terça-feira, 16 de junho de 2026

Poema do arquitecto 11

 



Maurits Cornelis Escher (1898-1972), Céu e Água I 1938 Xilogravura 43,7 × 43,7 cm. Sobre papel japonês 50,8 × 54 cm. Col. particular.

 

A unidade

 

“Denique sit quodvis simplex duntaxat et unum” [1]

Horácio [2]

« In Wit, as Nature, what affects our hearts

Is not th' exactness of peculiar parts;

'Tis not a lip, or eye, we beauty call,

But the joint force and full result of all. » [3]

Alexander Pope [4]

“O todo sem a parte não é todo;

A parte sem o todo não é parte;

Mas se a parte o faz todo, sendo parte,

Não se diga que é parte, sendo o todo.”

Gregório Mattos [5]

 

A parte é para o todo como o todo é para a parte

cada parte só tem valor se faz o todo harmonioso

o todo vive se fundada razão une todas as partes

sem essa unidade a forma é como corpo doloroso

 

a poética da forma de uma composição só existe

quando o desenho se converte em uso quotidiano

reduzida a discreto uso de elementos significantes

realiza-se a forma carregada do máximo significado




[1] “Se te pões a compor seja de modo / Que das partes resulte hum simples todo”

[2] Quintus Horatius Flaccus (65a.C.-8a.C.), Ars Poetica (c.19a.C.), in Horacio Arte Poética, Traduzida em rima por Miguel do Couto Guerreiro (1720-1793). Na regia Officina Typografica, Anno MDCCLXXII Lisboa. (pág. 2)

[3] “O que em juizo, como em natureza,

Mais toca os corações, surpr'ende as almas,

Não consiste na exactidão das partes:

Não chamamos belleza a um beiço, a um olho;

A força junta, o pleno resultado

Das partes todas, constitue o bello.”

[4] Alexandre Pope (1868-1744), ensaio sobre a crítica (1711). in Obras Poéticas de Leonor d’Almeida Portugal Lorena e Lencastre Marqueza de Alorna Condessa Dassumar, e Doeynhausen, conhecida entre os poetas portugueses pelo nome de Marqueza de Alorna.Tomo III Na Imprensa Nacional. Lisboa 1844. (pág. 87).

[5] Gregório de Mattos (1633/6-1695/6), Soneto in Poemas Escolhidos de Gregório de Matos Seleção e prefácio de José Miguel Wisnik. Companhia das Letras. Editora Schwarcz L.da São Paulo 2010. (pág. 309).

quinta-feira, 11 de junho de 2026

Aspectos da cidade do Porto em 1926 3 II parte

 

[Nota importante – Para conhecer a história, objectiva e documentada, do Gás e da Electricidade no Porto é imprescindível consultar de Ana Cardoso de Matos (coordenadora), Fátima Mendes e Fernando Faria, “O Porto e a Electricidade”, publicação do Museu da Electricidade. EDP. 2003.]

 

As fontes de Energia no Porto

1.2. O Gás

 

“Nas nossas ruas, ao anoitecer,

Há tal soturnidade, há tal melancolia,

……………………………….….

O céu parece baixo e de neblina,

O gás extravasado enjoa-me, perturba-me

Cesário Verde [1]

 

O Gás de cidade, em que o carvão era essencial para a sua produção, foi largammente utilisado na segunda metade do século XIX e nas primeiras décadas do século XX, mas, no Porto, foi sendo substituído pela electricidade. O Gás nesta cidade, pouco utilisado para uso doméstico, serviu, contudo para a iluminação pública.  

 

A iluminação pública a gás

 

“Um fantástico véu cobria as longas praças;

E o gás ria através da grande cerração

Que em lágrimas descia ao longo das vidraças

E em flocos de alva neve humedecia o chão.”

Guilherme de Azevedo [2]

 

No seu centro, a cidade iluminada pelo gás, nas suas ruas, edifícios públicos, nos estabelecimentos comerciais e em qualquer acontecimento mundano, criou a vida nocturna essa orgia, ao longe, que em clarões cintila…” [3]


Figura 1 - Camille Pissarro (1830-1903) Boulevard Montmarte la nuit.1897. óleo s/ tela53,5 x 65cm. National Gallery Londres.

 Mas, nas periferias, a noite nas suas praças e ruas, era ainda carregada de penumbras e escuridões, apenas pontuadas pela fraca luz dos candeeiros de gás, por esta e aquela janela iluminada, e pela luz da lua e das estrelas em noites limpas.


Dois quadros de Vincent van Gogh, sensivelmente da mesma data mostram isso mesmo.



Figura 2  - Vincent van Gogh, Café terrasse la nuit (Place du Forum), c.1888, óleo s/ tela 80,7 x 65,3 cm. Kollektion des Kröller-Müller Museums.



Figura 3 - Vincent van Gogh (1853-1890), La Nuit étoilée 1888 óleo s/tela 72 x 92 cm. Musée d’ Orsay. Paris.

 


António Carneiro, no princípio do século XX pinta alguns nocturnos.


Figura 4 - António Teixeira Carneiro Júnior (1872-1930).  Nocturno 1910. Óleo s/ tela 55 x 81,9 cm. Museu Nacional de Arte Contemporânea-Museu do Chiado.

 

Na cidade do Porto, em 1926 o gás, que nos finais do século XIX era ainda a principal fonte da iluminação da cidade, estava praticamente substituido pela electricidade.

O seu uso para consumo doméstico, ao contrário de Lisboa, não teve grande aceitação, e foi, sobretudo utilizado, desde os meados do século XIX, para a iluminação pública iniciada em 1855.

Em 1891 "o Porto dispõe já de mais de 2 500 candeeiros, instalando-se nesse ano mais 107 em toda a cidade e mais 42 de luz intensiva entre a Batalha e os Clérigos, cabendo 40 destes candeeiros à Rua de Santo António, Praça de D. Pedro e Rua dos Clérigos. Dez anos depois, há já mais de 3 800 candeeiros colocados, registando-se um aumento significativo do consumo particular."


Figura 5
 – Projectos para candeeiros a gás no Porto. 1. Reprodução de um projecto de candeeiros e consolas para a iluminação pública a gás no Porto, 1854. 2. Desenho de um candeeiro público, de 1855. 3. – Candeeiro de iluminação a gás 18??. Desenho de projeto para candeeiro de iluminação pública. Escala: ca. 1:8. AHMP.

 

Em Outubro de 1885, na recepção aos exploradores João Carlos de Brito Capelo (1831-1901) e Roberto Ivens (1850-1898), a Câmara Municipal (edifício demolido em 1916), bem como algumas ruas adjacentes, aparecem iluminadas a gás, como relata a revista O Occidente: “à noite iluminaram brilhantemente a gaz os edifícios da Câmara Municipal, da Associação Commercial, da Sociedade de Geographia e muitos outros estabelecimentos públicos e particulares.” [4]



Figura 6 - João Ribeiro Christino da Silva (1858 - 1948) (des.). Illuminação dos Paços do Concelho. Gravura.  publicada na revista O Occidente, de 21 de Outubro de 1885. (pág. 240).

 

E O Occidente refere o aparecimento da luz eléctrica:

“Do mesmo modo a rua Sá da Bandeira, que estava vistosamente ornamentada, ostentou uma formosa illuminação minhota e a de Passos Manuel resplandecia à claridade intensa de duas grandes lâmpadas electricas.” [5]



Figura 7 - João Ribeiro Christino da Silva (1858 - 1948). (des.); Alberto Caetano da Silva (1843–1924) (grav.). As Illuminações na rua Sá da Bandeira (desenho do natural por J. Christino). gravura publicada na revista O Occidente, de 21 de Outubro de 1885. (pág. 240).

 

O gás de cidade era produzido na Fábrica do Gás no Ouro pela Companhia de Gaz do Porto.

Destacavam-se os grandes gasómetros, enormes e visíveis depósitos de acumulação de gás.


 


Figura 8
 Figura 8 - Porto – Fábrica do gaz. Postal 165 Editor Alberto Ferreira P. da Batalha Porto AHMP.

 


Figura 9 - Folha 129 da planta da cidade do Porto, à escala 1:500, levantada sob direção de Augusto Gerardo Telles Ferreira.

Os Gasómetros, como monumentais símbolos da cidade industrial moderna no final do século XIX e início do século XX, foram, também, tema da pintura em diversas cidades de vários países.

 


Figura 10 - Paul Signac (1863-1935), Le Gazometre de Clidhy 1886. Óleo s/tela 65 x 81 cm. MNational Gallery of Vitoria Australia.


Figura 11 - Mario Sironi (1855-1961) gazometro 1919. Óleo s/painel 100 x 70 cm Galleria d'Arte Moderna Milano

 



Figura 12 - Lyonel Feininger (1871-1956), Gasometer in Berlin-Schöneberg, 1912, óleo s/tela, 69 × 93,5 cm., Stadtmuseum, Berlim.

 Curiosamente na cidade do Porto e ao contrário dos edifícios e das pontes metálicas, os gasómetros e a fábrica de gás, foram apenas fotografados, não sendo (por mim) conhecidas pinturas das fábricas de gás do Porto ou de Lisboa.



[1] Cesário Verde (1855-1886). O Sentimento de um Ocidental. In O Livro de Cesário Verde 1873-1886. Typographia Elzeviniana Lisboa 1887. (pág. 60).

[2] Guilherme Avelino Chaves de Azevedo (1839-1882), Astro da rua in A Alma Nova 1874 (pág. 17 e 18).

[3] Camilo Pessanha (1867-1926), Clepsidra. Imprensa Nacional-Casa da Moeda Lisboa 2014. (pág.84).

[4] O Occidente, 21 de Outubro de 1885 (pág. 240).

[5] A rua Passos Manuel beneficiava já da existência de uma pequena central eléctrica aí existente, como veremos no capítulo Electricidade.

sábado, 6 de junho de 2026

Poema curto 26

 

Poema curto 26

“viajem até um mundo prometido, vislumbrado

a que o meu destino me convocava

com uma doce certeza”.

Vicente Al



 

António Quadros (1933-1994),São Macêtas ferrador e mártir e os fantasmas da cachoeira 1956, acrilico s/ madeira 80 x 130 cm. Col. particular.

 

Rumor nocturno de vento tão remoto

um fio d’água em cascata adormecida

 



[1] Vicente Aleixandre (1898-1984), Mar del Paraiso. III de Sombra del Paraíso (1939-1943) 1944. In Antologia de Vicente Aleixandre, Tradução e prólogo de José Bento Editorial Inova. Porto 1977. (pág. 93)

… viaje hacia un mundo prometido, entrevisto,

al que mi destino me convocaba con muy dulce certeza.

 

quarta-feira, 3 de junho de 2026

Poema do arquitecto 9 e 10

 


Os primeiros traços

Nebulosa I

 


fig. 1 - Leonardo da Vinci, Uragano con enormi getti d’acqua che travolge cavalieri e alberi, c. 1514. Royal Library. Castello di Windsor.

 

“As vezes o que vem primeiro, tanta

Natural graça traz, que hũa das nove

Deosas parece que o inspira, e canta.”

António Ferreira [1]

 

 “os deuses dão-nos gratuitamente um primeiro verso;

mas cabe-nos compor o segundo,

que deve estar em consonância com o primeiro

 e não ser indigno do seu sobrenatural irmão mais velho.”

Paul Valery [2]

 

“…os outros que fizeram e praticam a profissão de Arquiteto

arrancam as suas obras de um pequeno desenho feito em papel,

a partir do qual fazem o modelo, o que, contudo, não é o suficiente.”

Benvenuto Cellini (1500-1571) [3]

 

"Costumaõ os Arquitectos quando intentaõ levantar alguma fabrica,

debuxala primeiro em huma pequena traça,

para depois se acertar melhor o edifício."

Manuel Severim de Faria [4]

 

I

Realiza um primeiro debuxo uma primeira traça

o inicial esboço, uma aparente caótica nebulosa

que os deuses amáveis por nada te dão de graça

primeiro esquisso que deles foi dádiva generosa

Esse esboço construído com os primeiros riscos

traçados com maestria a lápis, caneta ou carvão

desenhos de linhas imperfeitas e indeterminadas,

são quem pode aproximar-te da primeira solução

 

 

 

Poema do arquitecto 10

Nebulosa II

 


fig. 2 Vincent van Gogh (1853-1890), La Nuit étoilée, 1889. Huile sur toile 73,7 x 92,1 cm. MoMA (Museum of Modern Art), New York

 

 O Esboço são as primeiras linhas ou traços que se fazem com a pena ou com o carvão,

 feitos com grande maestria e rapidez, e esses traços incluem a ideia e a invenção

do que queremos fazer, e ordenam o desenho, mas são linhas imperfeitas e indeterminadas,

mas nos quais se colhe e se encontra o desenho daquilo que temos intenção de fazer.”

Francisco de Holanda [5]

  

 “Projectar: há um princípio quase em nebulosa, raramente arbitrário.

Perpassa a história toda, local ou estranha,e a geografia,

histórias de pessoas e experiências sucessivas, as coisas novas entrevistas,

 música, literatura, os êxitos e os fracassos, impressões, cheiros e ruídos,

encontros ocasionais.

Uma película em velocidade acelerada suspensa aqui e ali, em nítidos quadradinhos.

Uma grande viagem em espiral sem princípio nem fim,na qual se entra quase ao acaso.

Comboio assaltado em movimento. É preciso parar e ser oportuno na paragem.

Agora entra a razão, com os seus limites e a sua eficácia. Talvez retomar a viagem?

Álvaro Siza [6]

 

“Na folha branca de papel faço o meu risco,

Retas e curvas entrelaçadas,

E prossigo atento e tudo arrisco

Na procura das formas desejadas.”

Oscar Niemeyer [7]

 

Esse precioso primeiro esquiço é a génese, o ovo

da misteriosa nebulosa inicial que se vai formando

e se do primeiro esquisso nada reste que seja novo

foi aí que tudo começou, início do que se foi criando

Será essa inquieta nebulosa em si mesma enrolada,

se difusa e dispersa no céu nem parada ou tranquila

mas só se da noite conheceres o seu profundo sentir

verás como ao vento o seu longo e diáfano véu cintila. [8]

 

 

 

 



[1] Antonio Ferreira (1528-1569) Carta XII Livro I  a Diogo Bernardes in Poemas Lusitanos do Doutor Antonio Ferreira, segunda impressão Tomo II,Na Regia Officina Typografica  Lisboa anno M DCC LXXI (pág. 56 ).

[2] Paul Valery (1871-1945), Introduction de Au sujet d’Adonis (1920) in Adonis (1658 publicado 1669), par Jean de La Fontaine (1621-1695). Au Masque d’Or Devambez, 23, rue Lavoisier. Paris. 1921. (pág.XII).les dieux, gracieusement, nous donnent pour rien tel premier vers; mais c'est à nous de façonner le second, qui doit consonner avec l'autre,  et ne pas être indigne de son aîné surnaturel »

[3] “Gli altri, che hanno fatto e fanno professione d'architetto, tirano le opere loro da un piccol disegno fatto in carta, e di quello fanno il modello, e però sono manco sufficienti.”  In Benvenuto Cellini (1500-1571) Carta a Benedetto Varchi in Vita di Bienvenuto Cellini Orefice e Scultore Fiorentino, da lui medesimo scritta, ridotta abuona lesione ed illustrata da Gio. Palamede Carpani. Volume Terzo di Nicolo Bettoni, Vite di Uomini Illustri scritte daloro medesimi. Milano M.DCCC.XXI. (pág. 184).

[4] Manuel Severim de Faria (1584-1655), Ao Leitor de Discurso Varios Politicos, Por Manoel Severim de Faria, Chantre, & Cónego na Sé de Évora. Com as licenças necessarias Em Evora Impressos por Manoel Carvalho Impressor de Vniversidade Anno 1624. Edição de Varios Discursos Politicos Por Manoel Severim de Faria, Chantre, & Cónego na Santa Sé de Évora. Fielmente reimpressos por Joaquim Francisco Monteiro de Campos Coelho, e Souza. Na Offic. De António Gomes. Anno M DCC LXXXXI, Lisboa 1791.

[5] Francisco de Holanda Dialoghi romani, III, (pág. 136). “… appena l’idea è determinata e scelta, tal quale la si vuole mettere in opera, si farà e si porrà subito in Disegno; e prima ancora che questo si realizzi nella sua perfezione, si fa lo schizzo, o modello di esso. Schizzo sono le prime linee o tratti che si fanno con la penna o con il carboncino, dati con grande maestria e velocemente, i quali tratti comprendono l’idea e l’invenzione di ciò che vogliamo fare, e ordinano il disegno, ma sono linee imperfette ed indeterminate, nelle quali si coglie e trova il disegno e ciò che è nostra intenzione fare.”

[6] Álvaro Siza, Projectar 24.01.2005, in 01- Textos Álvaro Siza. Civilização Editora, rua Alberto Aires Gouveia, 27. Porto 2009. (pág.317).

[7] Oscar Niemeyer (1907-2012), Autodefinição (17.01.2003), in Minha arquitetura – 1937-2005. Editora Revan, Rio de Janeiro 2005. (pág.347).

[8] “La Via Lattea sembra che palpiti al vento come un lungo velo”

Gabriele d’Annunzio (1863-1938), La Città Morta. Tragedia. Fratelli Treves, Editori. Milano 1900. (Atto Terzo, Scena Seconda pág.189). Anna - a Via Láctea parece que palpita ao vento como um longo véu.