quarta-feira, 23 de setembro de 2026

outono

 

Apressado poema no início do Outono

“Outono

Enche com a tua presença êste ar lavado,

Ar de outono que tem

Como um encanto vago de saüdade ...

Armando Côrtes-Rodrigues  [1]


“A sombra casa os sons numa grave harmonia

E tamanha esperança e uma tão grande paz

Avultam do clarão que cinge a serrania,

Como se houvesse aurora e o mar cantando atrás.”

Manuel Bandeira [2]

 


Gaetano Ligrani (Gali) (n.1945), Outono em casa, 2020. Acrilico s/tela 63 x 83 cm, Col. do autor

 

Poema da terra em frutos sumarentos

um canto luminoso da palavra melodia

poeiras amarelas perdidas no dourado

quando pelo Outono se refaz a poesia


Enternecido entre árvores mar poentes

endiabrado Baco misturou no seu lagar

para que sejamos todos mais contentes

quatro doses de fogo e água e terra e ar

 

Esse mosto fermento rubro nos lagares

labores de outono encanto de vindimas

resume o que aí vivi com meus vagares

 

Escondida sombra de todo o abandono

assim adormeço neste dia sem ter sono

sopro cansado e sono suave no outono

 

 

 



[1] Armando Côrtes-Rodrigues (1891-1971), Outono in Atlântico revista Luso-Brasileira n.º 3 Lisboa 15 de Março 1943. (pág. 98).

[2] Manuel Bandeira (1886 - 1968), Crepúsculo de outono de A Cinza das Horas (1917) in Obras Poéticas, Editorial Minerva. Lisboa 1956. (pág. 45).

 

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

poema

 

Soneto ao vinho em tempo de vindima

 



Giorgio Morandi (1890-1964) Natureza morta 1946, óleo s/tela 37,5 x 45,7 cm. Tate Modern, Londres.

 

 

“O vinho, meu amigo, deve ser a veneração de todos, e de tudo.

 He a muleta dos velhos, a vengála dos moços, o apisto dos enfermos,

as cocegas dos tristes, a gaita dos alegres, a esmóla dos pobres

He o melaço dos marotos, o cacimbo dos pretos, e o chocolate dos lacayos.

He o mimo das Damas, o beijo das Freiras, a mecha das moças, o borralho dos velhos...”

Frei Lucas de Santa Catarina [1]

 

“Vino, enseñame el arte de ver mi propia historia,

como si esta ya fuera ceniza en la memoria.”

Jorge Luis Borges [2]

 

“Amo sobre una mesa,
cuando se habla,
la luz de una botella
de inteligente vino.”

Pablo Neruda [3]

 

 

Vinho que nos ensina a arte de viver

e alegre nos funde a ânsia do tempo

no sem querer e no quase sem saber

a ilusão de todo o ritmo do momento

 

quanto mais se bebe menos se teme

vinho pisado pés que esmagam mosto

vozes alegres que no vinho, se desata

vida no vinho ganhando um fino gosto

 

beber por contínuas e elegantes taças

buscando a lucidez onde nos revemos

sepultando as tristezas e as desgraças

 

esse glamoroso encanto essa harmonia

só por falta nossa primeira e derradeira

fez esquecer o bom que no vinho havia



[1] Frei Lucas de Santa Catarina (1660-1740), Carta A hum amigo, que lhe mandou hua botelha de vinho. In Anatomico jocoso, que em diversas operaçoens manifesta a ruindade do corpo humano, para emenda do vicioso... / pelo Padre Fr. Francisco Rey de Abreu Matta Zeferino. Tomo II. Na officina do Doutor Manoel Alvarez Solano Lisboa Anno MDCC LV (pág. 327). Biblioteca Nacional.

[2] Jorge Luis Borges (1899-1986), Soneto al Vino in Obras Completas 1923-1972. Emecé Editores. Buenos Aires 1974. (pág. 919).

[3] Pablo Neruda (1904-1973). Oda al vino de Odas elementales (1954). In Trilogía «Odas elementales» - 01 ePub r1.2 Titivillus 16.11.15 ebookelo.com (pág. 231 a 233).

 

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

Poema do Arquitecto 15

 

luz que abre a matéria escura

Álvaro Siza, Carlos Castanheira, Art Pavilion in Say Park 2018. Coreia do Sul. Fotografia de Fernando Guerra.


“Cada vão fechado, cada local coberto,
qualquer que seja o material que o limite,
se mantem a noite, enquanto o dia vive,
contraria o sol e o seu luminoso apetite.”  
Michelangelo di Lodovico Buonarroti [1]

“El sol no supo de su grandeza hasta que incidió sobre la cara de un edificio.” Louis Khan [2]

“O quanto perco em luz conquisto em sombra / e é de recusa ao sol que me sustento.” Carlos Pena Filho [3]

« L'architecture est le jeu savant, correct et magnifique des volumes assemblés sous la lumière. » Le Corbusier [4]


 Iluminante iluminada e luminosa

“luz e sombra, o muro e o espaço” [5]

a luz que cai a pique como chuva

perdida pelo mundo n’um abraço

 

luz com sua sombra e penumbra

ora tímida ora feroz pelo cinzento

escava na matéria abrindo poças

radiante de frescura e movimento

 

luz inquieta clara límpida e segura

escorrendo sombras mansamente

luz eterna amante na noite escura


mistério claro e luz de pedra dura

harmonia oblíqua gritando pelo ar

matéria cinzel a fazer arquitectura



[1] Michelangelo di Lodovico Buonarroti (1475-1564),

“Ogni van chiuso, ogni coperto loco,
quantunche ogni materia circumscrive,
serba la notte, quando il giorno vive,
contro al solar suo luminoso gioco.”  
de Rime 1623 in Le Rime di Michelangelo Buonarroti, pittore, scultore, architetto e poeta Fiorentino. Testo di Lingua Italiana 1817. (pág. 249).

[2] Louis Isidore Kahn (1901-1974). Conferencia: “La materia es luz consumida“ in Alessandra Latour, Louis. I. Kahn: escritos, conferencias y entrevistas. El Croquis Editorial, Madrid 2003. (pág. 197)

[3] Carlos Pena Filho (1929-1960), Soneto in Livro Geral. Livraria São José 1959. Livro Geral Poemas (Organização de Tânia Carneiro Leão) Edição da Organizadora, Recife, 1999 2ª edição (pág.63).

[4] Le Corbusier (1887-1965), in Vers une architecture. (1923). Nouvelle édition revue et augmentée, Les Éditions G. Crès et Cie. Paris 1924. (pág.16).

[5] Le Corbusier, “lumière et l’ombre, le mur et l’espace.” in Vers une Architecture (1923). Nouvelle édition revue et augmentée, Les Éditions G. Crès et Cie. Paris 1924. (pág.143).

quarta-feira, 9 de setembro de 2026

soneto urbano

 

Para onde caminham as cidades?



Geoffrey Johnson (n.1965), Study –Figures IX” 72 14 x 11, oil on board. Col. Particular.

 

 “jà os soberbos edifícios deixarão poucas terras

para lavrar ao arado de hua, & outra parte

mais largamente serão vistos.”

Horacio [1]

 

ESVAZIAMENTO

“Cidade grande: dias sem pássaros, noites sem estrelas.”

Mario Quintana [2]

 

“Asfaltos. Vastos, altos repuxos de poeira

Sob o arlequinal do céu ouro-rosa-verde...

As sujidades implexas do urbanismo. (...)”

Mário Andrade [3]

 

Na súbita inquietação no olhar do longe ausente

multidões de apressados pensativos e cinzentos

navegam por onde voa aquela poeira muda e suja

espera dos momentos tristes em cansaços lentos

 

navegam para o além do seguro que não alcança

irrompendo os círculos perfeitos do dia e do ano

enfunada violência da cidade em tristeza branca 

uma sorte com que se desengana todo o engano

 

com as novas coisas que aparecem em cada dia

esta a cidade que diferente está como hoje a vês

cantando triunfos com luzentes flores de alegria

 

tem formas banais em gestos ousados atrevidos

essas novidades que com alvoroço se saudaram

são os falsos ideais e mundos para ela vendidos

 



[1] “Iam pauca aratro iugera regiae.../ holes relinquent ; undique latius “ Horácio Ode XV ao luxo do seu século Liber II “Iam pauca aratro iugera regiae.../ holes relinquent ; undique latius in Obras de Horacio Prnicipe dos Poetas Latino Lyricos, com o entendimento literal, & construção Portuguesa, Ornadas de Hvm Index Copioso das historias, & Fabulas contendo nellas. Na Officina de Miguel Manescal, & à sua custa Lisboa M.DC.LXXXI (pág.54). Biblioteca Nacional.

José Agostinho de Macedo (1761-1831), traduz estes versos de Horacio por: “Os Palácios Reaes já deixão poucas / geiras de terra ao Lavrador cançado…”  In Obras de Horacio traduzidas por José Agostinho de Macedo (1761-1831). Tomo I. Liber II Na Impressão Regia Lisboa Anno 1806 (pág. 80).

[2] Mário Quintana (1906-1994) Esvaziamento in Poesia completa Organização, preparação do texto, prefácio e notas: Tania Franco Carvalhal Editora Nova Aguilar Rio de Janeiro 2006. (pág. 238).

[3] Mário Andrade (1893-1945), O Domador de Paulicéia Desvairada (1922) in Poesias Completas edição crítica de Diléo Zanotto Manfio Editora da Universidade de São Paulo Editora Itatiaia Belo Horizonte1987. (pág. 92).

 

 

 

 


quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Soneto à cidade onde ora habito


 


António Neves (Ílhavo 1963) Moliceiros na Ria Aguarela “3” 37 x 102 cm. https://www.antonioneves.pt/aguarelas.html.


“(…) a ria dá-lhes a humidade durante todo o ano, e com a brisa do mar refresca durante o estio as plantas e os sêres. Uma atmosfera de humidade constante envolve a paisagem como um hálito.” Raul Brandão [1]

“A luz aqui estremece antes de pousar…” Raul Brandão [2]

«Morro de Amor pelas águas da Ria
Esta espuma de dor, eu não sabia
sou moliceiro do teu lodo fecundo
Sou a Ria de Aveiro, o Sal do mundo
Vara comprida, tamanho da vida
Braço de mar, a lavrar, a lavrar…
Morro de Amor nesta rede que teço
e é no Sal do Suor que eu aconteço.
Para além da Salina, o horizonte me ensina
que há muito Mar, para lavrar, para lavrar… .» 
José Carlos Ary dos Santos [3]


Que acaso me trouxe a esta terra onde habito?

paisagem onde nascem sombras e movimento

cidade à procura de espaço e desenho na vida

pinheiros ocasos o sossego no aroma do vento

 

tempo e espaço de que nos fomos esquecendo

procura da lucidez nos ares dum olhar profundo

o longo e confuso tempo onde outrora vivemos

nas muralhas longas que escorrem pelo mundo

 

tranquilidade em busca do que souber esquecer

caminho tocado no exilado vento sopro da tarde

luminosidade até aos limites do meu próprio ser

 

da ria onde gaivota impávida aqui vem desaguar

mar convulso sem praia sem fundo de sol a pino

estranhos brilhos ardentes que se sentem no ar

 

 



[1] Raul Brandão A Ria de Aveiro in Os Pescadores Livrarias Aillaud & Bertrand Paris Lisboa 1923. (pág. 87).

[2] Raul Brandão A Ria de Aveiro in Os Pescadores Livrarias Aillaud & Bertrand Paris Lisboa 1923. (pág. 89).

[3] José Carlos Ary dos Santos (1936-1984), Carlos Paredes (1925-2004), Carlos do Carmo (1939-2021). Fado Moliceiro do álbum Um Homem no País (1983).

quinta-feira, 27 de agosto de 2026

Soneto à cidade onde nasci


“Uma cidade de pedra e de água, de rumores
verticais, de ténues transparências,
que sede a surpreende inicial,
quem abraça no voo de um nascimento? (...)

Todas as superfícies oscilam à claridade do vento.”

António Ramos Rosa [1]

“Soy un pueblero y ya no sé de esas cosas,

soy hombre de ciudad, de barrio, de calle:

los tranvías lejanos me ayudan la tristeza

con esa queja larga qué sueltan en las tardes.”

Jorge Luis Borges [2]

“Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
É como que um terraço
Sobre outra coisa ainda.” 

Fernando Pessoa [3]



Nils af Ström (1903-1971), Paisagem (Ribeira do Porto) 1952. óleo s/ tela 49 x 60 cm.Col. particular.

 

porque revejo procuro nunca encontro

onde falece o pujante canto o meio-dia

pelas ruas praças e avenidas da cidade

já não ecoam canções que então ouvia

 

erro e defeito eu nunca soube corrigir 

a pedra adormecida em tempo agreste

caindo em mim nunca busco discernir

em que espelho a melancolia se veste

 

estéril vão segredo rachado pelo vento

lamentoso devaneio de alma peregrina

ondulação morta pelo caudal do tempo

 

longo rio de tristeza na distância perdida

ressoam ecos e fadiga na cor clandestina

serão como fragmentos acasos desta vida

 

 



[1] António Ramos Rosa, A Cidade que Habito de No calcanhar do vento (1987), in Obra Poética I. Assírio & Alvim- Porto editora. Porto 2018. (pág. 1164).

[2] Jorge Luis Borges (1899-1986), Dulcía Linquimus Arva* in Obras completas. Emecê Editoras Buenos Aires 1974.  (pág.68 e 69). *"abandonamos os nossos doces campos". P. Virgilli Maronis (Virgílio) Égloga I, 3, de Bucolica.

[3] Fernando Pessoa (1888-1935), Isto. In Obra Poética. Organização, introdução e notas de Maria Aliete Galhoz (1929-2020). Companhia Aguilar Editora Rio de Janeiro 1965. (pág.165).