Guilherme Camarinha
“A cidade do Porto é uma velha tapeçaria, / especialmente observada do lado de Vila Nova de
Gaia.” António Cruz
Guilherme Camarinha [2] parece seguir esta afirmação
de António Cruz tornando-se nos anos 50/60 o pioneiro do movimento de renovação
da tapeçaria, recebendo, a partir de então, numerosas encomendas para Portugal
e para o estrangeiro de cartões para tapeçarias de grandes dimensões,
executadas na Manufactura de Portalegre e destinadas a várias instituições
públicas e privadas.
Nas provas do concurso de Professor agregado da Escola de
Belas Artes do Porto, na grande composição sob o tema Faina Fluvial, Guilherme Camarinha
apresenta uma pintura, onde o Rosto da
Cidade surge ao fundo, visto de poente, com o Douro, a ponte Luiz I o Paço
Episcopal e o pano remanescente da muralha.
O quadro (fig.23), lembrando os cartões das
tapeçarias a que, Guilherme Camarinha se irá dedicar, representa as figuras
geometrizadas que estabelecem uma diagonal acentuada pelas pranchas e
contrastando com a horizontalidade da ponte Luiz I.
fig. 23 – Guilherme Camarinha, Faina Fluvial 1962. Óleo s/tela165 x 200 cm. Prova de grande composição ESBAP.
Em
primeiro plano significativamente uma Maternidade, dá à composição, todo um sentido
da condição humana.
A mulher que amamenta o filho, símbolo de todas as mães,“comovedoras,
/ Com Meninos Jesus de encontro ao peito, / Iguais na devoção e amor perfeito /
Aos painéis onde estão Nossas Senhoras!”
Várias figuras de homens e
mulheres, “O voi che siete in piccioletta barca…” movimentam-se por sobre as
barcaças. Três carvoeiras “Descalças! Nas descargas de carvão” transportam em cestos à
cabeça e equilibram-se sobre estreitas pranchas, para o navio de que apenas se
vê a proa.
E ainda nas barcaças, duas viúvas rosto carregado e
tristonho, com o sopro leve do vento a levantar a cara, escutam a voz do rio, pensando talvez que me “Que me leve consigo, adormecido, / Ao passar pelo sítio
mais sombrio../ que banhe e lave a alma lá no rio / da clara luz do seu olhar
querido...”
A composição (fig.24), desenvolve-se a partir de uma geometria,
onde as figuras algo geometrizadas, estabelecem diagonais que triangulam todo o
quadro, acentuadas pelas pranchas e pela figura mais à direita, contrastando
com a horizontalidade marcada pela ponte Luiz I.
fig. 24 – A geometria da composição de Guilherme Camarinha.
As tapeçarias de Guilherme Camarinha
Para a sede da
Cooperativa dos Pedreiros na rua da Alegria, Camarinha realizou uma tapeçaria de
homenagem aos pedreiros do Porto e ao vinho do Porto. (fig.25).
fig. 25 –
Guilherme Camarinha, Actividades e Histórias dos Pedreiros, 1970, tapeçaria
Cooperativa dos Pedreiros.
Na tapeçaria da Cooperativa dos Pedreiros a Cidade é vista das
Fontaínhas.
O Douro, com rabelos navegando para Gaia junto à Ponte, descreve uma
suave curva, curva que se repete pelas duas vinhas, que numa clara alusão ao
Vinho do Porto, florescidas dividem a tapeçaria em faixas.
Na primeira os Guindais e na mais à direita o casario de São Lázaro.
Na faixa do meio a actividade dos pedreiros, evocando o poema de António
Gedeão:
“pedreiros de profissão,
de sombrias cataduras
….
vestidos de surrobeco
e acocorados no chão,
truca, truca, truca, truca.
……
Fixando a pedra, mirando-a,
quanto mais o olhar se educa,
mais se entende o truca…truca…” [8]
O Rosto da Cidade visto das Fontaínhas
(fig.26), mostra os principais elementos que caracterizam a cidade: o Douro com
os rabelos, a ponte Luiz I, o pano remanescente da muralha e o casario entre
vinhas (!) que desce até ao rio.
Na margem esquerda, a Serra do Pilar como seu
grandioso muro de suporte, e as edificações junto ao rio onde se situam as
caves do Vinho do Porto.
Ao fundo o mar com barcos de meia-lua,
brancos, cujas velas se confundem com a espuma das ondas e com as nuvens.
fig. 26 – Guilherme Camarinha, Pormenor da tapeçaria da Cooperativa dos
Pedreiros.Numa outra tapeçaria de Guilherme Camarinha executada
para um hotel do Porto (fig.27), tendo ao centro “S. João ao cimo dominando” uma figuração do Santo baptizando Cristo, são
evocadas as festas do S. João, “do manjerico e da cidreira,
da quadrazinha ingénua e saborosa, do cravo feito de papel de cor…” , os alhos, e “os ranchos, as fogueiras,
orvalhadas;” , a festa do S. João onde “deitavamos
balões junto à cascata…” , tudo o que fazia parte da festa popular e
que também faz parte da identidade da cidade.
fig. 27 – Guilherme
Camarinha, Tapeçaria S. João Restaurante do Hotel Mercure Batalha, Porto,
Portugal.
E no canto superior direito, Guilherme Camarinha
representa o Rosto da Cidade (fig. 28), com o Douro e os barcos rabelos, a
ponte unindo as duas colinas e, do lado do Porto, o Paço Episcopal, as torres
da Sé, o pano da muralha “na insolência branda de umas ruínas perfeitas” [12] e a Torre dos Clérigos.
fig. 28 – Guilherme Camarinha, Pormenor da Tapeçaria do S. João. Hotel Mercure.
[1] António
Cruz na primeira pessoa in Catálogo da Exposição no Museu Nacional Soares dos
Reis 14 de Dezembro 2007 a 31 Janeiro 2008. Edicão Árvore Cooperativa de
Actividades Artísticas CRL Porto 2007. E em uma entrevista por Antónia de
Sousa, publicada no Diário de Notícias 1983, in António Cruz. Edição do
Centenário Modo de ler editores e livreiros Lda. Porto 2007.
Guilherme Camarinha (1912-1994). Participou nas
suas exposições no Salão Silva Porto (1929) e no Ateneu Comercial do Porto
(1931). Na década de 1940 integrou as exposições dos Independentes. Participou:
na 7ª Exposição de Arte Moderna do SPN, em Lisboa (1942); na I exposição de
Arte Moderna dos Artistas do Norte, no Porto (1945); na I Exposição Primavera,
no Porto (1946); na Exposição dos Artistas Premiados pelo SNI, em Lisboa
(1949). Entre 1959 e 1962 lecionou na ESBAP, na qualidade de Professor
Assistente, tendo participado nas exposições Magnas realizadas durante esse
período.
[3] Guilherme
Camarinha executou três tapeçarias para os Paços do Concelho do Porto então
inaugurados em 1957.
"Hino em Louvor, Honra e Glória da Cidade do Porto"
(1958) que evoca os acontecimentos mais marcantes da história da cidade do
Porto e em 1962, "S. João”, com a festa popular e característica da cidade,
e "A Faina do Douro", onde entre as actividades ligadas ao vinho do
Porto, destaca-se o edificado das duas margens do rio.
[5] O vós que estais na diminuta barca… Dante
Alighieri (1265-1321), Paraíso Canto II A Divina Comédia (1321) tradução de Vasco
Graça Moura. Quetzal Lisboa 2011. (pág.602).