O Rosto do Porto em Rodrigo
Cabral
« Tempora mutantur, nos
et mutamur in illis » Ovídio [1]
Rodrigo Cabral é um artista cívica e
politicamente engagé, com uma
permanente atitude crítica e denunciadora, procurando neste período da sua
pintura sublinhar, ironicamente os objectos banais ou “kitsch”, desmitificando
a sua promoção pelo consumismo e pelo conformismo social, sem nunca perder,
contudo, a dimensão plástica e estética da pintura.
Uma pintura que não quer ser interrogada,
mas que quer interrogar.
Uma pintura que mostra e interroga os, então, símbolos e mitos, da
cidade do Porto. O futebol, o vinho do Porto, ou do país como o Galo de
Barcelos e mesmo a bandeira nacional.
fig. 7
- Rodrigo Cabral “Pipa Voadora” 1983. acrílico
s/ tela 95 x 70 cm.cm. Col. particular.
O quadro sobre um fundo dividido em faixas e em que domina a cor azul,
tem rigorosamente ao centro e atraindo a atenção do espectador a figura de um
jogador de futebol cavalgando uma pipa, voando sobre o Rosto da cidade do
Porto.
A figura central do quadro cavalga uma pipa com as mitológicas asas da
Fama, de onde escorrem, sobre a cidade, num apontamento inesperado, poético e
surrealista, uvas brancas “como as
uvas da alegria.” [2]
Na pipa está escrito Real Companhia Velha,
remetendo para a história centenária do Vinho do Porto que, a partir do século
XVIII - daí a paisagem da cidade que figura no quadro - com a criação da Real
Companhia das Vinhas do Alto Douro, se tornou uma das bases da economia da
cidade e natural componente da sua identidade.
Por isso a pipa bate as asas da Fama
exportando-se do Porto para o mundo.
"Vinho
do Porto
Vinho de Portugal
E vai à nossa
À nossa beira-mar
À beira Porto
Há vinho Porto mar
Há-de haver Porto
Para o nosso mar” [3]
Um desses países era (e é) o Brasil. Brasil onde uma pipa voadora é o que nós chamamos de papagaio de papel com que
brincámos nas praias.
Na base do quadro um perfil
da cidade naquela
hora onde “uma transcendência de
melancolia paira e comove-nos”. [4]
Sob um céu onde “um pouco das sombras
serenas / que as nuvens transportam por cima do dia”, [5] surgem nuvens douradas
quando o sol se põe e ilumina o Porto, a cinzenta cidade de granito que aqui se
quer setecentista, portuária e atlântica, já que nela sobressai o símbolo que é
a Torre dos Clérigos simultaneamente austera e exuberante, junto do Paço
Episcopal, que irrompe subitamente branco no seu reboco, ocultando a Sé onde
apenas as suas bolbosas Torres se erguem no seu granito escurecido.
O perfil da cidade apresenta-se como um
cartaz podendo servir para uma promoção de um qualquer evento na cidade ou
mesmo para a promoção da cidade do Porto.
fig. 8 – O Perfil da Cidade. Pormenor da pintura Pipa
Voadora de Rodrigo Cabral.
Na parte superior do quadro, os emblemas dos outros dois clubes da
cidade com êxitos desportivos, o Boavista Futebol Clube e o Sport Comércio e
Salgueiros (agora despromovidos) e mais abaixo o emblema do FCP parcialmente
representado.
Todos estão assombrados pela silhueta colorida do Galo de Barcelos.
Evocando a revolucionária irreverência que
então se afirmava contra a austera e retrógrada sociedade portuguesa, no lugar
da cabeça do futebolista surge uma referência simétrica ao logotipo Tongue ou
Hot Lips da banda inglesa Rolling Stones, uma provocadora língua de fora
às reumáticas convenções sociais e artísticas que persistiam no Portugal de
então.
Destes barros de
Barcelos, o galo, animal carregado de múltiplos e muito antigos simbolismos.
Rodrigo Cabral
utiliza-o na sua figuração mais turística, nesta e em outras pinturas desta
época, por vezes colando pequenos Galos de Barcelos na parte superior dos seus
quadros, como uma crítica ao uso e ao abuso do Galo como símbolo de Portugal.
“ó Portugal, se fosses só três sílabas
de plástico, que era mais barato!” [6]
A Bandeira Nacional, como o tema entre todos
o mais reconhecível, é um dos temas utilizados pela Pop Art nomeadamente Jasper
Jonhs (1930) com a sua série de Bandeiras dos Estados Unidos realizada a partir
de 1951.
Na verdade, a pintura A Pipa Voadora de Rodrigo Cabral, vista nos nossos dias parece uma
visão precoce dos símbolos e dos mitos da cidade e de Portugal.
O Vinho do Porto agora acompanhado pelos
vinhos de mesa do Douro tornou-se de novo um dos valores seguros da economia da
cidade.
A zona histórica do Porto foi promovida, em
1996, a Património da Humanidade e a Torre dos Clérigos, é agora o símbolo por
excelência da cidade.
O Galo de Barcelos, nas suas diversas
variantes, e apesar das suas origens, tornou-se o símbolo da cidade de Barcelos
e o mais identificador de Portugal. É o mais procurado objecto de artesanato
pelos turistas mesmo pelos que visitam a cidade do Porto.
O Futebol hoje tornou-se global e como
cultura dominante no nosso país é um obsessivo tema da comunicação social em
jornais e programas diários na rádio e na televisão. E o F.C. do Porto, depois
das vitórias europeias e nacionais, por vezes com alguma intolerância
desportiva, foi sendo associado à cidade como um dos elementos da sua
internacionalização.
A Bandeira Nacional só se tornou um símbolo verdadeiramente popular
com a sua exibição por todo o país, durante o Campeonato Europeu de Futebol,
realizado em Portugal em 2004.
[1]
Os tempos mudam e nós mudamos com eles.
Citação em latim, inspirada em Ovídio e popularizada no século XVI, in Adolf
Loos (1870-1933), Paroles dans le vide (1897-1900) tradução em francês de
C. Heim, Ivréa, Paris, 1994. Como no célebre soneto de Camões: Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades…
O regresso da pintura ao Rosto da Cidade
Algumas pinturas e alguns artistas
““houve pintores do porto
que inventaram assim
para seu uso o porto,…” [1]
Cesar Netto
“ o nevoeiro se dissipa / Quando o sol sobe sobre o rio, / E há farrapos de coisas que começam // A fazer sentido /E voam pombos em espiral / Pelo topo dos casarios.”
fig. 9
– Cesar Netto (n.1944), Neblina
na Ribeira 1984. Óleo s/tela, espatulado s/dim. Col. particular.
A pintura de César Netto (n.1944) está
centrada na praça da Ribeira que como “Um buraco negro "aspira" todos os
buracos negros, todos os olhos, todos os rostos, enquanto a paisagem é um fio
que se enrola até à sua extremidade em torno do buraco.”
António Bessa
E por
vezes, no Rosto da Cidade, com “as suas sombras negras e douradas” a ponte esconde-se na vela
de um rabelo, para mostrar o rio e a cidade aguarelados em azul e ouro.
fig. 10 – António
Bessa (n. 1953), Ribeira. António Bessa Facebook
Dois desenhos de arquitectos: António Moura e Gerard Michel
“Não há um rosto que não envolva uma paisagem
desconhecida, inexplorada, não existe uma paisagem que não seja povoada por um
rosto amado ou sonhado, que não desenvolva um rosto ainda por vir ou já
passado.”
António Moura
António Moura trabalhou no Cruarb
durante largos anos e por isso conhece muito bem a Ribeira e o Centro Histórico
do Porto.
fig. 11 – António Moura, Da Ribeira até à Sé.1984. Desenho
aguarelado. s/dim. António Moura, Facebook 17/03/2015.
Gerard Michel
“Que respiração tão alta da brisa fluvial!
Afluem energias de uma violência suave
Minúcias musicais sobre um fundo de brancura
A certeza de estar na fluidez animal”
fig. 12 – Gerard Michel (n.1946) Porto 23-03-2012.
No desenho do Porto de Gérard Miche (n. 1946), o olhar
seco e rigoroso com que o arquitecto desenha, numa grafia minuciosa nos seus
detalhes, a colina da Sé, é interrompido pela pincelada, gesto verde e
informal, que cria a sombra da ponte caindo sobre o Douro, dando ao desenho uma
profundidade que humaniza o Rosto da Cidade.
Vasco d’Orey Bobone
“Oh! cidade, cidade, que trasbordas
De vícios, de paixões e de amarguras!” Alexandre Herculano
Vasco d’Orey Bobone (n.1944), um pintor de visita ao Porto, pinta o
Porto, como nota Agustina Bessa-Luís “…levemente (…) desmaia da sua sombra, como alguém
que sorri não sabendo bem o que isso é.” .
fig. 13 – Vasco d’Orey Bobone () (vista do Douro) 2003. Aguarela
in Espírito do Porto (pág. 43).
Vasco d’Orey Bobone aguarelou os recantos mais significativos da cidade, entre os quais
esta vista panorâmica do Douro entre o Porto e Gaia "Dois rostos frente a
frente, mas de perfil para o observador, cujo encontro já está marcado por uma
separação ilimitada. Ou então rostos que se evitam, pela traição a que os
levaram."
Joaquim Costa
Um
regresso à consolidada imagem do Rosto da Cidade, vista do miradouro da Serra
do Pilar.
fig. 14 – Joaquim Costa (n.1958) Vista do Porto Facebook
Para
terminar citemos Alberto Savinio
“Na fachada dos edifícios não está apenas inscrita a data
da sua construção, mas os estados de espírito, os costumes e os pensamentos
mais secretos do seu tempo.”
O que Alberto Savinio escreve sobre a fachada dos
edifícios pode estender-se à fachada de uma cidade ou a estas imagens do Porto,
o Rosto da Cidade.
[1]
Vasco Graça Moura, poesia reunida. Vol. I 1962-1997. Quetzal Editores Lisboa
2012. (pág. 413)
[2]
Vasco Graça Moura, XIII, o sol sobre o rio, o concerto campestre poesia
reunida. Vol.
I 1962-1997. Quetzal Editores Lisboa 2012. (pág. 417).
Un trou noir « accrête »
tous les trous noirs, tous les yeux, tous les visages, en même temps que le
paysage est un fil qui s'enroule à son extrémité finale autour du trou.
Gilles Deleuze (1925-1995) e Felix-Pierre Guattari (1930-1992), Mille Plateaux.
Les éditions de minuit, Paris 1980. (pág.
224).
Vasco Graça Moura, poesia reunida. Vol. I 1962-1997. Quetzal Editores
Lisboa 2012. (pág.
212)
Pas un visage qui n
'enveloppe un paysage inconnu, inexploré, pas de paysage qui ne se peuple d'un
visage aimé ou rêvé, qui ne développe un visage à venir ou déjà passé. Gilles Deleuze (1925-1995). Felix-Pierre
Guattari (1930-1992), Mille Plateaux. Les éditions de minuit, Paris 1980. (pág. 212).
[8]
Alexandre Herculano, A Arrábida (1930) in A Harpa do Crente. Tentativas
poéticas. Na Typ. Da Sociedade Propagadora dos Cinhecimentos Uteis. Lisboa1838
(pág. 56)
Agustina
Bessa-Luís, Aguarelas – o Porto in Espírito do Porto Global Notícias 2004. (pág. 6).
Deux visages face à face, mais de profil pour l 'observateur, et dont la
réunion se trouve déjà marquée d'une séparation illimitée. Ou bien les visages
qui se détournent, sous la trahison qui les emportent. Gilles Deleuze
(1925-1995). Felix-Pierre Guattari (1930-1992), Mille Plateaux. Les éditions de
minuit, Paris 1980. (pág. 224).
[11]
Andrea Francesco Alberto de Chirico (1891-1952), escritor, pintor e compositor.
Era o irmão mais velho do pintor Giorgio De Chirico.
[12]
Sulla facciata degli edifici non è scritta soltanto la
data della loro nascita, ma sono scritti gli umori pure, i costumi i
pensieri più segreti del loro tempo.» Alberto Savinio (1891-1952) Ascolto il tuo cuore
città, (1944) 6ª ed. Adelphi, Milano 2013, (pág, 215).