Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux. Marcel Proust - A La Recherche du Temps Perdu















sexta-feira, 20 de julho de 2018

Apontamentos um pouco dispersos sobre Arquitectura e Desenho 7


Algumas reflexões sobre os desenhos e as obras a partir dos escritos de Álvaro Siza e Le Corbusier.



45. A minha cadeira favorita



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fig. 223 - Michael Thonet (1796-1871), cadeira Thonet modelo n.º14.



Álvaro Siza nas suas reflexões sobre o mobiliário escolhe como cadeira favorita a famosa Thonet.

É difícil a escolha, tantas as que me vêm à memória, ou as que todos os dias vejo.

Uma das que mais aprecio (e não há nisso nenhuma originalidade) é a famosa Thonet.

Creio que se trata da primeira cadeira produzida mecanicamente e em série, associando inovação tecnológica e de desenho.

Foi distribuída por todo o mundo e descentralizada a sua produção (também no Porto se fabricou a Thonet). Invadiu casas e edifícios públicos. Ainda hoje a vemos sem estranheza. Equipou (e equipa) cafés de província, tanto quanto ambientes sofisticados. [1]


O exemplo da cadeira Thonet [2]

Ao referir a cadeira Thonet Álvaro Siza refere-se a um conjunto de cadeiras de que destacamos as três mais conhecidas: as cadeiras n.º14 (hoje 214) e n.º18 e a cadeira de braços com o n.º 9 (e no catálogo de 1904 com o n.º209).


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fig. 224 - Michael Thonet (1796-1871), cadeira Thonet modelo n.º14 assento redondo em “palhinha” 43 x 84 cm.Viena 1859 e a Thonet n.º18 muito semelhante mas com um diferente encosto 47 x 76 cm. 1876.




De facto a cadeira Thonet n.º 14, com as suas variantes, tornou-se famosa a partir do final do século XIX tendo atingido em 1930 a quantidade de 50 milhões de unidades.

Em França com a n.º18 foram chamadas de Chaise Bistrot já que foram utilizadas em inúmeros estabelecimentos de restauração, por todo o mundo.


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fig. 225 – A cadeira Thonet n.º14, desmontada e um conjunto embalado num metro cúbico.

Nesse mesmo texto prossegue Álvaro Siza:

Le Corbusier usou-a constantemente.

É leve e confortável sem exagero (até nisso é discreta). Um velho ou uma criança deslocam-na sem esforço. [3]


Quando Álvaro Siza refere Le Corbusier está a referir-se quer às cadeiras Thonet n.º14 e n.º18 quer à cadeira que Le Corbusier mais utilizou: a Thonet nº9 (criada em 1900 e que recebeu o n.º 209 no catálogo de 1904) a qual por isso ganhou o nome de "chaise Le Corbusier".



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fig. 226 – Cadeira Thonet n.º9. 66 x 53 x 80 cm. Altura do assento 47cm.



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fig. 227 – A cadeira Thonet assinalada com B9 no catálogo Gebrüder Thonet.




Sobre as cadeiras Thonet Le Corbusier refere que Rien de plus élégant, rien de mieux réussi au niveau de la conception, rien de plus exact dans la réalisation et de plus utile n'a jamais été créé.


sv309fig. 228 - Le Corbusier sentado numa cadeira Thonet n.º 9 (n.º209).




Numa fotografia da Maison Jeanneret projectada por Le Corbusier entre 1923 e 1925 surgem cadeiras Thonet.


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fig. 229 – Le Corbusier e Pierre Jeanneret, Maison Albert Jeanneret e Loti Raaf 1923/25. Square du Docteur-Blanche Paris.


Ao fundo uma Thonet n.º18 e no primeiro plano duas Thonet n.º9.



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fig. 230 – As cadeiras Thonet n.º18 e n.º9.



Na parede da sala da Maison Jeanneret uma pintura Nature morte à la pile d’assiettes et au livre (Natureza morta com pilha de pratos e livro) assinada Jeanneret (Charles-Édouard Jeanneret dito Le Corbusier), do seu período Purista, cujas formas curvas tem algo a ver com as cadeiras Thonet.


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fig. 231 - Le Corbusier, Nature morte à la pile d’assiettes et au livre 1920. 80,9 x 99,7 cm. Fundação Le Corbusier.



No Pavilhão de L’Esprit Nouveau para a Exposição das Artes Decorativas de 1925 em Paris, Le Corbusier já utilizara a Thonet n.º9, como sevê na fotografia.



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fig. 232 – Le Corbusier, Pavillon de l’Esprit Nouveau. Paris 1925.



Na parede duas pinturas. Uma Natureza Morta de Le Corbusier (ainda assinada Jeanneret) do seu período Purista.


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fig. 233 - Le Corbusier (1887-1965), Nature morte du Pavillon de l’Esprit nouveau,1924, óleo s/tela. Musée Beabourg.


E uma outra pintura O Balaústre de Fernand Léger então associado ao Purismo.


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fig. 234 - Fernand Léger (1881-1955), O Balaústre 1925, óleo s/ tela 129,5 x 97,2 cm. MOMA, Museum of Modern Art,N.Y.



Também no edifício que Le Corbusier construiu para o Weissenhof de Stuttgart em 1927, utilizou as cadeiras Thonet.


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fig. 235 - Le Corbusier, Interior da casa do Weissenhof, Stuttgart, 1927.


E na mesma exposição do Weissenhof Mart Stam, apesar de ter desenhado um mobiliário próprio, também utiliza a cadeira n.º209.


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fig. 236 - Mart Stam (1899-986), Weissenhof, Stuttgart, 1927.

[Sobre o Weissenhofsiedlung ver neste blogue Um percurso pelo Weissenhofsiedlung

http://doportoenaoso.blogspot.com/2011/02/um-percurso-pelo-weissenhof-siedlung.html]


[1] Álvaro Siza, A minha cadeira favorita, in 01- Textos Álvaro Siza. Civilização Editora, rua Alberto Aires Gouveia, 27. Porto 2009. (pág. 230).

[2] Ver: Julio Vives Chillida, La recepción de las sillas núm. 14 de hermanos Thonet y núm. 30 de Jacob & Josef Kohn en Barcelona: examen comparativo. Fundacion Historia del Diseño, FHD, Barcelona 2016.

[3] Álvaro Siza, A minha cadeira favorita, in 01- Textos Álvaro Siza. Civilização Editora, rua Alberto Aires Gouveia, 27. Porto 2009. (pág. 231).


46. A difusão das cadeira Thonet n.º18 e n.º14.


A cadeira n.º 18 teve uma enorme difusão como se vê nos seguintes exemplos:

No posto de atendimento dos Correios de Vichy.


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fig. 237 – Postal. Interieur de la Poste Vichy 1915.


A cadeira Thonet n.º18 protagonista de um filme de Charlie Chaplin(1889-1977) de 1915.


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fig. 238 - Charlie Chaplin (Charlot), fotograma de A Night Out (Uma noite fora) de 1915.



A cadeira Thonet n.º18 num terraço de Montmartre e num restaurante em Paris.


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fig. 239 – Postal Une terrasse au-dessus de la rue Muller. Montmartre Paris. 19..



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fig. 240 – Restaurante desconhecido. Paris 1913.



A cadeira na varanda de um restaurante em Grenoble.


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fig. 241 - Chalet-Hotel restaurante du parc des Anguisses. Grenoble. 19..



Nos Casinos também era frequente utilizar as Thonet. Na sala de jogos do Casino de Ostende na Bélgica.


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fig. 242 – Au Kursaal. La Salle de Jeux. Ostende. Antes de 1920.


E na sala de jogos do Casino de Lugano na Suissa.


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fig. 243 - Kursaal do Casino de Lugano 1885.


Mesmo Frank Lloyd Wright , apesar da sua concepção da arquitectura orgânica na Robbie House nos Estados Unidos, também utiliza a cadeira Thonet.



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fig. 244 – Frank Lloyd Wright mostrando pormenores da Robbie House. À volta da mesa um conjunto de cadeiras Thonet, numa variante da n.º18.


No Porto também foi utilizada em cafés como no luxuoso Café Suisso.



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fig. 245 – Interior do Café Suisso in O Sorvete de Francisco Sanhudo n.º184. in Marina Tavares Dias e Mário Morais Marques, Porto Desaparecido, Quimera Editores Lda. 2002.



A Thonet n.º18 aparece ainda retratada na pintura dos finais do século XIX e nas primeiras décadas do século XX.

Na pintura de Louis Abel Truchet figura em primeiro plano concentrando o olhar do espectador.


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fig. 246 - Louis Abel Truchet (1857-1918), Au Café, óleo s/tela 24,3 x 33,1 cm. Esteve na Sala do Hotel Drouot Paris. Col. Particular.

A cadeira Thonet n.º 14 surge no catálogo Gebrüder Thonet na figur.7 com a data de 1859.

E a n.º18 surge no mesmo catálogo na figur.9 com a data de 1876.



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fig. 247 - As cadeiras Thonet n.º 14 e n.º18 no catálogo Gebrüder Thonet de 1893.



Mas foi sobretudo a Thonet n.º14 que alcançou a maior difusão em estabelecimentos de restauração, como se vê em alguns exemplos incluindo o Porto.


Em Viena de Áustria servindo os músicos da orquestra de Johann Strauss Jr. tocando no Baile do Imperador.




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fig. 248 - Theodor Zasche, Johann Strauss (1825-1899) dirigindo a orquesta do Baile Imperial,1888. A orquestra está sentada em cadeiras Thonet n.º14. Aguarela. Museu de Viena.


No Restaurante Viktoria em Munique na Baviera.


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fig. 249 - Café-Restaurant Viktoria, 1900. Stadtarchiv München.



Na Sala de Leitura do célebre Palau de la Musica (Palácio da Música) em Barcelona.


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fig. 250 - Lluis Domenech i Montaner (1850-1923), Sala de Lectura, Palau de la Musica Catalana 1905/08. Barcelona.



E no Café Chaves situado no rés-do-chão do Hotel Francfort no Porto.



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fig. 251 - Aurélio Paz dos Reis (1862-1931), Café Chaves no Porto. Centro Português de Fotografia.

A Thonet n.º14 surge ainda na pintura nos finais do século XIX e no período entre as duas guerras, associada à procura da modernidade.


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fig. 252 - Louis Abel Truchet (1857-1918), Une Rue Parisienne 1894, óleo s/painel. Col. particular.



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fig. 253 - Mario Sironi (1885-1961) La lampada, 1919, óleo s/tela, 78 x 56 cm, Pinacoteca di Brera, Milano.



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fig. 254 - Feliu Elias (1878-1948) La galeria 1928, óleo s/madeira 63 x 52 cm. Museu Nacional d'Art de Catalunya. O quadro esteve exposto na Exposición Internacional de Barcelona, 1929.



Em 1875 as cadeiras Thonet n.º14 e n.º18 foram reforçadas com dois arcos laterais unindo o encosto ao assento.


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fig. 255 - As cadeiras Thonet n.º 14 e n.º18 reforçadas no Catálogo Thonet Frères de B. Vélat, 5, rue de la République Lyon 1914. (pág.18).



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fig. 256 - A cadeira Thonet n.º 14 reforçada.



47. A cadeira de Adolf Loos


Álvaro Siza refere - mais do que uma vez - uma cadeira desenhada por Adolf Loos : (…) As reflexões de Adolf Loos sobre o design, importantes e actuais, sublinham como a necessidade, ainda mais do que a arte, é o fundamento primeiro para se alcançar um objecto perfeito. Loos também desenhou uma cadeira Thonet, e é uma cadeira maravilhosa; olhando-a podemos dizer: “É uma cadeira Thonet!”, sem acrescentar mais nada. E contudo é evidente algo de especial nas proporções e em alguns pormenores que dão pouco nas vistas, de modo que a impressão geral é de uma coisa absolutamente singular, sensacional, mas ao mesmo tempo banal. Creio que no momento em que estes dois aspectos coexistem, esteja alcançada a quintessência da perfeição. [1]


E em outro texto, já aqui referido, volta a elogiar a cadeira de Adolf Loos.

Visitei há anos uma exposição de mobiliário moderno, não me lembro onde. Um sem número de cadeiras alinhava-se sobre o estrado de uma comprida sala – tudo que de belo se fez.

Vi de súbito e ao longe uma vulgar Thonet, como que envolvida em luz, ou irradiando luz. Resplandecia, cantava. E contudo era uma simples Thonet.

Debrucei-me para ler a etiqueta colada no estrado.

Estava escrito: cadeira Thonet, desenho de Adolf Loos, 1898. [2]


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fig. 257 - Adolf Loos, cadeira Thonet para o Café Museum Viena 1899. Faia curvada e assento em bambu entrançado 98 x 41 x 44,5 cm.


A cadeira que Álvaro Siza elogia, embora referida como cadeira Thonet, é a cadeira que Adolf Loos desenhou - certamente conhecendo as cadeiras Thonet - quando projectou o Café Museum de Viena. Ela foi efectivamente produzida pela firma J. & J. Kohn, de Jacob Kohn (1791-1868) e do seu irmão Josef Kohn (1817-1884), fundada em Viena em 1849, figurando no seu catálogo com o n.º255.



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fig. 258 - Cadeira n.º 255 do catálogo da empresa J. & J. Kohn


O Café Museum de Viena, projectado por Adolf Loos, abriu em 1899 no ré-do-chão de um edifício construído em 1872 e projectado por Otto Thienemannem (1827-1905).

O café deve o seu nome à proximidade do Kunsthistorisches Museum (Museu de História de Arte) projectado a partir de 1872 por Gottfried Semper (1803-1879), e concluído em 1889.

A cadeira na Sala de Bilhar do Café Museum.


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fig. 259 - Architekt Adolf Loos, Billardzimmer Caféhaus Museum Wien.



Adolf Loos desenhou uma outra cadeira - a n.º 248 - para a empresa J. & J. Kohn, (c. 1904), e que se pode situar entre a alcançada simplicidade da n.º14 de Thonet e a elaborada elegância da cadeira de Adolf Loos para o Café Museum.

Possuo um exemplar desta cadeira que se distingue pelas três travessas no encosto.


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fig. 260 - Adolf Loos, cadeira n.º 248, 1890 a 1919 Empresa J. & J. Kohn, 90 x 103 x 130 cm. Col. particular.




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fig. 261 - A cadeira n.º 248 (a terceira na fila superior) no catálogo da firma J. & J. Kohn, 1916.


Esta cadeira teve também larga difusão a partir das diversas fábricas da J. & J. Kohn, na Europa e nos Estados Unidos.

A cadeira n.º248 no Café Monopol e no Restaurante Gloria ambos em Liegnitz na Polónia, país onde se situava uma das fábricas da J. & J. Kohn.



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fig. 262 - Café Monopol 1911 em Liegnitz, Polónia.



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fig. 263 - Gloria Gaststätte 1935/40. Liegnitz, Polónia.


E na sala do casino de Grenoble em França.


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fig. 264 - Salle de Consomation Casino-Kursaal rue Saint-Jacques. Grenoble.


[1] Álvaro Siza, Imaginar a evidência, Edições 70 Lda. Lisboa 2000 (pag.131 a 145). In Essencialmente 01- Textos Álvaro Siza. Civilização Editora, rua Alberto Aires Gouveia, 27. Porto 2009. (pág. 238).

[2] Álvaro Siza, A minha cadeira favorita, in 01- Textos Álvaro Siza. Civilização Editora, rua Alberto Aires Gouveia, 27. Porto 2009. (pág. 375).



48. A cadeira por Álvaro Siza


Álvaro Siza confessa a sua principal preocupação em desenhar uma cadeira:

A minha preocupação principal em desenhar, suponhamos, uma cadeira é a de que pareça uma cadeira. É a primeira questão. Hoje desenham-se muitas cadeiras que parecem outra coisa. A necessidade de originalidade e diferença conduz quase sempre a abandonar a essência de um determinado objecto. [1]



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fig. 265 - Álvaro Siza, cadeira C1 1999 Madeira Afizélia ou Bétula ou Mogno ou Carvalho ou Pau-cetim ou Faia. Estofo em Pele Natural ou Pele Sintética 40 x 80 x 42 cm.


A cadeira estilizada que desenhava na escola primária possuia já todas as características típicas: as quatro pernas, o espaldar e o assento. Uma vez mais será ainda este o ponto de partida: uma segunda espontaneidade conquistada através da sublimação instintiva do conhecimento. Como uma navegação perigosa; pode-se sempre naufragar e dão-se muitos naufrágios. [2]



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fig. 266 - Álvaro Siza, cadeira Boa Nova1991 Madeira Afizélia. Estofo em Pele Natural ou Pele Sintética  50 x 76 x 45 cm.


E contudo, tornando ao desenho da cadeira, é importante a expressão de uma qualquer singularidade que, não traindo a essência, liberte o desenho das razões demasiado óbvias. Consegue assim definir-se um toque de autenticidade que atrai de maneira não agressiva mas que, ao mesmo tempo, surge, em parte, como banal. Partir com obsessão de originalidade é um processo inculto e primário. [3]



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fig. 267 - Álvaro Siza, Cadeira articulada, madeira (afizélia, panga panga, pau santo ou cerejeira), estofo em pele, 61 x 87 x 52 cm.


[1] Álvaro Siza, Essencialmente in 01- Textos Álvaro Siza. Civilização Editora, rua Alberto Aires Gouveia, 27. Porto 2009. (pág. 238).

[2] Álvaro Siza, Essencialmente in 01- Textos Álvaro Siza. Civilização Editora, rua Alberto Aires Gouveia, 27. Porto 2009. (pág.239).

[3] Álvaro Siza, Essencialmente in 01- Textos Álvaro Siza. Civilização Editora, rua Alberto Aires Gouveia, 27. Porto 2009. (pág.241).



49. Álvaro Siza e o desenho de um Sofá


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fig. 268 – Álvaro Siza, poltrona Boa-Nova



Já é difícil desenhar uma cadeira.

Mas que diabo! Ao menos são formas geométricas, que a máquina executa, se a soubermos programar.

Num sofá há essa moleza que o conforto exige, indesenhável, essa moleza rebelde, próxima do informe.

A cadeira pode ser leve, pequena, transportada uma a uma ou empilhável.

Não causa engulho quando mudamos de casa.

Mas um sofá! É maior e mais pesado e mais vulnerável. Os estofos resistem mal ao choque, à agressão das arestas, estão em perigo porque não acusam instantaneamente os ferimentos.

Quando fui chamado a desenhar um maple pensei nisso e nas limitações da geometria, tentei tornear a difícil representação, a difícil comunicação com quem faz.

O sofá apela à indefinição, quase à desordem, é necessário um alfaiate que compreenda o corpo inteiramente. Um sofá deforma sob o peso do corpo, as molas lentamente perfuram os tecidos. Há novos materiais, cómodos e laváveis e indeformáveis, é certo, para encher as almofadas, os apoios dos braços e da nuca.

Mas onde a magia de um sofá desventrado no sótão da avó? [1]



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fig. 269 – Um velho sofá encontrado num site da Net de restauração de mobiliário.


Assim para Álvaro Siza um objecto não pode ser o protagonista absoluto, a não ser em casos excepcionais. Tem de exprimir então uma grande contenção, ou uma disponibilidade para qualquer relação. Creio que o desenho industrial se debate exactamente com este problema.

As grandes peças de mobiliário, que marcaram a história, possuem realmente uma grande contenção e uma espécie de banalidade. Esta palavra banalidade, tem um significado ambíguo. Neste caso utilizo-a não para dizer sem interesse, sem qualidade, mas sim no sentido da disponiblidade na continuidade. [2]


[1] Álvaro Siza, Sofás in 01- Textos Álvaro Siza. Civilização Editora, rua Alberto Aires Gouveia, 27. Porto 2009. (pág.161 e 162).

[2] Álvaro Siza, in 01- Textos Álvaro Siza. Civilização Editora, rua Alberto Aires Gouveia, 27. Porto 2009. (pág. 239).




50. Algumas cadeiras que marcaram a história do século XX.


Embora desenhadas para um determinado contexto todas elas se autonomizaram e são ainda produzidas porque são procuradas para criar ambientes que se pretendem modernos.


1 - A chaise-longue de Le Corbusier e Charlotte Perriand (LC4) de 1928.


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fig. 270 – Le Corbusier e Charlotte Perriand, Chaise-longue, 1928.Fondation Le Corbusier.


A chaise-longue de Le Corbusier e Charlotte Perriand (LC4) de 1928 que Le Corbusier chamou de a verdadeira máquina para descansar, foi apresentada em Paris, em 1929 no Salon d'Automne des Artistes Décorateurs e usada na Villa Church em Ville-d’Avray construída entre 1927 e 1929. A casa foi demolida em 1963.


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fig. 271 - A colaboradora de Le Corbusier Charlotte Perriand (1903-1999) na Chaise-longue, B306. 1928.



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fig. 272 – Le Corbusier, interior da Villa Church em Ville d’Avray. No primeiro plano a chaise-longue de Le Corbusier e Charlotte Perriand. Na foto outras cadeiras e um sofá de Le Corbusier e Ch. Perriand.



A estrutura e a geometria da chaise-longue.


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fig. 273 – A estrutura da Chaise-longue.


A estrutura em tubo cromado da chaise-longue é um arco que assenta numa base simples.



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fig. 274 – Desenho da Chaise-longue LC4.



A estrutura em arco pode ser removida do suporte e a cadeira ser usada como cadeira de balanço.


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fig. 275 – Geometria da cadeira LC4.



As proporções da cadeira são subdivisões de um rectângulo áureo.

A largura do rectângulo torna-se o diâmetro do arco que forma a estrutura da cadeira.



2 - A cadeira Wassily de Marcel Breuer 1925/26.

A Cadeira foi batizada inicialmente de “B3” e posteriormente de cadeira Wassily em homenagem ao mestre da Bauhaus Wassily Kandinsky (1866-1944).

É talvez a cadeira que – ainda hoje - mais está associada ao conceito de “moderno” e de modernidade.



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fig. 276 - Marcel Breuer (1902-1981), Cadeira Wassily 1925/26.


A cadeira possue uma estrutura de aço tubular cromado, e o assento e o encosto são em couro.


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fig. 277 – Desenho da cadeira Wassily com as respectivas dimensões.



Duas fotografias da cadeira Wassily, quando foi produzida para a Bauhaus.



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fig. 278 – O autor Marcel Lajos Breuer (1902-1981) sentado na sua obra.



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fig. 279 - Erich Consemüller (1902-1957), fotografia da cadeira Wassily com Lis Beyer ou Ise Gropius sentada com uma máscara de Oskar Schlemmer. 1926/27.



Karl Hubbuch desenhou um conjunto de litografias com figuras femininas sentadas na cadeira Wassily.


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fig. 280 - Karl Hubbuch (1891-1979) Offi im Bauhausstuhl. 1926. Lithographie 50 x 37.5 cm. Col. particular.


Neste outro desenho Karl Hubbuch procura uma relação entre a cadeira Wassily, a bicicleta, a cabeceira da cama todos com uma estrutura tubular e ainda uma relação das curvas dessa estrutura com as dobras dos lençóis. O secador de cabelo era um símbolo da modernidade na época.


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fig. 281 - Hilde com secador de cabelo, cadeira e bicicleta, 1928/29. Aguarela e lápis s/cartão. Colecção Huber, Offenbach. Fundação Karl Hubbuch, Freiburg.


 

Na casa que Walter Gropius projectou para o Director da Bauhaus em Dessau o mobiliário metálico é desenhado e produzido na Bauhaus salientando-se a cadeira Wassily.


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fig. 282 - Marcel Breuer, cadeira Wassily e outro mobiliário metálico na casa projectada por Walter Gropius (1883-1969), Meisterhaus c.1926 Bauhaus Dessau, gelatin silver print. 16.7 x 22.7 cm. Foto col. Dr. Lossen & Co. (Dr. Otto Lossen).



3 - A Cadeira Barcelona de Mies van der Roe, 1929.


A cadeira Barcelona, como o nome indica, foi desenhada para o Pavilhão Alemão da Exposição Internacional de Barcelona em 1929.


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fig. 283 – Mies van der Rohe, cadeira Barcelona 1929.



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fig. 284 – Mies van der Rohe, cadeira Barcelona 1929.



A cadeira tem proporções meticulosas, baseadas na simples figura de um quadrado.

A sua altura é igual ao seu comprimento, que por sua vez é igual à profundidade, cabendo perfeitamente num cubo.

Os assentos de couro e as almofadas são retângulos, fixados numa estrutura em aço.



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fig. 285 – A geometria da cadeira Barcelona.



A construção em “X" das pernas forma uma moldura elegante que dura até hoje.

A curva primária das costas da cadeira e a perna frontal é formada por um círculo com raio idêntico ao quadrado, cujo centro é o ponto 1.

Um outro círculo, cujo raio é a metade do primeiro, define a perna posterior, com centro em 2.

A curva do círculo original é repetida em frente ao suporte do assento, com um círculo idêntico, com centro no ponto 3.



4 - A Cadeira Brno (MR50) de Mies van der Roe, 1928.


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fig. 286 – Mies van der Rohe, cadeira Brno 1929. 55 x 63 x 79 cm. Altura do assento 44,5 cm.



Desenhada para a casa Tugendhat em Brno na antiga Checoslováquia, por Ludwig Mies van der Rohe entre 1928 e 1930, junto com outro mobiliário como a cadeira Barcelona.



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fig. 287 – Estrutura e geometria da cadeira Brno.

1 – A cadeira Brno

2 - A vista superior da cadeira insere-se num quadrado.

3 - A vista frontal insere-se num rectângulo áureo.

4 – A vista lateral insere-se num rectângulo áureo. Os ângulos das pernas da frente e do encosto da cadeira são simétricos. Os raios das curvas estão na proporção de 1:3.



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fig. 288 – Mies van der Rohe, interior da casa Tugendhat. 1930.



Uma conhecida fotografia de Mies van der Rohe sentado na cadeira Brno.


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fig. 289 – Mies van der Rohe na cadeira Brno.



5 - A cadeira de braços 41 de Alvar Aalto (1898-1976) e Aino Aalto (1894-1949), 1932.



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fig. 290 - Alvar Aalto, Cadeira 41 Paimio. 1932. Madeira de bétula 64 x 60 x 80 cm.



A cadeira 41, ou poltrona Paimio como também é conhecida foi projetada para o Sanatório de Paimio projectado por Alvar Aalto entre 1929 e 1933. Esta cadeira tornou-se rapidamente conhecida pela simplicidade estrutural e pela técnica inovadora da utilização da madeira (bétula) que lhe confere simultâneamente uma extraordinária beleza e uma grande funcionalidade.

Projectada para os doentes com tuberculose, a quem o sanatório se destina, permite-lhes uma posição ideal para a respiração e as aberturas servem para ventilar as costas do paciente.



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fig. 291 - Alvar e Aino Aalto, Cadeira 41 Paimio. 1932. Madeira de bétula 64 x 60 x 80 cm.


Pela sua simplicidade e por não utilizar pregos ou parafusos é uma cadeira de grande durabilidade e practicamente não necessita de manutenção.



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fig. 292 - Alvar Aalto, esquema da Cadeira 41 Paimio. 1932. Madeira de bétula 64 x 60 x 80 cm.


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fig. 293 – Alvar Aalto, Sanatório de Paimio, 1932.



Com esta cadeira Aalto criou um dos móveis mais emblemáticos e cuja actualidade se mantém.



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fig. 294 - Alvar Aalto, a Cadeira 41 Paimio de 1932, fabricada pela Artek na actualidade.


6 – Álvaro Siza: Sobre a Dificuldade de Desenhar um Móvel.

O desenho de um móvel não pode ser senão definitivo.

Não há referências fixas de escala, de ambiente, de necessidade.

Existe o corpo, que se transforma tão lentamente que pode usar cadeira egípcia.

Despidos os objetos, existe a história de meia dúzia de formas.

A imaginação voa entre essas formas, a baixa altura, se descontarmos aprendizes impacientes.

É preciso saturar o desenho de íntima segurança, serenidade, alguma coisa do incompleto que é, alguma instabilidade para que algo receba do que o rodeia - assim se transformando.

Para que não se desfaça e nada desfaça, subitamente inundando o espaço, logo tornando ao anonimato.

O objeto perfeito será um espelho sem moldura nem lapidado - o fragmento de um espelho – poisado no chão ou encostado a um muro.

Nele um míope observa formas, sombras em movimento, reflexos de reflexos.

Assim se alimenta o desenho. [1]



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fig. 295 – Álvaro Siza, cadeirão contraplacado marítimo, braços em inox escovado e assento em pele 67 x 74 x 69 cm.


[1] Álvaro Siza, Sobre a dificuldade de desenhar um móvel in 01- Textos Álvaro Siza. Civilização Editora, rua Alberto Aires Gouveia, 27. Porto 2009. (pág.95).



51. para terminar ?



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fig. 296 - Le Corbusier (1887-1965), Don Quichotte, 1953 Lithographie en 2 passages de noirs d'intensités différentes Exécutée dans les Ateliers Mourlot d'après un dessin original de Le Corbusier
Dimensions : 41,3 m x 27,3 cm Editeur Le Corbusier, Paris Paris. Fondation Le Corbusier.


Este desenho acompanha uma carta que Le Corbusier escreveu em 6 de Outubro de 1953 data do seu 66º aniversário.

Le Corbusier enumera os três deveres do arquitecto.

Il faut se battre contre des moulins.

Il faut renverser Troie.

Il faut être cheval de fiacre, tous le jours. [1]


Il faut se battre contre des moulins.

Ou seja qual D. Quixote é necessário bater-se contra os moínhos, contra todas as ilusões que surgem no caminho do arquitecto e que o desviam desse obstinado rigor na procura da forma mais justa.


Il faut renverser Troie.

É necessário conquistar Troia, usando a astúcia para penetrar no seu interior e aí lutar contra os preconceitos, contra tudo aquilo que é dado como certo ou como definitivamente adquirido.

É necessário pa ciente e permanentemente desenhar e redesenhar tudo o que é artificial integrando-o no ambiente natural.


Il faut être cheval de fiacre, tous le jours.

Mas é necessário ser todos os dias cavalo de fiacre, ou seja como uma besta de carga ou um carregador de pianos, trabalhar com humildade e paciência, permanentemente, na procura das formas mais justas e mais humanas.


E por isso Álvaro Siza descreve o seu trabalho como  Pazienza, concentrazione e apertura. Apertura nel senso di capacità di rispondere ai bisogni del vivere dell’uomo, attraverso soluzioni funzionali e concrete. [2]

[Paciência, concentração e abertura. Abertura no sentido de capacidade de responder às necessidades do viver do homeme, através de soluções funcionais e concretas.]

Quando um arquitecto trabalha, todas as leituras, tudo o que viu, estão presentes, mas aquilo que produz é só seu. Até porque a Arquitectura não é a aplicação sistemática de referências mas algo muito mais complexo, uma convergência de interesses diferentes, de emoções e também de casualidades. Se confronto estes [os meus] primeiros trabalhos com a [minha] Arquitectura destes últimos anos, tenho vontade de subscrever de novo uma declaração de há vinte anos atrás: ‘Sou um conservador e não tenho uma vocação para a marginalidade. Não me agrada inventar a ruptura, nem tão pouco ignorá-la.’ Apercebo-me de que trabalhei sempre na continuidade, o que não quer dizer imobilismo. [3]

FIM?

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[1] Ver como Leonardo Benevolo, aprecia longamente esta carta de Le Corbusier em O Último Capítulo da Arquitectura Moderna, Edições 70, Lda. Lisboa 1985. (pág. 224 a 232).

[2] Álvaro Siza Entrevista a Giulia Mura, La sacralità dell’architettura. Conversazione con Álvaro Siza. 5 settembre 2015. Mostra d’Architettura MAXXI 2016-17.

[3] Álvaro Siza, Che cosa ho imparato dall''architettura? in Texto recolhido por Marco Mulazzani, da Conferência de Álvaro Siza nos 80 anos da Revista Casabella. 2009.