quinta-feira, 22 de outubro de 2026

Poema do arquitecto 17

 

Vãos e janelas 2



René Magritte (1898-1967) La clef des champs1936. Óleo s/ tela 80 x 60 cm. Museo Nacional Thyssen-Bornemisza, Madrid.

 

“Olha por tantas janelas

só em espelho está a olhar

mais vê, aí, seu coração:

que o mar é lágrimas e luar.” 

João Guimarães Rosa [1]

 

“Strana cosa una finestra! Può essere sia ciò che divide, sia ciò che è diviso,

secondo che l’attenzione si fermi sul telaio o sul paesaggio.

Impossibile d’altra parte non pensare ad una prigione e

a tutti gli stati d’animo che sono propri della prigioni.”

Alberto Moravia [2]

 

Basta uma fresta por onde brota luz
flutuante e se esvanece pela parede
lúcido instante que corrompe a treva
resplandece claridade moendo sede
 
fenda aberta e moldura de paisagem
poeira escondida onde a imaginação
aberta para o dia dos que espremem
o ruído ingénuo cansado da multidão
 
as janelas nos espiam todo o tempo
quadro onde jaz um canto do mundo
resumo estranho apenas do momento
 
gesto enigmático circulante e obscuro
janela estilhaçada em gesto profundo
espelho irreal esconde abismo escuro
 



[1] João Guimarães Rosa (1908-1967), o Aloprado do livro Ave, palavra (1970 póstumo). Nova Fronteira, 6ª ed., Rio de Janeiro: 2009. (pág.66).

[2] Estranha coisa, uma janela! Pode ser o que divide, como o que é dividido,

conforme a atenção se detenha na tela ou na paisagem.

Impossível, por outro lado, não pensar numa prisão e

em todos os estados de alma que são próprios das prisões.

Alberto Moravia (1907-1990) Finestra aperta (1941) in l’epidemia, racconti surrealisti e satirici Editorial: Bompiani, Milano 1956

 

segunda-feira, 12 de outubro de 2026

il dolce far niente


 

Edme-Jean Pigal (1794-1872) des. Pierre Langlumé (1790-1830) imp. Il Dolce far niente, litografia 32, 2 x 27 cm. Planche n. º 1 do Album Rome Affaires du Jour 1828. Gihaut Frères éditeur. Musée Carnavalet Paris.

 

  Il dolce far niente

 

“Um murmúrio de omissões, um cântico do ócio.
Eu vou contigo, voz silenciosa, voz serena.”

António Ramos Rosa [1] 

“Ai que prazer / Não cumprir um dever…”

Fernando Pessoa [2]

 

Na preguiça deixei-me ficar

dos esforços inúteis isento

vivendo a modorra familiar

do segredo dúbio do tempo

 

paralítico remorso da idade

dia aberto e depois fechado

injusta poeira e maturidade

luzidio repolho do passado

 

azulada gramática do viver

iluminada no acontecendo

lúcida cabriola sem se ver

 

voo íntimo e desconhecido

salto de risco sem lamento

ânsia em círculo escondido

 



[1] António Ramos Rosa (1924-2013), O Jardim de Volante Verde. (1986). In Obra Poética I. Assírio & Alvim-Porto Editora 2018. (pág. 1073).

[2] Fernando Pessoa (1888-1935) Liberdade, (1935. 1.ª publicação: Seara Nova, n.º 526, Lisboa, 11 de Setembro de 1937). In Fernando Pessoa Obra Poética Companhia Aguilar Editora, Rio de Janeiro 1965. (pág. 188)

 

sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Poema do arquitecto 16

 

Vãos e Janelas 1

 


Robert Delaunay (1885-1941), Les Fenêtres simultanées sur la ville. 1re partie, 2e motif, 1912. Óleo s/tela 40 x 46 cm. Hamburg Kunsthalle

“tudo assim me é conduzido no espaço
Por inúmeras interseções de planos
Múltiplos, livres, resvalantes.”

Mário Sá-Carneiro [1] 


“O mundo é grande e cabe

nesta janela sobre o mar.”

Carlos Drummond de Andrade [2] 

 

 

São espelho repentino onde nos revemos

onda de ternura que tudo embala no olhar

reflexo fosco eco de onde desaparecemos

vãos por onde reluzindo treme todo o mar

 

Casa onde o muro musgoso se desprende

deslumbrante janela faz o lugar acontecer

soltando vazios de luz que ora surpreende

o claro sentido de todo o mundo a oferecer

 

Aberta à brisa para o feliz profundo respirar

moldura que separa palpitando a irrealidade

polígono aberto e desejo de mundo apreciar

 

Dolorosas paredes recíprocas e pertinentes

penumbras que desvanecem em intensidade

na tecida incerteza de mundos tão diferentes

 

 



[1] Mário de Sá-Carneiro (1890-1916) Manicure, Poemas sem Suporte in ORPHEU 2 Ática S.A.R.L. Lisboa 1979 (pag.27).

[2] Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), O Mundo é grande. De Amar se Aprende Amando In Poesia e prosa. Nova Aguilar, Rio de Janeiro 1983.

quarta-feira, 7 de outubro de 2026

aniversário

 


 


José Dominguez Alvarez (1906-1942), sem título (outono), sem data. Têmpera sobre papel 13,20 x 19,60 cm. Centro de Arte Moderna CAM fundação Calouste Gulbenkian. Lisboa.

 

“Queira-se antes ventura que aventura
À medida que a têmpora embranquece
E fica tenra a fibra que era dura.”

Vinicius de Moraes [1]

 

“viaje hacia un mundo prometido, entrevisto,

al que mi destino me convocaba

con muy dulce certeza.”

Vicente Alexandre [2]

 

 

 

É uma data que importa porque nasci

saltemos dancemos por fim bebamos

para todo amor e amizade que eu vivi

um voto que em dia lento renovamos

 

Este novo ano que começa e se festeja

depressa passará como os do passado

por quelhos vagabundos dúbia inveja

vertigem recuada de sonho acordado

 

Trôpego passo pela longa caminhada

ambíguo bafo e pouco serena neblina

coloca a questão ansiosa encurralada

 

A memória que em mim trago perdida

canto e sopro em amarelecida cortina

será só rumor ou é um outono na vida?



[1] Vinicius de Moraes (1913-1980). Soneto de aniversário (1942) in Poesia Completa e Prosa (org. Alexei Bueno). Nova Aguilar Rio de Janeiro 1998. (pág. 286).ou Vinicius de Moraes (1913-1980). Soneto de aniversário (1942)in Livro de Sonetos. Livros de Portugal editora S.A. Rio de Janeiro 1957. (pág. 68)

[2] Vicente Aleixandre (1898-1984), Mar del Paraiso. III de Sombra del Paraíso (1939-1943) (Adán, Madrid 1944).in Poesias Completas. Visor Libros. Malaga (pág. 521) ou Antologia de Vicente Alexandre. Selecção, tradução e prólogo de José Bento [1932-2019]. Editorial Inova, Porto 1977. (pág. 93).

Viagem para um mundo prometido, vislumbrado, / A que o meu destino me chamava com uma doce certeza

terça-feira, 29 de setembro de 2026

poema

 

gesto longínquo pelo ar…


Oskar Schlemmer (1888–1943), “Duas figuras oscilantes em movimento contrário" (Zwei Schwingende in Gegenbewegung) 1931. caneta e tinta preta sobre papel de escrita liso e ligeiramente amarelado, 28,5 x 22 cm. Staatsgalerie Stuttgart.


“O que muda na mudança, 

se tudo em volta é uma dança

no trajeto da esperança,

junto ao que nunca se alcança?”

Carlos Drummond de Andrade [1]

 

A ruína sem passado sem presente

sequioso tempo em que o consumo

fenece no esquecimento sem desejo

tudo o que torna sonho apenas fumo

 

Memória traída esquecida amargura

insólito segredo com sabor cansado

inutilidade repetida gestos sombrios

peco caminho capcioso tão fatigado

 

Ritmo saturado encolhido pelo vento

quebras ao acaso coro de ramagens

espinhoso verde sem entendimento

 

Águas mortas a borbulhar no espaço

gesto longínquo pelo ar desenhando

na densidade medida em breve traço

 



[1] Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), Mudança in Corpo (1984). Companha das letras, Lisboa 2015. (pág. 27).

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

outono

 

Apressado poema no início do Outono

“Outono

Enche com a tua presença êste ar lavado,

Ar de outono que tem

Como um encanto vago de saüdade ...

Armando Côrtes-Rodrigues  [1]


“A sombra casa os sons numa grave harmonia

E tamanha esperança e uma tão grande paz

Avultam do clarão que cinge a serrania,

Como se houvesse aurora e o mar cantando atrás.”

Manuel Bandeira [2]

 


Gaetano Ligrani (Gali) (n.1945), Outono em casa, 2020. Acrilico s/tela 63 x 83 cm, Col. do autor

 

Poema da terra em frutos sumarentos

um canto luminoso da palavra melodia

poeiras amarelas perdidas no dourado

quando pelo Outono se refaz a poesia


Enternecido entre árvores mar poentes

endiabrado Baco misturou no seu lagar

para que sejamos todos mais contentes

quatro doses de fogo e água e terra e ar

 

Esse mosto fermento rubro nos lagares

labores de outono encanto de vindimas

resume o que aí vivi com meus vagares

 

Escondida sombra de todo o abandono

assim adormeço neste dia sem ter sono

sopro cansado e sono suave no outono

 

 

 



[1] Armando Côrtes-Rodrigues (1891-1971), Outono in Atlântico revista Luso-Brasileira n.º 3 Lisboa 15 de Março 1943. (pág. 98).

[2] Manuel Bandeira (1886 - 1968), Crepúsculo de outono de A Cinza das Horas (1917) in Obras Poéticas, Editorial Minerva. Lisboa 1956. (pág. 45).

 

segunda-feira, 14 de setembro de 2026

poema

 

Soneto ao vinho em tempo de vindima

 



Giorgio Morandi (1890-1964) Natureza morta 1946, óleo s/tela 37,5 x 45,7 cm. Tate Modern, Londres.

 

 

“O vinho, meu amigo, deve ser a veneração de todos, e de tudo.

 He a muleta dos velhos, a vengála dos moços, o apisto dos enfermos,

as cocegas dos tristes, a gaita dos alegres, a esmóla dos pobres

He o melaço dos marotos, o cacimbo dos pretos, e o chocolate dos lacayos.

He o mimo das Damas, o beijo das Freiras, a mecha das moças, o borralho dos velhos...”

Frei Lucas de Santa Catarina [1]

 

“Vino, enseñame el arte de ver mi propia historia,

como si esta ya fuera ceniza en la memoria.”

Jorge Luis Borges [2]

 

“Amo sobre una mesa,
cuando se habla,
la luz de una botella
de inteligente vino.”

Pablo Neruda [3]

 

 

Vinho que nos ensina a arte de viver

e alegre nos funde a ânsia do tempo

no sem querer e no quase sem saber

a ilusão de todo o ritmo do momento

 

quanto mais se bebe menos se teme

vinho pisado pés que esmagam mosto

vozes alegres que no vinho, se desata

vida no vinho ganhando um fino gosto

 

beber por contínuas e elegantes taças

buscando a lucidez onde nos revemos

sepultando as tristezas e as desgraças

 

esse glamoroso encanto essa harmonia

só por falta nossa primeira e derradeira

fez esquecer o bom que no vinho havia



[1] Frei Lucas de Santa Catarina (1660-1740), Carta A hum amigo, que lhe mandou hua botelha de vinho. In Anatomico jocoso, que em diversas operaçoens manifesta a ruindade do corpo humano, para emenda do vicioso... / pelo Padre Fr. Francisco Rey de Abreu Matta Zeferino. Tomo II. Na officina do Doutor Manoel Alvarez Solano Lisboa Anno MDCC LV (pág. 327). Biblioteca Nacional.

[2] Jorge Luis Borges (1899-1986), Soneto al Vino in Obras Completas 1923-1972. Emecé Editores. Buenos Aires 1974. (pág. 919).

[3] Pablo Neruda (1904-1973). Oda al vino de Odas elementales (1954). In Trilogía «Odas elementales» - 01 ePub r1.2 Titivillus 16.11.15 ebookelo.com (pág. 231 a 233).