segunda-feira, 4 de maio de 2026

Aspectos da cidade do Porto 1926 1

 

Aspectos da cidade do Porto 1926 1

"Mas a cidade não diz o seu passado, contém-no como as linhas de uma mão, escritas nas esquinas das ruas, nas grades das janelas, nos corrimões das escadas, nas antenas dos para-raios, nos mastros das bandeiras, cada segmento marcado por sua vez de riscos, entalhes, cortes e arranhões"   Ítalo Calvino  [1]



fig. 1- Fotografia da Foto Beleza n.º 83 In Porto. Margens do Tempo. Livraria Figueirinhas Porto.

 

I Parte – O Porto antes do 28 de Maio

 
A situação política

A cidade do Porto vive e acompanha, no início do ano de 1926, a crise política, económica e social que se vai agravando, de uma República cansada com mais de 15 anos de existência.

Ao longo do ano que então finda, sucedem-se quarto governos da República [2] sendo que está em funções o 45.º governo da República, liderado por António Maria da Silva (1872–1950), nomeado a 17 de Dezembro de 1925. (Será exonerado a 30 de Maio de 1926, após o 28 de Maio de 1926.)

Nos finais de 1925, durante o 44º Governo liderado por Domingos de Oliveira, o jornal O Commércio do Porto, pela pena de J. M. [3] advertia:

“A situação de Portugal é grave.

Economicamente, todos sentimos a crise que se avizinha a passos de gigante. É o commercio, é a industria, é a agricultura, é a finança, é o operário, é o povo, somos todos, que olhamos com terror para o futuro, para o dia de amanhã, sem podermos saber o que elle será.

Politicamente, vivemos num cahos.” [4]

 Em 8 de Novembro de 1925 realizam-se eleições legislativas. Foram as últimas eleições legislativas realizadas na vigência da Constituição de 1911.

No Porto, O Commercio do Porto de 15 de Novembro apresenta a lista completa dos Senadores e Deputados eleitos pelo Porto.

fig. 2 -  O Commercio do Porto 15 de Novembro de 1925.

 

Candidatos eleitos

Armando Marques Guedes

António Alves Cálem Júnior

Eduardo Ferreira Santos Silva

Henrique Pereira de Oliveira

Alberto Nogueira Gonçalves

Amílcar da Silva Ramada Curto

José Domingos dos Santos

João de Pina Morais Júnior 

Em 5 de Dezembro é noticiada nas páginas do jornal O Século a fraude de Alves dos Reis [5], que contribuiu, pelas suas repercussões económicas, para abalar - a já frágil - economia do País.

Em 11 de Dezembro de 1925, Manuel Teixeira Gomes (1860-1941), presidente desde 5 de Outubro de 1923, renuncia ao cargo, sendo substituído por Bernardino Machado (1851-1944) que de novo assume o cargo até ao golpe militar de 28 de Maio de 1926.

 O Governo da Cidade

A Câmara Municipal do Porto tem em 1926, como presidente Alberto Pereira Pinto de Aguiar (1868-1948) médico, professor da Universidade do Porto e Presidente do Senado de 2 de Janeiro a 30 de Junho de 1926, que presidirá à CMP desde 2 de Janeiro até ao golpe militar do 28 de Maio sendo exonerado a 30 de Junho de 1926. [6]

Na segunda-feira, 4 de Janeiro de 1926, reúne a Comissão Executiva da Câmara Municipal elegendo para presidente Vasco Nogueira de Oliveira (1880-?).

Desta Comissão Executiva faz parte, entre outros o historiador de arte, Aarão de Lacerda (1890-1947). [7]

 



[1] “Ma la città non dice il suo passato, lo contiene come le linee d’una mano, scritto negli spigoli delle vie, nelle griglie delle finestre, negli scorrimno delle scale, nelle antenne dei parafulmini, nelle aste delle bandiere, obni segmento rigato a sua volta di graffi, seghettature, intagli, svirgole.” Italo Calvino Le città e la memoria 1in Le città invisibile Einaudi Torino 1972 (pág.4)

[2] O 42.º governo da República nomeado a 15 de Fevereiro de 1925 e exonerado a 1 de Julho do mesmo ano, liderado por Vitorino Guimarães (1876–1957).

O 43.º governo da República que ficou conhecido como o Governo dos Bonzos, nomeado a 1 de Julho de 1925 e exonerado a 1 de Agosto do mesmo ano, liderado por António Maria Silva (1872–1950) e do qual fez parte como Ministro da Instrução Eduardo Santos Silva (1879–1960).

O 44.º governo da República nomeado a 1 de agosto de 1925 e exonerado a 17 de dezembro do mesmo ano, liderado por Domingos Leite Pereira (1882–1956).

E por último, o 45.º governo da República nomeado a 17 de dezembro de 1925, liderado por António Maria da Silva (1872–1950). (Será exonerado a 30 de maio de 1926, após o 28 de Maio de 1926.)

[3] Será Joaquim Manso (1878-1956)?

[4] O Commercio do Porto Sábado14 de Outubro de 1925 JM.

[5] Artur Virgílio Alves Reis (1896-1955).

[6] A Câmara Municipal do Porto teve, em 1925, como Presidente interino José Pereira da Silva (?-?) entre 2 de Janeiro e 12 de Março de 1925, data em que é eleito António Joaquim de Sousa Júnior (1878-1931), o qual presidirá de 12 de Março de 1925 a 31 de Dezembro de 1925.

[7] Acta da reunião de 4 de Janeiro 1926. AHMP.


A população do Porto em 1926

Em 1925 foi realizado um Censo Extraordinário  da população das cidades de Lisboa e do Porto, justificado em carta ao Ministro pelo director do INE Vitorino Henriques Godinho (1878-1962): “Estes trabalhos, feitos geralmente a meio do período decenal, entre os dois recenseamentos gerais, são da maior utilidade, porquanto servem de rectificação e verificação dos trabałhos anteriores e permitem seguir mais atentamente e com maior segurança a vida dos grandes centros e o estudo e marcha de alguns fenómenos que tendo nela uma maior intensidade reflectem também um pouco da vida social do resto do país.” [1] 

Segundo este Censo a população do País era de 6.032.991 habitantes e a população da cidade do Porto era em 1 de Dezembro de 1925 de 215 625 habitantes sendo 98 313 do sexo masculino e 117 314 do sexo feminino.



fig. 3Censo Extraordinário  da população das cidades de Lisboa e do Porto, 1926. Imprensa Nacional Lisboa 1927 (pág.55).

 

De 1920 a 1925 houve um aumento de 12.534 habitantes ou sejam 2.507 por ano que corresponde 1,23%

A população do Distrito era de 702.166.

Na cidade verificava-se uma atracção da população, pois que os habitantes naturais do Porto (os tripeiros) eram 132.654 (59,14%) e os restantes 82.971 (40,86%) eram estrangeiros ou proveniente de outras localidades.

Comparando com o Recenseamento de 1920, das 15 freguesias então existentes na cidade a mais populosa era a do Bonfim, seguida pela de Cedofeita, apesar do crescimento das freguesias de Paranhos, Campanhã e da freguesia central de Santo Ildefonso.

 


fig. 4 - Censo Extraordinário  da população das cidades de Lisboa e do Porto, 1926. Imprensa Nacional Lisboa 1927 (pág.53).

As freguesias do núcleo medieval, Miragaia, S. Nicolau, e Sé, tinham um crescimento reduzido. E a freguesia da Vitória tinha mesmo um decréscimo.

As freguesias de Nevogilde e de Aldoar continuavam com uma ocupação muito reduzida.

As restantes freguesias (Foz do Douro, Lordelo, Massarelos, Ramalde) tinham um crescimento normal.

Freguesias

1920

 1925

1930

1940

Aldoar

1 306

1 539

1 874

1 749

Bonfim

33 402

37 331

38 418

41 260

Campanhã

19 184

21 489

23 621

25 972

Cedofeita

33 020

33 584

36 520

41 835

Foz do Douro

7 751

7 961

8 088

8 491

Lordelo do Ouro

8 054

8 578

8 600

9 440

Massarelos

8 956

9 303

9 201

11 148

Nevogilde

1 887

2 197

2 485

2 419

Paranhos

21 286

22 578

25 853

34 498

Ramalde

9 818

10 481

12 306

13 808

Miragaia

6 369

6 837

7 130

7 519

S. Nicolau

5 435

6 042

6 347

7 881

Santo Ildefonso

22 718

22 867

24 483

25 581

14 067

16 345

16 689

16 876

Vitória

9 027

8 193

8 179

9 578

Total

202 310

215 625

229 794

258 548

fig. 5 - Fonte: A Cidade do Porto: Súmula Estatística (1864-1968). INE.


Em 1925, Aurora Teixeira de Castro [2] escreve uma Monografia da Cidade do Porto publicada em 1926. [3]

 


 fig. 6 - Gráfico n.º 1 Distribuição da população por classes, em 1920. in Aurora Teixeira de Castro (1891- 1938), Monografia da cidade do Pôrto. Composto e Impresso nas Oficinas da Secção de Publicidade do Museu Comercial. Lisboa 1926.

 Baseado nesta Monografia podemos afirmar que do ponto de vista qualitativo a cidade continuava a atrair populações, nomeadamente as que vinham trabalhar para as fábricas, oficinas e obras existentes (2 586 + 82 + 39 658); gente que vinha trabalhar para o comércio e serviços, já então em desenvolvimento no centro (19 370); trabalhadores dos transportes (5 624) e uma classe média formada por médicos, engenheiros, advogados, arquitectos e outros profissionais liberais (2 984) e ainda por aqueles (2 844) que estavam ligados à Administração Pública incluindo a Universidade; e os que pertenciam às forças de segurança (4 075).

Finalmente uma elite financeira e industrial de que faziam parte banqueiros, grandes empresários, comerciais ou industriais, e ainda proprietários.

De um modo geral, estas diferentes classes distribuíam-se pelos edifícios e pelo espaço da cidade de uma forma diferente.

Os operários ocupavam as “ilhas” e edifícios degradados, espalhados por toda a cidade edificada, mantendo um grave problema de alojamento.

A população da pequena burguesia ocupava os edifícios do início do século ao longo das ruas principais existentes nomeadamente os tradicionais acessos à cidade.

A classe média instalava-se nas novas zonas então urbanizadas ou em urbanização, adjacentes a novos traçados viários, como a avenida dos Combatentes (aprovada em 1925 e aberta e edificada nos anos seguintes); a rua Guerra Junqueiro (assim chamada a partir de 1923 com a morte do poeta); a avenida que em 30, se chamará Marechal Gomes da Costa e o prolongamento da Foz do Douro para Nevogilde (a Foz Nova) pela avenida que no ano de 1926 se chamará de Montevideu.

A elite burguesa da classe média alta, ocupava diversos palacetes nas zonas da Boavista, do Campo Alegre, da Foz e de Campanhã.

 



[1] Censo extraordinário da população das cidades de Lisboa e Porto: 1 de Dezembro de 1925, Lisboa, Imprensa Nacional, 1927.

[2] Aurora Teixeira de Castro (Porto 18911938) foi notária, advogada, autora, e vice-presidente do Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas fundado em 1914.

[3] Aurora Teixeira de Castro (1891- 1938), Monografia da cidade do Pôrto. Composto e Impresso nas Oficinas da Secção de Publicidade do Museu Comercial. Lisboa 1926.

sábado, 2 de maio de 2026

Poema do Arquitecto 7

 


Desenhar uma situação


“Vo essere uno buono disegnatore e deventare uno buono architettore.” [1]

 


fig. 1 - Tommaso “Maso” Finiguerra (1426-1464), O Aprendiz de arquitecto?. c.1450, pena, tinta e aguada s/papel 19,4 x 12,5 cm. Gabinetto Disegni e Stampe degli Uffizi, Florença.

 

“Só há liberdade em situação e só há situação através da liberdade.

A liberdade humana, por toda a parte, encontra resistências e obstáculos

que não criou; mas estes apenas têm sentido na e pela livre escolha

que é a liberdade humana.” Jean Paul Sartre [2]


…é uma resposta a um problema concreto, a uma situação em transformação

da qual participo sem fixar antecipadamente uma linguagem arquitectónica,

porque o meu trabalho é simplesmente uma participação num movimento de transformação

que tem implicações muito mais amplas.” Álvaro Siza [3]

 

 

toda situação, só têm sentido pela livre escolha

pelo modo em que afirmas a tua própria posição

perante o misto das condicionantes e liberdades.

é o teu estar-no-mundo que contorna a situação.

A secreta utopia que se esconde em toda a obra

o mundo mais vasto, mais antigo e mais diverso

recria e marca na sua forma natural nesse lugar

pelo teu preciso olhar de quem habita um verso

 



[1] Vou ser um bom desenhador e tornar-me um bom arquitecto.

[2] Jean Paul Sartre (1905-1980), L'etre et le néant, essai d'ontologie phénoménologique, Paris, Gallimard, 1943, (pág.546). « Il n'y a de liberté qu'en situation et il n'y a de situation que par la liberté. La liberté humaine rencontre partout des résistances et des obstacles qu'elle n'a pas crées; mais ces derniers n'ont de sens que dans et par le libre choix qu'est la liberté humaine. »

[3] Álvaro Siza, Entretien avec Álvaro Siza in Architecture Mouvement Continuité AMC, n.º 44 1978. « c’est une réponse à un problème concret, à une situation en transformation à laquelle je participe sans fixer à l’avance un langage architectonique, parce que mon travail est simplement une participation dans un mouvement de transformation qui a des implications beaucoup plus larges »

quarta-feira, 29 de abril de 2026

poema curto 23

 


fig. 1 - José Emídio (n.1956), sem título 130 x 180 cm. col. particular.

 

“…lembrai-vos da pausa

com que os meus vizinhos

vieram pela estrada.”

Cecília Meireles [1]

 


tempo em que naquela vaga melodia

germinava uma serena concordância

 



[1] Cecília Meireles, Ida e Volta em Portugal. Cecília Meireles, Obra Poética. Editora Nova Aguilar S. A.  Rio de Janeiro 1983. (pág. 175).