[2] A
partir dos anos vinte, e até ao aparecimento do caminho de ferro, as viagens
entre Porto e Lisboa eram normalmente feitas de navio. As viagens marítimas iniciaram-se em 1821 com
o navio Lusitânia da empresa João Baptista Ângelo da Costa & C.a, mas essa
carreira foi suspensa em 1823 após um naufrágio em 1823 junto a Ericeira. Em 1825 um novo vapor denominado Restaurador
Lusitano retoma as viagens entre Lisboa e Porto. O Restaurador
Lusitano naufragou a 11 de Setembro
de 1832, quando se dirigia para o Porto ao serviço de D. Miguel em plena Guerra
Civil.
O moderno barco a vapor e o romântico barco à vela
Em
1839 o pintor inglês Joseph M. W. Turner (1775-1851), apresenta um dos seus quadros, intitulado “The
Fighting Temeraire tugged to her Last Berth to be broken up” que se tornou
uma das suas obras mais conhecida já que, de certo modo, é um precursor do
Impressionismo, utilizando o fumo da máquina a vapor para criar sugestivas
atmosferas nas suas composições.
O
quadro representa um facto real, a última viagem do Temeraire, um navio da frota de Lord Nelson na batalha de
Trafalgar, em 1805.
fig. 7
- Joseph Mallord William Turner (1775 – 1851), The Fighting Temeraire tugged to her Last Berth to be broken up, 1838/39.
Óleo sobre tela 90,7 x 121,6 cm. The National Gallery London.
Em 1838 o Temeraire, já sem qualquer uso, foi rebocado até ao Tamisa para ser desmantelado.
Mas a tela de Turner, com um
navio a vapor no primeiro plano e o Temeraire
ao fundo a ser rebocado, significa o fim da era da navegação à vela, com a
utilização da máquina a vapor, no início da revolução industrial
Turner pode ter querido
representar a nostalgia das energias naturais e o início da máquina alimentada
a carvão (com a consequente poluição do ambiente), ao pintar o velho e
ultrapassado Temeraire como um
moribundo quase branco, e o novo barco a vapor, de um tom escuro, triunfante,
cuspindo fogo, com as suas rodas de pás energicamente agitando a água.
Do mesmo modo, Manoel Pinheiro Chagas (1842-1895),
compara o horrendo barco a vapor com o
elegante barco à vela.
“Conhecem alguma coisa mais horrenda,
mais prosaica, mais repugante do que um vapor? Todo negro,
como um habitante do inferno que parece ser, sem uma vela branca, sem um mastro airoso, vomitando fumo, resmungando, ralhando, caturrando, tossindo!
Quanto differe d'esses botes leves,
graciosamente inclinados, com a candida aza aberta ao sopro do vento, resvalando à flor do rio, sem bulha, sem agitação, como uma sylphhide sobre o calice das flores, como gentil menina sobre o macio tapete do salão do baile, no rapido volteiar da valsa! O vapor, pelo contrario, é um velhote de botas grossas, que vae correndo para se aquecer, fazendo um estrepito dos demonios, todo esbofado, e suado, e ralhador!”
O vapor no rio Douro entre o Porto e a Foz
Para substituir o uso de
burro ou do cavalo, dos carroções, do char-à-bancs
ou do omnibus, é criado em Agosto de 1855 um serviço de transporte de
veraneantes entre a Ribeira e a Foz, utilizando o navio Duriense com uma
lotação de 80 lugares.
Faustino Xavier de
Novais num poema intitulado “Um passeio à
Foz e datado de 8 de Outubro 1852 descreve com ironia a ida à Foz no barco
a vapor Duriense:
“…Immensa
multidão lá se descobre
No logar onde esperam passageiros,
Que o vapor
os vá pôr na Porta Nobre,
Ri-se a gente do
tom, dos cavalleiros
Que, sem que áureo
metal assaz lhe sobre,
Fidalgos querem ser, e não caixeiros;
Em quanto que o patrão, lá na cidade,
Ficou de mãos erguidas na Trindade.
O Duriense (*) partiu;
marchei, por terra,
Porque sou mui cobarde nos revezes,
E escuto como alguma gente berra,
Quando o lindo
vapor, não poucas vezes,
Com pedras, água e vento, em crua guerra,
Se dispõe a mangar dos portuguezes:
O passeio findei, bom de saúde,
Se mal o descrevi, fiz o que pude.”
(*) Pequeno barco, movido a vapor,
que morreu de paixão por não poder andar tanto como um carroção puxado a bois.”
Alberto
Pimentel no final do século XIX escreve:
«Durante algum tempo, uma
companhia lembrou-se de organizar um serviço de navegação fluvial entre o Porto
e a Foz. Havia um vaporzinho que fazia
carreira entre a cidade e a Cantareira,
mas a empresa não deu bom resultado, tal era o apego ao burro, no Porto
daquele tempo, como meio de transporte.»
Mas,
de facto o transporte pelo barco a vapor entre o Porto e a Foz continuou como por
ocasião da romaria de Nossa Senhora da Luz, que se continuou a realizar mesmo
após a desactivação da capela de Nossa Senhora da Luz em 1832, como num anúncio
no jornal “O Commercio do Porto” de
Setembro de 1888 se referem as carreiras de “vaporzinhos”
entre a Ribeira e a Foz.
“É no próximo domingo que se
realiza na Foz a romaria da Senhora da Luz, que costuma ser muito concorrida.
Os vaporzinhos «Leão» e «Ligeiro», desde as 5 horas da manhã, farão corridas
entre os Banhos e a Cantareira.”
No
entanto o mais célebre dos vapores do Douro foi o navio “Porto” ainda de madeira, com 150 cavalos e atingindo uma
velocidade de 9,5 milhas por hora, construído em 1836 pelos Estaleiros de
Plymouth para a Empresa do Barco a Vapor
do Porto, que o colocou ao serviço de correio, passageiros e carga entre o
Porto e Lisboa, com eventual paragem na Figueira da Foz.
Funcionava
a vapor movido a rodas e entrou ao serviço no Porto em 24/12/1836.
Em
29/03/1852 naufragou, tragicamente, na foz do rio Douro, a cerca de 100 metros
do local da estação de embarque, que estava fora de serviço, com a morte de 36
passageiros e 15 tripulantes. Apenas 7 tripulantes foram salvos.
Numa
gravura do Rosto da cidade, circula em primeiro plano o vapor “Porto”.
fig. 8
– António Joaquim de Sousa Vaz Vista da
Cidade do Porto. Tirada da Quinta de Campo Bello. António Joaquim de Sousa Vaz.dezenhou.
Porto. Lith. Rua da Reboleira No 29 e 30.
fig. 9
– O vapor PORTO. Pormenor da gravura de António Joaquim de Sousa Vaz.
[2]
Faustino Xavier de Novais Um passeio à Foz” (8 de Outubro 1852) in Poesias na
Typographia de Sebastião José Pereira, Porto 1855.
(pág. 37).
Alberto Pimentel (1849-1925), em O
Porto ha Trinta Anos. Livraria Universal de Magalhães & Moniz Editores.
Porto s/d. (1892 na dedicatória). (pág.242).
Três gravuras com o Rosto da cidade nos meados do século XIX
fig. 10
- Enrico Gonin (1799-1870), Oporto Veduta
della Città presa dalla Serra do Pilar. 1851. Gravura E. Gonin dis. dal
vero e Lit. Torino Lit. F.lli Doyen e G.ia.AHMP.
fig. 11
- VISTA DA CIDADE DO PORTO E RIO DOURO. Ved.se na Off. de Souza Porto em Beja.
F. P. Graça. 1855. AHMP
fig. 12
- Cesário Augusto Pinto (des.), Porto", Joaquim Cardoso Vitória Villanova
(litograf.). "Margens do Douro. Pinto dei. Lith. de J. V.
V.a Nova. Porto, 1848. Álbum de doze vistas por Cesário Augusto Pinto (Porto,
1849). AHMP.
A fotografia
Contemporâneos
da Ponte Pênsil (1842-1886), aparecem no Porto os primeiros ensaios de
fotografia.
Por isso, para além das gravuras e desenhos surgem panorâmicas fotográficas do rio Douro, da ponte Pênsil e da cidade.
fig. 13
- Frederick Flower - End of City Wall, Oporto of old religious House and
Suspension Bridge, from Villa Nova de Gaya. Prova actual em papel salgado
a partir do original em calotipo 267 x 220 mm ANF/D-FWF/11. catálogo da Exposição F. W.
Flower um pioneiro da fotografia portuguesa Electa 1994
fig. 14 - Domingos Alvão, A Cidade do Porto na obra do Fotógrafo Alvão, ed. fotografia Alvão, Porto 1993.
fig. 15
- Francis Frith (1822-1898) & Co. Vista do Porto. Prova em papel salgado a
partir do calótipo de Flower Flower.
fig. 16 - Comte Henri de Lestrange ( 1853-1926) – Vista do Porto 1897 Positif
noir et blanc pour projection Gélatino-bromure Support verre;Recadrage au
papier collé Ministère de la Culture (France), Médiathèque de l'architecture et
du patrimoine (archives photographiques) diffusion RMN.
O Rosto da Cidade ilumina-se com os candeeiros a gás.
Lady Jackson ao chegar ao Porto vinda de Vila Nova de Gaia,
descreve a sua nocturna entrada no Porto de ónibus: “Subimos e depois descemos vagarosamente uma íngreme encosta e passamos
a ponte-pênsil, alumiada pelos lampejos dos raros lampeões. Começava a tremular
no rio o radiar da lua, dando feitios fantásticos às sombras dos objectos,
quando íamos em solavancos a entrar na cidade, que se eleva na montanha
fronteira a nós. Passava de onze horas quando entramos no Porto.”
fig. 17
– Anónimo. Ponte pênsil do Porto / ponte de D. Maria II, vista
desde Vila Nova de Gaia. Entre 1881e1886. Repositório Temático da Universidade do Porto. Wikipedia. Foto tratada.
Dois grandes edifícios que ampliam e marcam o Rosto da cidade
Para além do já referido Palácio da Bolsa, do lado ocidental, dois
edifícios marcam o novo Rosto do Porto: a Alfândega nova e o Palácio de
Cristal.
Numa panorâmica atribuída à Casa Alvão podemos verificar o Rosto do
Porto com estes dois novos edifícios e a ponte Pênsil.
fig. 18 - Autor não identificado Atribuída à Casa Alvão. Panorâmica do Porto c. 1870 (originais em vidro do Museu Nacional de
Soares dos Reis Porto) cópia cedida por gentileza do arquitecto Manuel
Magalhães.
fig. 19
– A mesma fotografia com a identificação das alterações no Rosto da Cidade.
A Alfândega Nova
“…quando eu, da celebrada
Miragaia,
sósinho me sentei, na amena
praia.”
Faustino Xavier de Novais
Construída
sobre a praia de Miragaia, o poderoso edifício da nova Alfândega irá alterar a
relação da cidade com o rio.
O projecto de
Colson, implanta-se na antiga praia de Miragaia.
A sua
construção iniciou-se em 1859 e prolongou-se pelas duas décadas seguintes.
“Quem se
dirigir á rua dos Inglezes encontra num vasto, mas arruinado edifício, a
alfândega, que pelas suas paredes velhas e privação de luz mais se assemelha a
um cárcere: (Em tempos remotos vinham
hospedar-se os reis de Portugal nesta casa, e foi nella que nasceu o grande
Infante D. Henrique.) pedia
pois a necessidade e o grande movimento commercial, um outro edifício mais
próprio á nobre classe dos negociantes, e mais digno d‘ esta cidade: estas
considerações levaram o governo ao propósito da construcção de uma alfândega,
precedendo o alvitre do corpo commercial, que opinou pela edificação na mesma
rua com a expropriação das casas sitas na rua dos Banhos: estas considerações levaram o governo ao propósito
da construcção de uma alfândega, precedendo o alvitre do corpo commercial, que
opinou pela edificação na mesma rua com a expropriação das casas sitas na rua dos
Banhos: esta opinião ajustava-se com a conveniência do local, com o
aformoseamento d‘ ésta rua mui transitada e com menor dispêndio:
o governo,
desprezando todas estas considerações bem cabidas,- e levado, ou por conselhos
alheios (que revertem quasi sempre em beneficio do proponente) ou por parecer
próprio, julgou mais acertado o local na alameda de Miragaia, onde, por falta
de base solida no terreno, se têm consumido e enterrado sommas enormes para uma
boa collocação de alicerces, que excederam consideravelmente o custo das
expropriações necessárias para a edificação da alfândega no sítio
primitivamente escolhido pelo corpo commercial.
Desconsiderou,
pois, o governo a classe, não attendendo ao seu parecer, inutilisando um dos
mais lindos passeios da margem do Douro.
A nova
alfândega vae já muito adiantada, e a conclusão d'ésta obra pelo menos revelará
o fabuloso custo de centenares de contos de réis.
Também Pinho Leal
escreve sobre a Alfândega e a nova rua.
“Com a abertura da nova
rua desappareceu o bairro dos Banhos, um dos mais immundos da cidade; a Porta
Nobre, o postigo dos Banhos, a maior parte da rua de Cima do Muro e uma parte
da da Reboleira.
A rua está ao abrigo das
cheias e absorveu enorme volume de terras, pela maior parte extrahidas do corte
feito para o alargamento da rua de Ferreira Borges.
A porção construída pela
camara é desde a rua dos Inglezes até um pouco adiante da antiga Porta Nobre.
Não esta empedrada ainda, havendo, porem, já em deposito grande porção de
parallelipipedos (pedra de esteio, de Canellas).
Na parte direita da rua
estão-se construindo já novos prédios, subordinados na fachada a um typo
apresentado pela camara.”
O
Palácio de Cristal 1862/1865 (demolido em 1951)
Construído para a Exposição Internacional do Porto realizada em 1865 e
projectado por Thomas Dillen Jones e W. Shields (tendo ainda trabalhado nas
suas obras de construção o eng. Gustavo Gonçalves de Sousa), o Palácio de
Cristal, era propriedade da Associação Industrial Portuense, criada em 1852.
Construído em ferro e vidro, com influências do Chrystal Palace de
Londres de John Praxton, tinha três naves e três pisos: cave, rez do chão e um
piso.
Estava integrado num amplo jardim da autoria de Émile David, onde
estavam colocadas duas fontes, um lago, um chalet, um circo, e diversos
equipamentos de jardim.
Em 1868 cria-se o teatro Gil Vicente.
Na fachada principal inscrevia-se a legenda PROGREDIOR, de acordo com as
ambições dos seus fundadores.
Alberto Pimentel descreve assim o Palácio de Cristal:
"Palácio de Crystal - Pela sua deliciosa posição, pela grande amenidade
dos seus bosques e jardins, e ainda para muitas pessoas pêlos seus theatros,
bilhares e demais diversões, o Palácio de Crystal, sendo durante a semana muito
pouco frequentado, - ó assombro! - é, todavia, o encanto e admiração de todas
as pessoas de mais fino gosto que visitam o Porto.
O domingo é o dia
habitualmente destinado ao Palácio de Crystal, porque n'esse dia é costume
haver musica de tarde e queimarem-se fogos de artificio á noite. Mas, por Deus,
que n'esse dia o Palácio de Crystal, petulante de garridice domingueira,
involto em turbilhões de gente e pó, é simplesmente um passeio como qualquer
outro, sem as suas grutas remançosas, sem as suas sombras cheias de silencio e
mysterio, sem a tranquilla doçura das suas arvores e das suas ruas. Verdade é
que, se grande numero de pessoas começasse a frequental-o á semana, o Palácio
de Crystal perderia essa deleitosa serenidade que para nós é o seu maior
encanto, e atravessaria uma ininterrompida serie de domingos, quer dizer, de
dias em que a concorrência é tamanha, que chega a molestar-se.
Ha males que vem por bens.
Continue a população
portuense a procurar o Palacio de Crystal ao domingo para ouvir musica e ver
queimar fogos d'artificio, e deixe-o em paz durante a semana, como sempre tem
feito, para que o visitem as pessoas mais namoradas da paizagem que dos effeitos
acústicos e pyrotechnicos."
O Palácio de Cristal e a Alfândega
Nova numa panorâmica de Juan (Jean) Laurent.
fig. 20
– Juan (Jean) Laurent
(1816-1886). Vista panorâmica do Porto 1869. Col. Manuel Magalhães.
Para finalizar, o Rosto da Cidade numa fotografia de
Carlos Relvas dos meados do século XIX onde estão apontados os três grandes
edifícios.
fig. 21
- Carlos Relvas (1838-1894), Ribeira c. 1865. Legenda: 1 Palácio da
Bolsa 2 Palácio de Cristal 3 Alfãndega
Nova em construção.
[1]
Faustino Xavier de Novais (1820-1860), Um Passeio à Foz in Poesias na
Typographia de Sebastião José Pereira,Porto 1855.
(pág. 32).
Francisco
Ferreira Barbosa, Elucidario do Viajante no Porto. Coimbra 1864.