A ponte de
barcas
Uma Ponte de
Barcas, permanente, a qual consistia num tabuleiro apoiado em barcaças movíveis
permitindo, quando necessário, a passagem de embarcações.
Embora desenhada mais tarde em 1835, pelo Barão
de Forrester , esta vista a partir da margem esquerda do
rio, melhor consegue mostrar, com nitidez e abundância de pormenores, não só a ponte
de barcas, mas também o muro da Ribeira, já aberto de arcos.
fig. 2 - J. J.
Forrester (1809-1861), OPORTO. Delt R. J. Lane. À. R. À. *-J 4 Direxit. G. Childs Lith. Published in
Opor to by the Auther & for him in
London by J. Dicldnson New Bond S.t September 1835. Printed by Graf & Soret. Estampa n.° 2 da colectânea
do Barão de Forrester.
No Rosto da cidade as lágrimas
de tristeza
Pouco anos depois da
construção da ponte, então ainda orgulho da cidade, as tropas napoleónicas
atacam a cidade.
E em 29 de Março de 1809 os franceses entram,
pelo norte, na cidade e “Os habitantes da cidade, dementados pelo
pavor, correram á ponte, como estrada de
salvação que a todos primeiro lembrava.”
fig. 3 - Bataille d'Oporto remportée par le maréchal Soult sur l'armée
portugaise retranchée en avant de la ville le 29 mars 1809 .La fin de la
bataille à 3 heures du soir. Le combat à l'entrée de la ville et fuite de la
cavalerie portugaise traversant le pont sur le Douro. Jung Théodore (1803-1865), Aquarelle 116 x 210 cm. Châteaux de Versailles et de Trianon Versailles.
E o horrorizado rosto do Porto assiste triste à inesquecível tragédia.
fig. 4 – A população do Porto fugindo do exército de Soult em 1809
Pintura existente na igreja de S. José das Taipas.
Arnaldo Gama em O Sargento Mor de Vilar, escreve:
"N'aquella
meia dúzia de palmos de terra,
n'aquella estreita fita de madeira que se estendia sobre o Douro,
representou-se n'aquelle dia uma scena, que
compendiou em breve resumo tudo quanto a agonia e o pavor tem de mais
perfeito de mais horroroso.”
E o poeta contemporâneo dos acontecimentos, António Joaquim de Mesquita e Mello (1792-1884), no seu poema O Porto Invadido e Libertado de 1815, descreve a tragédia:
“Quer fugir ás vinganças do tyranno
De ambos os sexos povo numeroso,
Succumbe a ponte em parte, e leva ao fundo
Este povo infeliz roubado ao mundo.”
“Junto do precipicio os que se achavaõ
Querendo recuar já não podiaõ,
Que huns nos outros forçosos carregavaõ,
E ao desastroso abysmo todos hiaõ:
Abysmo, de que as bordas igualávaō,
Dessa gente os montões que alli cahiaõ,
Com magoada grita o Ceo ferindo,
O Ceo, a terra, as agoas
aturdindo.”
Joseph James Forrester (1809-1861) Produtor e comerciante de vinho, James
Forrester foi o primeiro barão de Forrester, título que lhe foi concedido por
D. Fernando II, em 1855. Publicou diversas obras Uma palavra ou duas sobre o
vinho do Porto, 1844 , O Douro Português e País Adjacente (1848) e
de Prize Essay on Portugal and its Capabilities (1859). Foi o autor de mapas
do vale do Douro de que se distingue o
seu Mapa do Rio Douro. Pintou várias aguarelas e foi um dos primeiros
fotógrafos em Portugal.
[2] Arnaldo
Gama (1828-1869), O Sargento-Mor de Villar, (Episódios da Invasão dos Francezes
em 1809) Vol. II Livraria Civilização Porto 1866. (pág. 242).
[3] Arnaldo
Gama (1828-1869), O Sargento-Mor de Villar, (Episódios da Invasão dos
Francezesem 1809). Livraria Civilização, Porto 1863. (pág. 247).
Libertado, o rosto da cidade volta a sorrir.
“Avançai estandartes nossos, lançai-vos sobre o
inimigo
Que o nosso velho brado de coragem “Por S.
Jorge”
Nos inspire com o alento dos dragões de fogo.”
Shakespeare [1]
Mas libertada
a cidade pelas tropas anglo-portuguesas, sob o comando de
Wellesley (Duque de Wellington) no dia 12 de Maio de 1809,
“Em quanto as tropas nelles vao ſaltando,
Em Cubrantões as tropas se embarcáraõ;
Quando, da serra os bronzes vomitando
O desembarque seu lhes seguráraõ:
As agoas através prestes cortando,
Perto da terra á terra se atiraraõ,
Chovem balas
do pérfido contrario
Emboscado no
erguido Seminario.”
Numa imagem de Henri l’Evêque , as tropas inglesas atravessam o Douro, em embarcações, junto do Seminário Velho e do Prado do Bispo e surpreendem Soult e as suas tropas.
fig. 5 – Henri l’Eveque PASSAGE
OF THE DOURO, by the division under the Command of L.t Gen.l the Hon.ble Edward
Paget. To L.t Gen.l the Hon.ble Edward Paget this plate respectfully inscribed
by his most obedient humble Servent H. L'Evêqne. London; Pub.d April 2.1812,
for the Proprietors by Mess.s Colnaghi & Co. Cockspur Street.
"Advance our standards, set upon our foes,
Our ancient word of courage fair Saint
George
Inspire us with the spleen of fiery dragons." William Shakespeare
(1564 – 1616) - Richard III.," Act v. sc. 3.
O Rosto da cidade libertada
O rosto da cidade estabiliza-se na segunda década do século,
entre as Invasões Francesas (1810) e a
Revolução Liberal (1820).
Henri l’Evêque é o autor de uma gravura do Porto datada de
1817, ano em que, significativamente, Manoel Fernandes Thomaz (1771-1822), vem
da Figueira da Foz para o Porto para tomar posse como desembargador da Relação.
fig. 6 - Henri L’ Evêque (1769-1832) Vue de la Ville et
du Port de Porto. H.
L’Evêque. d. London P.ed 1817.
[Nota
- Reproduzimos algumas das análises e dos comentários sobre esta imagem, já
apresentada neste blogue em Setembro de 2020 com o título de “Aspectos do Porto na segunda década de
oitocentos”.]
Para melhor analisar a
gravura, apresentamos uma outra versão da mesma, numerada.
fig. 7 – Henru L’Evêque, Vue de la Ville et du Port de Porto.
A gravura mostra a cidade debruçada
sobre o rio, com uma grande actividade portuária e onde é salientado o comércio
do vinho.
A Ponte das barcas cria uma diagonal
conferindo a toda a composição uma dinâmica às actividades no Douro e à ligação
entre as duas margens
L’Évêque
mostra o Rosto do Porto como um anfiteatro, com uma verdejante escarpa sobre o
Douro, desde a colina da Sé 1 com a
Catedral 2 e o Paço Episcopal 3.
A ocidente do vale do rio de Vila, a colina da Vitória 3 com o
Mosteiro de S. Bento.
Na encosta o
convento de S. Domingos 4 e o convento de S.
Francisco 5
O cais da
Ribeira 8 com as diversas portas e
postigos da muralha medieval até à praia de Miragaia. 6
Junto à Porta da Ribeira, sensivelmente ao centro da imagem entre as duas embarcações a capela de Nossa Senhora do Ó 7 sobre a muralha.
fig. 8 – Pormenor da fig. 7.
Após a curva do rio a poderosa
Companhia das Vinhas do Alto Douro constrói entre 1761 e 1767 o armazém de
Monchique e a cidade estende para poente as suas actividades portuárias. E em
1788 é decidida a abertura da marginal para ligar Miragaia com a Foz.
Já em 1789, com projecto de
Champalimaud de Nussane , iniciam-se
as obras do cais de Massarelos.
Na
imagem ao fundo ainda se vê a margem sul com os seus armazéns.
A ponte das
barcas
Destaca-se ao
centro a Ponte de Barcas 10, entre o cais de Vila Nova de
Gaia 9 e a Porta da
Ribeira.
Unindo uma pequena capela 9 na margem esquerda do Douro com o
cais da Ribeira junto às portas da muralha no lado do Porto. Aqui, junto à
ponte é visível a roda da grua de apoio à ponte e ao cais 8.
Na gravura de L’Évêque circulam
tranquilamente na Ponte de Barcas, um carregador com um fardo às costas p1, um soldado junto da prancha da embarcação p
2, um cavaleiro na sua montada p
3, um casal com uma sombrinha p 4, uma mula com o respectivo cavaleiro, outra transportando carga p
5, duas personagens que a meio da ponte trocam impressões
observando as embarcações fundeadas p 6, e junto ao cais da Ribeira um outro cavaleiro e mais algumas
figuras p 7.
A montante e a jusante da ponte diversas
embarcações.
fig. 9 - Pormenor da ponte das barcas na gravura de H.
l’Evêque.
A margem de Gaia
No primeiro plano, na margem sul, um conjunto de personagens ocupadas em
diversas actividades.
fig. 10 - Pormenor da gravura de L’Evêque.
Junto
à capela de madeira 9 um carreiro conduz um carro de bois 16, tanoeiros consertam e
carregam pipas de vinho para um rabão 17. Diversas mulheres ocupam-se da venda de produtos
artesanais 19.
A gravura de Robert Batty
Uma gravura de Robert Batty (1789-1848) publicada em
1829, mostra o Rosto do Porto, a jusante da Ponte das barcas.
fig. 11 - Robert Batty (1789-1848), Oporto. From Vila Nova.
1829. Painted
by Lieut. Col.e Robert Batty. Engraved by William Miller (1796-1882).
O próprio Robert Batty anota:
“A vista aqui anexa, obtida da base da Serra, perto da Ponte das Barcas,
apresenta-nos a parte mais antiga da cidade do Porto. O espectador fica assim
localizado em frente do Palácio do Bispo, que juntamente com a Catedral e os
edifícios próximas, ocupam o alto da Colina Central da figura.”
fig. 12 – A gravura de Batty numerada.
À esquerda a Praça da Ribeira 5 aberta para
o Douro. Por trás a Torre dos Clérigos. 1
Entre o morro da Sé 3 com a Igreja
e o Convento de S. Lourença (dos Grilos) 2, a Catedral,
e o Paço Episcopal e o pano oriental da muralha 4, vê-se ao
fundo o Teatro do Príncipe Real (S. João) 6. No rio diversas embarcações, entre as quais um
rabelo 7, valboeiros com toldo 8, uma lancha
poveira ao centro10, um caíque 9 e um iate 11“fixado
no extremo limite da gravura, à direita, apresenta uma armação de panos
latinos, ao contrário dos restantes, correctamente aparelhados com velas de
carangueja.”
No primeiro plano no cais de Gaia, um pequeno pontão de
pedra onde um casal com uma criança se dirigem para um valboeiro atracado 12. Uma mulher de
bilha na cabeça 13. Duas personagens conversam no centro junto a aduelas das
pipas de vinho 14. Outras duas figuras à direita 15.
[1]
O tenente-coronel Robert BATTY (1789 - 1848) foi um ilustrador e topógrafo.
Filho de um cirurgião e também pintor de paisagens. Em 1813, Batty pertenceu ao
regimento Grenadier Guards que combateu na Guerra Peninsular. Ao longo da vida,
publicou diversos livros ilustrados das suas viagens: Um esboço da Campanha, no
final da Holanda, 1815; Um esboço histórico da campanha de 1815; Campanha da
ala esquerda do exército aliado,1823; Cenário Galês, 1823; Cenário alemão,
1823; Cenário do Reno, da Bélgica e Holanda, 1826; Cenário Hanoverian e
Saxónio, 1829; Seis Vistas de Bruxelas, 1830; Um passeio de família através de
Zuid-Holland, 1831; Vistas das principais cidades da Europa, 1832 e O motim e a
Apreensão da H.M.S. Bounty, 1876.
O Rosto do Porto Liberal
Afastados
os franceses ficam os ingleses que com a Corte no Brasil tomam conta dos
negócios do Reino.
Com a
morte de D. João VI, o conflito pela sucessão ao trono desencadeia uma guerra civil
entre Liberais e Absolutistas, entre D. Pedro e D. Miguel.
E o Porto sofre um cerco que atinge o Rosto da cidade.
O Rosto da Cidade após o Cerco do Porto
A gravura de George Vivian 1839
fig. 13 - Oporto
from Villanova. SCENERY OF
PORTUGAL & SPAIN. By G. Vivian Esq. re
on Stone by L. Haghe P. & D. Colnaghi and
Co., 1839. –litografia 18 de 35.
George
Vivian desenhou uma gravura litografada por L. Hage, onde o rosto da cidade é
parcialmente desenhado, centrado na Sé e no paço Episcopal.
«A Sé ou Catedral e a grande ala do palácio
episcopal são visíveis no ponto mais alto da imagem. Mais ao longe, à direita,
surgem os edifícios e as muralhas do jardim de Santa Clara e, sob as primeiras
elevações, realizava-se a famosa travessia do Douro. Algumas das embarcações no
rio são os barcos de vinho do Porto ou do Alto Douro.»
O
rosto magoado da cidade vê-se pelas destruições da artilharia miguelista
durante o cerco do Porto.
Foi
ainda publicada uma versão colorida do álbum Scenery Of Portugal & Spain.
fig. 14 - Oporto
from Villanova. M.R. VÍVIAN'S
SCENERY OF PORTUGAL & SPAIN. Ackermann & Co. Strand. London. 1839.
Edição Comemorativa da Inauguração da Ponte da Arrábida CMP 1963.
Não está figurada a margem de Gaia.
Por entre a
azáfama das muitas embarcações no Douro, destaca-se no primeiro plano, um
rabelo carregado com pipas, tornando-se um dos elementos, característico e
identificador, do Rosto da Cidade.
George
Vivian (1798-1873),
desenhador e pintor em Londres, viajou através de Espanha e Portugal. No seu
regresso, Vivian publicou uma colecção de litografias sob o título “Scenery
of Portugal & Spain” constituído por 33 desenhos gravados em pedra por L.
Haghe. Tornou-se célebre a gravura da praça de S. Bento no Porto e que foi
reproduzida numa nota de 100 escudos do Banco de Portugal. Louis Haghe (1806-1885) nascido na Holanda mas
trabalhando no reino unido foi um conhecido litógrafo tendo trabalhado para a
Família Real.
« The Sé or Cathedral and the great
file of the Bishop’s palace are seen on the highest point of the picture. More
distant to the right appears the building and battlement garden walls of Santa
Clara and under the firthest heights the famous passage of the Douro was
effected. Some of the craft on the
river consist of the Oporto, or Alto Douro Wine Boats. » legenda
da estampa XVIII.