sábado, 2 de maio de 2026

Poema do Arquitecto 7

 


Desenhar uma situação


“Vo essere uno buono disegnatore e deventare uno buono architettore.” [1]

 


fig. 1 - Tommaso “Maso” Finiguerra (1426-1464), O Aprendiz de arquitecto?. c.1450, pena, tinta e aguada s/papel 19,4 x 12,5 cm. Gabinetto Disegni e Stampe degli Uffizi, Florença.

 

“Só há liberdade em situação e só há situação através da liberdade.

A liberdade humana, por toda a parte, encontra resistências e obstáculos

que não criou; mas estes apenas têm sentido na e pela livre escolha

que é a liberdade humana.” Jean Paul Sartre [2]


…é uma resposta a um problema concreto, a uma situação em transformação

da qual participo sem fixar antecipadamente uma linguagem arquitectónica,

porque o meu trabalho é simplesmente uma participação num movimento de transformação

que tem implicações muito mais amplas.” Álvaro Siza [3]

 

 

toda situação, só têm sentido pela livre escolha

pelo modo em que afirmas a tua própria posição

perante o misto das condicionantes e liberdades.

é o teu estar-no-mundo que contorna a situação.

A secreta utopia que se esconde em toda a obra

o mundo mais vasto, mais antigo e mais diverso

recria e marca na sua forma natural nesse lugar

pelo teu preciso olhar de quem habita um verso

 



[1] Vou ser um bom desenhador e tornar-me um bom arquitecto.

[2] Jean Paul Sartre (1905-1980), L'etre et le néant, essai d'ontologie phénoménologique, Paris, Gallimard, 1943, (pág.546). « Il n'y a de liberté qu'en situation et il n'y a de situation que par la liberté. La liberté humaine rencontre partout des résistances et des obstacles qu'elle n'a pas crées; mais ces derniers n'ont de sens que dans et par le libre choix qu'est la liberté humaine. »

[3] Álvaro Siza, Entretien avec Álvaro Siza in Architecture Mouvement Continuité AMC, n.º 44 1978. « c’est une réponse à un problème concret, à une situation en transformation à laquelle je participe sans fixer à l’avance un langage architectonique, parce que mon travail est simplement une participation dans un mouvement de transformation qui a des implications beaucoup plus larges »

quarta-feira, 29 de abril de 2026

poema curto 23

 


fig. 1 - José Emídio (n.1956), sem título 130 x 180 cm. col. particular.

 

“…lembrai-vos da pausa

com que os meus vizinhos

vieram pela estrada.”

Cecília Meireles [1]

 


tempo em que naquela vaga melodia

germinava uma serena concordância

 



[1] Cecília Meireles, Ida e Volta em Portugal. Cecília Meireles, Obra Poética. Editora Nova Aguilar S. A.  Rio de Janeiro 1983. (pág. 175).

terça-feira, 28 de abril de 2026

Poema do arquitecto 6

 


Desenho

 


figura 6 - Agostino Tassi (1578-1644), Jovem apontando o sítio da fonte de Acqua Acetosa em Roma, c.1625. Desenho a pena e tinta 15 x 20 cm. Col. particular. Web Gallery of Art.

 

“il disegno, che con un altro nome chiamano schizzo,

consiste e sussiste ciò che è la fonte ed il corpo

 della pittura e della scultura e dell’architettura

e di tutti gli altri generi di pittura, e la radice di tutte le scienze” 

 Francisco de Holanda [1]  

 

Pelo desenho no sítio procura apreender

as condições que conformam a situação

assim tu farás as escolhas que justificam

e te aproximam duma primeira intervenção.

Em cada sítio previamente sempre existem

condicionantes benéficas e inconvenientes

é o sítio que nos indica aquilo que quer ser

na situação, forma, e dificuldades existentes.

 

 


 



[1] Francisco de Hollanda (1517-1585), Dialoghi romani, III, (pág. 138). tradução de Joaquim de Vasconcellos o “desenho, a que por outro nome chamam debuxo, nelle consiste e elle é a fonte e o corpo da pintura e da esculptura e da arquitetura e de todo outro genero de pintar e a raiz de todas as sciencias.Joaquim de Vascocellos (1849-1936), Terceiro Diálogo de Quatro Diálogos da pintura Antiga, Francisco de Hollanda, Miguel Angelo, Vittoria Colonna, Lattanzio Tolomei. Interlocutores em Roma. Renascença Portuguesa. Porto M DCCC XCVI. (pág. 44).

sábado, 25 de abril de 2026

poema curto 22


 


fig. 1 Giuseppe Pellizza da Volpedo (1868-1907), Il Quarto Stato 1901, óleo s/ tela 293 x 545 cm. Galleria d'Arte Moderna Milano

 

“Quando a pátria que temos não a temos

Perdida por silêncio e por renúncia

Até a voz do mar se torna exílio

E a luz que nos rodeia é como grades”

Sophia de Mello Breyner Andresen 1

 

 

os que não te querem ver destruído

pelas ruas se manifestem com ruído 



1 Sophia de Mello Breyner Andresen Exílio in Obra Poética Assírio e Alvim – Porto Editora 2015 (pág. 482).

 

quinta-feira, 23 de abril de 2026

Poema do Arquitecto 5



Figura 5 - Maria Helena Vieira da Silva (1908-1992), Casas 1957. Guache e têmpera sobre papel 35 × 64 cm. MNAC.

Olhar e ver

“Em tudo quanto olhei, fiquei em parte.

Com tudo quanto vi, se passa, passo,

Nem distingue a memória


Do que vi do que fui.”

Fernando Pessoa, [1] 

“A chave é / Olhar / Observar / Ver /

Imaginar / Inventar / Criar…” 

Le Corbusier [2]

“É sempre necessário dizer o que vemos,

mas o que é mais difícil, é ver o que vemos.”

Le Corbusier [3]

“Aprender a ver, não só olhar, mas a ver

em profundidade, em detalhe, em globalidade”

Álvaro Siza [4] 

“certos lugares, querem dizer-nos algo,

ou disseram algo que não devíamos perder,

ou estão para dizer algo; esta iminência

de uma revelação que não se produz,

é talvez o facto estético.”

Jorge Luis Borges [5]

 

Para o contexto sentires, caminha devagar

acresce ao teu olhar o do filósofo do poeta

constrói a serena e clara visão desse lugar

criando da intervenção uma visão completa.

Mas nunca basta olhar é preciso saber ver

ver com o prazer e emoção e sem cansaço

apreender quais os sinais que irás escolher

para criar uma primeira forma nesse espaço.

 



[1] Fernando Pessoa (-1935), Odes de Ricardo Reis, poema de 7 de Junho de1928 in Obra Poética, Companhia Aguilar Editôra, Rio de Janeiro 1965. (pág.282).

[2] Le Corbusier. Carnet de notes, 15 août 1963. Carnet T70, n. º1038, Cap Martin 1963. Edition Herscher, Dessain et Toira, Paris 1982. E em Casabella. rivista internazionale di architettura, n.º 531- 532, gennaio febbraio. 1987.

“La clef, c’est: regarder…/ Regarder / Observer / Voir / Imaginer / Inventer / Criér…”

[3] Le Corbusier, Jean Petit, Le livre de Ronchamp, Les Cahiers Forces Vives, Editec 1961. (pág. 2). “il faut toujours dire ce que l’on voit, surtout il faut toujours, ce qui est plus difficile, voir ce que l’on voit.”

[4] Álvaro Siza, Aprender a ver. Entrevista de Bernardo Pinto de Almeida in UP Alumni n.º 9 Outubro de 2003. (pág. 29-30).

[5] Jorge Luís Borges (1899-1986), La Muralla y los Libros (Buenos Aires 1950) de Otras Inquisiciones (1952) in Obras Completas 1923-1972. Emecé S.A. Editores Buenos Aires 1994. (pág. 635). “ciertos lugares, quieren decirnos algo, o algo dijeron que no hubiéramos debido perder, o están por decir algo; esta inminencia de una revelación, que no se produce, es, quizá, el hecho estético.”

.

 

quarta-feira, 22 de abril de 2026

Poema do Arquitecto 4


 genius locus





Figura 4 - Jean-Charles Krafft (1764-1833) e Nicolas Ransonnette (1745-1810), « Le Génie de l’Architecture Découvre les progrès de son Art ». [1]

 

nullus enim locus sine genio” Horacio [2]

 

 “O sítio todo ele falava, da água, da terra e do ar; falava arquitetura.” Le Corbusier [3]

 

“Fazer arquitectura significa visualizar o genius loci: 

o trabalho do arquitecto consiste na criação de lugares significantes 

que permitam ao homem aí habitar.” Christian Norberg-Schulz [4]

 

 

Procura pacientemente qual o génio do lugar

quais os traços secretos por ele são riscados

Nenhum lugar há sem ter um génio a habitar

que não deixe pegadas e rastos aí marcados.

Nos escondidos traços que o génio desenhou

saber quais os que do sítio podem fazer lugar

e essas linhas que o génio na natureza traçou

procura com rigor e sábia paciência acomodar

 

 

 

 

 



[1] Jean-Charles Krafft (1764-1833) e Nicolas Ransonnette (1745-1810), « Le Génie de l’Architecture Découvre les progrès de son Art ». [1]Frontispício de Plans, Coupes, Élévations des plus belles Maisons et des Hotels construits à Paris et dans les environs. Publiés par J.CH. Krafft, Architecte, et N. Raisonnette, Graveur. À Paris Chez: Les deux Associés, Krafft, Architecte, rue de Bourgogne, Nº. 1463, faubourg Saint- Germain; et Ransonnette, Graveur, rue du Figuier, Nº. 43, quartier Saint-Pual; Ch. Pougens, Imprimeur-Libraire, quai Voltaire, Nº. 10; Fuchs, Libraire, rue des Mathurins Saint-Jacques, Nº. 334; Calixte Volland, Libraire, quai des Augustins, Nº. 25; Levrault, Libraire, quai Malaquais, au coin de la rue des Petis-Augustins. Del’Imprimerie de Clousier, rue de Sorbonne, nº. 390 Paris, 1801.

[2] Servius Marius Honoratus (n. 363 aC), Vergilii Aeneidos Commentarius (Comentário à Eneida de Virgílio), Livro 5. 85. in VII Grammatici qvi fervntvr in Vergilii Carmina commentarii recensvervnt Georgivs Thilo et Hermannvs Hagen vol.1 Aeneidos Librorvm I-V commentarii recensvit Georgivs Thilo. Lipsiae in aedibvs B. J. Tevrneri. MDCCCLXXXI. (pág. 603). Não há lugar sem o seu génio

[3] Le Corbusier. Précisions sur un état présent de l’architecture et de l’urbanisme, [1930], Éditions Altamira. Paris 1994, (pág. 245).“Le site entier se mettait à parler, sur eau, sur terre et dans l’air; il parlait architecture. Ce discours était un poème de géométrie humaine et d’immense fantaisie naturelle. L’oeil voyait quelque chose, deux choses: la nature et le produit du travail de l’homme.”  Précisions sur un état présent de l’architecture et de l’urbanisme, [1930], Éditions Altamira. Paris 1994, (pág. 245).

[4] Christian Norberg-Schulz (1926-200), Genius Loci: paysage, ambiance, architecture. Pierre Mardaga Éditeur, Bruxelles 1981, (pág. 5).  Faire de l’architecture signifie visualiser le genius loci: le travail de l’architecte réside dans la création de lieux signifiants qui aide l’homme à habiter.

 




terça-feira, 21 de abril de 2026

Poema do Arquitecto 3

 

 


Figura 3 - Diego Rivera (1886-1957), El arquitecto 1915-16, óleo s/ tela 161,2 x 130,5 cm. Colección Museo de Arte Carrillo Gil / INBAL / Secretaría de Cultura Ciudad de Mexico.

O sítio

Em primeiro lugar conhecei o sítio; e do lugar

Adorai o génio, e consultai os deuses.”

Jacques Delille [1]

 

“O olho via alguma coisa, duas coisas:

a natureza e o produto do trabalho do homem.”

Le Corbusier [2]

 

 

 

Vai ao sítio e percorre-o passo a passo

insere a tua presença e vive esse lugar

e quando esse contexto se fizer espaço,

conseguirás dar-lhe sentido e desenhar.

Para edificar um emotivo inefável objecto

repara na direcção d’onde nasce o vento

em quais caminhos o sol anda encoberto

que luz define o espaço e marca o tempo.

 


 



[1] Jacques Delille (1738-1813), Les Jardins, Poëme par Jacques Delille. Nouvelle Édition revue, corrigée et augmentée. Chez L. G. Michaud, Libraire Rue de Cléry, n.º 13 Paris. M. DCCC. XX. Chant premier (pág. 44)“Avant tout connoissez votre site ; et du lieu / Adorez le génie, et consultez le dieu.” 

[2] Le Corbusier. Précisions sur un état présent de l’architecture et de l’urbanisme, [1930], Éditions Altamira. Paris 1994, (pág. 245). Le site entier se mettait à parler, sur eau, sur terre et dans l’air ; il parlait architecture. Ce discours était un poème de géométrie humaine et d’immense fantaisie naturelle. L’œil voyait quelque chose, deux choses : la nature et le produit du travail de l’homme.” 

segunda-feira, 20 de abril de 2026

Poema do Arquitecto 2

 Poema do Arquitecto 2

literalmente e literariamente em construção


Figura 2 - Mario Sironi (1885-1961), L’architetto 1922, olio su tela, 70 x 60 cm. Collezione privata.

O destino

Não sei, qual a profunda intenção de construir

que inquieta, em silêncio, o meu pensamento.”

Paul Valery[1]

 

Se por mérito uma obra se te encomenda

Pensa primeiro: para quê? Quem irá servir?

Só assim poderá ser conformada a situação

para que a sua vontade se consiga descobrir.

Escolhe primeiro qual o seu destino e cultura,

e qual o terreno ou sítio onde a irás elaborar.

Em todos se ama vive cultiva trabalha circula

Solta então um inicial esboço do que irás criar.



[1] Paul Valéry (1871-1945), Eupalinos ou l'Architecte, précédé de L'âme et la danse (44e éd.), Librairie Gallimard. Éditions de La Nouvelle Revue Française. Paris 1924. (pág. 151).“je ne sais, quelle intention profonde de construire qui inquiète sourdement ma pensée.” 

 

Poema do Arquitecto 1

Poema do Arquitecto 

Figura 1 – Mario Sironi (1885-1961) l’Architettura 1933.  Óleo sobre lienzo. 350 x 350 cm.Ministero delle Poste e Telecomunicazioni. Roma.


Introdução ao poema do arquitecto

“A criação arquitectónica nasce de uma emoção, a emoção provocada por um momento e um lugar. O projecto e a construção exigem dos autores que se libertem dessa emoção, num progressivo distanciamento – transmitindo-a inteira e oculta. A partir daí, a emoção pertence ao(s) outro(s).” Álvaro Siza [1]

A arte do projecto, a poética. o trabalho, os métodos de projectar de um arquitecto, a concepção de um espaço arquitectónico e a sua apropriação, espaço corporalmente vivido, experimentado e sentido, não tem fases nem tempos definidos. “Não há um primeiro tempo que seria o dos esboços. Ao mesmo tempo que faço esquissos também trabalho no estirador…” [2]

Se a apropriação do espaço é “o primeiro gesto dos vivos, homens e animais, plantas e nuvens, manifestação fundamental de equilíbrio e duração. A primeira prova da existência é ocupar o espaço” [3], o arquitecto deverá executar simultaneamente uma série de operações que conduzem ao êxito do projecto.

Ou seja, a projectação não é uma actividade de fora para dentro do processo nem apenas do seu interior para o exterior, mas um fazer-se que acontece no próprio proces­so.

E como considerava Le Corbusier, só “quando uma obra está na sua intensidade máxima, proporção, qualidade de execução, e perfeição,se dá um fenómeno de espaço indisível: os lugares começam a irradiar, fisicamente irradiam.
Eles determinam o que chamo de "espaço indisível", isto é, um choque que não depende de dimensões, mas sim da qualidade da perfeição. Pertence ao reino do inefável.
[4]


[1] Álvaro Siza (n.1933) Prefácio in 01- Textos Álvaro Siza. Civilização Editora, rua Alberto Aires Gouveia, 27. Porto 2009. (pág.109).

[2] Álvaro Siza, Architecture d’Aujourd’hui nº 211 out.80. Il n'y a pas un premier stade qui serait celui dès esquisses. En même temps que je fais dès esquisses, je travaille sur la table à dessin...

[3] Le Corbusier,(Charles-Édouard Jeanneret,1887-1965), L’espace indicible, in L’Architecture d’Aujourd’hui, numéro hors-série spécial « Art », Avril 1946, (pág. 9 a 17).  O texto aparece com algumas modificações em Modulor 1, Modulor 2 e Un couvent de Le Corbusier.

Prendre possession de l'espace est le geste premier des vivants, des hommes et des bêtes, des plantes et des nuages, manifestation fondamentale d'équilibre et de durée. La preuve première d'existence, c'est d'occuper l'espace.

[4] Le Corbusier, conversation enregistrée à la Tourette, in L’Architecture d’Aujourd’hui, n° spécial Architecture religieuse, Juin-Juillet 1961. (pág. 3). Lorsqu'une oeuvre est à son maximum d'intensité, de proportion, de qualité d'exécution, de perfection, il se produit un phénomène d'espace indicible: les lieux se mettent à rayonner, physiquement ils rayonnent.Ils dèterminent ce que j'appelle “l'espace indicible”, c'est-à-dire un choc qui ne dépend pas des dimensions mais de la qualité de perfection.
C'est du domaine de l'ineffable.