quinta-feira, 28 de maio de 2026

Aspectos da cidade do Porto em 1926 2

Um Apontamento sobre o 28 de Maio de 1926

Não se pretende neste texto historiar o 28 de Maio e as suas consequências. Trata-se apenas de um apontamento sobre as consequências imediatas na administração da cidade do Porto.

Após o Golpe de Estado de 1926, seguiu-se um breve período de acomodamento do novo regime.

Assim o comandante José Mendes Cabeçadas (1883-1965) chefe do governo entre 31 de Maio e 16 de Junho, foi afastado da chefia do Governo em 17 de Junho e substituído pelo Marechal Manuel de Oliveira Gomes da Costa (1863-1929).

O qual também foi afastado em 9 de Julho de 1926 sucedendo-lhe Óscar Carmona (1869-1951) na chefia do Governo.

Carmona será nomeado Presidente da República em 16 de Novembro, cargo que ocupará até à sua morte em 1951.

A Câmara Municipal do Porto

Em 5 de Julho, ainda no Governo de Gomes da Costa, é publicado o Decreto n.º 11:840 de 5 de Julho de 1926, no qual a Câmara Municipal do Porto, então instalada no Paço Episcopal e presidida pelo médico e professor universitário Alberto Pereira Pinto de Aguiar (1868-1948), é dissolvida por não estar integrada no pensamento que fez eclodir e triunfar o movimento nacional, não pode convir à actual situação política.” [1]




Postal. Porto-Portugal – Antigo Paço Episcopal provisoriamente Câmara Municipal.

É então nomeada uma Comissão Administrativa presidida pelo coronel Raul de Andrade Peres, um dos militares do movimento do 28 de Maio. Toma posse em 7 de Julho de 1926.

 Esta Câmara é composta exclusivamente de militares que segundo o então Governador Civil, Luís Monteiro Nunes da Ponte (1884-1971), na tomada de posse, refere que “teve de recorrer à guarnição do Porto, indo a ella buscar os mais distintos oficiais” [2]

Mas a maioria destes distintos oficiais já então se destacavam por exercerem ou iniciarem uma actividade profissional (médico, engenheiro ou arquitecto).

Por isso a Câmara ciente da responsabilidade de dirigir a cidade do Porto e de dar um impulso moderno à segunda cidade do país, que mostrasse a clara diferença com o regime anterior, constituiu uma Comissão Administrativa de que faziam parte:

- Presidente Raul de Andrade Peres (1877-1961) coronel de infantaria [3];

 - O médico tenente-coronel Augusto Sousa Rosa (1871-1939), comandante do 3º grupo de saúde;

 - O engenheiro civil Anacleto Domingos Santos (1887-1945), tenente-coronel de artilharia n.º 6;

- O major de infantaria n.º 18 António Joaquim de Almeida Valente (1873-1949),

- O major de engenharia e inspector de fortificações e obras militares Pedro Carlos Alexandre Pezerat (1888-1946) [que trabalhará em 1931 nas obras de melhoramento do Hospital Militar];

- O capitão de infantaria n.º 31 Carlos Alberto Ferreira Henriques (1884-1946).

- O capitão da administração militar Joaquim Gomes Salazar Braga (1886-1981).

E, saliente-se:

- O engenheiro civil e capitão Antão Almeida Garrett (1896-1978), [que terá grande influência no planeamento da cidade, quer nos finais dos anos trinta quando colaborará com os arquitectos italianos, e depois da 2ª Guerra quando elaborará o Plano Regulador da Cidade de Porto]; 

- O arquitecto e tenente Aucíndio Ferreira dos Santos (?-?), [que terá vasta obra na cidade do Porto e em Vila Nova de Gaia];

A esta administração da cidade com um novo enquadramento político impõe-se de imediato dar continuidade ao “programa” que a República vinha desenvolvendo para a cidade.

Esse programa consistia, entre outras realizações, a continuação da monumentalização do centro da cidade nomeadamente o eixo Praça da Liberdade/ Avenida dos Aliados, quer pela edificação dos edifícios públicos (Paços do Concelho, Banco de Portugal e Caixa Geral dos Depósitos) quer pelos de iniciativa privada;

Competia ainda com a comparticipação da Administração Central promover, construir ou concluir os edifícios ligados ao Ensino nomeadamente os ligados à Universidade (criada em 1911);

Avançar com as obras destinadas ao porto de fluvial e ao porto de Leixões criando as condições para este se tornar um porto comercial;

Intervir na Orla Marítima da Foz do Douro criando as condições para a promoção do Turismo balnear;

Ampliar a rede de transportes colectivos (eléctrico) e adequar a cidade às novas condições impostas pelo crescimento do tráfico motorizado.

 



"The blue guides Southern Spain and Portugal”, edited by Findlay Muirhead; Published by Macmillan & co., Ltd, London & Librairie Hachette, Paris.

 

 

 



[1] Decreto-lei n.º 11:840 de 5 de Julho de 1926.

[2] O Comércio do Porto de 8 de Julho de 1926.

[3] Será o responsável pela repressão da revolta no Porto no ano seguinte.

sábado, 9 de maio de 2026

Poema do arquitecto 8

 



Paul Cézanne (1839-1906), Rochers à Fontainebleau c.1893. óleo s/tela 73,3 x 92,4 cm. The Metropolitan Museum of Art. N.Y.


“Caminho entre muros e contemplo

Os alicerces de uma casa, ou ali onde

Uma árvore, como um dedo tisnado, brota da terra;

E lanço para a frente a imaginação

Sob a luz do dia que desvanece, invoco

Imagens e memórias

De ruínas ou de árvores ancestrais,

Pois a todas elas interrogarei.”

W.B.Yeats [1]

 


Majestosas florestas ou castelos em ruinas

ruins escolhos tudo podes sempre contornar

assim desenhando sem receios e sem medos

recintos ou casas qualquer abrigo para habitar 

Contorna os obstáculos que fores encontrando

procurando responder nada tentando perverter

encontra formas justas com a razão acertando

tudo o que desse sítio fará um lugar para viver.

 



[1] William Butler Yeats (1865-1939). The Tower II (1928). In The Collected Poems of W.B.Yeats. MacMillan and Co., Limited. New York 1951. (pág.192 e193).

I pace upon the battlements and stare
On the foundations of a house, or where
Tree, like a sooty finger, starts from the earth;
And send imagination forth
Under the day's declining beam, and call
Images and memories
From ruin or from ancient trees,
For I would ask a question of them all.

sexta-feira, 8 de maio de 2026

poema curto 24

 

poema curto 24

 

Joseph Mallord William Turner (1775-18519), Landscape with Water, c.1840. Óleo s/tela,121,9 x 182,2 cm. Tate Britain.

 "Quem pode obstar a esta torrente, que vem, com pé leviano e peca sombra, interceptar o sentido dalguma coisa que nasce do seu próprio sentido? "  Agustina Bessa Luís[1]

 

pegajosas gotas nas louras praias

o sinal dos naufrágios onde passei

 

 



[1] Agustina Bessa-Luís, A Muralha, Guimarães Editores, Lisboa 1957, (pág.38).

segunda-feira, 4 de maio de 2026

Aspectos da cidade do Porto 1926 1

 

Aspectos da cidade do Porto 1926 1

"Mas a cidade não diz o seu passado, contém-no como as linhas de uma mão, escritas nas esquinas das ruas, nas grades das janelas, nos corrimões das escadas, nas antenas dos para-raios, nos mastros das bandeiras, cada segmento marcado por sua vez de riscos, entalhes, cortes e arranhões"   Ítalo Calvino  [1]



fig. 1- Fotografia da Foto Beleza n.º 83 In Porto. Margens do Tempo. Livraria Figueirinhas Porto.

 

I Parte – O Porto antes do 28 de Maio

 
A situação política

A cidade do Porto vive e acompanha, no início do ano de 1926, a crise política, económica e social que se vai agravando, de uma República cansada com mais de 15 anos de existência.

Ao longo do ano que então finda, sucedem-se quarto governos da República [2] sendo que está em funções o 45.º governo da República, liderado por António Maria da Silva (1872–1950), nomeado a 17 de Dezembro de 1925. (Será exonerado a 30 de Maio de 1926, após o 28 de Maio de 1926.)

Nos finais de 1925, durante o 44º Governo liderado por Domingos de Oliveira, o jornal O Commércio do Porto, pela pena de J. M. [3] advertia:

“A situação de Portugal é grave.

Economicamente, todos sentimos a crise que se avizinha a passos de gigante. É o commercio, é a industria, é a agricultura, é a finança, é o operário, é o povo, somos todos, que olhamos com terror para o futuro, para o dia de amanhã, sem podermos saber o que elle será.

Politicamente, vivemos num cahos.” [4]

 Em 8 de Novembro de 1925 realizam-se eleições legislativas. Foram as últimas eleições legislativas realizadas na vigência da Constituição de 1911.

No Porto, O Commercio do Porto de 15 de Novembro apresenta a lista completa dos Senadores e Deputados eleitos pelo Porto.

fig. 2 -  O Commercio do Porto 15 de Novembro de 1925.

 

Candidatos eleitos

Armando Marques Guedes

António Alves Cálem Júnior

Eduardo Ferreira Santos Silva

Henrique Pereira de Oliveira

Alberto Nogueira Gonçalves

Amílcar da Silva Ramada Curto

José Domingos dos Santos

João de Pina Morais Júnior 

Em 5 de Dezembro é noticiada nas páginas do jornal O Século a fraude de Alves dos Reis [5], que contribuiu, pelas suas repercussões económicas, para abalar - a já frágil - economia do País.

Em 11 de Dezembro de 1925, Manuel Teixeira Gomes (1860-1941), presidente desde 5 de Outubro de 1923, renuncia ao cargo, sendo substituído por Bernardino Machado (1851-1944) que de novo assume o cargo até ao golpe militar de 28 de Maio de 1926.

 O Governo da Cidade

A Câmara Municipal do Porto tem em 1926, como presidente Alberto Pereira Pinto de Aguiar (1868-1948) médico, professor da Universidade do Porto e Presidente do Senado de 2 de Janeiro a 30 de Junho de 1926, que presidirá à CMP desde 2 de Janeiro até ao golpe militar do 28 de Maio sendo exonerado a 30 de Junho de 1926. [6]

Na segunda-feira, 4 de Janeiro de 1926, reúne a Comissão Executiva da Câmara Municipal elegendo para presidente Vasco Nogueira de Oliveira (1880-?).

Desta Comissão Executiva faz parte, entre outros o historiador de arte, Aarão de Lacerda (1890-1947). [7]

 



[1] “Ma la città non dice il suo passato, lo contiene come le linee d’una mano, scritto negli spigoli delle vie, nelle griglie delle finestre, negli scorrimno delle scale, nelle antenne dei parafulmini, nelle aste delle bandiere, obni segmento rigato a sua volta di graffi, seghettature, intagli, svirgole.” Italo Calvino Le città e la memoria 1in Le città invisibile Einaudi Torino 1972 (pág.4)

[2] O 42.º governo da República nomeado a 15 de Fevereiro de 1925 e exonerado a 1 de Julho do mesmo ano, liderado por Vitorino Guimarães (1876–1957).

O 43.º governo da República que ficou conhecido como o Governo dos Bonzos, nomeado a 1 de Julho de 1925 e exonerado a 1 de Agosto do mesmo ano, liderado por António Maria Silva (1872–1950) e do qual fez parte como Ministro da Instrução Eduardo Santos Silva (1879–1960).

O 44.º governo da República nomeado a 1 de agosto de 1925 e exonerado a 17 de dezembro do mesmo ano, liderado por Domingos Leite Pereira (1882–1956).

E por último, o 45.º governo da República nomeado a 17 de dezembro de 1925, liderado por António Maria da Silva (1872–1950). (Será exonerado a 30 de maio de 1926, após o 28 de Maio de 1926.)

[3] Será Joaquim Manso (1878-1956)?

[4] O Commercio do Porto Sábado14 de Outubro de 1925 JM.

[5] Artur Virgílio Alves Reis (1896-1955).

[6] A Câmara Municipal do Porto teve, em 1925, como Presidente interino José Pereira da Silva (?-?) entre 2 de Janeiro e 12 de Março de 1925, data em que é eleito António Joaquim de Sousa Júnior (1878-1931), o qual presidirá de 12 de Março de 1925 a 31 de Dezembro de 1925.

[7] Acta da reunião de 4 de Janeiro 1926. AHMP.


A população do Porto em 1926

Em 1925 foi realizado um Censo Extraordinário  da população das cidades de Lisboa e do Porto, justificado em carta ao Ministro pelo director do INE Vitorino Henriques Godinho (1878-1962): “Estes trabalhos, feitos geralmente a meio do período decenal, entre os dois recenseamentos gerais, são da maior utilidade, porquanto servem de rectificação e verificação dos trabałhos anteriores e permitem seguir mais atentamente e com maior segurança a vida dos grandes centros e o estudo e marcha de alguns fenómenos que tendo nela uma maior intensidade reflectem também um pouco da vida social do resto do país.” [1] 

Segundo este Censo a população do País era de 6.032.991 habitantes e a população da cidade do Porto era em 1 de Dezembro de 1925 de 215 625 habitantes sendo 98 313 do sexo masculino e 117 314 do sexo feminino.



fig. 3Censo Extraordinário  da população das cidades de Lisboa e do Porto, 1926. Imprensa Nacional Lisboa 1927 (pág.55).

 

De 1920 a 1925 houve um aumento de 12.534 habitantes ou sejam 2.507 por ano que corresponde 1,23%

A população do Distrito era de 702.166.

Na cidade verificava-se uma atracção da população, pois que os habitantes naturais do Porto (os tripeiros) eram 132.654 (59,14%) e os restantes 82.971 (40,86%) eram estrangeiros ou proveniente de outras localidades.

Comparando com o Recenseamento de 1920, das 15 freguesias então existentes na cidade a mais populosa era a do Bonfim, seguida pela de Cedofeita, apesar do crescimento das freguesias de Paranhos, Campanhã e da freguesia central de Santo Ildefonso.

 


fig. 4 - Censo Extraordinário  da população das cidades de Lisboa e do Porto, 1926. Imprensa Nacional Lisboa 1927 (pág.53).

As freguesias do núcleo medieval, Miragaia, S. Nicolau, e Sé, tinham um crescimento reduzido. E a freguesia da Vitória tinha mesmo um decréscimo.

As freguesias de Nevogilde e de Aldoar continuavam com uma ocupação muito reduzida.

As restantes freguesias (Foz do Douro, Lordelo, Massarelos, Ramalde) tinham um crescimento normal.

Freguesias

1920

 1925

1930

1940

Aldoar

1 306

1 539

1 874

1 749

Bonfim

33 402

37 331

38 418

41 260

Campanhã

19 184

21 489

23 621

25 972

Cedofeita

33 020

33 584

36 520

41 835

Foz do Douro

7 751

7 961

8 088

8 491

Lordelo do Ouro

8 054

8 578

8 600

9 440

Massarelos

8 956

9 303

9 201

11 148

Nevogilde

1 887

2 197

2 485

2 419

Paranhos

21 286

22 578

25 853

34 498

Ramalde

9 818

10 481

12 306

13 808

Miragaia

6 369

6 837

7 130

7 519

S. Nicolau

5 435

6 042

6 347

7 881

Santo Ildefonso

22 718

22 867

24 483

25 581

14 067

16 345

16 689

16 876

Vitória

9 027

8 193

8 179

9 578

Total

202 310

215 625

229 794

258 548

fig. 5 - Fonte: A Cidade do Porto: Súmula Estatística (1864-1968). INE.


Em 1925, Aurora Teixeira de Castro [2] escreve uma Monografia da Cidade do Porto publicada em 1926. [3]

 


 fig. 6 - Gráfico n.º 1 Distribuição da população por classes, em 1920. in Aurora Teixeira de Castro (1891- 1938), Monografia da cidade do Pôrto. Composto e Impresso nas Oficinas da Secção de Publicidade do Museu Comercial. Lisboa 1926.

 Baseado nesta Monografia podemos afirmar que do ponto de vista qualitativo a cidade continuava a atrair populações, nomeadamente as que vinham trabalhar para as fábricas, oficinas e obras existentes (2 586 + 82 + 39 658); gente que vinha trabalhar para o comércio e serviços, já então em desenvolvimento no centro (19 370); trabalhadores dos transportes (5 624) e uma classe média formada por médicos, engenheiros, advogados, arquitectos e outros profissionais liberais (2 984) e ainda por aqueles (2 844) que estavam ligados à Administração Pública incluindo a Universidade; e os que pertenciam às forças de segurança (4 075).

Finalmente uma elite financeira e industrial de que faziam parte banqueiros, grandes empresários, comerciais ou industriais, e ainda proprietários.

De um modo geral, estas diferentes classes distribuíam-se pelos edifícios e pelo espaço da cidade de uma forma diferente.

Os operários ocupavam as “ilhas” e edifícios degradados, espalhados por toda a cidade edificada, mantendo um grave problema de alojamento.

A população da pequena burguesia ocupava os edifícios do início do século ao longo das ruas principais existentes nomeadamente os tradicionais acessos à cidade.

A classe média instalava-se nas novas zonas então urbanizadas ou em urbanização, adjacentes a novos traçados viários, como a avenida dos Combatentes (aprovada em 1925 e aberta e edificada nos anos seguintes); a rua Guerra Junqueiro (assim chamada a partir de 1923 com a morte do poeta); a avenida que em 30, se chamará Marechal Gomes da Costa e o prolongamento da Foz do Douro para Nevogilde (a Foz Nova) pela avenida que no ano de 1926 se chamará de Montevideu.

A elite burguesa da classe média alta, ocupava diversos palacetes nas zonas da Boavista, do Campo Alegre, da Foz e de Campanhã.

 



[1] Censo extraordinário da população das cidades de Lisboa e Porto: 1 de Dezembro de 1925, Lisboa, Imprensa Nacional, 1927.

[2] Aurora Teixeira de Castro (Porto 18911938) foi notária, advogada, autora, e vice-presidente do Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas fundado em 1914.

[3] Aurora Teixeira de Castro (1891- 1938), Monografia da cidade do Pôrto. Composto e Impresso nas Oficinas da Secção de Publicidade do Museu Comercial. Lisboa 1926.