segunda-feira, 19 de fevereiro de 2024

poemas recuperados 10

 



Thomas Eakins (1844-1916) Sailing c.1875. óleo s/tela 81 x 117,5 cm. Philadelphia Museum of Art.


o mar é da liberdade o grito mais fecundo

Homme libre, toujours tu chériras la mer!  Charles Baudelaire *

 

Aparelhar o barco, a mão firme no leme

medir o sol, caçar a vela, asa levantada.

Pelo vento azul na luz pálida que treme

partir com a vela grande toda enfunada.

 

Ir mapeando mares, mareando tempos.

Onda saltando à proa a talhar as águas,

inefável paz desses seguros momentos,

ao zarpar e esquecer todas as mágoas.

 

Saber se o sol encobre a dourada maré

ao virar de bordo sem receio nem medo

qual vento venta vagueando pelo mundo.

 

Que horizonte ousar para sem o alcançar

revelar o mais escondido do seu segredo:

o mar é da liberdade o grito mais fecundo.

 

*Charles Baudelaire (1821-1867), L’Homme et la mer XIV in Les Fleurs du Mal 2ª ed. Poulet-Malassis et de Broise Éditeurs, Paris 1861. (pág.35 e 36).

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2024

poemas recuperados 9

 


Adolfo Bellocq (1899-1972). El demagogo, 1925. Zincografia. 23 x 26 cm. Museu de Artes Plásticas Eduardo Sívori. Museu de arte de Buenos Aires.

longe é tempo incerto. Perto está a ânsia de mandar

“- Ó glória de mandar, ó vã cobiça

Desta vaidade a quem chamamos fama!” Camões *

 

Para aí andam muitos com barbas bem crescidas

fazendo restolhos de promessas juízos e opiniões

discursos parecendo limpos, eruditos, eloquentes,

filigranas de palavras escorreitas e belas citações.

 

Mas se são tão elaborados, eficazes e insinuantes  

falta-lhes a modesta verdade grave e a pertinência,

já que falam muito, pouco dizem, nada convencem

e não se conseguem afirmar na sua independência.

 

Ainda assim há quem procure alcançar no imediato,

no teatro do mundo um papel tão desejado e imune,

um poder mesmo que modesto, pequeno, particular.

 

Para o que tudo vale, seja a intriga ou o vicioso pacto

não prevendo nem o longo e médio, só o tempo curto.

Longe é tempo incerto. Perto está a ânsia de mandar.

 


*Luís de Camões (1524-1580), Os Lusíadas Canto III est. CXV. Lello & Irmão Editores Porto 1970. (pág. 1236).


sábado, 10 de fevereiro de 2024

poemas recuperados 8

 





Ergon Schiele (1890-1918). O Abraço 1917. Óleo s/tela 100 x 170 cm, Belvedere Palace Museum Vienna

nova jogada

 

O fogo lento que é permanente nos amores

dura mais tempo e as chamas não magoam.

O fogo curto da paixão em ápice se extingue

na cinza de rubras brasas que nos queimam.

 

De noite o misterioso escuro nunca distingue

o que é amor o que é paixão o que é espanto.

Dois corpos acesos que enlaçados em desejo

um cobrindo o outro em suave e morno manto.

 

Mas a maior paixão, a mais audaz cedo acaba,

roída nos enganos e nas virtudes que apregoa,

em enfeites amáveis, sentimentos que exagera.

 

Se como teimosos ousamos tentar nova jogada

é indiferente como se acaba, sempre se perdoa.

Importa é sentir de novo o prazer que assevera.

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2024

poemas recuperados 7

 


Edward Munch (1863-1944).  Separação 1896 óleo s/tela 96 x 127 cm. Museu Munch, Oslo. Google Art Project

 

Comovidos dias esquecidos

Quando ainda sonhava nesses cabelos de vento

e a luz sustinha o peso da sombra que esperava

não era um engano ou invenção do pensamento

mas o epítome e o fim da paixão que se acabava.

 

Em todo o abandono se descalça uma despedida

a qual torna necessário saber perder a esperança

só nos resta esperar que essa esperança perdida

o tempo a acalme depois, e além dessa mudança.

 

Na monótona chuva que belisca a janela pequena

onde tremem finas gotas fugidias que, encerradas

e passageiras, escorrem fazendo cantar os vidros,

 

Os ébrios lamentos dessa presença d’água serena

em tantos sonhos de pausa amarga desencontrada

só os recordaremos em comovidos dias esquecidos.

 

 

 


 

terça-feira, 30 de janeiro de 2024

poemas recuperados 6

 

Pablo Picasso (1881-1973).  “Pomba da Paz”, 28. 12. 61. litografia s/papel 48 x 60 cm. coleção particular.


tudo se acaba em versos em quase nada

 

A floresta iluminada suaviza a sombra

no rumor distante do declinar da tarde.

Só o brando murmúrio daquela pomba

me eleva o quotidiano até à eternidade.

 

Vagueio com esse outro eu, um inimigo

a quem desafio neste tempo tão incerto.

Tropeço caindo em mim como o castigo

de longe ir buscar o que se abriga perto.

 

Desse diálogo comigo, sempre consigo,

na seara da alma descobrir algo perdido

aquele meu outro eu que foi um inimigo

com quem me batia em combate antigo.

 

Travei com esse avesso lutas esquecidas

de onde restaram ruínas, terra queimada

por fim já cansados lambendo as feridas

tudo se acaba em versos em quase nada.

quarta-feira, 24 de janeiro de 2024

poemas recuperados 5

José de Ribera (1591-1652), Filósofo com um espelho 1ª metade do século XVII. Óleo s/tela 113 x 89 cm. Rijksmuseum Amesterdão.


Espelho

"Para hum homem se ver a si mesmo, saõ necessarias tres cousas: olhos, espelho & luz. Se tem espelho, & é cego, não se póde ver por falta de olhos; se tem espelho & olhos, & he de noyte, não se pode ver por falta de luz. Logo há mister luz, ha mister espelho & ha mister olhos."  Padre António Vieira *


Nesse espelho em que me vejo esquecido

está esse outro eu, um quase semelhante.

É outro eu, o negativo, simétrico de sentido,

a vigiar-me fixo nesse espaço equidistante.

 

Sou eu ou apenas quem eu penso que sou?

Sou eu ou apenas minha figura mal-olhada?

Ou é o amável sussurro em que se esconde

o cansaço do olhar em lágrima tão salgada?

 

Esqueço que nesse espelho como em janela

onde, como amigo que não sou, ele espreita.

Desconfio-me da invertida visão, porque nela

sempre se vai trocando esquerda com direita.

 

Pesando o que me vejo e o que me fui vendo

no outro eu com quem sempre me confundo,

o que fui, o que senti, em tudo o que fui sendo,

patética intimidade em que sempre me afundo.

 

Podes tu? – diz o outro eu, em tom assaz duro,

aprender esses ocultos mistérios e os segredos

que só eu guardo como teu eco. O íntimo escuro,

dos restos já gastos de murmurantes pesadelos?

 

Farto de me ver em tais andanças não respondo.

Olhos nos olhos, eu e o outro, qual o mais velho,

não tendo como lhe responder, assim de pronto,

apago a luz. logo se vai o eu-maldito do espelho.

 

* Padre Antônio Vieira (1608-1697), Semam da Sexagesima Prégado na Capella Real 1655 in Sermoens do P. Antonio Vieira da Companhia de Jesus. Prégador de Sua Alteza Primeyra parte dedicada ao Principe N.S. Na Officina de Ioam da Costa, Lisboa MDCLXXIX. (pág. 18).

 

segunda-feira, 22 de janeiro de 2024

poemas recuperados 4

Fernando Lanhas (1923-2012). Cais 44 1944, óleo s/tela 31 x 45 cm. Museu Nacional de Arte Contemporânea. Museu do Chiado. Lisboa.

porto seguro

Vai-se a frescura a sombra o perfume e o abrigo

se as árvores esquecerem os frutos que pariram

e se todas elas no seu conjunto correrem perigo

dê-se-lhes descanso de tudo isso que passaram.

 

No mundo que vivemos de prazeres e dissabores

somos nós que os queremos e que os desejamos

é por finos corredores que as mercedes e favores

só em nós acharemos mais aquilo que buscamos.

 

Pois é tão grande toda a carga e a vida trabalhosa

planos, intervalos, quebras, saltos, o que se quiser

se a plena luz nos dilui e nos faz exatos no escuro.

 

Não se faça mais amarga toda a batalha temerosa

que de ano a ano vamos elaborando para perceber

só com um bom vento se pode arribar porto seguro.

quarta-feira, 17 de janeiro de 2024

poemas recuperados 3


Alexey Gavrilovich Venetsianov (1780-1847). O pastor adormecido 1823/26. Óleo s/tela s/d.San Pietroburgo, Gosudarstvennyj Russkij Muzej . State Russian Museum, St. Petersburg, Russia.

sonho bonito

Naquele sonho que nunca aconteceu

onde sonhei que sonhava a realidade

dele acordei cansado de tal descanso

sonhando antever a ilusória liberdade.

      

Perdida aquela mão simétrica da arte

fosse pela intuição fosse pela ciência

tudo o que sabia no todo ou em parte

desfez-se no silêncio ruiu a inocência.

 

Agora nem breves sonhos consigo ter

e na cabeça oca nem um brilho nasce

clarão ardente, inefável, quase infinito.


Sono de pedra nunca dará para se ver

o que nunca quisera ver e o que não vi.

Sonhei que não sonhei. Sonho bonito.

domingo, 14 de janeiro de 2024

Poemas recuperados 2






António Cruz (1907-2007). Paisagem.Aguarela 1945. Cat. da Exposição 2007-2008 Museu Nacional Soares dos Reis. Ed. Coop. Árvore CRL.


ventos livres passando devagar


Ouço um silêncio como um hino sem um canto

há uma ténue dor que adivinho e que não sinto

já tempo foi que pelas faces me corria o pranto

o dolente desencanto recantos do meu labirinto


Havia então esse olhar que de puro e excelente

quase entrevia a rápida mudança de momentos

a pureza inatingível das imagens que na mente

são como as verdades só duram curtos tempos


O furor febril de tantos espinhosos desenganos

que dão sombras indecisas vagas e dormentes

das ilusões criadas que acabamos por lamentar


Só o que nos faz ser então demasiado humanos

é um fresco incontinente frio que vem do oriente

soprando esses ventos livres passando devagar.

sábado, 13 de janeiro de 2024

alguns poemas recuperados



(Adriano) Sousa Lopes (1879-1944). Luz nas águas óleo s/madeira 39 x 47 cm. Museu do Chiado- Museu de Arte Contemporânea

grisalhos me vão ficando os cabelos

 

“Talvolta ritorna

nell'immobile calma del giorno il ricordo

di quel vivere assorto, nella luce stupita.”

Cesare Pavese [1]

 

Agora que vão ficando tão grisalhos os cabelos

tornando-me na vida mais sábio do que sabido

meditando no que sou, uma manta nos joelhos

sou já menos áspero e rugoso que liso e polido.


Aquelas árvores belas e esguias como colmos

coando a bela luz de âmbar tão fina e delicada

lembram o que já fomos e o que já não somos

trocando artifícios pela simplicidade rebuscada.

 

Se nada invento transformo apenas o inventado

falida a vontade de escalar o cimo da montanha

procurando ar puro para um mais suave respirar

 

Assente a urbana poeira em calma e sossegado

é na remota praia que o mar suavemente banha

que o dourado da manhã me permite descansar.

 



[1] Cesare Pavese (1908-1950), La Notte (1938) in Lavorare stanca. 1943 Giulio Einaudi Milano.

"E por vezes volta

na calma imóvel do dia a recordação

daquele viver absorto, na espantosa luz."


II

aquela fotografia pálida

Aos meus irmãos já desaparecidos

 

As folhas dos plátanos cobrem os longos braços da cidade

pelas alamedas douradas um rumor se ouve e se entende

é apenas um leve sopro das almas, um sussurro da idade

suavemente cai o vento no tempo de água que se estende.

 

Aquela fotografia pálida lembra o reino tão doce da infância

quando no fácil despertar das coisas simples se amadurece.

Retrato sereno e calmo, quase esquecido, como em criança

se vê a vida e com a idade em espessa neblina desaparece.

 

Vejo-me diferente do que era e revejo-me no que agora sou

O sol e a lua, o dia e a noite, eram então o equilíbrio perfeito

nessa louca inocência como se loucura não fosse sabedoria.

 

somando qualidades e malefícios de agora ser no que estou

o que já fui, o que estou sendo, o que virei a ser, por defeito

este é o meu retrato quando a alma se passeia em nostalgia.

 


 

sexta-feira, 20 de outubro de 2023

 Colocando uma nova e actualizada foto, aproveito para dizer que,ocupado em muitas outras actividades, tenho deixado este blogue muito abandonado. Poderei voltar em breve.

segunda-feira, 9 de maio de 2022

Apontamentos sobre a Lisboa e Sevilha nos séculos XVI e XVII (11) 2

 

 Os navios no Tejo

Breve referência aos navios nas imagens de Lisboa no século XVI

Lá onde o Tejo lava a grã cidade,

Qu’em toda a Christandade espanta, & soa,

Eu digo a alta Lisboa do Occidente

Raynha, & do oriente:” [1]  

Na análise destas vistas, comecemos pelo Tejo e palas embarcações que nele estão representadas.

De facto, em todas estas vistas de Lisboa é destacado o rio Tejo onde numerosas e diversas embarcações, procuram afirmar a cidade como o grande (o maior?) porto peninsular e a sua importância para a navegação atlântica.

Camões descreve os barcos que no Tejo navegam.

“Vejo o puro, suave e brando Tejo,

com as côncovas barcas, que, nadando,

vão pondo em doce efeito seu desejo.

Uas co’ brando vento navegando,

outras cos leves remos, brandamente

as cristalinas águas apartando.  [2]   

E Sá de Miranda sublinha que:

“Vereis barcos ir à vella,

Huns que vão outros que vem,

Como que se desavem,

Com hua viração singela

Tanta força, & arte tem.” [3]

Do lado de Espanha é assinalada a importância de Lisboa como cidade portuária e a diversidade das embarcações que no Tejo navegam.

Pedro de Medina (c.1493-c.1567) no seu livro Grandezas y cosas memorables de España de 1548, refere: “En el puerto desta ciudad ay sempre grãde numero de naos, y otros muchos navios, vasos de todas suertes, y gête de todas naciones, por ser el mas principal puerto de España, y aun uno de los principales del mundo, al qual concurre gran multitude de navios. Es puerto muy seguro hecho de la misma boca del rio Tajo, que tiene três léguas de ancho.” [4]

 

E Bartholomé de Villalba y Estaña (1548-1605?), em El Pelegrino curioso y Grandezas de España descreve a diversidade de embarcações, entre as quais destaca as grandes naus que vêm da Índia e as actividades ligadas à navegação e ao comércio dos produtos (e escravos) da Ilha da Madeira e da Índia, na Ribeira de Lisboa.

“(…) ansi la falda del rio adelante fué viendo las naves tan ordinarias en aquel puerto, galeras, bateles, caravelas, bergantines, barcas, fustas, esquifes, que os da gusto ver tanto genero de navíos. Vió en su presencia llegar cinco naves de las Indias Ocidentales con gran cantidad de especias, de clavos, canela, pimienta, que esto es la mayor grandeza de su rey. Verdad es que de la Isla de la Madera le traen gran suma de pipotes, de todas conservas y otras cosas muy delicadas, de más de los negros que allí aportan de Marigongo y otras provincias. Hay, pues, en este espacio gran numero de maestros, unos haziendo vageles, otros calafateando; unos despalman, otros ensevan; más adelante hazen pipas, botas, toneles.” [5]



[1] António Ferreira (1528-1569), Archigamia Egloga I, Poemas Luzitanos do Doutor Antonio Ferreira. Dedicados por seu filho Miguel Leite Ferreira, ao Principe D. Philippe nosso senhor. Impresso com licença, Por Pedro Crasbeeck. Em Lisboa M. D. XCVIII. (pág. 71 v.).

[2] Luís de Camões, Elegia III. Obras de Luís de Camões. Lello & Irmão, Editores. Porto 1970. (pág.406).

[3] Francisco de Sá de Miranda (1481-1558), Carta II a António Pereira senhor de Basto in As Obras do Doutor Francisco de Saa de Miranda, a custa de Antonio leite, Mercador de livros, na rua nova. Lisboa M DC LXXXVII. (pág. 215).

[4] Pedro de Medina (c.1493-c.1567), Libro d[e] grandezas y cosas memorables de España. Agora de nuevo hecho y copilado por el Maestro Pedro de Medina vezino de Sevilla. Dirigido al Serenissimo y muy esclarecido Señor D. Filipe Principe de España.e Nuestro Señor. En casa de Dominico d[e] Robertis. Sevilla. M D XL VIII. (pág. 24).

[5] Bartholome de Villalba y Estaña (1548-1605?), El pelegrino curioso y grandezas de España 1577, por Bartholomé Villalba y Estañá. publícalo la Sociedad de Bibliófilos Españoles; Imprenta de Miguel Ginesta Madrid 1886-1889. Biblioteca Digital Hispánica (Tomo II, pág.90).


A nau d’amores. O valor simbólico da nau.

Em Janeiro de 1527, Gil Vicente, com o intuito de celebrar regresso que D. João III e Dona Catarina, na sua chegada solene à cidade de Lisboa, produziu “A tragicomedia seguinte he chamada Nao damores. Representouse ao muyto poderoso Rey dom Ioam o terceyro aa entrada da esclarecida & muy catholica Raynha Dona Caterina nossa Senhora, em a cidade de Lixboa. Era de M. D. XXVII.” [1]

Na peça, a personagem Príncipe da Normandia pede uma embarcação a “uma princesa em figura da Cidade de Lixboa”.

Esta responde que a embarcação disponível, é a nau de São Vicente, que pertence à Coroa:

“Pera o que mereceis

senhor pouco me pedis,

inda que a Nao que quereis

val mais que todo Paris

como vós sey que sabeis.

Porem eu fora contente

mas essa Nao nam he minha

porque foy de sam Vicente

& he del Rey & da Raynha…” [2]

O Príncipe da Normandia pede então para construir uma nau, que se chamará nau d’amores, nos estaleiros de Lisboa que então são conhecidos por fabricar os melhores navios.

“Por remedio de mis Dolores

dadme licencia entera

que se haga uma Nao damores

aqui en vuestra Ribera

Dose hazen las mejores.” [3]

A nau que se chamará Nau d’amores, é então descrita pelo Príncipe numa longa fala, em que se enumeram os materiais e as componentes da nau identificadas com os encantos e desencantos do amor.

“Ha de ser desta manera

Para navegar segura,

La voluntad la madera

Y la razon plegadura

Dorada toda de fuera.

Las estopas de recelos

Bincados de diez en diez

Y los castillos de celos

Y la tristeza la pez

Tanta que cubran los cielos.

El mastel de fee segura

Y la vela desperança,

La gavea de hermosura

El traquete de lembrança,

La mezena de dulçura.”  [4]



[1] Gil Vicente(c.1465-c.1536), Naodamores,in Copilaçam de todalas obras de Gil Vicente, a qual se reparte em cinco Livros. Empremiose em a muy nobre, & sempre leal Cidade de Lixboa, em casa de Ioam Alvarez impressor del Rey nosso senhor. Anno de M. D. LXII. (Livro terceiro, pág. CLXV).

[2] Gil Vicente(c.1465-c.1536), Naodamores,in Copilaçam de todalas obras de Gil Vicente, a qual se reparte em cinco Livros. Empremiose em a muy nobre, & sempre leal Cidade de Lixboa, em casa de Ioam Alvarez impressor del Rey nosso senhor. Anno de M. D. LXII. (Livro terceiro, pág. CLXVII).

[3] Gil Vicente (c.1465-c.1536), Não damores, in Copilaçam de todalas obras de Gil Vicente, a qual se reparte em cinco Livros. Empremiose em a muy nobre, & sempre leal Cidade de Lixboa, em casa de Ioam Alvarez impressor del Rey nosso senhor. Anno de M. D. LXII. (Livro terceiro, pág. CLXVII).

[4] Gil Vicente (c.1465-c.1536), Não damores, in Copilaçam de todalas obras de Gil Vicente, a qual se reparte em cinco Livros. Empremiose em a muy nobre, & sempre leal Cidade de Lixboa, em casa de Ioam Alvarez impressor del Rey nosso senhor. Anno de M. D. LXII. (Livro terceiro, pág. CLXVII).


As embarcações na Crónica de D. Afonso Henriques

 Nas imagens de Lisboa, por entre diversos tipos de embarcações, são salientadas as naus e galeões de longo curso.

As naus dos finais do século XVI eram navios de grande calado, de três e quatro mastros, com aparelhos redondos e velas latinas, altos castelos de popa, aptos para transporte de grandes cargas, mas, simultaneamente, prontos para combates navais.

Na imagem do início de Quinhentos, da Crónica de D. Afonso Henriques, entre duas naus navegam 3 caravelas latinas de dois mastros, utilizadas em viagens de médio curso ou como apoio a armadas de naus ou galeões. Estão representadas duas sétias (galés) e diversos bergantins. 

fig. 11 – Pormenor do frontispício da Chronica do Muito Alto e Muito Esclarecido Príncipe D. Afonso Henriques, Primeiro Rey de Portugal. 1508.

Na Genealogia dos Reis de Portugal 

fig. 12 - Simon Bening (1483 – 1561) e António d’Olanda (1480-c.1558?), Pormenor de Tavoa Primeira dos Reys, Tronco do conde D. Anrique, 1530/34, Fólio 7r da "Genealogia dos Reis de Portugal", MS. 12531, British Library.

À esquerda, duas naus vistas de proa e de popa, as velas enfunadas.

Duas galés.

Três naus com o velame recolhido.

Uma embarcação com um só mastro.

Duas caravelas com duas latinas e uma com apenas uma latina.

 

As embarcações no Prospecto de Lisboa da Biblioteca de Leiden

No Prospecto de Lisboa o anónimo autor desenha, com minuciosos detalhes, as naus que navegam ou estão ancoradas no Tejo, por entre outras embarcações menores. 

fig. 13 – Anónimo. Prospecto de Lisboa c.1530, com as embarcações numeradas de 1 a 9, sobre o desenho em 17 folhas, pena e aguada, cor, 75 x 245 cm. Leiden University Libraries. 

As embarcações da esquerda para a direita:

1 -  Uma nau, vista de bombordo, ancorada e com o velame recolhido.

fig. 14 - Pormenor do desenho da Biblioteca da Universidade de Leiden.

2 – Uma nau ancorada vista pela proa. 

fig. 15 - Pormenor do desenho da Biblioteca da Universidade de Leiden.

3 – Outra nau, vista de bombordo, com o velame recolhido.

fig. 16 - Pormenor do desenho da Biblioteca da Universidade de Leiden.

4 – Uma nau navegando a todo o pano, na direcção do espectador.

fig. 17 - Pormenor do desenho da Biblioteca da Universidade de Leiden.

5 – Uma nau ancorada vista de perfil e onde marinheiros se ocupam da sua manutenção.

fig. 18 - Pormenor do desenho da Biblioteca da Universidade de Leiden.


6 – Uma nau navegando, a todo o pano, rumo ao sul.

fig. 19 - Pormenor do desenho da Biblioteca da Universidade de Leiden.

7 – Uma nau, fortemente armada, vista de bombordo e navegando, a todo o pano, para poente.

fig. 20 - Pormenor do desenho da Biblioteca da Universidade de Leiden.

8 – Outra nau, onde também se notam os canhões, navegando a todo o pano, hasteando a bandeira portuguesa.

fig. 21 - Pormenor do desenho da Biblioteca da Universidade de Leiden.

9 – A Vista de lisboa da Biblioteca de Leiden mostra ainda uma caravela latina de três mastros, armada com peças de fogo.

fig. 22 - Pormenor do desenho da Biblioteca da Universidade de Leiden.

A nau Santa Catarina de Monte Sinai

Para melhor se compreender os navios desta época, uma conhecida pintura de Joachim Patinir (c.1480-1524), em que se vê, em primeiro plano, à popa e em pormenor, uma nau dos finais do século XV e início do século XVI, com todo seu velame. 

fig. 23 - Joachim Patinir (c.1480-1524), Portuguese carracks off a rocky coast c. 1540 National Maritime Museum Greenwich London.

Esta nau das Índias seria a Santa Catarina de Monte Sinai, rodeada por três outras naus e uma galé, no que se julga ser o desembarque em Nizza (Nice), em 1521, da princesa Beatriz de Portugal (1504-1538) filha de D. Manuel I, que embarcou no Santa Catarina do Monte Sinai para o seu casamento com Carlos III o Bom, (1486-1553), Duque de Sabóia de 1504 a 1553.

Garcia de Resende refere e situa no tempo a partida de D. Beatriz, em 1521.

“E ao sabado polla manhã dia de sam Lourenço dez dias do dito mes dagosto do dito anno de mil & quinhentos & vinte hum ãnos a senhora iffante com toda a frota de sua armada partio & sayo de foz em fora& fez sua viagem. Que prazeraa a nosso senhor Deos ser tâto por seu bem & descanso quanto elrey seu pay & a senhora raynha o principe & hos iffantes seus irmãos & ela mesma desejã & todos desejamos. Amê.” [1]

 

E Gil Vicente (c.1465-c.1536), entre os diversos festejos então organizados, escreve uma peça “Cortes de Jupiter” que o próprio autor refere ter sido “feyta ao muyto alto & poderoso Rey dom Manoel o primeyro em Portugal deste nome, aa partida da illustríssima senhora infante dona Beatriz duquesa de Saboya, da qual sua invenção he, que o senhor deos querendo fazer merce aa dita senhora, mandou sua providencia por mensageira a Iupiter rey dos elementos, que fizesse cortes em que se concertassem planetas sinos em favor de sua viagem. Foy representada nos paços da ribeyra na cidade de Lixboa. Era de M.D.XIX.” [2]

 


[1] Garcia de Resende, (1470?-1536), Ida da iffante Dona Beatriz pera Saboya no Livro das obras de Garcia de Resêde que tracta da vida & grandissimas virtudes: bõdades: magnanimo esforço: excelêtes costumes & manhas & muy craros feitos do christianissimo: muito alto & muyto poderoso.. el rey dom João o segundo deste nome: & dos Reys de Portugal o trezeno de gloriosa memoria: começado de seu nascimêto & toda sua vida ate ora de sua morte: cõ outras obras que adiante se seguem. Manoel da Costa o fez em Evora a XXVI dias do mes de Janeiro de mil quinhento & trinta & seys annos.

[2] Gil Vicente (c.1465-c.1536), Cortes de Júpiter, no Livro Terceyro da Copilaçam de toda las obras de Gil Vicente, a qual se reparte em cinco livros. Foy impresso em a muy nobre, & sempre leal cidade de Lisboa, por Andres Lobato. Anno M.D. LXXXVI. BND. (pág. 193).

As embarcações na imagem de Lisboa do Civitates de 1572 

fig. 24 – Navios no Tejo. Pormenor de Georg Braun (1542-1622) e Franz Hogenberg (1535-1590) Olisipo, sive ut persetustae lapidum inscriptiones habent, Ulysipo, vulgo Lisbona Florentissimum Portugalliae Emporiv 1572. Civitates Orbis Terrarum Vol. I 1572.

No centro da imagem destacam-se duas naus e, junto ao cais, uma galé.

A nau da esquerda, de três cobertas, tem apenas arvorada a vela redonda do traquete (o mastro pequeno), e a gávea do mastro de proa recolhida.

No mastro grande estão recolhidas as redondas: a vela grande e a gávea.

Estão também recolhidas a latina da mezena (o mastro de popa) e a cevadeira (no mastro horizontal da proa.

Um escaler está junto da nau enquanto outros remam para terra, no que parece ser um desembarque.

fig. 25Uma nau de 3 mastros. Pormenor de Georg Braun (1542-1622) e Franz Hogenberg (1535-1590) Olisipo, sive ut persetustae lapidum inscriptiones habent, Ulysipo, vulgo Lisbona Florentissimum Portugalliae Emporiv 1572. Civitates Orbis Terrarum Vol. I 1572.

A outra nau com 3 cobertas, com dois mastros à popa (mezena e contra-mezena), e por isso, por muitos chamada de galeão.

Apresenta uma espécie de esporão de ataque na proa, e está fundeado e ancorado, aparentemente sem ninguém a bordo. 

fig. 26 - Uma outra nau com dois mastros de mezena. Pormenor de Georg Braun (1542-1622) e Franz Hogenberg (1535-1590) Olisipo, sive ut persetustae lapidum inscriptiones habent, Ulysipo, vulgo Lisbona Florentissimum Portugalliae Emporiv 1572. Civitates Orbis Terrarum Vol. I 1572. 

Um escaler com quatro remadores transporta para terra três personalidades, com um desenho mais detalhado na versão da gravura de Sebastien Münster. 

fig. 27 -  Sebastien Münster, Pormenor de Lisbona. Xilogravura 26 x 33 cm. Cosmographey oder beschreibung aller Länder" 1598 Basel. BND.

Os navios no Tejo na Lissabon do Civitates de 1598. 


fig. 28 – O Tejo e a zona ribeirinha de Lisboa. Pormenor de Georg Braun (1542-1622) e Franz Hogenberg (1535-1590), Lissabon in Civitates Orbis Terrarum 1598.

Dos vários navios escolhemos os dois do primeiro plano.

Uma nau e um galeão fundeados com o velame recolhido.

fig. 29 – Pormenor de Georg Braun (1542-1622) e Franz Hogenberg (1535-1590), Lissabon in Civitates Orbis Terrarum 1598.

E uma outra nau com quatro mastros (como se disse, que alguns chamam de galeão), também fundeada e toda embandeirada. 

fig. 30Pormenor de Georg Braun (1542-1622) e Franz Hogenberg (1535-1590), Lissabon in Civitates Orbis Terrarum 1598.