Aspectos da cidade do Porto 1926 1
"Mas a cidade não diz
o seu passado, contém-no como as linhas de uma mão, escritas nas esquinas das
ruas, nas grades das janelas, nos corrimões das escadas, nas antenas dos
para-raios, nos mastros das bandeiras, cada segmento marcado por sua vez de riscos,
entalhes, cortes e arranhões" Ítalo Calvino [1]
fig. 1- Fotografia
da Foto Beleza n.º 83 In Porto. Margens do Tempo. Livraria Figueirinhas Porto.
I Parte – O Porto antes do 28 de Maio
A situação política
A cidade do Porto vive e acompanha, no início do ano de
1926, a crise política, económica e social que se vai agravando, de uma
República cansada com mais de 15 anos de existência.
Ao longo do ano que então finda, sucedem-se quarto governos da República [2] sendo que está em funções o 45.º governo da República, liderado
por António Maria da Silva (1872–1950), nomeado a 17 de Dezembro de 1925. (Será
exonerado a 30 de Maio de 1926, após o 28 de Maio de 1926.)
Nos finais de 1925, durante o 44º
Governo liderado por Domingos de Oliveira, o jornal O Commércio do Porto, pela pena de J. M.
[3] advertia:
“A situação de
Portugal é grave.
Economicamente,
todos sentimos a crise que se avizinha a passos de gigante. É o commercio, é a
industria, é a agricultura, é a finança, é o operário, é o povo, somos todos,
que olhamos com terror para o futuro, para o dia de amanhã, sem podermos saber
o que elle será.
Politicamente,
vivemos num cahos.” [4]
No Porto, O Commercio
do Porto de 15 de Novembro apresenta a lista completa dos Senadores e
Deputados eleitos pelo Porto.
fig. 2 - O Commercio do Porto 15 de Novembro
de 1925.
Candidatos eleitos
Armando Marques Guedes
António Alves Cálem Júnior
Eduardo Ferreira Santos Silva
Henrique Pereira de Oliveira
Alberto Nogueira Gonçalves
Amílcar da Silva Ramada Curto
José Domingos dos Santos
João de Pina Morais Júnior
Em 5 de Dezembro é noticiada nas páginas do jornal O Século a fraude de Alves dos Reis [5], que contribuiu,
pelas suas repercussões económicas, para abalar - a já frágil - economia do
País.
Em 11 de Dezembro de 1925, Manuel Teixeira Gomes (1860-1941), presidente desde 5 de Outubro de 1923, renuncia ao cargo, sendo substituído por Bernardino Machado (1851-1944) que de novo assume o cargo até ao golpe militar de 28 de Maio de 1926.
O Governo da Cidade
A Câmara Municipal do Porto tem em 1926, como presidente Alberto Pereira Pinto de Aguiar (1868-1948) médico, professor da Universidade do Porto e Presidente do Senado de 2 de Janeiro a 30 de Junho de 1926, que presidirá à CMP desde 2 de Janeiro até ao golpe militar do 28 de Maio sendo exonerado a 30 de Junho de 1926. [6]
Na
segunda-feira, 4 de Janeiro de 1926, reúne a Comissão Executiva da Câmara
Municipal elegendo para presidente Vasco Nogueira de Oliveira (1880-?).
Desta
Comissão Executiva faz parte, entre outros o historiador de arte, Aarão de
Lacerda (1890-1947). [7]
[1]
“Ma
la città non dice il suo passato, lo contiene come le linee d’una mano, scritto
negli spigoli delle vie, nelle griglie delle finestre, negli scorrimno delle
scale, nelle antenne dei parafulmini, nelle aste delle bandiere, obni segmento
rigato a sua volta di graffi, seghettature, intagli, svirgole.” Italo Calvino Le città e la memoria 1in Le città
invisibile Einaudi Torino 1972 (pág.4)
[2]
O 42.º
governo da República nomeado a 15 de Fevereiro de 1925 e exonerado a 1 de Julho
do mesmo ano, liderado por Vitorino Guimarães (1876–1957).
O 43.º
governo da República que ficou conhecido como o Governo dos Bonzos,
nomeado a 1 de Julho de 1925 e exonerado a 1 de Agosto do mesmo ano, liderado
por António Maria Silva (1872–1950) e do qual fez parte como Ministro da
Instrução Eduardo Santos Silva (1879–1960).
O 44.º
governo da República nomeado a 1 de agosto de 1925 e exonerado a 17 de
dezembro do mesmo ano, liderado por Domingos Leite Pereira (1882–1956).
E por último, o 45.º governo da República
nomeado a 17 de dezembro de 1925, liderado por António Maria da Silva
(1872–1950). (Será exonerado a 30 de maio de 1926, após o 28 de Maio de 1926.)
[3] Será
Joaquim Manso (1878-1956)?
[4] O Commercio do Porto Sábado14 de Outubro
de 1925 JM.
[5] Artur Virgílio Alves
Reis (1896-1955).
[6]
A
Câmara Municipal do Porto teve, em 1925, como Presidente interino José Pereira
da Silva (?-?) entre 2 de Janeiro e 12 de Março de 1925, data em que é eleito
António Joaquim de Sousa Júnior (1878-1931), o qual presidirá de 12 de Março de
1925 a 31 de Dezembro de 1925.
[7]
Acta da reunião de 4 de Janeiro 1926. AHMP.
A população do Porto em 1926
Em 1925 foi realizado um Censo Extraordinário da população das cidades de Lisboa e do Porto, justificado em carta ao Ministro pelo director do INE Vitorino Henriques Godinho (1878-1962): “Estes trabalhos, feitos geralmente a meio do período decenal, entre os dois recenseamentos gerais, são da maior utilidade, porquanto servem de rectificação e verificação dos trabałhos anteriores e permitem seguir mais atentamente e com maior segurança a vida dos grandes centros e o estudo e marcha de alguns fenómenos que tendo nela uma maior intensidade reflectem também um pouco da vida social do resto do país.” [1]
Segundo este Censo a população do País era de 6.032.991
habitantes e a população da cidade do Porto era em 1 de Dezembro de 1925 de 215 625 habitantes sendo 98 313 do sexo masculino e
117 314 do sexo feminino.
fig. 3 – Censo Extraordinário da população das cidades de Lisboa e do Porto,
1926. Imprensa Nacional Lisboa 1927 (pág.55).
De 1920 a 1925 houve um aumento de 12.534 habitantes ou sejam 2.507 por ano que corresponde 1,23%
A população do Distrito era de 702.166.
Na cidade verificava-se uma atracção da população, pois que os habitantes naturais do Porto (os tripeiros) eram 132.654 (59,14%) e os restantes 82.971 (40,86%) eram estrangeiros ou proveniente de outras localidades.
Comparando com o Recenseamento de 1920, das 15 freguesias então existentes
na cidade a mais populosa era a do Bonfim, seguida pela de Cedofeita, apesar do
crescimento das freguesias de Paranhos, Campanhã e da freguesia central de
Santo Ildefonso.
fig. 4 - Censo Extraordinário da população das cidades de Lisboa e do Porto, 1926. Imprensa Nacional Lisboa 1927 (pág.53).
As freguesias do núcleo medieval, Miragaia, S. Nicolau, e Sé, tinham um
crescimento reduzido. E a freguesia da Vitória tinha mesmo um decréscimo.
As freguesias de Nevogilde e de Aldoar continuavam com uma ocupação muito
reduzida.
As restantes freguesias (Foz do Douro, Lordelo, Massarelos, Ramalde) tinham
um crescimento normal.
|
Freguesias |
1920 |
1925 |
1930 |
1940 |
|
Aldoar |
1 306 |
1 539 |
1 874 |
1 749 |
|
Bonfim |
33 402 |
37 331 |
38 418 |
41 260 |
|
Campanhã |
19 184 |
21 489 |
23 621 |
25 972 |
|
Cedofeita |
33 020 |
33 584 |
36 520 |
41 835 |
|
Foz do
Douro |
7 751 |
7 961 |
8 088 |
8 491 |
|
Lordelo do
Ouro |
8 054 |
8 578 |
8 600 |
9 440 |
|
Massarelos |
8 956 |
9 303 |
9 201 |
11 148 |
|
Nevogilde |
1 887 |
2 197 |
2 485 |
2 419 |
|
Paranhos |
21 286 |
22 578 |
25 853 |
34 498 |
|
Ramalde |
9 818 |
10 481 |
12 306 |
13 808 |
|
Miragaia |
6 369 |
6 837 |
7 130 |
7 519 |
|
S. Nicolau |
5 435 |
6 042 |
6 347 |
7 881 |
|
Santo
Ildefonso |
22 718 |
22 867 |
24 483 |
25 581 |
|
Sé |
14 067 |
16 345 |
16 689 |
16 876 |
|
Vitória |
9 027 |
8 193 |
8 179 |
9 578 |
|
Total |
202 310 |
215 625 |
229 794 |
258 548 |
fig. 5 - Fonte: A Cidade do Porto: Súmula Estatística
(1864-1968). INE.
Em 1925, Aurora Teixeira de Castro [2] escreve uma Monografia da Cidade do Porto publicada
em 1926. [3]
fig. 6 - Gráfico n.º 1 Distribuição da população por classes, em 1920. in
Finalmente uma elite financeira e industrial de que faziam parte banqueiros, grandes empresários, comerciais ou industriais, e ainda proprietários.
De um modo geral, estas diferentes classes
distribuíam-se pelos edifícios e pelo espaço da cidade de uma forma diferente.
Os operários ocupavam as “ilhas” e edifícios
degradados, espalhados por toda a cidade edificada, mantendo um grave problema
de alojamento.
A população da pequena burguesia ocupava os
edifícios do início do século ao longo das ruas principais existentes
nomeadamente os tradicionais acessos à cidade.
A classe média instalava-se nas novas zonas então
urbanizadas ou em urbanização, adjacentes a novos traçados viários, como a
avenida dos Combatentes (aprovada em 1925 e aberta e edificada nos anos
seguintes); a rua Guerra Junqueiro (assim chamada a partir de 1923 com a morte
do poeta); a avenida que em 30, se chamará Marechal Gomes da Costa e o
prolongamento da Foz do Douro para Nevogilde (a Foz Nova) pela avenida que no
ano de 1926 se chamará de Montevideu.
A elite burguesa da classe média alta,
ocupava diversos palacetes nas zonas da Boavista, do Campo Alegre, da Foz e de
Campanhã.
[1]
Censo extraordinário da
população das cidades de Lisboa e Porto: 1 de Dezembro de 1925, Lisboa, Imprensa Nacional, 1927.
[2] Aurora
Teixeira de Castro (Porto 18911938) foi notária, advogada, autora, e
vice-presidente do Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas fundado em 1914.
[3] Aurora
Teixeira de Castro (1891- 1938), Monografia da cidade do Pôrto. Composto e
Impresso nas Oficinas da Secção de Publicidade do Museu Comercial. Lisboa 1926.






