Cidade que se estende e esconde junto ao rio até ao mar
"As cidades, tal como os sonhos, são construídas de desejos e medos, mesmo que o fio condutor do seu discurso seja secreto, as suas regras absurdas, as suas perspectivas enganadoras, e tudo esconda algo mais.” Italo Calvino [1]
Maria
Helena Vieira da Silva (1908-1992, L’air du vent 1966. Óleo s/ tela 129 x 98,5
cm. Centro de Arte Moderna Gulbenkian.
I Allegro
“Cidade
de meu andar
(Deste já tão longo andar!)”
Mário Quintana [2]
cidade girassol ao
sul e ao sol virada
em neblinas de saudade
abandonada
cidade de suspiros e repouso da alma
secreto vento onde o tempo se acalma
casario colorido da cidade endoidecida
rio d’ouro morrendo na foz adormecida
granito calmo que se aviva pelo Outono
luz esquecida e apagada em abandono
II Adagio
“Cidade estranha, sabes que existo?”
Pedro Homem de Mello [3]
cidade sombra de quem na luz se esconde?
nem rio mar rua beco margem me responde
todos os sonhos que guardaste na memoria
quais ficarão gravados na pedra da história?
cidade dorida ensanguentada e endurecida
porque morre
essa ponte desusada atrevida?
louca cidade viva pujante inquieta glamorosa
e por vezes tão áspera seca
rude caprichosa
III Andante
fazem
que nos pareça desta vida
que não
há nela mais que o que parece.”
Camões [4]
com tanto alvoroço se saudaram as novidades
esquecendo o ritmo certo de quem faz cidades
para uma cidade
antiga inquietante de frescura
procura onde se
esconde a harmoniosa tecidura
por
aqueles que em tantos e tantos longos anos
apenas
souberam edificar tais e terríveis danos
ar sem o perfume de gaivotas sobre os penedos
sabereis agora o porquê da dor de tais segredos?
IV moderato
“Nesse
caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.”
(...)
Miguel Torga [5]
tanto erro tanto desvio mutação tal mudança
o sem sentido de uma quase nula esperança
cidade onde há tantos rebeldes acomodados
o violento combate entre unidos e separados
muitas
más intervenções nas tuas entranhas
realizando
obras tão inúteis como estranhas
escondidas nas muitas neblinas sobre o rio
é uma cidade
decadente imunda de arrepio
V scherzo
“na hora em que o sol cobre d’ouro o lúcido
mar”
Émile Verhaeren [6]
cidade onde o fantástico sol se adormece
pelo peso da água que
no rio se esvanece
lugar de camélias com um aroma estranho
gritando pela cidade venturosa de antanho
e se por bem ou se por mal ao fazer cidade
que se esboce aquela de sonho e claridade
condenados à
cidade em que onde andamos
procuramos sempre
o sentir do que achamos
VI largo
"E por vezes volta
na calma imóvel do dia a recordação
daquele viver absorto, na espantosa luz."
Cesare Pavese [7]
coisas novas que se vão vendo no dia-a-dia
breves triunfos
reluzentes de flores e alegria
aquele muito suave vapor em que se respira
é um desusado e breve furor que nos inspira
entre
essas colinas de rochedos e pinheiros
escorriam
águas claras e limpas dos ribeiros
solta-se uma
eloquente torrente das molduras
e constrói-se um lugar feliz de lívidas ternuras
VII vivace
“Uma cidade
amadurece nas vertentes do crepúsculo”
António
Ramos Rosa [8]
cidade onde mesmo
em condição assim dura
nasce sempre a
aspereza incerta da aventura
assim com um Porto mais claro mais formoso
olharemos um Douro que
ainda corre gracioso
tendo nas mãos
a memória que insisto recordar
é a cidade onde apreendi este ofício de habitar
esta cidade de vinho tecida, mas sem ter vinha
difícil, estranha, ingrata cidade, mas terra minha!
[1] Le città come i sogni sono costruite di desideri e di paure,
anche se il filo del loro discorso è segreto, le loro regole assurde,
le
prospettive ingannevoli, e ogni cosa ne nasconde un’altra. Italo Calvino (1923-1985), Le città e gli
scambi III in Le Cittè Invisibile. Einaudi Torino 1972. (pág. 20).
[2]
Mário Quintana (1906-1994), de Apontamentos de História Sobrenatural (1976) in
Poesia completa. Organização, preparação do texto, prefácio e notas: Tania
Franco Carvalhal. Editora Nova Aguilar S. A.
Rio de Janeiro 2006. (pág. 454).
[3] Pedro
Homem de Mello (1904-1984), Divórcio in Grande, Grande Era a Cidade. Lello
& Irmão Porto 1955.
[4] Luís de Camões Soneto CXVIII in Obras de Luís de
Camões Lello & Irmão Editores. Porto 1970. (pág. 63).
[5] Miguel
Torga, Sisifo. in Diário: Vols. XIII a XVI D. Quixote (Grupo Leya). Lisboa
1999. (pág. 20).
[6] A l'heure où le soleil dore la mer lucide, Émile Verhaeren (1855-1916), Les
Souffrances in La Multiple Splendeur, poèmes, quatrième edition,
Société dv Mercure de France, XXVI, Rve du Condé XXVI, Paris MCMVII. (pág.144).
[7]
Talvolta ritorna / nell'immobile calma del giorno il ricordo / di
quel vivere assorto, nella luce stupita.Cesare Pavese (1908-1950), La Notte
(1938) in Lavorare stanca. 1955 Giulio Einaudi Milano. (pág. 29).
[8] António
Ramos Rosa (1924-2013) A noite chega com
todos os seus rebanhos in A Rosa Esquerda (1991). Assírio & Alvim Porto
Editora Tomo II. Porto 2020. (pág.343).













