As fontes de Energia no Porto dos anos vinte
1.4. Electricidade
"A humanidade conseguiu, enfim,
apoderar-se do segredo da aurora. A luz eléctrica metida num globo de
porcelana, reduz toda essa fonte de poesia a um processo de extrema
simplicidade, e dentro em pouco todos poderemos ter "o pálido astro da noite" ou o "formoso astro do dia" -
simples questão de abat-jour - no nosso quarto de dormir à razão de
trinta reis a hora !
Guilherme de Azevedo (1839-1882) [1]
I - Imagens da Electricidade na esquina dos séculos XIX e XX (1880-1930)
Se o carvão, o
petróleo e o gás eram (e são…) masculinos, a electricidade foi (e é…) feminina.
Mas a Electricidade,
é um substantivo feminino, e por isso conduziu naturalmente os artistas a representa-la
na forma de uma jovem mulher.
Assim, em 1880, Alfred
Stevens, numa enigmática pintura, representa a Electrcidade como uma jovem que acaricia um gato no seu colo. Ao fundo uma paisagem
urbana onde morcegos voam talvez fugindo da luminosidade dos candeeiros
eléctricos.
Figura 1- Alfred Stevens (1823-1906) l´´Electricité 1880. Óleo s/tela 116 x 88cm. Musée des Beaux-Arts Jules Chéret, Nice.
Inodora,
impalpável, inaudível, sem cheiro, sem chamas e em profundo silêncio, a
Electricidade que aquece, ilumina e movimenta, é inicialmente representada
alegóricamente por uma triunfante figura feminina.
A Electricidade, era então (e é ainda…) - para a maior parte da população - , uma energia invisível e misteriosa, "grandiosa figura metafísica, vestida com seda farfalhante e trémula, e além disso, nua, adornada com plumas e decorada com rios de diamantes!" [2] como foi representada por Edmond Morin, quando em 1881 se realiza em Paris a Exposição Internacional da Electricidade.
É a primeira
vez que uma exposição internacional é inteiramente dedicada à electricidade e
às suas aplicações. Simultaneamente realiza-se o I Congresso Internacional dos
que se dedicam ao estudo e à produção da electricidade.
Sobre esta
Exposição, o jornal Le Monde Illustré publica na capa uma esclarecedora
imagem de Edmond Morin “La Reine d’aujourd’hui”, que ele próprio
explica.
Figura
2 - Edmond Morin (1824-1882) La Reine
d’aujourd’hui Le Monde Illustré n.º 1273 de 20 Agosto 1881
“A
Rainha de Hoje
Não é a eletricidade, na verdade, a força que hoje domina o mundo pelo poder dos seus efeitos? Não admira que os antigos tenham dotado Júpiter de raios, esse elemento incompreensível que os cientistas modernos conseguiram roubar aos céus e fazer com que sirva as necessidades mais estranhas da humanidade.” [3]
E o jornal, sobre a Exposição comenta:
“Que magia tem este palácio
nos Campos Elísios, onde reina a poderosa soberana! Não tentaremos desvendar os
seus segredos hoje. Este é o tipo de artigo que não se escreve de improviso,
ou, se quisermos, electricamente.
Mas tomámos posição ao
publicar hoje a esclarecedora imagem do Sr. Edmond Morin, prometendo aos nossos
leitores uma edição especial na qual tudo o que foi importante na Exposição da
Electricidade será relatado pelos mais competentes especialistas, com
ilustrações de apoio.
Assim, poderemos criar uma
espécie de História da Eletricidade e lançar luz sobre aquilo que, para a
pessoa comum, é apenas uma nuvem escura. Faremos com que brilhe, se possível,
mas apenas considerando cuidadosamente os seus efeitos.” [4]
Figura
3 - Vue d’ensemble de l’Exposition
Internationale de l’Electricité à Paris. In La Nature 9ème année n. º 430 de 27
Aout 1881 G. Masson Éditeur Librairie de l’Académie de Médecine Paris 1881
(pág.201).
Esta imagem da
Electricidade como uma fada portadora de Luz, brilhando “numa nuvem escura” irá
ser diversas vezes reproduzida.
Figura 4 - Allégorie de la Lumière
Gravure dans. (1841-1894) «physique et
chimie populaires Les sciences mises à la
portée de tous» Jules
Rouff et C.ie, Éditeurs Paris 1881.
E figura
ainda na capa da revista La Lumière Électrique de 1887.
Por
entre nuvens uma figura feminina alada, o braço direito estendido segura na mão
uma pequena fonte de luz, e no braço esquerdo os relâmpagos da electricidade
natural. Na parte inferior dois putti (a
Química e a Física) comunicam entre eles por meio de rádio telefones.
Figura 5 – Fada elétrica na capa da revista La Lumière
Électrique. Journal Universel d’Electricitè. N. º 1 Samedi le 1 de Janvier
1887. Tome ving-troisième Aux Bureaux
du Journal, Paris 1887.
Em Paris, com a aproximação da Exposição Universal de 1889, comemorativa do centenário da Revolução Francesa, a Câmara Municipal, sob pressão da opinião pública, decide criar uma rede de distribuição de eletricidade.
Estabelecem-se "sectores elétricos parisienses", cujas concessões foram atribuídas pela Câmara Municipal a seis empresas fornecendo eletricidade até ao final de 1907.
Figura 6 - Louis-Ernest Barrias (1841-1905). L’Électricité. Galerie des Machines Exposition Universelle 1889. Paris 1889.
Louis Barrias
representa a Electricidade por duas figuras femininas de corpo nu, encostadas
ao globo terrestre cinturado pelos signos do Zodiaco.
A figura
feminina, mais velha, um corpo mais pesado e cansado, aponta um relâmpago
simbolizando a Electricidade natural e atmosférica. Silenciosa, discreta, invisível, mas tão formidável quanto poderosa, no
relâmpago que arde e destrói.
A figura feminina mais jovem representa a nova electricidade artificial, criada pelo homem, sendo significativo ter sido colocada aos pés de ambas, uma pilha de Volta [5]
E em 1899, na
gare de Lyon em Paris, antecipando a Exposição Universal de 1900 – o escultor Paul Gasq representa a Electricidade, numa composição triangular em
baixo-relevo [6] onde uma figura feminina semi-nua tem na mão
direita um gerador (a
Figura 7 - Paul
Gasq (1860-1944), L’electricité 1899 Gare de Lyon Paris.
E ainda na escultura de influência Arte Nova, Leo Charles representa
a Electricidade como uma elegante figura feminina, tendo na mão esquerda uma
lâmpada incandescente e na mão direita um tridente com três isoladores ligados
a um dínamo Edison que se encontra a seus pés.
Figura 8 - Charles Octave Levy (1840-1899) (Leo Charles), Statuette allégorique de
l’électricité 1880 Régule (estanho e antimónio), H : 82
x L : 27 cm. Musée
Electropolis Mulhouse Alsace.
E a publicidade também se
apropria desta figura feminina para representar a Electricidade como nos
cartazes de Lucien Lefèvre.
Figura 9 - Lucien Lefèvre (1850-c.1902) Electrine
Éclairage de Luxe 1895 litografia 184 x 88 cm. In « Les Maîtres de
l’Affiche publication mensuelle contenant la reproduction des plus belles
affiches illustrées des grands artistes français et étrangers :». Pl. 55 n. º
12 Nov. 1897 2º Vol. Chaix. : éditée par l'imprimerie et Librairie Chaix. Paris1897.Gallica BnF
Figura 10 - Francisco
Tamagno. (1851–1933) Cartaz com fada elétrica, 1900. Affiches Camis. Paris. Museu
de Moscovo.
E umm
curioso sistema de iluminação de uma galeria de arte.
Figura 1 -Éclairage électrique par le système Maxim.
Galerie de tableaux de l’Union League Club à New York in Nature n. º 426 de 30
Julho 1881. (pág.137).
Mas é a Exposição Universal de Paris de 1900, que representa o triunfo da Electricidade e do seu futuro e por isso é-lhe então dedicado todo um Palácio, que se tornou aliás, uma das grandes senão a maior atracção da Exposição.
O conjunto do
Palais de l’Électricité projectado
por Eugene Hénard (1849-1923) e complementado pelo grandioso Chateau d’Eau
projetado por Edmond Paulin (1848-1915), profusamente iluminados, constituia o
remate do Champ de Mars, no enfiamento da Torre Eifell.
Figura 12
No topo do Palais de l’Électricité, uma escultura de Laurent Marqueste (1848-1920),
que num primeiro esboço representava a Electricidade por uma figura feminina de
pé sobre um carro puxado por dois hipogrifos e brandindo o facho do Progresso.
Figura 13 – Laurent Marqueste (1848-1920), l’Électricité, project pour le Palais de l’Électricité 1900. World Fairs Info.
Acabou por ser um Génio da Electricidade que foi
colocado no topo do edifício mantendo os hipogrifos.
Figura
14 - Laurent Marqueste (1848-1920),
l’Électricité Pormenor de Vue du Palais de l'électricité 1898-1900. BnF,
Philosophie, histoire, sciences de l'homme, 2012-121832 Bibliothèque nationale
de France.
No século XX
A Electricidade, como uma energia poética e carregada de vital criatividade, era capaz de nos modificar os afazeres quotidianos, de nos alterar o pensamento, como diz o poeta Henri Allorge:
“Enfim quem sabe se esta humilde parcela
Da suprema Inteligência universal,
A que chamo Pensamento e que faz o meu orgulho,
Não és tu, pura Eletricidade,
Que na minha frágil carne soltaste a tua faísca? [8]
A iluminação pública eléctrica vai substituindo o
incómodo gás. A Electricidade ilumina a vida nocturna e festiva.
Figura 15 - Adriano Sousa Lopes le moulin rouge (noite), c. 1910. Óleo sobre madeira 27 × 35 cm. MNAC – Chiado.
O escritor e poeta Jules Romains escreve um longo poema referindo a
iluminação eléctrica:
No topo do
boulevard, o crepúsculo humano
Cristaliza-se
num arco elétrico. Um som ténue
pisca. A
corrente, que tenta teimosamente passar
agarrando-se
aos emaranhados de moléculas, sangra.
Os
arrepios do éter explodem de forma abrupta.
A multidão
na calçada recuperou a confiança.
A sombra
apelou aos corações e levou-os a dançar
ao som de
canções lânguidas ou obscenas,
longe, na
solidão e na recordação.
Agora, a
luz traça uma arena de circo;
Os ritmos
giram ali por um instante, subjugados;
As almas que
até então se escondiam, soltam-se
para
mergulhar as suas bordas paralelas e nuas
na
claridade. (…)" [9]
Figura 16 - Max Beckmann (1884 - 1950), Street at night (1913). Óleo s/tela 70 x 90 cm. Col.
particular.
Em Berlim o café Bauer, por possuir um gerador próprio, foi dos primeiros estabelecimentos a ser iluminado por lâmpadas eléctricas.
Figura 17 - Lesser Ury (1861-1931), Café Bauer, Berlin 1888/1889.
Óleo s/tela estendida sobre cartão. 71,9 x 49 cm. Col. particular.
Assim o compreenderam os
Futuristas que no seu Manifesto
afirmavam que “cantaremos o vibrante fervor
nocturno dos arsenais e estaleiros incendiados por violentas luas eléctricas…” [10]
Figura 18 - Giacomo
Balla (1871-1958), lâmpada al arco 1909, óleo s/ tela 174,7 x 114,7 cm. Museum
of Modern Art (Moma) N.Y.
Esse
raio inicia-se por uma figura estranha do lado direito, que corre por entre
grandes labaredas como se fossem asas, braços abertos tendo uma lâmpada no
peito.
O
relâmpago prossegue iluminando uma figura de braços abertos numa janela e
termina numa figura que jaz estendida fulminada pela perigosa electricidade
natural.
Figura 19 - Fortunato Depero,(1892-1960). Fulmine Compositor, 1926.óleo s/tela 117 x 115 cm. Casa Depero, Rovereto Italia.
E em Paris,
cidade que em 1914 é finalmente abastecida de electricidade pela Conpagnie Parisienne
de Distribution d’Electricité (CPDE), Sónia Delaunay, numa série de pinturas
apelidadas de “prismas eléctricos”, procura representar, com círculos de
cores primárias e secundárias, os efeitos lluminosos e a vibração intensa do
encandeamento produzido pelas luzes agora eléctricas.
Figura 20 - Sónia Delaunay, Prismes électriques. 1914. Huile sur toile 250 x 250 cm. Centre Georges Pompidou Paris.
No quadro aparece o nome de Cendars, uma homenagem ao
escritor e poeta Blaise Cendars (1887-1961), o autor de La Prose du Transsibérien, frequentador da casa dos Delaunay.
Figura 21 – Sonia Delaunay. Pormenor do quadro Prismes électriques. 1914.
A electricidade como unificação do território
A Electricidade transmitia
a ideia de uma circulação secreta e silenciosa, com incrível velocidade, dando
a impressão de que podia atingir, quase instantaneamente, todos os pontos de
uma cidade, de um país, de um território, recuperando uma unidade nesses tempos
singularmente fragmentados.
Figura 22 - Gustav Klutsis (1895-1938), "Electrification
of the entire country" 1920. Cartaz.
Figura 23 - Alexander Samokhvalov (1894-1971), Lenine e a Electrificação a fundação de um novo mundo. 1924 Tate Gallery.
Figura 24 - Fotomontagem
de propaganda soviética intitulada "Dnieproges - Monumento a Lénine",
In “URSS em Construção”, revista mensal fundada por Maxim Gorky (1868-1936) e
publicada entre 1930 e 1941. Apresenta Lenine e a barragem de Dnieper e na
legenda em russo “o comunismo são os sovietes por todo lado mais a
electrificação do país”.
CONTINUA
[1]
Guilherme de Azevedo
Chronica Occidental in Occidente 15 de Novembro
1878. (pág. 170). e Joel Serrão (1919-2008), Temas Oitocentistas II, Edições
Ática, Lisboa 1959. (pág. 193).
[2] Francis Ponge (1899-1988) «grande figure
métaphysique, vêtue de soie bru issante et frémissante, et d'ailleurs nue,
coiffée d'aigrettes, parée de rivières de diamants!» Texte sur l’électricité in
La Nouvelle Revue Française n°31, 1er juillet Paris, 1955.
[3] Edmond Morin (1824-1882) La Reine d’aujourd’hui Nos
gravures in Le Monde Illustré n.º 1273 de 20 Agosto 1881. (pág.118).
« La Reine d'aujourd'hui
L’Électricité n’est elle pas, en effet, la force qui domine le monde aujourd’hui par la puissance de ses effets ? Il n’est pas étonnant que les anciens aient armé Jupiter de la foudre, cet élément incompréhensible que les savants modernes ont su dérober au ciel en le faisant servir aux plus étranges besoins de l'humanité. »
[4] Nos Gravures in Le Monde Illustré n. º 1273 de 20 Agosto 1881 (pág.118).
« Quelle
magie que ce palais des Champs-Elysées, où trône la puissante souveraine! Nous
n'essayerons pas d'en donner aujourd'hui la clé. Ce sont de ces articles qu'on
ne saurait écrire au vol, ou, si l'on veut, électriquement.
Mais
nous prenons position en publiant aujourd'hui l'image lumineuse de M. Edmond
Morin, promettant à nos lecteurs un numéro spécial où tout ce qu'il y a
d'important à l'Exposition de l'électricité, sera relaté par les hommes les
plus compétents avec des dessins à l'appui.
Nous pourrons ainsi faire une sorte d'Histoire
de l'Électricité et mettre en lumière ce qui, pour le commun des mortels, n'est
qu'un nuage obscur. Nous en ferons jaillir la foudre, si possible, mais en en
mesurant les effets.”
[5]
Alessandro (Giuseppe Anastasio)
Volta (1745-1827) físico italiano seu inventor.
[6]
Os outros baixo-relevos representam a Navegação e o Vapor de Felix Charpentier
(1858-1924), e a Mecánica de Louis Baralis (1862-1930).
[7] Quant au Génie de
l’électricité, qui domine ce groupe d'édifices et à la gloire qui l’entoure, ce
sera un éblouissement de plus à ajouter aux autres. Le Génie sera en métal, en
feuilles de zinc repoussé (…) les rayons seront formés de lames de verres,
montés sur une armature métallique; ce sera comme une immense lanterne éclairée
intérieurement par de fortes sources lumineuses.
Alfred Picard
(1844-1913), engenheiro e Comissário geral da Exposição Universal de 1900, in
L’Exposition de Paris (1900) Tome I Librairie Illustrée, Mofltgrediefl et Cie.
Éditeurs, Paris 1900 (pág.102)
[8] Henri Allorge (1878-1938), l’électricité in Petits poèmes
électriques el scientifiques. Librairie Académique Perrin. Paris 1924. (pág. 35).
« Enfin, qui sait si cette humble
parcelle
De la suprême Intelligence universelle,
Que j'appelle Pensée et qui fait ma fierté,
Ce n'est pas toi, pure Electricité,
Qui dans ma chair fragile as mis son étincelle
? »
[9] Jules Romains (1885-1972) Le présent vibre. In La Vie Unanime (poème). Mercure de
France Paris 1913. (pág. 79).
En haut du boulevard le
crépuscule humain
Se cristallise en arc
électrique. Un bruit mince
Frétille. Le courant, qui
s'acharne à passer
Et s'accroche aux buissons
des molécules, saigne.
Les frissons de l'éther
partent en trépignant.
La foule du trottoir a repris
confiance.
L'ombre appelait les coeurs
et les menait danser
Sur des airs de chansons
alanguis ou obscènes,
Loin, dans la solitude et
dans le souvenir.
Or, la lumière trace une
piste de cirque ;
Les rythmes un instant y
tournent, subjugués;
Les âmes qu'on cachait
tantôt, on les dégaine
Pour tremper leurs tranchants
parallèles et nus
Dans la clarté (…)
[10] “canteremo il vibrante fervore notturno degli arsenali e dei
cantieri, incendiati da violente lune elettriche…” do
Manifesto Futurista 1909. (ponto 11)
[11] Matemos o Luar obra Filippo Tommaso Marinetti (1876-1944) Uccidiamo il chiaro di luna. Edizioni Futuriste Milano 1911. (pág. 16).
[12]
Vladimir Illitch Oulianov
(1870-1924).























