segunda-feira, 1 de junho de 2026

Aspectos da cidade do Porto em 1926 3 I parte

 

As infraestruturas urbanas

 

“Acaso vemos o frio,

O ar, a electricidade,

Ou como obra nas sementes

O calor e a humidade?

Vemos acaso os agentes

D'um e d'outro magnetismo

Do movimento e da força

Vemos além do organismo?” 

Anónimo 1855 [1]

 

 

Figura 1 – Postal. Pôrto – 25 – Rio Douro e Praça da Ribeira. Ed. PC.

Para além do edificado e do espaço público, qualquer cidade se faz pelas suas necessárias, embora menos visíveis, infraestruturas: fontes e redes de energia, de águas e saneamento, de comunicações, de transporte e acessibilidades, etc..

 

1 A Energia

O ano de 26 situa-se a meio período que corresponde ao final da I Grande Guerra e que se prolonga até às consequências na Europa da grande crise económica de 29. Vivido pelos seus contemporâneos, nas grandes cidade, como anos de uma certa euforia na procura da modernidade, num período marcado pela "segunda revolução industrial", ou seja o início do uso do petróleo e da electricidade, os quais vão substituindo o carvão e o gás,  tornando-se lentamente as principais fontes de energia.

Inicia-se um período marcado pelo desenvolvimento da indústria química, metalúrgica e eléctrica, marcado pelo início da difusão do automóvel, do cinema e da rádio, e ainda pelo desenvolvimento da aviação. Há um crescimento da publicidade e do desenho industrial, encarados como fazendo parte do processo produtivo, aproveitando o desenvolvimento e difusão dos meios de comunicação quer sejam a imprensa ilustrada, a rádio ou o cinema.

Estas novidades provocam a transformação do quotidiano dos habitantes da cidade. A noção de conforto e de consumo altera-se pelo menos para as elites urbanas.


As fontes de Energia no Porto dos anos vinte

1.1 O carvão

“Enquanto o velho mundo arfando de cansaço
prostrado cai na luta; em fumo negro e denso
levanta-se a espiral desse moderno incenso
que ofusca os deuses vãos, anuviando o espaço!”

Guilherme de Azevedo (1839-1882) [2]


O Porto é ainda, em 1926, uma cidade a carvão.

É ainda o carvão a principal fonte de energia, que faz movimentar as máquinas das indústrias e da ferrovia, e é o carvão que permite – para os que podem - o conforto doméstico, quer no aquecimento e na preparação de alimentos, quer no tratamento da roupa (o ferro de engomar a carvão).

Para essas múltiplas utilizações do carvão, não era suficiente a extracção nacional (escoado através do rio Douro nos rabões negros), mas tornava-se necessária uma considerável importação de carvão estrangeiro, o qual era uma das principais mercadorias, descarregada nas margens do Douro, no cais de Gaia e no Porto nos cais da Ribeira, da Alfândega, de Massarelos e do Ouro.

 



Figura 2 – Postal. Porto-caes d’Alfandega e aspecto do Rio Douro. Ed. JO 104.

Figura 3 – Postal. Porto- Caes das Pedras – Massarelos.


Figura 4 – A descarga de carvão no Cais do Ouro. Postal Arnaldo Soares.

 

Essa importação de carvão era demasiado dispendiosa como afirma Ezequiel de Campos em 1923: “compreende-se a grandeza do tributo ao estrangeiro pelo carvão e pelo transporte marítimo, e a grande importância de trabalho e de dinheiro que gastamos em Portugal para movimentar permanentemente os recursos de força importados.” [3]

 

A descarga do carvão na Ribeira

 

“Descalças! Nas descargas de carvão,

Desde manhã à noite, a bordo das fragatas;

E apinham-se num bairro aonde miam gatas, …”

Cesário Verde [4]



Figura 5 - Abel Salazar (1889-1946), "A Descarga do carvão" óleo s/madeira 213x153 cm. 40 x 64 cm. Col. particular.

Almada Negreiros numa passagem pela Ribeira escreve em 1926, escreve sobre as mulheres que se ocupavam das descargas no Porto e em Lisboa:

 “Além disto, a carga e a descarga das fragatas, ocupa uma quantidade imensa de mulheres e de homens, mas sobretudo mulheres.

E' uma raça diferente da do mercado. Poucas vezes me foi dado compreender melhor o que

significam aquelas palavras: ganhar o pão de cada dia, do que ao vêr essas mulheres que

iam e vinham sobre duas e compridas pranchas de madeira lançadas desde a borda

da fragata até ao caes, uma distancia parecida com uns dez metros. O equilíbrio dessas

mulheres não tinha uma hesitação situado à altura de três homens da agua, e em menos de três palmos de largura durante os dez metros. Acrescente-se a isto que levavam à cabeça as

canastras, umas vezes vazias e outras vezes cheias ati cima em pirâmide, conforme iam ou

vinham da fragata. Daquela vez, não me lembro do que descarregavam; apetecia-me que

fossem laranjas, mas não insisto com a memoria, tenho, contudo, ainda na mente a maneira rapida como davam conta daquele serviço, conservando sempre um tempo ginastico, e não

digo militar, porque além dos gestos sóbrios e simplificados, corrigidos para o próprio trabalho

repetido em que andavam, havia também uma beleza de linhas e de formas à qual não era extranha a sua natureza feminina. O gesto de abaixarem-se para acertar a cabeça ao

melo da canastra carregada, a marcha sobre a prancha com o peso todo à cabeça, o modo

de despejar a canastra inclinando o corpo de lado pela cintura, eram exactos e cheios de

graça.

As alcochetanas que descarregam das fragatas o carvão inglês nos caes de Lisboa por este mesmo processo, não podem infelizmente serem-lhes comparadas, se não lhes falta a graça é outra, mas não dispõem das ossaturas opulentas das mulheres do norte e muito menos daquela dignidade externa a qual me surpreendeu em mulheres de pé descalço.” [5]

 


Figura 6 – Mulheres descarregando sal no cais. Foto Beleza/Mário Ferreira.


Se Abel Salazar pintou as mulheres do Porto, Mário Eloy pinta em 1928 as mulheres da Ribeira de Lisboa. Se em primeiro plano, uma varina com o menino pela mão parece quase cair ao peso da canasta, repare-se em segundo plano duas varinas (nuas!) transportando o carvão.

 




Figura 7 - Mário Eloy (19001951),Menino e Varina, óleo s/tela 49 x 43 cm. MNAC do Chiado.


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Figura 8 - A descarga de carvão na Ribeira Foto 11 do Álbum Porto Margens do Tempo. Texto de Mário Cláudio e Fotos “Fotografia Beleza”.  Livraria Figueirinhas Porto /Lisboa 2001.


Havia ainda o carvão da “Empreza Minas de Carvão de S. Pedro da Cova” cujo alvará data de 29 de Novembro de 1913, que era transportado por barco pelo rio Douro e pelo carro eléctrico, mas, desde 1914 por um teleférico de S. Pedro da Cova em Gondomar até ao Monte Aventino nas Antas com passagem e paragem em Rio Tinto.

 



Figura 9 – o teleférico da Empreza Minas de Carvão. São Pedro da Cova Gondomar.


Figura 10 - Entrada da Estação de Rio Tinto. O teleférico das minas de S. Pedro da Cova.

 

O carvão e o ferro de engomar

 Nas tarefas domésticas, de entre os usos do carvão (braseiras, fogareiros, caldeiras), destacava-se, pela sua difusão, o ferro de engomar (passar a roupa), usado desde o século XIX até meados do século XX, quando surgiu e se difundiu o ferro eléctrico.

Pela indispensável utilização do ferro de engomar, a figura da Engomadeira (Repasseuse), na sua árdua tarefa, torna-se tema na literatura e na pintura.

Cesário Verde fala da “pobre engomadeira” de quem lamenta a sua condição.

E estou melhor; passou-me a colera. E a visinha?

A pobre engommadeira ir-se-ha deitar sem ceia?

Vejo-lhe luz no quarto. Inda trabalha. É feia...”

Que mundo! Coitadinha!” 

Cesário Verde [6]

 E Fernando Pessoa, na figura do engenheiro Álvaro de Campos, recorda o ferro de engomar como um ritmo da sua infância.

“Ah o som de abanar o ferro da engomadeira
À janela ao lado da minha infância debruçada!” 
Álvaro de Campos [7]

 



Figura 11 - Edgar Degas (1834-1917), La Repasseuse c.1869. óleo s/tela 92,5 x 73,5 cm. Neue Pinakothek Munique.

 

A Engomadeira olha-nos de frente, a face pálida, com um olhar cansado e seco, enquanto passa o ferro por um branco lençol de linho (Quem poluiu, quem rasgou os meus lençóis de linho…) [8] estendido sobre a mesa.

A alvura do lençol estende-se a toda a composição, onde a blusa da engomadeira e as peças penduradas criam um ambiente, um cheiro a roupa recentemente lavada e repassada.


Como a actividade se mantém por longos anos, no século XX, o poeta francês Pierre Reverdy descreve poeticamente o árduo labor da engomadeira - com o ferro levantando nuvens de vapor da peça de linho -  com a sua alma de resistente dobrando-se como depois de passado se dobra um lençol.

“Em outros tempos, as suas mãos deixavam manchas rosadas no linho brilhante que ela passava a ferro. Mas na loja, onde o fogão brilhava com um vermelho intenso, o seu sangue evaporou-se gradualmente. Foi ficando cada vez mais branca, e no vapor ascendente, ela mal se distinguia no meio das ondas cintilantes das rendas.

Os seus cabelos loiros flutuavam no ar em caracóis como raios, e o ferro continuava a sua viagem, levantando do linho nuvens — e em redor da mesa, a sua alma ainda resistente, a sua alma de engomadeira, corria e se dobrava como o linho, cantarolando uma canção — sem que ninguém a escutasse.” [9]

 E José de Almada Negreiros escreve em 1916, um texto que publicará no ano seguinte intitulado “A Engomadeira. Novela vulgar lisboeta”, o qual se inicia por:

“Um dia a mãe comprou chapéu pra ir em pessôa pedir à dona da engomadoria que não deixásse a filha passar a ferro as ceroulas dos homens porque parecia mal a uma menina decente.”

Mais tarde estudará e pintará, com o mesmo título, uma conhecida tela.



Figura 12 - José de Almada Negreiros (1893-1970), Estudo para A Engomadeira [1938], grafite s/papel 32 x 22 cm. E «A Engomadeira», 1938. Assinado / Datado. Óleo sobre tela. 50 x 40 cm.

Catálogo da Exposição “José de Almada Negreiros. uma maneira de ser moderno”. fevereiro-junho 2017. Museu Calouste Gulbenkian. (pág. 339).

No estudo e na pintura, para além da posição esforçada, mas elegantemente contorcida da engomadeira.



Na pintura a pequena gaiola com o pássaro como significando a condição “enjaulada” da Engomadeira e no pormenor do desenho meticuloso do ferro de engomar, cuja cor negra e vermelha respira peso e calor.


 

Figura 13 – O Ferro de engomar no quadro de Almada e um (ferrugento!) modelo a carvão do início do século XX.

 

CONTINUA

 

 



[1] Anónimo (Alexandre José da Silva de Almeida Garrett 1797-1847, irmão do conhecido João Baptista Almeida Garrett 1799-1854) In As Viagens a Leixões ou a troca das Nereidas. Canto XII. Typographia de Sebastião José Pereira Porto 1855. (pág.280).

[2] Guilherme Avelino Chaves de Azevedo (1839-1882), Ó Máquinas febris in A Alma Nova, (1874). Iba Mendes Editor Digital. (pág. 26)

[3] Ezequiel de Campos, A Crise Portuguesa –Subsídios para a Política de Reorganização Nacional (1923) in Textos de Economia e Política Agrária e Industrial. (1918-1944). Banco de Portugal Lisboa 1988. (pág.121).

[4] Cesário Verde (1855-1886). O Sentimento de um Ocidental. In O Livro de Cesário Verde 1873-1886. Typographia Elzeviniana Lisboa 1887. Embora Cesário se refira a Lisboa os seus versos, como descrições urbanas podem aplicar-se a muitas cidades inclusive o Porto.

[5] José d’Almada Negreiros (1893-1970), Desgraçador. Primeiro esboço do terceiro capítulo do novo romance de José de Almada Negreiros “Nome de Guerra” in Contemporânea 3ª série. Nº3. Julho-Outubro 1926. (pág. 108 e 109).

[6] Cesário Verde (1855-1886). Contrariedades. in O Livro de Cesário Verde Typographia Elzeviniana Lisboa 1887. (pág. 24).

[7] Álvaro de Campos. (Fernando Pessoa), Livro de Versos (Edição crítica), Introdução, transcrição, organização e notas de Teresa Rita Lopes. Editorial Estampa, Lisboa 1993. (pág. 315) 

[8] Camilo Pessanha (1867-1926), in Clepsidra (1920), Imprensa Nacional-Casa da Moeda Lisboa 2014. (pág.63).

[9] Pierre Reverdy (18891960) Poèmes en prose (1915) in Plupart du temps 1915-1922. NRF Gallimard coll. Poésie. Paris 1969. (pag.38)

« Autrefois ses mains faisaient des taches roses sur le linge éclatant qu'elle repassait. Mais dans la boutique où le poêle est trop rouge son sang s'est peu à peu évaporé. Elle devient de plus en plus blanche et dans la vapeur qui monte on la distingue à peine au milieu des vagues luisantes des dentelles.

Ses cheveux blonds flottent dans l'air en boucles de rayons et le fer continue sa route en soulevant du linge des nuages — et autour de la table son âme qui résiste encore, son âme de repasseuse court et plie comme le linge en fredonnant une chanson -- sans que personne y prenne garde. »

 

sexta-feira, 29 de maio de 2026

poema curto 25

 

poema curto 25


Armando Alves (1935-2026), sem título 1954. Óleo sobre tela 49,5 x 28,5 cm. Col. particular.


“…O vulto do caes é a estrada nítida e calma

Que se levanta e se ergue como um muro,…”

Fernando Pessoa [1]

 

já se não via que o sol no mar entrava

impassível eu me ausento da memória

 



[1] Fernando Pessoa, excerto de Chuva Oblíqua. In Fernando Pessoa Obra Poética. Volume único. Companhia Aguilar Editora. Rio de Janeiro 1965. (pág. 113).