, onde mostra as suas qualidades de tradutor e escritor, não parece descabido citar essa passagem.

 Ás onze horas, os últimos carros largam para o Porto: ha então um atropellamento geralpor cauza de logares, e a Praia fica em parte vazia: mas quem está na Foz não se apressa a retirar-se, de modo que muitas vezes á meia noute há ainda ali alguns retardatários.

A tarde da festa não convidava a andar á tuna; mas eu, com os meus amigos portuguezes, fomos de passeio até perto do castello. Não havia luar. Toldava o ceu um largo cinto negro de nuvens arqueadas que se engrossavam. As vagas rugiam furiozas; na barra espadanavam alvejantes espumas, emquanto no mar escuro rutilavam longos sulcos de luz phosphorica.

Cuidei que chovia; mas eram borrifos de espuma à mistura com areias que as lufadas do vento quente nos atiravam. Não trovejava, posto que os relâmpagos vividos e brilhantes coruscassem no espaço, agora, relampadeando por largo e envolvendo, por instantes castello, montes e mar, em roixa luz intensa; logo, em linhas ondulosas que pareciam esbrazear o dorso das vagas, como se fossem uma acceza massa que se abria e fechava com deslumbrantes lampejos por entre nuvens lúgubres e negras.

Toldava o ceu um largo cinto negro de nuvens arqueadas que se engrossavam. As vagas rugiam furiozas; na barra espadanavam alvejantes espumas, emquanto no mar escuro rutilavam longos sulcos de luz phosphorica.

Cuidei que chovia; mas eram borrifos de espuma à mistura com areias que as lufadas do vento quente nos atiravam. Não trovejava, posto que os relâmpagos vívidos e brilhantes coruscassem no espaço, agora, relampadeando por largo e envolvendo, por instantes castello, montes e mar, em roixa luz intensa; logo, em linhas ondulosas que pareciam esbrazear o dorso das vagas, como se fossem uma acceza massa que se abria e fechava com deslumbrantes lampejos por entre nuvens lúgubres e negras.” [6]

 


fig. 4  - O Castello de S. João da Foz, Coelho, in O Archivo Popular vol.3, 1839 (pág.177).e em Illustração Portuguesa n.º 7 de 8 de Outubro de 1888 Lisboa.

Camilo Castelo Branco ainda em outra publicação, Scenas Contemporâneas, refere a “praia dos Inglezes”.

 “ACTO II.

A scena é na Foz, justamente na praia dos Inglezes.

Senhoras e homens tomando banhos; outros entrando nas barracas, horrivelmente desfigurados, ou, antes, taes quaes a natureza os fez. Sobre os penedos, pinhas de povo que pasmam diante dos ensaios do salvavidas. Estes podem dizer o que quizerem a tal respeito. O author dá carta branca ao actor para que diga centenares de parvoices: pode até discorrer sobre o dropp se lhe aprouver; mas o melhor é calar-se.

 SCENA I.

Afora estes entes nullos, Jorge e Leocadia sentados em cadeiras.

Leocadia (fazendo SS com o guarda-sol na areia).

— Estás tão sombrio, Jorge!

Jorge (fazendo TT na areia corna chibata).

— Estou optimamente. (Ouvem-se guinchos muito sympathicos das senhoras, que patinham no banho. Alguns homens urram).

Leocadia. — Parece que te aborrece a Foz ! . . .

Jorge. — Nada me aborrece… Estou bem em toda a parte…” [7]



fig. 3  – Emílio Pimentel* e J. Pedrozo **, A Praia de Banhos in (José Duarte) Ramalho Ortigão (1836-1915), As Praias de Portugal, guia do banhista e do viajante, Com desenhos de Emílio Pimentel, Livraria Universal de Magalhães & Moniz, Editores, 12, Largo dos Loyos, 14, Porto 1876.

* Emílio Oliveira Pimentel (1844-1880)

**João Pedrozo Gomes da Silva (1823-1890).

 E, para finalizar, no romance “Annos de Prosa”, Camilo Castelo Branco, também refere a Foz do Douro.

 “A primeira carta de Leonardo Pires ao condiscípulo dizia que Silvina ia todos os dias á Foz de carroção, e almoçava bifes e fiambre no hotel inglez. Ajuntava a isto o picaresco informador que a menina usava de anquínhas no vestido de banho, e fazia de nereida saracoteando-se na agua, requebrando-se em risos e ditos galanteadores aos tritões de baeta azul que a rodeavam, e saindo dos braços de Neptuno mui peneirada aos saltinhos pela praia, que eram umas delicias vêl-a.” [8]



[1] Júlio Dias da Costa (1878 -1935), Escritos de Camilo I – Cartas. II – Notas em livros. Notícia por Júlio Dias da Costa. Portvgália, Editora. Lisboa 1923. (pág. 53).

[2] Camillo Castello Branco, Scenas da Foz, 2.ª edição, Em Casa de Cruz Coutinho – Editor. Porto 1860.

[3] Idem.

4 ibidem

[5] Camilo Castelo Branco, in Gazeta Literária nº. 2 1868. E em Mosaico e Silva de Curiosidades Históricas, Litterarias e Biográficas. Livraria Chardron de Lelo & Irmão L.da, edit. Rua das Carmelitas, 144 Porto 1868. (pág. 15).

[6] Lady Jackson (Catherine Hannah Charlotte Elliott), Fair Lusitania. Formosa Lusitânia, traduzida e anottada por Camilo Castello Branco, livraria Portuense Editora 121, Rua do Almada, 123, Porto 1877. (Pág.316).

[7] Camillo Castello Branco Scenas Contemporâneas por Camillo Castello Branco. Acto II, 2ª Edição, Porto em Casa de Cruz Coutinho – Editor, Porto 1862. (pág.14).

[8] Camillo Castello Branco cap. XV de Annos de Prosa (1. ed.1863). Segunda edição revista e correcta pelo author. Companhia Editora de Publicações Illustradas, 35, Travessa da Queimada, 35, Lisboa, (pág. 152).

sábado, 16 de novembro de 2024

Um acontecimento no Porto em 1939

 

 

 

Domingo, 15 de Janeiro de 1939. Teve grande impacto a amaragem de um avião alemão junto à Afurada.

 

Uma fotografia do avião na Afurada


O Hidroavião alemão Nordmeer da Lufthansa na Afurada.

Ilustração n.º 315 de 1 de Fevereiro de 1939.

 

Acompanhando a fotografia a seguinte legenda, que indica que o avião faria a viagem da Alemanha para a América do Sul via Açores: “O quadrimotor “Nordmeer” que acossado pelo temporal, fez uma amaragem forçada junto da barra do Douro, quando se destinava a Lisboa, na sua carreira da Alemanha à América do Sul. Os pilotos daquela barra conseguiram, após porfiados esforços, salvar o aparelho e os seus cinco tripulantes.” (Ilustração n.º 315 de 1 de Fevereiro de 1939.)

 O Jornal O Comércio do Porto do dia seguinte, Segunda feira 16, dava notícia do alarme que a amargem causou e noticiava que “Ao principio da tarde de ontem, correu célere a noticia de que um quadrimotor fora forçado a amarar no estuário do Douro, por alturas do lugar do Ouro e que a tripulação corria sérios riscos. O eléctricos que seguiam da Praça da Liberdade para a Foz e Leça da Palmeira começaram a passar cheios e os automóveis de praça a andar numa roda-viva.

Os resultados do futebol que aos domingos são o assunto do dia não despertaram ontem interesse e a população citadina não falava em outra coisa, que não fosse o desastre do avião.

Dirigindo-nos ao local do suposto acidente, verificamos que não se tratava de desastre, mas de amaragem normal, embora forçada em consequência do mau tempo.

O hidroavião quadrimotor Nordmeer, de nacionalidade Alemã, que faz carreira postal, entre a Alemanha e o norte de África com passagem por Lisboa, tinha de facto amarado em frente ao lugar do Ouro, mais propriamente na margem esquerda do rio, lugar de São Paio, devido ao temporal; mas desastres materiais ou pessoais, não tinha havido.

O Nordmeer saíra da sua base de Travemunde, Alemanha, com cinco homens de tripulação: comandante, piloto, 2º piloto, telegrafista e mecânico, repectivamente snrs. Blume, Modroux, Stoltz, Amphlett e Roesel e dirigia-se para Lisboa, donde levantaria, de novo, voo com destino a Las Palmas.

O quadrimotor – um aparelho moderno e de linhas elegantes – viera até Espanha, sem qualquer incidente e sem que o tempo impedisse o prosseguimento da viagem. Ali, porém, o aparelho, apesar de potentíssimo, devido ao vento impetuoso começou a lutar com dificuldades de diferente ordem. O comandante ordenou que seguisse para Lisboa, no intuito de encontrar melhores condições atmosféricas e, portanto, o aparelho poder descer sem dificuldades.

Em breve, o telegrafista, firme no seu posto, pôs-se em comunicação com a Rádio Telegráfica de Monsanto, recebendo informação de que Lisboa, estava debaixo de violentíssimo temporal e seria difícil poisar em boa ordem.

Nesta eventualidade, nova ordem do comandante para sobrevoar o rio Douro e ver se o aparelho poderia amarar.

Assim sucedeu e a manobra fez-se facilmente, sem que o aparelho sofresse a mais ligeira avaria.

Foi logo requisitada a presença de todas as corporações de bombeiros desta cidade, cujos serviços não chegaram a ser utilizados por serem desnecessários.

O Nordmeer foi rebocado, em seguida, para próximo do Cabedelo, onde ficou a flutuar.

Os tripulantes desembarcaram mais tarde e instalaram-se num hotel da cidade do Porto.

O aparelho espera que o temporal passe para poder levantar voo em direcção a Lisboa, donde como acima se disse, seguirá para Las Palmas.” (O Comércio do Porto, Segunda feira 16 de 1939)

 

Na Quarta-feira, 18 de Janeiro o Diário de Lisboa dava notícia da partida do quadrimotor rumo a Lisboa: “Levantou vôo esta tarde, cêrca das 15 e 30, com rumo a Lisboa, o avião alemão “Nordmeer”, que se encontrava amarrado, no rio Douro, desde o passado domingo. O seu abastecimento foi feito esta manhã, tendo para esse efeito sido puxado mais para junto de terra, a fim de receber o combustível por intermédio duma mangueira assente sobre uma fileira de bateiras da Afurada. Antes de descolar fez algumas corridas a favor e contra a fortíssima corrente das águas, depois do que se ergueu normalmente, e evolucionou muito baixo sobre a cidade, seguindo em direcção ao sul.” (Diário de Lisboa 18 de Janeiro de 1939)


O “Nordmeer” (Mar do Norte) e o avião semelhante o “Nordwind” (Vento Norte), pertenciam à Deutsche Lufthansa (fundada em 1926).





Eram aviões com 25 metros de envergadura e 18 de comprimento e pesavam 16 toneladas.

Os quatro motores diesel tinham, cada um, 600 cavalos de potência, sendo a velocidade de 250 Km/hora, com um raio de acção de 5.000 quilómetros.


Este acontecimento veio (re)colocar a necessidade da construção de um aeroporto no Porto, já que o rio Douro não permitia a construção de um aeroporto para hidroaviões, então ainda os aviões mais utilizados na aviação comercial que se vinha desenvolvendo a partir do final da I Grande Guerra.

 A cidade pretendia a construção de um aeroporto localizado a Norte que substituísse o aeródromo de Espinho de 1935.

 

Em 1932 Ezequiel de Campos (1874-1965) no seu “Prólogo ao Plano da Cidade do Porto” já referia o assunto do aeroporto num capítulo intitulado Campos de Aviação.

 

Ezequiel de Campos localização do aeroporto do Porto. Pormenor da planta Traça das ruas primárias da Cidade do Porto no Prólogo ao Plano da Cidade do Porto de 1932

As reflexões sobre o Campo de Aviação de Ezequiel de Campos são o reflexo do que era a aviação comercial no início dos anos 30, que começava a dar os seus primeiros passos.

“Tem sido muito falado o campo de aviação.

Não nos embrenhemos no caso. Refe­rimos apenas que o campo de aviação deve ficar tão perto quanto possível do centro da Cidade: algumas centenas de campos de aviação modernos estão em média dentro de quatro quilómetros e meio do centro urbano; outros a seiscentos metros; alguns a vinte quilómetros, e mais —pela dificuldade de obter espaço livre no centro da cidade. Alguns por isto se tem abandonado.

Não deve ficar a mais de vinte minutos do centro da cidade por automóvel, e do porto de mar ou fluvial — por estradas boas: para bem por linda avenida. E perto das estações de caminho de ferro.

O tamanho do campo de aviação é definido pêlos aviões que o hão-de utilizar. Actualmente os aviões pesados levantam voo em 600 metros horizontais, em pequena altitude; mas requerem maior espaço para as eventualidades do motor. Há aviões que exi­gem 1.100 metros para levantar voo. —Muitos feitios e formas de campos de aviação se têm usado.

Tirando a militar, parece que a aviação comercial tende a decair das primeiras perspectivas. Sem apoio político, poucas carreiras poderão viver: tais se afiguram as do Porto.

Podemos aceitar o campo de aviação na Senhora da Hora: perto do centro da Cidade, perto de Leixões e perto das estações de caminho de ferro; embora fosse ideal obter ainda distâncias menores. Não perturbará muito os lugares de residência.

A topografia do Porto não se presta bem para campos de aviação.

Na Foz do Douro, abaixo da Arrábida, os hidroaviões têm pousado. — Necessário prever desembarcadouro e as instalações anexas — se valer a pena.” (Ezequiel de Campos, Prólogo ao Plano da Cidade do Porto 1932)

Em 21 de março de 1935 é fundado o Aero Club do Porto.

 E em 1938 Cupertino de Miranda ainda reclamava um “campo de aviação”:

“Sem dúvida também, como complemento da rede de comunicações, não tardará a dotar-se o Porto com as condições indispensáveis à sua comunicação nacional e internacional pela via aérea. Não faz sentido que núcleo como este, obrigado a intensivas relações económicas, - a época é da velocidade e o tempo, mais que nunca é dinheiro -, se encontre impossibilitado de servir-se, com facilidade e rapidez, das grandes carreiras aéreas internacionais, à falta de aviões que entronquem com aquelas linhas.”  (Cupertino de Miranda in Carlos Bastos e outros - Nova Monografia do Porto – Companhia Portuguesa Editora, L.da – Porto 1938)

Mas, só em 1945 a 3 de Dezembro é inaugurado o aeroporto do Porto com o nome de Aeroporto De Pedras Rubras, que em 1990 passa a designar-se por aeroporto Francisco Sá Carneiro. Em 2005/6 é construído o actual terminal.


domingo, 3 de novembro de 2024

Imagens da Cidade do Porto há (volta de) cem anos 7

 


O edifício da Casa Inglesa

fig. 1 – O projecto apresentado em 27 de Fevereiro de 1920. Fachada Rua de Passos Manoel e Rua de S.ta Catharina. Escala 001 x 100. AHMP.




fig. 2 - O projecto apresentado em 27 de Fevereiro de 1920. Corte Transversal. (1:100) Planta Topografica. (1:1000 Detalhe das retretes. (1:10). Vãos do Telhado. (1:100). AHMP.

Em 27 de Fevereiro de 1920 Manuel José Pereira Leite Júnior requer à CMP a construção de um edifício “no terreno que possui no angulo formado pelas ruas de St.ª Catarina e Passos Manoel, lado oriental, conforme o projecto e memória descriptiva junta (…)”. [1]

O projecto e a respectiva memória descritiva são assinados pelo arquitecto Agostinho Ribeiro de Ferreira (? - ?).

Sabe-se que o autor do projecto é o arquiteco Francisco Oliveira Ferreira (1884 -1957), mas provavelmente - por nessa altura ainda não possuir o diploma de arquitecto que só obterá em 1925 - o projecto apresentado na CMP está assinado por um arquitecto diplomado. Uma prática que se manterá ao longo do século XX, já que só se obtinha o diploma alguns anos depois de exercer a profissão e elaborar alguns projectos.

 

Para melhor se perceber a prática da arquitectura no início do século XX, transcreve-se algumas passagens da memória descritiva.

Assim: “(…) As cantarias serão de Granito fino e mármore, sendo de mármore as colunas que fazem parte das fachadas, bem como alguns motivos decorativo.

Como os pavimentos do 1º e 2º andares teem de ficar amplos devido a destinarem-se a negocio, levará vigas de ferro servindo de travação ao prédio, bem como nos vãos do rez do chão. As esquadrias exteriores serão de madeira de castanho e ferro forjado, para receberem vidraça, cristal e vidro fantasia.” (…).

 

E como curiosidade a memória descriptiva termina da seguinte maneira:

“As retretes serão modernas com syphão e o mais hygienicas, sendo de autoclysmo e d’harmonia com as leis de salubridade em vigôr.

Simplificando direi que toda a obra será executada d’harmonia com as leis salubridade das construções e demais posturas municipaes em vigôr.

Saude e Faternidade

Porto, 1 de Março de 1920.” [1].

Este projecto é aprovado em 27 de Março de 1920 pelo então Presidente da Câmara, Armando Marques Guedes (1886/9-1958), maçónico, advogado, professor universitário, jornalista e político (foi deputado de 1915 a 17 e de novo de1925 a 26, e Ministro das Finanças em 1925).

Numa nota importante do processo de licenciamento, os serviços camarários lembram que o projecto não cumpre o alinhamento e que “É para notar que a fachada d’esta edificação voltada á rua Passos Manoel avança cerca de 1, 50 m. sobre o terreno municipal”. [2]

 

 

Para melhor se compreender a dificuldade do lote e a necessidade de cumprir o alinhamento, mostra-se o cruzamento das ruas de Santa Catarina e de Passos Manuel em 1892.

Na planta de Telles Ferreira de 1892 está cartografado o cruzamento das ruas de St.a Cahtarina com Passos Manoel (assim escrito) e os alinhamentos previstos. (fig. 3)

Note-se que a rua Passos Manuel terminava a poente, na rua de Sá da Bandeira e a nascente, no Largo de S.to André (futura praça dos Poveiros).

Pinho Leal no seu Portugal Antigo e moderno v.7. Lisboa 1876 (pág.477) descreve assim a

“Capella de Santo André—no logar do mesmo nome (antiga feira da herva) próximo e ao O. do passeio publico de S. Lazaro. Foi demolida ha uns 15 ou 16 annos, e d'ella só existe a memoria no referido largo, que ainda conserva o nome do santo.” [3]

fig. 3 - A esquina das ruas de Santa Catarina e Passos Manoel. Pormenor da Planta de Telles Ferreira escala 1:5000

 No levantamento à escala 1:500, nota-se a divisão da propriedade (parcelas pequenas), os muitos logradouros ajardinados e os trilhos do transporte eléctrico então existente. (fig.4)


fig. 4 - A esquina das ruas de Santa Catarina e Passos Manoel. Quadrícula 278 da Planta de Telles Ferreira escala 1:500.


[1] Requerimento de Manuel José Pereira Leite (pág. 27) Processo de 27/02/1920. Arquivo Histórico Municipal do Porto AHMP

[2] Memória descriptiva do projecto apresentado em 1920. Processo de 27/02/1920. (pág. 28 e 29). AHMP

[3] Processo de 27/02/1920 (pág. 34) AHMP.

[4] Pinho Leal, (Augusto Soares de Azevedo Barbosa de Pinho Leal, 1816-1884), Portugal Antigo e Moderno, vol.7. Lisboa 1876. (pág.477).


O projecto de 1922

Por esta razão do alinhamento com o projectado traçado para a rua Passos Manuel ou porque a construção do edifício sofreu uma larga contestação dando “lugar a reclamações no local, e em consequência delas a Ex.ma Camara mandou intimar o requerente a apresentar novo projecto a fim de subordinar as obras a outro alinhamento, que deu entrada em 6 de Outubro de 1922 (…)” [1].

 Assim, na Quarta-feira 27 de Setembro de 1922, o mesmo Manuel José Pereira Leite Júnior em requerimento à CMP, assinado por Francisco Oliveira Ferreira (1884 -1957), “como aditamento ao projecto aprovado e a que se refere a licença n. 306 de 27 de Março de 1920, apresenta o projecto junto d’harmonia com o alinhamento ultimamente resolvido por essa Ex.ma Câmara para a construção a realizar no terreno que possue junto às ruas de Santa Catarina e Passos Manoel…” [2] (fig. 5).

 



fig. 5 – Aditamento ao projecto a que se refere o Requerimento do Ex.mo Sr. Manoel José Pereira Leite Júnior. Fachada da Rua Passos Manoel. Rua de S,ta Catarina. Corte por A.B. Escala 1:100. (pág.2). AHMP.

Este novo projecto de 10 de Janeiro de 1923 não assinado, em tudo idêntico ao anterior, apenas obedecendo ao alinhamento exigido pela CMP, apresenta agora os cálculos referentes á estrutura (pág. 3 a 40).

Em 3 de Março de 1923 o projecto é definitivamente aprovado sendo Presidente António Joaquim de Sousa Junior (1871-1938), médico e político republicano deputado ao Congresso Constituinte em 1911, e Ministro da Instrução. 

A licença é emitida pelo engenheiro civil e de minas António Pinto de Miranda Guedes (1875—1937), engenheiro, então chefe da divisão de Obras da Câmara Municipal do Porto, e que em 1927 nomeado director dos Serviços Municipalizados de Águas e Saneamento (SMAS) então criados. 

O lapso de tempo também é explicado pelo Requerente em documento anexo ao processo: “Quando o Requerente ia dar começo ás obras de execução daquele projecto, no verão de 1921, pessoas mal-intencionadas, abusando do fácil impressionismo das massas populares, promoveram no local ruidosas manifestações de desagrado, que procuraram atingir a Vereação nos seus intuitos do alinhamento e aformoseamento daquele local (…)”

“Em consequência de tais manifestações e de acordo com a Ex.ma Camara, o Requerente suspendeu as mesmas obras, tanto mais que esperava no entretanto consegui judicialmente o despejo do seu inquilino, um dos principais instigadores da arruaça. (…)” [3]



fig. 6 – A implantação do edifício e o alinhamento da rua Passos Manuel na Planta de Telles Ferreira de 1892.


[1] Requerimento de 06/10/1922. AHMP.

[2] Aditamento de 27 de setembro de 1922 ao Processo de 1920 (pág. 235) AHMP.

[3] Aditamento de 27 de setembro de 1922 ao Processo de 1920 (pág.260). AHMP


As obras

Uma extraordinária fotografia de Alvão dos anos 20 mostra a rua de Passos Manuel e o aspecto das demolições necessárias para o alinhamento e a construção do edifício da Casa Inglesa.

 


 

fig. 7 - Foto Alvão n.º 24 in Fotografia Alvão Clichés do Porto 1902-2002 ed. Casa Alvão Porto 2002

 

Ainda se circulava pela esquerda (até 1928) e há apenas um automóvel estacionado. Um modelo típico da década de 20, com capota amovível, estribo e faróis dianteiros sobre os para-lamas e rodas sem raios.





fig. 8 – Pormenor da fotografia anterior

 

Julgo tratar-se de um Citroën Torpedo dos anos 20 quer pela descrição das características visíveis quer porque o stand da Citroën será em 22 de Fevereiro de 1930, o primeiro inquilino do rés do chão do prédio (antes da Casa Inglesa). O stand da Citroën situava-se então na rua de Sá da Bandeira como se vê na foto de Alvão (ver fig. 9 e fig. 10), tendo à porta do Stand um conjunto de automóveis com matrículas da série N-7200 a 7600.



fig. 9 –Rua de Sá da Bandeira 335. c.1929. Foto n.º 67 in A Cidade do Porto na Obra do fotógrafo Alvão. Ed. Fotografia Alvão. 1984.



fig. 10 - Pormenor da imagem anterior.

 Na fig.11, dois carros da escola de condução do Automóvel Clube de Portugal (ACP), quando criou em 1935 a sua Escola de Condução no Porto, com o Citroën Torpedo de 1926 atrás de um Ford 4 portas de 1932 com a matrícula N-12449, estacionados, julgo eu, junto ao jardim da Praça 9 de Abril (Arca d’Água), jardim inaugurado em 9 de Abril de 1928.

 



 


fig. 11 - Os carros da Escola de Condução do ACP.


O edifício 

Quanto ao edifício em 22 de Fevereiro de 1923 a “Comissão de Estética considera o presente projecto em excelentes condições artísticas e digno de ser aprovado em presença do alinhamento da sua fachada para a rua Passos Manoel (…)” [1]

O edifício não seguirá exactamente o projecto, sendo abandonado o torreão do gaveto

O arquitecto coloca os acessos nos topos do edifício: no cunhal da rua de Santa Catarina, situa-se o acesso nobre ao piso térreo, e no topo nascente da Rua Passos Manuel, a entrada com a escada de acesso aos pisos superiores.

 Na revista A Arquitectura Portuguesa de Fevereiro de 1930 com o título “Prédio com duas frentes para as ruas de Santa Catarina e Passos Manuel na cidade do Porto”

Pode ler-se:

“Mais um interessante projecto do distinto arquitecto do Porto, Ex. mo Sr. Francisco de Oliveira Ferreira, temos hoje o prazer de publicar, sendo indiscutivelmente um grandioso e belo que vai engrandecer o aspecto estético daquela cidade que ultimamente se tem modificado duma forma

notável e progressiva.”

E o articulista refere que:

“Todo o edifício é de granito fino lavrado e destina-se a rendimento, tendo no rez do chão um só amplo estabelecimento com cave e outros andares com grandes salões e escritórios.”

 

“O edifício tem além das lojas três andares e mansarda, havendo no cunhal uma torre que se eleva alto dando um feliz remate a esta construção.”

 

“Os progressos da engenharia com a difusão do beton armado e outros processos de construção facilitam extraordinariamente a ideação moderna de forma que, pode-se afoitamente afirmar, que não há dificuldade que se não possa vencer, não há pensamento que não seja possível materializar, embora pareça impraticável.”

 

“De há muito que o Porto se vem desenvolvendo pondo-se sob o ponto de vista estético num plano que o vai aproximando das grandes cidades modernas (…)”  “A obra está em via de conclusão estando até já arrendado o estabelecimento para Stand da “Citroën”.” [2]



[1] Aditamento de 27 de setembro de 1922 ao Processo (pág. 263) AHMP

[2] A Arquitectura Portuguesa, revista mensal de Arquitectura e Construção ano XXIII – 2ª série Lisboa Fevereiro de 1930 n.º 2. (pág. 1).


E, nos anos 30, a loja de vestuário Casa Inglesa veio ocupar com grande sucesso o espaço comercial do rés-do-chão do edifício, que assim passou a ser conhecido como o edifício da Casa Inglesa.

Esse sucesso traduz-se na publicação nos anos 30, da partitura da canção “Espera-me na Casa Inglesa” de Júlio Pontes. Na capa um desenho do edifício. (fig. 12).



fig. 12 - Capa da partitura da Espera-me na Casa Inglesa one step marcha música de Júlio Pontes, c.1930. Coleção Arquivo Helder Pacheco. AHMP




fig. 13 – O edificio numa foto com a Casa Inglesa.

 

A minha ligação ao edifício.


Quando estudante de Arquitectura na Escola de Belas Artes, junto com outros colegas estudantes de arquitectura nas Belas Artes, frequentando vários anos do curso, entre 1967 e 1970, alugamos duas salas do 3º andar do edifício para aí instalar um atelier para a elaboração dos trabalhos escolares. Uma voltada para a rua Passos Manuel em frente da porta lateral do Majestic (sala A) e a outra na esquina de Santa Catarina (sala B).

Essas salas, tinham sido ocupadas pelo pintor e professor Augusto Gomes que as libertou por razões de saúde.

Estas salas-ateliers funcionaram como verdadeiras escolas pela colaboração entre os estudantes, com visitas esporádicas de alguns professores.



fig. 14 – O edifício da Casa Inglesa com a indicação da salas ocupadas pelo grupo de estudantes de arquitectura.

 

E muitos outros por estas salas passaram, substituindo os que então iam concluído o curso.



O Marcolino Relojoeiro

O espaço da Casa Inglesa acabou por ser ocupado em 2011/14 pela vizinha relojoaria Marcolino.

O Marcolino Relojoeiro instalou-se em 1937, num estabelecimento projectado pelo arquitecto Homero Ferreira Dias (1904-1960), na rua Passos Manuel junto ao edifício da Casa Inglesa.


fig. 15.– Fachada da loja Marcolino na rua Passos Manuel nos anos 60 do século XX.