sexta-feira, 27 de março de 2026

Cidade que se estende e esconde junto ao rio até ao mar

 

Cidade que se estende e esconde junto ao rio até ao mar 

"As cidades, tal como os sonhos, são construídas de desejos e medos, mesmo que o fio condutor do seu discurso seja secreto, as suas regras absurdas, as suas perspectivas enganadoras, e tudo esconda algo mais.”  Italo Calvino [1]

Maria Helena Vieira da Silva (1908-1992, L’air du vent 1966. Óleo s/ tela 129 x 98,5 cm. Centro de Arte Moderna Gulbenkian.

Allegro
 

“Cidade de meu andar
(Deste já tão longo andar!)”

Mário Quintana [2]

cidade girassol ao sul e ao sol virada

em neblinas de saudade abandonada

 

cidade de suspiros e repouso da alma

secreto vento onde o tempo se acalma

 

casario colorido da cidade endoidecida

rio d’ouro morrendo na foz adormecida

 

granito calmo que se aviva pelo Outono

luz esquecida e apagada em abandono

 

 

II Adagio

 

Cidade estranha, sabes que existo?”

Pedro Homem de Mello [3]

 

 

cidade sombra de quem na luz se esconde?

nem rio mar rua beco margem me responde


todos os sonhos que guardaste na memoria

quais ficarão gravados na pedra da história?

 

cidade dorida ensanguentada e endurecida

porque morre essa ponte desusada atrevida?

 

louca cidade viva pujante inquieta glamorosa

e por vezes tão áspera seca rude caprichosa

 


III Andante

 “Casos, opiniões, natura e uso

fazem que nos pareça desta vida

que não há nela mais que o que parece.”

Camões [4]

 

com tanto alvoroço se saudaram as novidades

esquecendo o ritmo certo de quem faz cidades

 

para uma cidade antiga inquietante de frescura

procura onde se esconde a harmoniosa tecidura

 

por aqueles que em tantos e tantos longos anos

apenas souberam edificar tais e terríveis danos

 

ar sem o perfume de gaivotas sobre os penedos

sabereis agora o porquê da dor de tais segredos?

 

IV moderato

 “Nesse caminho duro

Do futuro

Dá-os em liberdade.

Enquanto não alcances

Não descanses.

De nenhum fruto queiras só metade.”

(...)

Miguel Torga [5]

tanto erro tanto desvio mutação tal mudança

o sem sentido de uma quase nula esperança

 

cidade onde há tantos rebeldes acomodados

o violento combate entre unidos e separados

 

muitas más intervenções nas tuas entranhas

realizando obras tão inúteis como estranhas

 

escondidas nas muitas neblinas sobre o rio

é uma cidade decadente imunda de arrepio

 

scherzo

 “na hora em que o sol cobre d’ouro o lúcido mar”

Émile Verhaeren [6]

 

cidade onde o fantástico sol se adormece

pelo peso da água que no rio se esvanece

 

lugar de camélias com um aroma estranho

gritando pela cidade venturosa de antanho

 

e se por bem ou se por mal ao fazer cidade

que se esboce aquela de sonho e claridade

 

condenados à cidade em que onde andamos

procuramos sempre o sentir do que achamos

 

VI largo

"E por vezes volta

na calma imóvel do dia a recordação

daquele viver absorto, na espantosa luz."

Cesare Pavese [7]

 

 

coisas novas que se vão vendo no dia-a-dia

breves triunfos reluzentes de flores e alegria

 

aquele muito suave vapor em que se respira

é um desusado e breve furor que nos inspira

                                  

entre essas colinas de rochedos e pinheiros

escorriam águas claras e limpas dos ribeiros

 

solta-se uma eloquente torrente das molduras 

e constrói-se um lugar feliz de lívidas ternuras

 

 VII vivace

 

 “Uma cidade amadurece nas vertentes do crepúsculo”

António Ramos Rosa [8]

 

cidade onde mesmo em condição assim dura

nasce sempre a aspereza incerta da aventura

 

assim com um Porto mais claro mais formoso

olharemos um Douro que ainda corre gracioso

 

tendo nas mãos a memória que insisto recordar

é a cidade onde apreendi este ofício de habitar

 

esta cidade de vinho tecida, mas sem ter vinha

difícil, estranha, ingrata cidade, mas terra minha!

 

 



[1] Le città come i sogni sono costruite di desideri e di paure, anche se il filo del loro discorso è segreto, le loro regole assurde,

 le prospettive ingannevoli, e ogni cosa ne nasconde un’altra. Italo Calvino (1923-1985), Le città e gli scambi III in Le Cittè Invisibile. Einaudi Torino 1972. (pág. 20).

[2] Mário Quintana (1906-1994), de Apontamentos de História Sobrenatural (1976) in Poesia completa. Organização, preparação do texto, prefácio e notas: Tania Franco Carvalhal. Editora Nova Aguilar S. A.  Rio de Janeiro 2006.  (pág. 454).

[3] Pedro Homem de Mello (1904-1984), Divórcio in Grande, Grande Era a Cidade. Lello & Irmão Porto 1955.

[4] Luís de Camões Soneto CXVIII in Obras de Luís de Camões Lello & Irmão Editores. Porto 1970. (pág. 63).

[5] Miguel Torga, Sisifo. in Diário: Vols. XIII a XVI D. Quixote (Grupo Leya). Lisboa 1999. (pág. 20).

[6] A l'heure où le soleil dore la mer lucide, Émile Verhaeren (1855-1916), Les Souffrances in La Multiple Splendeur, poèmes, quatrième edition, Société dv Mercure de France, XXVI, Rve du Condé XXVI, Paris MCMVII. (pág.144).

[7] Talvolta ritorna  / nell'immobile calma del giorno il ricordo / di quel vivere assorto, nella luce stupita.Cesare Pavese (1908-1950), La Notte (1938) in Lavorare stanca. 1955 Giulio Einaudi Milano. (pág. 29).

[8] António Ramos Rosa (1924-2013) A noite chega com todos os seus rebanhos in A Rosa Esquerda (1991). Assírio & Alvim Porto Editora Tomo II. Porto 2020. (pág.343).

 

terça-feira, 17 de março de 2026

O edifício com rosto humano

 

O edifício com rosto humano

As fachadas das casas com um rosto humano são um exemplo perfeito do que se designa por pareidolia, já que elas possuem um conjunto de elementos que o nosso cérebro associa a características faciais humanas.

O rosto no pavilhão Carlos Ramos da Faup

“El ojo que ves no es

Ojo porque lo veas;

Es ojo porque te ve.”

Antonio Machado [1]


 


fig. 1 –Álvaro Siza, Pavilhão Carlos Ramos1986. FAUP. Foto Nelson Garrido.

Quando o Curso de Arquitectura se instalou como Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto (criada em 1979), e ocupou no Campo Alegre [2] a Casa Cor-de-rosa (Casa da Quinta da Póvoa), então adaptada e recuperada por Álvaro Siza logo se tornou evidente a necessidade de novas instalações.

Assim, numa primeira fase das novas instalações, foi construído o Pavilhão Carlos Ramos (1985/86), destinado a ampliar as salas que as aulas de projecto requeriam.


Quem então se dirigia à faculdade, o único acesso era pelo portão da quinta, e ao fundo do jardim, surgia o pavilhão Carlos Ramos.

fig. 2 – Álvaro Siza, alçado sul do pavilhão Carlos Ramos. Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto.

Assim, os que entravam na (ou para) a Faculdade de Arquitectura, o primeiro olhar, o primeiro contacto com a Arquitectura, era o rosto sorridente e acolhedor do braço poente da fachada sul do pavilhão Carlos Ramos.



fig. 3 – Álvaro Siza, Pavilhão Carlos Ramos. Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto.

Lembre-se que, para as gerações de estudantes de arquitectura que durante décadas entraram para a Escola de Belas Artes do Porto, dirigida por Mestre Carlos Ramos, a primeira imagem da Arquitectura que os recebia, era a escultura de Álvaro de Brée (1903-1962), colocada no jardim da entrada [3], que tinha sido realizada para o incontornável Congresso de Arquitectura de 1948.

 


fig. 4 - Álvaro de Brée (1903-1962) – Arquitectura (I Congresso de Arquitectura 1948) Jardins da Escola Superior de Belas Artes do Porto (FBAUP).


A Arquitectura, hirta, sóbria com uma túnica cintada e de sandálias, segurava na mão esquerda o esquadro e o compasso e na direita uma maqueta de um edifício de um neo-neo-clássico dos anos 40.

 


fig. 5 - Escola de Belas Artes do Porto anos 50. A estátua da Arquitectura de Álvaro de Brée 1948. Pavilhão de Tecnologias (Desenho)1950. Arq. Manuel Lima Fernandes de Sá (1903-1980).


fig. 6 - Escola de Belas Artes do Porto anos 60. A estátua da Arquitectura no Pavilhão de Exposições junto ao Pavilhão de Arquitectura. Junto ao lago a escultura “repouso” 1961 de Gustavo Bastos (1928-2014). In Gonçalo Canto Moniz, O Ensino Moderno da Arquitectura. A Formação do Arquitecto nas Escolas de Belas-Artes em Portugal (1931-1969)

Na entrada do Pavilhão de Arquitectura, também o fresco Prometheu de 1954 pintado por Dordio Gomes (1890-1976).

 

 

fig. 7 - Dordio Gomes, Estudo para o Prometheu aguarela sobre pape l 64 x 49cm. Col. Particular

Os etimologistas referem que o nome Prometheu a figura mitológica é considerada como o titã que deu aos homens o fogo que havia roubado a Zeus, significa pré-aprendizagem ou previsão, o que seria adequado a um pavilhão onde se desenhavam projectos de arquitectura na Escola de Belas Artes.

 

A face house de Kazumasa Yamashita

«Ma maison me regarde et ne me connaît plus.»

Victor Hugo [4]

 

Das inúmeras casas em cuja fachada se pode ver um rosto humano, aquela cuja imagem é mais difundida, é a “Face House” em Kioto no Japão.

Projectada em 1973 pelo arquiteto Kazumasa Yamashita (1937), e construída no ano seguinte, a "Face House", tornou-se conhecida pela publicação em 1977, de “The Language of Post-Modern Architecture” [5] pelo arquitecto e crítico Charles Jencks (1939-2019), quando se discutia a possibilidade de ultrapassar o Movimento Moderno por novos conceitos de uma Arquitectura Pós-Moderna mais adequada a uma sociedade que se considerava pós industrial.



fig. 8 – Kamzumasa Yamashita, face House Kioto 1974. In Charles Jencks, Le Langage de L’Architecture Post-Moderne, (pág.116).


No seu livro Charles Jencks afirma sobre a Face House, que o arquitecto “levou essa tendência antropomórfica ao seu limite e à sua conclusão lógica e absurda” e que “a sua Face-House, com os seus olhos redondos e o nariz em forma de cano de espingarda, franze as sobrancelhas, grita e, por fim, engole o ocupante.” [6]

A Casa chama-se assim, porque os atributos zoomórficos da fachada são evidentes: as janelas são os olhos, o nariz do rosto é uma clarabóia e a entrada da casa é uma boca cheia de dentes.



fig. 9 - Kazumasa Yamashita (1937-), Face House, Élévations des façades este et sud, 13 septembre 1973. Centre Pompidou Paris.

 

 

fig. 10 - Kazumasa Yamashita, Face House in Architectural Review n.º 946, Dec.1974.

 

Inserida no caótico tecido urbano de Kioto, a casa coloca a questão: poderão estes projectos de  criar um edifício ou uma casa com estas características, contribuir para a humanização de um espaço ou de um ambiente inóspito ou caótico?

 

A casa com rosto humano servindo a religião

Mas a casa de rosto humano é uma imagem simbólica, muito mais antiga e aparece associada a Santo Agostinho pela frase “os olhos são as janelas da alma”.

O edifício de rosto humano é sobretudo uma alegoria à morte, que entra pelos olhos as janelas da casa.

Giuseppe Arcimboldo desenhou no século XVI, uma alegoria à morte, como uma arquitectura com rosto humano. Os olhos são as janelas, uma varanda a orelha, o nariz um alpendre sobre a entrada que é a boca com os degraus semelhantes a uma língua. A cobertura em cúpula com ameias, formam um barrete.  Na imagem de Arcimboldo a morte é representada pela personagem que, subindo uma escada, entra por uma janela.



fig. 11 - Giuseppe Arcimboldo (1527–1593),Alegoria da morte. Pena, tinta castanhae lavissobre traços de lápis.,17,5 x 13,3 cm. Gabinetto dei disegni e delle stampe degli Uffizi. Firenza. E Capa de Heinrich Wölfflin (1864-1945), Prolegomenon to a Psychology of Architecture (1886). Translated by Michael Selzer KeepAhead Books Colorado Springs, 2017.

 

O desenho de Theodor Galle (1671-1733)

Para ilustrar o livro Verdicus christianus [O Verdadeiro Cristão] do jesuíta Jan David (1545?-1613) publicado em 1601,Theodor Galle (1671-1733) criou um conjunto de 100 gravuras, correspondendo a cada um dos capítulos.

A estampa n.º 66 “Aspectus incauti dispendium”, [A aparência descuidada é um desperdício], mostra uma casa simbolicamente transformada em cabeça humana.

O telhado de colmo faz o cabelo; as janelas superiores são os olhos; uma abertura central faz o nariz (com um bigode) e a porta aberta é a boca.

Os arbustos que rodeiam o edifício lembram as golas da época.

 


 

fig. 12 - Theodor Galle (1671-1733), Aspectus incauti dispendium, estampa 66 pag. 218ª, Cap. LXVI in Jan David, Sacerdote Societatis IESV. Antverplae Ex oficina Plantiniana Apvd Ioannem Moretvm. M. DCI. Biblioteca da Bélgica.


E a imagem tem na parte inferior uma legenda em latim, holandês e francês,

que recomenda não deixar os sentidos abertos para a tentação, pois a casa pode ser invadida pela morte por uma escada.

Em latim:

“Quid, qui emissitios nusquam non iactat ocellos?

Hoc agit, vt pandas mors inuolet atra fenestras.” [7]

E em francês

Qui laisse s’esbatre / Sa veue folatre / Quel malheur l’attend? / La mort aeternelle / Par ces trous eschelle / L’ame, et la surprend » [8]

 “A morte entra pelas janelas dos olhos” escreve Jan David e por isso, por uma das janelas/olho entra um esqueleto (C) subindo uma escada. (fig.13).

 E na gravura alguns exemplos de quem cedeu à tentação do olhar:

. com a letra A, Eva com a maçã na mão esquerda e a mão direita junto ao olho;

. com a letra B a mulher de Lot, as mãos tapando os olhos e que será transformada em sal por ter olhado para a destruição de Sodoma e Gomorra;




.e com a letra E o rei David numa varanda olhando e cobiçando Betsabá no banho.


fig. 13 - Theodor Galle (1671-1733), Aspectus incauti dispendium, estampa 66 pag. 218ª, Cap. LXVI in Jan David, Sacerdote Societatis IESV. Antverplae Ex oficina Plantiniana Apvd Ioannem Moretvm. M. DCI. Biblioteca da Bélgica.


O padre jesuíta Jan David procurava, através desta imagem, sublinhar nas mentes do público, aquele princípio da vida cristã, que recomenda não abrir os sentidos abertos à tentação, mostrando como o olhar pode conduzir à tentação, provocando a morte a invadir a alma, pelas janelas que são os olhos.

 

 

 

 



[1] Antonio Machado (1875-1939), (Antonio Cipriano José María y Francisco de Santa Ana Machado Ruiz), Proverbios y Cantares CLXI 1(Nuevas Canciones, Editorial Mundo Latino 1930) .in Antonio Machado Poesias Completas. Prólogo de Manuel Alvar. Espasa-Calpe, S. A. Madrid 1975. (pág, 268).

[2] Esse Campo Alegre que em 1934 Francisco Pereira de Sequeira (1893-1952) visionava que “nas longas e românticas estradas de há um século, erguer-se-ão edificações modernas e ele­gantes com as suas pérgolas, bairros ope­rários cheios de luz e de higiene.”

[3] Primeiro no pavilhão de Tecnologias Arq. Manuel Lima Fernandes de Sá. e de seguida no pavilhão de Exposições 1954. Arqu. Manuel Lima Fernandes de Sá com a colaboração de Alfredo Leal Machado (1904-1954).

[4] A minha casa observa-me e já não me conhece”. Victor Hugo (1802-1885), poème XXXIV La Tristesse d’Olympia in Les Rayons et les Ombres. Chez les principaux libraires et chez Ch. Gruaz. imp.- éditeur. Genève, 1840. (pág. 131). Gallica BnF.

[5] Versão em francês, Charles Jencks, Le Langage de L’Architecture Post-Moderne, Academy Editions-Denöel, London 1979.

[6] O arquitecto “a poussé cette tendance anthropomorphique jusqu’à son point d’aboutissement logique et absurde.” “sa maison-visage avec ses yeux ronds et son nez en canon de fusil, fonce les sourcils, hurle et en définitive avale l’occupant. »  Charles Jencks, Le Langage de L’Architecture Post-Moderne, Academy Editions-Denöel, London 1979. (pág.116).

[7] Quem nunca arranca os seus próprios olhos? / É isso que faz com que a morte se pareça com as janelas negras.

[8] Quem deixa vaguear  / o seu olhar malicioso?  / Que infortúnio o espera? // A morte eterna, / por estes buracos, penetra / na alma e surpreende-a.