O edifício com rosto humano
As fachadas das casas com um rosto humano são um exemplo perfeito do que se designa por pareidolia, já que elas possuem um conjunto de elementos que o nosso cérebro associa a características faciais humanas.
O rosto no pavilhão Carlos Ramos da Faup
“El ojo que ves no es
Ojo porque lo veas;
Es ojo porque te ve.”
Antonio Machado [1]
fig. 1 –Álvaro Siza, Pavilhão Carlos Ramos1986. FAUP. Foto Nelson Garrido.
Quando
o Curso de Arquitectura se instalou como Faculdade de Arquitectura da
Universidade do Porto (criada em 1979), e ocupou no Campo Alegre [2] a Casa Cor-de-rosa (Casa da
Quinta da Póvoa), então adaptada e recuperada por Álvaro Siza logo se tornou
evidente a necessidade de novas instalações.
Assim, numa primeira fase das novas instalações, foi construído o Pavilhão Carlos Ramos (1985/86), destinado a ampliar as salas que as aulas de projecto requeriam.
fig. 2 – Álvaro Siza, alçado sul do pavilhão Carlos Ramos. Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto.
Assim,
os que entravam na (ou para) a Faculdade de Arquitectura, o primeiro olhar, o
primeiro contacto com a Arquitectura, era o rosto sorridente e acolhedor do
braço poente da fachada sul do pavilhão Carlos Ramos.
fig. 3 – Álvaro Siza, Pavilhão Carlos Ramos. Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto.
Lembre-se que, para as gerações de estudantes de arquitectura que durante décadas entraram para a Escola de Belas Artes do Porto, dirigida por Mestre Carlos Ramos, a primeira imagem da Arquitectura que os recebia, era a escultura de Álvaro de Brée (1903-1962), colocada no jardim da entrada [3], que tinha sido realizada para o incontornável Congresso de Arquitectura de 1948.
fig. 4 - Álvaro de Brée (1903-1962) – Arquitectura (I Congresso de Arquitectura 1948) Jardins da Escola Superior de Belas Artes do Porto (FBAUP).
A
Arquitectura, hirta, sóbria com uma túnica cintada e de sandálias, segurava na
mão esquerda o esquadro e o compasso e na direita uma maqueta de um edifício de
um neo-neo-clássico dos anos 40.
fig. 5 - Escola de Belas
Artes do Porto anos 50. A estátua da Arquitectura de Álvaro de Brée 1948.
Pavilhão de Tecnologias (Desenho)1950. Arq. Manuel Lima Fernandes de Sá (1903-1980).
fig. 6 - Escola
de Belas Artes do Porto anos 60. A estátua da Arquitectura no Pavilhão de
Exposições junto ao Pavilhão de Arquitectura. Junto ao lago a escultura “repouso” 1961 de Gustavo Bastos
(1928-2014). In Gonçalo Canto Moniz, O Ensino Moderno da Arquitectura. A Formação do Arquitecto nas Escolas de Belas-Artes em Portugal
(1931-1969)
Na entrada do Pavilhão de Arquitectura, também o
fresco Prometheu de 1954 pintado por
Dordio Gomes (1890-1976).
fig. 7 - Dordio Gomes, Estudo para o Prometheu aguarela sobre pape l 64 x 49cm. Col. Particular
Os etimologistas referem que o nome Prometheu a figura mitológica é considerada como o titã que deu aos
homens o fogo que havia roubado a Zeus, significa pré-aprendizagem ou previsão,
o que seria adequado a um pavilhão onde se desenhavam projectos de arquitectura
na Escola de Belas Artes.
A face house de Kazumasa Yamashita
«Ma
maison me regarde et ne me connaît plus.»
Victor Hugo [4]
Das
inúmeras casas em cuja fachada se pode ver um rosto humano, aquela cuja imagem
é mais difundida, é a “Face House” em Kioto no Japão.
Projectada em 1973 pelo arquiteto
Kazumasa Yamashita (1937), e construída no ano seguinte, a "Face House", tornou-se conhecida pela publicação em 1977, de “The Language of
Post-Modern Architecture” [5] pelo arquitecto e crítico Charles
Jencks (1939-2019), quando se discutia a possibilidade de ultrapassar o
Movimento Moderno por novos conceitos de uma Arquitectura Pós-Moderna mais
adequada a uma sociedade que se considerava pós industrial.
fig. 8 – Kamzumasa Yamashita, face House Kioto 1974. In Charles Jencks, Le Langage de L’Architecture Post-Moderne, (pág.116).
No seu livro Charles Jencks afirma sobre a Face
House, que o arquitecto “levou essa tendência antropomórfica ao seu
limite e à sua conclusão lógica e absurda” e que “a sua Face-House, com os seus
olhos redondos e o nariz em forma de cano de espingarda, franze as
sobrancelhas, grita e, por fim, engole o ocupante.” [6]
A Casa chama-se assim, porque os atributos zoomórficos da fachada são evidentes: as janelas são os olhos, o nariz do rosto é uma clarabóia e a entrada da casa é uma boca cheia de dentes.
fig. 9 - Kazumasa Yamashita (1937-),
Face House, Élévations des façades este et sud, 13 septembre 1973. Centre Pompidou Paris.
fig. 10 - Kazumasa Yamashita, Face House in Architectural Review
n.º 946, Dec.1974.
Inserida
no caótico tecido urbano de Kioto, a casa coloca a questão: poderão estes
projectos de criar um edifício ou uma casa
com estas características, contribuir para a humanização de um espaço ou de um
ambiente inóspito ou caótico?
A casa com rosto humano servindo a religião
Mas a casa de rosto humano é uma imagem simbólica, muito
mais antiga e aparece associada a Santo Agostinho pela
frase “os olhos são as janelas da alma”.
O edifício de rosto humano é sobretudo uma alegoria à morte, que entra pelos olhos as janelas da casa.
Giuseppe
Arcimboldo desenhou no século XVI, uma alegoria à morte, como uma arquitectura
com rosto humano. Os olhos são as janelas, uma varanda a orelha, o nariz um
alpendre sobre a entrada que é a boca com os degraus semelhantes a uma língua.
A cobertura em cúpula com ameias, formam um barrete. Na imagem de Arcimboldo a morte é
representada pela personagem que, subindo uma escada, entra por uma janela.
fig. 11 -
Giuseppe Arcimboldo (1527–1593),Alegoria da morte. Pena, tinta castanhae lavissobre
traços de lápis.,17,5 x 13,3 cm. Gabinetto dei disegni e delle stampe degli
Uffizi. Firenza. E Capa de Heinrich Wölfflin (1864-1945), Prolegomenon to a
Psychology of Architecture (1886). Translated by Michael Selzer KeepAhead Books Colorado
Springs, 2017.
O desenho de Theodor Galle (1671-1733)
Para ilustrar o livro Verdicus christianus [O Verdadeiro Cristão] do jesuíta Jan David (1545?-1613) publicado em 1601,Theodor Galle
(1671-1733) criou um conjunto de 100 gravuras, correspondendo a cada um dos
capítulos.
A estampa n.º 66 “Aspectus incauti dispendium”,
[A aparência descuidada
é um desperdício], mostra uma casa simbolicamente transformada em cabeça
humana.
O
telhado de colmo faz o cabelo; as janelas superiores são os olhos; uma abertura
central faz o nariz (com um bigode) e a porta aberta é a boca.
Os
arbustos que rodeiam o edifício lembram as golas da época.
fig. 12 - Theodor Galle (1671-1733), Aspectus incauti dispendium, estampa 66 pag. 218ª, Cap. LXVI in Jan David, Sacerdote Societatis IESV. Antverplae Ex oficina Plantiniana Apvd Ioannem Moretvm. M. DCI. Biblioteca da Bélgica.
E a imagem tem na parte
inferior uma legenda em latim, holandês e francês,
que recomenda não deixar os
sentidos abertos para a tentação, pois a casa pode ser invadida pela morte por
uma escada.
Em latim:
“Quid, qui emissitios
nusquam non iactat ocellos?
Hoc agit, vt pandas mors inuolet atra
fenestras.” [7]
E em
francês
“Qui laisse s’esbatre / Sa veue folatre / Quel
malheur l’attend? / La mort aeternelle / Par ces trous eschelle / L’ame, et la
surprend » [8]
. com
a letra A, Eva com a maçã na mão esquerda e a mão direita junto ao olho;
. com
a letra B a mulher de Lot, as mãos tapando os olhos e que será transformada em
sal por ter olhado para a destruição de Sodoma e Gomorra;
fig. 13 - Theodor Galle (1671-1733), Aspectus incauti dispendium, estampa 66 pag. 218ª, Cap. LXVI in Jan David, Sacerdote Societatis IESV. Antverplae Ex oficina Plantiniana Apvd Ioannem Moretvm. M. DCI. Biblioteca da Bélgica.
O
padre jesuíta Jan David procurava, através desta imagem,
sublinhar nas mentes do público, aquele princípio da vida cristã, que recomenda não abrir os
sentidos abertos à tentação, mostrando como o olhar pode conduzir à
tentação, provocando a morte a invadir a alma, pelas janelas que são os olhos.
[1] Antonio
Machado (1875-1939), (Antonio Cipriano José María y Francisco de Santa Ana
Machado Ruiz), Proverbios y Cantares CLXI 1(Nuevas Canciones, Editorial Mundo
Latino 1930) .in Antonio Machado Poesias Completas. Prólogo
de Manuel Alvar. Espasa-Calpe, S. A. Madrid 1975. (pág, 268).
[2] Esse Campo Alegre que em 1934 Francisco Pereira de Sequeira (1893-1952) visionava que “nas longas e românticas estradas de há um século, erguer-se-ão edificações modernas e elegantes com as suas pérgolas, bairros operários cheios de luz e de higiene.”
[3] Primeiro no pavilhão de Tecnologias Arq.
Manuel Lima Fernandes de Sá. e de seguida no pavilhão de Exposições 1954. Arqu.
Manuel Lima Fernandes de Sá com a colaboração de Alfredo Leal Machado
(1904-1954).
[4] “A
minha casa observa-me e já não me conhece”. Victor Hugo (1802-1885), poème XXXIV La Tristesse
d’Olympia in Les Rayons et les Ombres. Chez les principaux libraires et chez
Ch. Gruaz. imp.- éditeur. Genève, 1840. (pág. 131). Gallica BnF.
[5] Versão
em francês, Charles Jencks, Le Langage de L’Architecture
Post-Moderne, Academy Editions-Denöel, London 1979.
[6] O arquitecto “a poussé cette tendance anthropomorphique jusqu’à son point d’aboutissement logique et absurde.” “sa maison-visage avec ses yeux ronds et son nez en canon de fusil, fonce les sourcils, hurle et en définitive avale l’occupant. » Charles Jencks, Le Langage de L’Architecture Post-Moderne, Academy Editions-Denöel, London 1979. (pág.116).
[7] Quem nunca arranca os seus próprios olhos? / É isso que faz com que a morte se pareça com as janelas negras.
[8] Quem deixa vaguear / o seu olhar malicioso? / Que infortúnio o espera? // A morte eterna, / por estes buracos, penetra / na alma e surpreende-a.





























