quinta-feira, 7 de outubro de 2021

 



David Teniers, o Jovem (1610-1690), O Outono 1644, óleo s/ cobre, 22,1 x 16,4 cm. National Gallery Londres.


Soneto para o meu 77º aniversário 

 

São já setenta e sete anos que a mim chega, amadurecido

com uma outra cuidada lucidez, mais um feliz novo outono.

Neste silêncio de tardes cinzas e neste sopro de abandono

é o seu aveludado abraço que agora ganha novo sentido.                                                                

 

Tropeço no outubro dourado que em mim sempre está escrito,

mas não me vou entristecer ao olhar estes fragmentos e ruídos,

porque na alegria que me renova, nunca me perco em descuidos.

Sei que as folhas mudam, mas ficam as raízes em terra de granito.

 

No outono onde de novo tudo é novo, eu renasço em vida.

E se Mnemosine sempre inventa, segreda, cria e conspira

dando cores e tons àqueles fragmentos de lembrança tecida,

 

essa memória que sabe sempre que sabe, mesmo o que evita,

e que vai mapeando os lugares onde nunca estive ou jamais vira

é, sempre será, aquele lugar onde, em mim, a liberdade habita.


7 de Outubro de 2021

quarta-feira, 15 de setembro de 2021

 Ocupado com outros afazeres em breve continuarei a publicar os Apontamentos sobre Lisboa e Sevilha nos séculos XVI e XVII.

quarta-feira, 14 de julho de 2021

Apontamentos sobre a Lisboa e Sevilha nos séculos XVI e XVII (9)

 

Apontamento 9 – Sanlucar de Barrameda

 

“…tú por ser Guadalquivir,

Guadalquivir por ser mar;”  [1]


Se o Civitates, com a imagem de Sevilha, apresenta imagens de Cadiz e Málaga, o porto que, verdadeiramente dava acesso à cidade de Sevilha, era Sanlucar de Barrameda distante 12 léguas, na margem esquerda do Guadalquivir, e junto à sua foz, como aponta Andrea Navagero (1483-1529): “Da Sevilla alla bocca del Baetis che è San Lucar de Barrameda sono leghe 12. [2]

 

De Anton van den Wyngaerde (1525-1571), um flamengo ao serviço de Felipe II, que percorreu Espanha entre 1561 e 1567, existe um desenho com uma vista de Sanlucar de Barrameda.

 


fig. 66 - Anton van den Wyngaerde (c. 1525-1571), vista de S. Luca (Sanlucar de Barrameda) 1567. Desenho 293 x 837 cm. Ashmolean Museum de Oxford.

  

Juan Escalante de Mendonza (Ihoan d’Escalante de Mendoça c.1530-1596), escreveu em 1575, um tratado de navegação manuscrito e intitulado Itinerario de las tierras de Navegación de los mares y tierras Occidentales, o qual por conter informações que - como era habitual na época - não podiam cair em mãos inimigas, quer fossem de países rivais quer fossem de piratas, não foi então publicado.

Escrito em forma de Diálogos, logo no início narra uma viagem pelo Guadalquivir, desde Sevilha até Sanlucar de Barrameda.

“Comiença el primero libro del itinerário de la navegaciõ, d’los mares y tierras Occidentales, en q havendo llegado el interlocutor nombrado Tristan al puerto del Rio d’Sevilla, vió un barco presto para ir por el mesmo Rio al Puerto d’Sanct Lucar d’ Barrameda y perguntando al Arraez y marineros si le quieren llevar ênel, sele escusan d’llo, y llegado el Piloto que lo tenia fletado a su costa para su navegacion, se comiença entre ambos el primero diálogo sobre la navegacion d’lo mesmo Rio, hasta llegar al puerto d’Sanct Lucar, en que se platican y tratan cosas utiles y necessárias a ello tocantes…”  [3]

 

E o poeta e dramaturgo Lope de Vega, nas suas comédias refere diversas vezes Sanlucar.

Na comedia El Ruiseñor de Sevilla refere a importância do porto de Sanlucar entrada para a prata vinda das minas de Potosi nas Índias ocidentais.

“……………… en Sevilla

Linda ciudad, bella pátria,

La mejor huerta es la tuya,

Vine en noble calle, y casa,

Por la barra de Sanlucar

Te vienen barras de plata” [4]

 

Em outra comédia El Amante agradecido, onde músicos e cantores entoam uma canção sobre esses barcos de prata que chegam a Sevilha vindos de Sanlucar:

“Vienen de san Lucar,

rompiendo el agua,

a la torre del oro,

barcos de plata.” [5]


E ainda Lope de Vega, numa outra comédia El Desprecio agradecido de cerca de 1633, coloca uma das suas personagens Sancho (que explicitamente evoca o Sancho de Cervantes), também referindo Sanlucar.

“En el monte de San Lucar

que mira verdes cabelos

de sus pinos en las aguas

del mar de España soberbio,

cuando parten a las Indias

los navegantes modernos,

que codiciosos del oro,

no ven los peligros ciertos,

hay un Gatazo señor,

que, sentado en uno de ellos

está diciendo: tornau,

tornau, donando los ecos

en las Naves, con que muchos

se desembarcan de miedo.” [6]

 

Finalmente, a personagem Rojas na comédia El Viagem Entretenido, de Agustin Rojas Villandrando (1572-1635), refere San Lucar como a entrada do Guadalquivir:

“Ro. - Mançanares por humilde, bien pudiera entre todos tener nombre? pues

si toda la riqueza de Sevilla, y aun el remedio de toda España, entra por

Guadalquivir, desde san Lucar: ya en Mançanares hemos visto toda la hermosura, alegria, y recreacion del suelo, grandeza y magestad del mundo, cifrada en su manto, criſtalino, y deleytoso rio.” [7]



[1] Luis de Gongora y Argote (1561-1627), A don Rodrigo Calderón, en su mayor privanza. (1612?), in Obras Completas de Don Luis de Gongora. Edicion de Juan Millé y Guimenez y Isabel Millé y Guimenez. M.  Aguilar editor Madrid 1900 (pág. 433). [Rodrigo Calderon de Aranda (1576-1621)]

[2] Andrea Navagero (1483-1529), Il Viaggio fatto in Spagna, et in Francia, dal Magnifico  M. Andrea Navagiero, fu oratore dell’Ilustrissimo Senato Veneto, alla Cesarea Maesta di Carlo V. Com la descrittione particolare delli luochi, & costumi delli popoli di quele Provincie. In Vinegia apresso Domenico Farri. 1563.

[3] Juan d’Escalante de Mendoza, Itinerario de navegación de los mares y tierras occidentales 1575, Transcripción de Martín Navarrete, realizada en 1791, manuscrito conservado en la Biblioteca Nacional, Madrid. (pág. 13). [Martín Fernández Navarrete (1765-1844)]

[4] Lope de Veja Carpio (1562-1635), El Ruyseñor de Sevilla in Decimaseptima parte de Las Comedias de Lope de Veja Carpio.En Madrid. Por la viuda de Fernando Correa. Madrid Año 1622. (pág. 191).

[5] Lope de Veja Carpio (1562-1635), El amante agradecido in Decimaseptima parte de Las Comedias de Lope de Veja Carpio.En Madrid por la viuda de Alonso Martin de Balboa, a costa de Miguel de Siles, 1618 (Acto III, pág.125). BNE.

[6] Lope de Vega Carpio (1562-1635), El Desprecio Agradecido, in Parte Veintecinco, Perfeta y verdadeira, de las Comedias del Fenix de España Frey Lope Felix de veja Carpio, del Abito Sã Iuan, Familiar que fue del Santo Oficio de la Inquisicion, Procurador Fiscal de la Camara Apostolica.En Zaragoza, Por la Viuda de Pedro Verges. Año 1647. (pág. 80).

[7] Agustin Rojas Villandrando (1572-1635), El Viagem Entretenido de Agustin de Rojas, natural de la villa de Madrid. En la Emprenta Real. En Madrid 1603. (pág. 58).

 

terça-feira, 13 de julho de 2021

Apontamentos sobre a Lisboa e Sevilha nos séculos XVI e XVII (8)


Apontamento 8 - A vista de Sevilha de 1572

 

 A vista de Sevilha que figura no Civitates Orbis Terrarum de Georg Braun (1542-1622) e Franz Hogenberg (1535-1590), publicado em 1572, e que já apresentamos no Apontamento 3, é atribuída a Joris ou Georg Hoefnagel (1542-1600).

fig. 51 - Georg Braun (1542-1622) e Franz Hogenberg (1535-1590), Hispalis, Sevilla Taraphae, celebre et pervetustum in Hispania 1572. Civitates Orbis Terrarum Vol. I 1572.

 

Tem na cartela do canto superior esquerdo: “Sevilla Taraphae*, celebre et pervetustum in Hispania, Baeticae provincia, emporium, quod gaditani maris littus amenissimo situ illustrat”.

["Hispalis, a Sévilha de Tarapha*, célebre e muito antiga em Espanha, da província da Bética, que embeleza o golfo de Cadiz pela sua posição a mais amena.”]

[* Francisco Tarapha (c. 1495-1556), canónico de Barcelona, autor de “de origine ac rebus gestis Regum Hispaniae” (Da origem e das gestas dos reis de Espanha), publicado em Antuérpia em 1533. Publicou também, com Jean Vasaeus ou Jan Waes (1511-1561), Rerum Hispaniae memorabilium annales, Bruges 1577]

 

Curiosamente, a cidade de Sevilha que a partir do reinado de Carlos V, com a fundação em 1503 da Casa de la Contratacion de Indias, conferiu à cidade o monopólio como Puerto de las Indias, não é aqui apresentada como o grande porto da carreira das Índias, mas (ao contrário da imagem de Lisboa do Civitates da mesma data) é vista de longe, a partir da bucólica margem sul do Guadalquivir, sendo apenas salientados os edifícios que marcam o perfil da cidade.

E, apesar de na imagem, não se destacar o porto e as actividades a ele ligadas, no verso da imagem do Civitates Orbis Terrarum de 1572, é apresentado um texto que refere e salienta a exclusividade de Sevilha no comércio com as Índias:

Pois os sevilhanos, mediante o seu grande tráfego e negócio, só eles gozam deste privilégio, já que não se pode enviar para as Índias nenhum navio que aqui não seja carregado de mercadorias, apetrechado de artilharia, de soldados e de armas, e um conjunto de todos os tipos de coisas, necessárias para uma viagem e navegação tão longa em nome do ilustre Rei da Espanha.

“Da mesma forma, todos os navios que regressam das Índias com grande fortuna, carregados de tesouros de grande valor, são obrigados a desembarcar no porto de Sevilha e aí descarregar.”

 

[“Urbs est Baetice provinciae ad mare Gaditanum clarissima, forma rotunda, aedium pulcherrimarum frequentia niditissimè culta, totiusqu; Hispaniæ emporium florentissimum, quod ex varijs mundi partibus, maximè verò ex India occidentali, quaestus incredibiles facit.

Ad tantum siquidem negotiationis culmen Hispalenses devenére, utipsi soli hoc privilegio gaudeant, quò nullum in Indiam transmittatur navium genus, quin hic mecibus oneretur, machinis & tormentis bellicis, commeatu, milite, omnibusq; ad tantam navigationem requisitis, Serenissimi Hispaniarum Regis nomine instruatur.”] [1]

E o texto em latim no verso da estampa prossegue:

“Sevilha é a cidade comercial mais importante de toda a Espanha, na medida em que recolhe incríveis ganhos dos locais os mais diversos do mundo, mas principalmente das Índias, que se encontram a ocidente. Para além disso, esta cidade beneficia de uma situação bem mais favorável do que outras cidades espanholas, porque os seus campos férteis produzem azeite e azeitonas, e de oliveiras e outras árvores ricas em tâmaras e limões dando razão ao adágio: Aos que Deus ama dá uma casa e uma estadia em Sevilha”.

 

[“Situ, omnes Hispaniæ urbes excellit, agrum habet pinguem ac peramænum, omnis generis frugum, olei, olivarum que feracem, fructuosis conseptum arboribus, maximè palmis & citrijs, quas Narangios Hispani vocant, ut verum fit illud adagium, quod vulgò dici folet: Hominibus, quos Deus amat, Hispali domum largitur & victum.] [2]

 

A Batata

Entre os produtos alimentares trazidos da América sobressai a batata, que se tornará um dos mais populares alimentos no mundo.

Andrea Navagero (1483-1529), o embaixador da República de Veneza, que nessa qualidade se deslocou a Sevilha em 1526, para assistir ao casamento de Carlos V com Isabel de Portugal, posteriormente escreveu um livro intitulado Il Viaggio fatto in Spagna, et in Francia, onde descreve a sua estadia em Espanha.

 Navagero refere que “In Sevilla viddi molte cose delle Indie, & herbi di quel le radici che chiamano Batatas, & le mangiaia, sono de sapor di castagne.” [3]

[Em Sevilha vi muitas coisas das Índias, e ervas uma das quais as raízes que chamam Batatas, e que comidas têm um sabor de castanhas.]


O Guadalquivir e as suas margens

Hoefnagel, o autor da imagem, prefere colocar no primeiro plano “la verde orilla de Guadalquivir”, a sua margem direita, remetendo a imagem de Sevilha para um perfil da cidade que constitui o fundo da estampa.

Lembre-se a importância que então assumem os rios como principais estradas de comunicação.

O Guadalquivir tinha regularmente cheias que inundavam as suas margens.

Assim a imagem salienta as floridas margens do Guadalquivir.

O já citado poema de Francisco de Sá de Miranda (1481-1558), Carta VI, dirigida a D. Fernando de Menezes começa por falar no Guadalquivir:

“Guadalquibir arriba a rica praya

Vistes taõ perigosa, & as maravilhas,

De que contais, que ouvindo homê desmaya.” [4]

 

O sevilhano Luis de Peraza (?-?) na sua obra Antiquísimo origen de la Ciudad de Sevilla, considerada a primeira historia da cidade, escrita entre os anos de 1535 e 1536, realça a importância do Guadalquivir, cujas águas são excelentes, carregadas de pescado e, sobretudo, cuja navegabilidade permite tornar Sevilha o principal porto da carreira das Índias.

E Peraza refere as amenas margens do rio como os Campos Elísios, o local onde na antiguidade os mortos desejavam descansar. [5]


Alonso Morgado (c.1520-1589?), o autor de uma Historia de Sevilla publicada em 1587, refere a envolvente arborizada e florida de Sevilha.

“Como quiera que por todas las partes que se salga de la ciudad es todo Floridos Prados, Palmares, Huertas, Fuentes, Jardines, Vergeles, y Arboledas. Cuyas Flores, Rosas, Azahar, y odoriferas yervas hinchen de celestial fragrância sus alrededores, siêdo como es su maravillosa copia en tanta superabundância, y fertilidade, que no se si osar afirmar, que se destilan, y facan en solamente Sevilla y su tierra, mas aguas de olores, q en todo lo restante de España.” [6]

 

Assim na vista de Hoefnagel, no primeiro plano e na margem do Guadalquivir, estão diversas personagens que gozam uma jornada de descanso e de lazer, nessa visão lírica e amorosa de Sevilha, pondo em confronto a vida dos camponeses e pescadores, com a vida urbana e aristocrática da grande cidade.

 


[1] Georg Braun (1542-1622) e Franz Hogenberg (1535-1590), Hispalis, Civitates Orbis Terrarum Vol. I 1572.

[2] idem

[3] Andrea Navagero (1483-1529), Il Viaggio fatto in Spagna, et in Francia, dal Magnifico M. Andrea Navagiero, fu oratore dell’Ilustrissimo Senato Veneto, alla Cesarea Maesta di Carlo V. Com la descrittione particolare delli luochi, & costumi delli popoli di quele Provincie. In Vinegia apresso Domenico Farri. 1563. (pág. 15).

[4] Francisco de Sá de Miranda (1481-1558). A D. Fernando de Menezes, Carta VI in As Obras de Francisco de Sá de Miranda. Agora de novo impressas. A custa de Antonio Leite, Mercador de Livros, na rua nova. Lisboa M.DC. LXXVII. (pág. 250).

[5] Luís de Peraza, Antiquísimo origen de la Ciudad de Sevilla, su fundación por Hércules Tebano, y posesión de Reyes que la habitaron hasta los moros. Primera Parte. Antiquísimo origen de la Ciudad de Sevilla. Segunda parte en que se contiene desde que la ocuparon los moros hasta su restauración por el Santo Rey Don Fernando lll el Santo. Lib. I Cap. XIV

[6] Alonso Morgado (c.1520-1589?), Historia de Sevilla en la qual se contienen suas Antiguedades…En la Imprensa de Andrea Pescioni y Iuan de Leon. Sevilla 1587. (Libro segundo, pág. 50v).


A descrição da imagem

 

fig. 52 - Georg Braun (1542-1622) e Franz Hogenberg (1535-1590). Hispalis, Sevilla Taraphae 1572. (numerada).

 

A margem do Guadalquivir

 Ao centro dominando a imagem e com o nº 22, o Guadalquivir (antigo Bétis), cujas margens são descritas por diversos autores do século XVI.

Escreve Alonso Morgado:

“En especial se alegra todo con las mareas, y crecientes desa Guadalquivír, siendole a Servilla singular excelencia estar en ella situada en la Ribera deste Rio tao famoso, y celebrado de los Cosmographos, y de qualesquiera historiadores de España. [1]


E Andrea Navagero, sobre as margens do Guadalquivir, refere “tutto il paese è bellissimo, & fertilíssimo, vi sono infiniti boschi di naranzi*, che il Maggio, & tutto il resto de la estate rendono tal soavità di odore, che non è cosa piu grata al mondo. Da quella parte del fiume vi sono rimoti alquanto dalle rive collini fertilissimi, & bellissimi, pieni pur de Limoni, & Cedri, & Naranzi*, e di ogni sorte frutti delicatissimi, tutto però piu per natura, che per arte, perche la gente è tale che vi pone pochíssima cura.” [2]

* Naranzi = Laranjas selvagens e amargas. As laranjas doces foram trazidas do Oriente pelos portugueses e então cruzadas com as ocidentais.

[toda a região é belíssima e fértil, há inúmeros bosques de laranjas (naranzi), que em Maio e todo o resto do verão conferem tamanho odor tão suave, que nada existe mais agradável no mundo. Naquele lado do rio existem algumas belas colinas muito férteis, cheias de Limoeiros, Cedros e Laranjeiras (Naranzi), e todo o tipo de frutas muito delicadas, todas criadas mais pela natureza, do que pela arte, porque as pessoas pouco se preocupam a trata-las.]

 

 

1 – O pormenor da imagem à esquerda

  

fig. 53 - Georg Braun (1542-1622) e Franz Hogenberg (1535-1590). Pormenor de Hispalis, Sevilla Taraphae 1572.

 

Um casal (uma mãe com o filho?) contemplam o rio. (A)

Por trás um pescador na margem do rio (a).

 

2 – O segundo pormenor

 

No primeiro plano dois animais cavalgados por figuras femininas, quemás se puede crer, que eran borricas, por ser ordinaria cavallería de las aldeanas…” como afirma o Sancho no Dom Quixote. [3]

fig. 54 - As duas "borricas, por ser ordinaria cavallería de las aldeanas…"


No primeiro, mais à esquerda, a cavalgadura vai correndo disparada montada por uma aflita amazona. (C)

fig. 55 - Georg Braun (1542-1622) e Franz Hogenberg (1535-1590). Pormenor de Hispalis, Sevilla Taraphae 1572.

 

Na imagem, mais à direita, junto ao rio, vê-se um casal bailando ao som de um guitarrista (B).

 

No segundo, a mula com cestos de carga, transporta uma camponesa (D), que como narra Francisco Ariño sobre Maria de la O,

 

Iba gallarda y briosa

Encima de su jumento

Con grave triunfo y contento [4]

  

fig. 56 - Georg Braun (1542-1622) e Franz Hogenberg (1535-1590). Pormenor de Hispalis, Sevilla Taraphae 1572.

 

Por trás e no rio, barcos de pescadores nas suas fainas (E) e num pequeno braço do rio vai remando o seu barco, um outro homem (e).

 

A quantidade e qualidade do peixe do Guadalquivir, é referida por Alonso Morgado, exagerando, “E yo he visto pescar en el mismo Guadalquivir entre Sevilla, y Triana pescados, que suben de la Mar, mayores cada uno que dos hombres.”

E Morgado afirma de seguida as prerrogativas que tinham os pescadores: “Entre otras excelêcias del Rio Guadalquivir, es una dellas un Previlegio Real muy antiguo, q tienen sus Pescadores lleno de señaladas preeminências, y libertades, de las quales gozan oy dia en su primera forma, y fin que justicia ninguna pueda conocer, ni entremeterse en sus Ordenanças, ni conocer de algunas causas tocantes a su Pesqueria.”  [5] 

  

3 – O terceiro pormenor

 

fig. 57 - Georg Braun (1542-1622) e Franz Hogenberg (1535-1590). Pormenor de Hispalis, Sevilla Taraphae 1572.

 

Na imagem do Civitates, mais para a direita, duas personagens banham-se no Guadalquivir (F).

Há quem aqui veja uma personagem que se está a afogar e outra que ergue os braços pedindo socorro, o que contrastaria com o ambiente de felicidade que se pretende afirmar na imagem. 

No primeiro plano uma confusa imagem (f) onde se (entre)vê um barco com uma figura debruçada e remando.

 

4 – O quarto pormenor

 

fig. 58 - Georg Braun (1542-1622) e Franz Hogenberg (1535-1590). Pormenor de Hispalis, Sevilla Taraphae 1572.

 

Percorrendo a imagem, no extremo à direita, vemos uma mulher sentada junto a uma toalha com alimentos (G), enquanto um grupo com duas dançarinas, se exibe ao som de um tocador de guitarra e uma tocadora de adufe. (H).

Uma possível referência a uma pequena festa cigana, já que esta população habitava na sua maioria o arrabalde de Triana na margem direita do Guadalquivir.

No conjunto da população pobre e marginal que então existia em Sevilha, a comunidade cigana tinha uma injusta má fama de ladrões, esquecendo o seu contributo para a identidade da Andaluzia.

 Miguel de Cervantes escreve no início da sua novela La Gitanilla, publicada em 1613: "Parece que, los gitanos y gitanas, solamente nacieron en el mundo para ser ladrones: nacen de padres ladrones, críanse con ladrones, estudian para ladrones y, finalmente, salen con ser ladrones corrientes y molientes a todo ruedo; y la gana del hurtar y el hurtar son en ellos como acidentes inseparables, que no se quitan sino con la muerte." [6]

E nesta novela, Preciosa, a personagem principal, embora cigana mostra-se muito diferente da comunidade em que está inserida. A justificação surge no final da novela quando se descobre que a Gitanilla, não é uma cigana de sangue, mas Constanza de Azevedo y Menezes, a filha perdida de uma família nobre.

 

Mas Cervantes numa outra das suas comédias, a Comedia Famosa de la Entretenida, descreve um baile:

“El bayle te sé dezir

Que llegara lo possible

En ser dulze y apazible,

Pues tiene que ver, y oyr,

Que há de ser bayle cantado

Al modo y uso moderno,

Tiene de lo grave y tierno

De lo melífluo y flautado.” [7]

 


[1] Alonso Morgado, Historia de Sevilla en la qual se contienen suas Antiguedades…En la Imprensa de Andrea Pescioni y Iuan de Leon. Sevilla 1587. (Libro segundo, pág. 43).

[2] Andrea Navagero (1483-1529), Il Viaggio fatto in Spagna, et in Francia, dal Magnifico M. Andrea Navagiero, fu oratore dell’Ilustrissimo Senato Veneto, alla Cesarea Maesta di Carlo V. Com la descrittione particolare delli luochi, & costumi delli popoli di quele Provincie. In Vinegia apresso Domenico Farri. 1563. (pág. 14).

[3] Miguel de Cervantes Segunda Parte d'el Ingeniosos Cavallero Don Quixote de la Mancha. En Madrid por Iuan de la Cuesta. Año 1615. (Capitulo X, pág. 34).

[4] Francisco Ariño, Sucesso de Sevilla de 1592 a 1604. In Sociedade de Bibliófilos Andaluces. Primera Serie. Imprensa y Libreria Española y Extrangera. Sevilla 1873. (pág. 74).

[5] Alonso Morgado, Historia de Sevilla en la qual se contienen suas Antiguedades…En la Imprensa de Andrea Pescioni y Iuan de Leon. Sevilla 1587. (pág. 54v).

[6] Miguel de Cervantes Saavedra (1547-1616), La gitanilla in Novelas Ejemplares por Miguel de Cervantes Saavedra (1613) Tomo I. Imp. Y Lib. De Jorge Montero Valladolid 1905. (pág. 21).

[7] Miguel de Cervantes Saavedra (1547-1616), Comedia Famosa de la Entretenida, por la viuda de Alonso Martín, a costa de Iuan de Villarroel, Madrid 1615. BNE. (pág. 187).


O perfil de Sevilha

 

A cidade de Sevilha é vista de longe, a partir da margem sul do Guadalquivir, sendo apenas salientados e legendados os edifícios que marcam o perfil da cidade. 

fig. 59 - Georg Braun (1542-1622) e Franz Hogenberg (1535-1590), Hispalis, Sevilla Taraphae, celebre et pervetus tum in Hispania 1572. Civitates Orbis Terrarum Vol. I 1572.


Estão legendadas (e por mim numeradas) da esquerda para a direita, a que apenas faremos breves referências já que serão desenvolvidas no Apontamento 10 quando tratarmos da imagem mais completa de Sevilha de 1588.

 

1 – O primeiro pormenor

No primeiro pormenor com o n.º 1 - S. Geronimo (S. Jerónimo) e o mosteiro de Santa Maria de las Cuevas.

 

fig. 60 - Georg Braun (1542-1622) e Franz Hogenberg (1535-1590). Pormenor de Hispalis, Sevilla Taraphae 1572.

 

O Mosteiro de São Jerónimo de Sevilha foi fundado na propriedade da Buena Vista, a norte da cidade, em 1414 por frei Diego Martinez de Medina (c.1376-1446), conhecido como frei Diego de Sevilha. [1]

 

Andrea Navagero refere o mosteiro de São Jerónimo e o seu aprazível local.

“Fuora della terra vi sono di bellissimi monastery, ma tra gli altri dalla parte che è Sevilla il monasterio di san Hieronimo, de frati Hieronimi, il quale è bellissimo, & di fabriche, & di giaredini pieni di naranzi*, & cedri, & mirti infiniti.” [2]

 

[Fora da povoação existem belíssimos mosteiros, mas entre os do lado de Sevilha, o mosteiro de São jerónimo, dos frades Jerónimos, é muito belo pelo seu edifício e pelos jardins cheios de laranjas e cedros, e infinitas murtas.]

* Naranzi = Laranjas selvagens e amargas. As laranjas doces foram trazidas do Oriente pelos portugueses e então cruzadas com as ocidentais.


E de seguida também refere o mosteiro de las Cuevas:

"Dall’áltra parte del rio vi è il monasterio de las Cuevas di Certosini, che è posto in bellissimo sito & è abondantissimo di Boschi, di naranzi*, & limoni, & cedri, & mirti senza fine, il fiume che li corre appresso le mure del giardino, li da grandíssima gratia, & fa una loggia che a sopra l’aqua, bellissima, han poi una aqua viva di forte che par che non le manca cosa alcuna a quella compita beleza, che puo haver un loco, bom grado hanno i frati che vivono li a montar de li al Paradiso…”  [3]

[no outro lado do rio está o mosteiro de las Cuevas dos Cartuxos, que está situado em um belo local e é muito abundante com bosques, laranjas (naranzi*), e limões, e cedros e murtas sem fim, o rio que corre junto dos muros do jardim, dá-lhes uma grande beleza, e faz uma loggia (alpendre) que acima da água, lindíssima, então tem uma forte água viva que parece não faltar nada naquela consumada beleza, que um lugar pode ter, boa ideia tiveram os frades que aí vivem em aí construir este Paraíso…]



[1] Fray Ioseph de Siguença (1544-1606), La fundacion del monasterio de san Geronimo de buena Vista, en la ciudad de Sevilla in Segunda Parte de la Historia de la orden de San Geronimo. En la Imprenta Real, Madrid Año M.DC. (Cap. IIII, pág. 415).

[2] Andrea Navagero Andrea Navagero (1483-1529), Il Viaggio fatto in Spagna, et in Francia, dal Magnifico M. Andrea Navagiero, fu oratore dell’Ilustrissimo Senato Veneto, alla Cesarea Maesta di Carlo V. Com la descrittione particolare delli luochi, & costumi delli popoli di quele Provincie. In Vinegia apresso Domenico Farri. 1563. (pág. 14).

[3] Andrea Navagero (1483-1529), Il Viaggio fatto in Spagna, et in Francia, dal Magnifico M. Andrea Navagiero, fu oratore dell’Ilustrissimo Senato Veneto, alla Cesarea Maesta di Carlo V. Com la descrittione particolare delli luochi, & costumi delli popoli di quele Provincie. In Vinegia apresso Domenico Farri. 1563. (pág. 14).


 

2- O segundo pormenor 


fig. 61 - Georg Braun (1542-1622) e Franz Hogenberg (1535-1590). Pormenor de Hispalis, Sevilla Taraphae 1572.


No segundo pormenor estão assinalados:

 

2 - S. Laurente (S. Lourenço). Fundado no século XIII, com construções do século XIV e intervenções no interior do século XVI, como o altar mor desenhado por Juan Martínez Montañés (1568-1649).

 

3 - La Puerta de goles (Porta de Goles). Uma das portas principais de Sevilha será Porta Real com a entrada de Felipe II em Sevilha em 1570.

 

Quando em 1570 Felipe II visita Sevilha, Juan de Mal Lara (1524-1571), escreve Recibimiento que hizo la muy noble y muy leal ciudad de Sevilla a la C. R. M. del Rey don Felipe N. S. descrevendo essa visita e algumas das características urbanas da cidade.

Sobre a Porta de Goles ou Porta Real (26), refere Mal Lara: “Era antiguamête llamada la puerta de Hércules, o de Hercoles, y después corrõpiéndose el vocablo se llamó de Goles, porq de unos a otros ha venido esta memoria de Hércules a Sevilla.” [1]

 

E Juan de Mal Lara narra de seguida a monumentalização da porta:  hasta que vino don Francisco Chacón*, Asistête, que fue desta ciudad, y mando con orden de Sevilla, que se edificasse y se alçasse de el suelo, y así se alzó de piedra labrada, con su frontispicios y remates de unos grandes globos y puntas, poniendo de la parte del río las armas de Su Majestad, y de la parte de la ciudad, las que enella tiene en su sello, el sancto Rey dõ Fernando y los santos Arçobispos della, sant Isidro y sant Leandro.” [2]

 

[*Don Francisco Chacon foi quarto Senhor de Casarrubios, Cavaleiro da Ordem de Santiago, Corregedor de Granada, e Assistente de Sevilha.]


4 - La Casa de Colon (Casa de Colombo).

Junto à Porta de Goles situava-se a casa de Hernando Colón (1488-1539), o filho de Cristobal Colón (Cristóvão Colombo).

Juan de Mal Lara assinala que “don Fernando Colón, hijo de don Christoval Colon, el q halló las Indias Occidentales, començó a hazer un edifício, y plantar una huerta de más de cinco mil árboles, por lo largo del río, haziendo que la ciudad por allí tuviesse lustre, y la ribera quedase más fresca, juntó en ella copia de casi veynte mil libros, esperavase de hazer allí un verdadero monte Parnaso, assi por la frescura de la huerta, como por la casa y multitud de libros…” [3]



[1] Juan de Mal Lara (1524-1571), Recibimiento que hizo la muy noble y muy leal ciudad de Sevilla a la C. R. M. del Rey don Felipe N. S. Con una breve descripción de la ciudad y su tierra. En casa de Alonso Escrivano, Sevilla, 1570. (pág. 49).

[2] Juan de Mal Lara (1524-1571), Recibimiento que hizo la muy noble y muy leal ciudad de Sevilla a la C. R. M. del Rey don Felipe N. S. Con una breve descripción de la ciudad y su tierra. En casa de Alonso Escrivano, Sevilla, 1570. (pág. 51).

[3] Juan de Mal Lara (1524-1571), Recibimiento que hizo la muy noble y muy leal ciudad de Sevilla a la C. R. M. del Rey don Felipe N. S. Con una breve descripción de la ciudad y su tierra. En casa de Alonso Escrivano, Sevilla, 1570. (pág. 50).

 

3 – O terceiro pormenor

 

fig. 62 - Georg Braun (1542-1622) e Franz Hogenberg (1535-1590). Pormenor de Hispalis, Sevilla Taraphae 1572.

 

No terceiro pormenor estão assinaladas:

5 - La Magdalena e 6 - S. Paulo (Real Convento de San Pablo dela Orden de Santo Domingo).

Alonso Morgado refere estas duas edificações como: “EL Sacro Convento de San Pablo, que es de la Orden de los Predicadores, en la Collación de la Magdalena, promete en esta ciudad tanta antiguedad, como el q mas, como parece por este Previlegio de merced tambiê del mismo Rey Don Alonso del principio de su Reynado, que denota averse otorgado despues de su fundación.”  [1]

 

7 - Yglesia maior (Igreja maior). A Catedral, dominando todo o perfil da cidade, erguida sobre uma mesquita e terminada en 1506. A Giralda (campanário erguido a partir do minarete mouro), já encimada pelo Giraldillo (1560-1568), escultura realizada por Juan Bautista Vasquez (1510-1588) e executada em bronze por Bartolomé Morel (1504-1579).

 

Andrea Navagero destaca de entre as igrejas, a Igreja Maior, pela sua beleza e dimensão.

“Ha alquante belle chiesie, & massime la Maggiore, che è bellissima, e maggior di quella di Toledo, ma non tanto ornata, ne si ricca.” [2]

[tem umas quantas belas igrejas, mas a Igreja maior, é belíssima e maior que a de Toledo, não tão ornamentada, mas tão rica.]

 

E, de seguida, Navagero refere a Giralda (1560/68), a torre que marca o perfil de Sevilha.

O campanário, foi depois chamado de Torre Giralda, quando foi encimado pelo Giraldillo em 1568, escultura realizada por Juan Bautista Vasquez (1510-1588) e executada em bronze por Bartolomé Morel (1504-1579).

 

Diz Andrea Navagero: “Giunto alla Chiesa vi è un campanile, che è bellissima, & altissima torre, fornita di bellissime campane, & grande, se vi monta per una scala molto piana, & senza gradi, come quella di Venetia, del campanile di san Marco, ma piu commoda, & piu chiara.” [3]

[Junto à Igreja está uma torre sineira, belíssimo e muito alto, com belos e grandes sinos, a que se sobe por uma escada muito suave e sem grades como a de Veneza da torre de São Marcos, mas mais comoda e mais iluminada.]

 

E Juan de Mal Lara la Yglesia Mayor, aquel suntuoso edificio, que es todo de piedra, alta y soberbiamente levantado, sin aver en todo él un madero que lo sustente, ni una teja que lo cubra, por ser todo de piedra, con anchos pilares cuadrados puestos por esquina, tiene cinco naves, siendo la de en medio, que corre de Poniente a Oriente, más alta, y con sus andenes de piedra por donde se puede ver toda.” [4]



[1] Alonso Morgado, Historia de Sevilla en la qual se contienen suas Antiguedades…En la Imprensa de Andrea Pescioni y Iuan de Leon. Sevilla 1587. (pág.132v).

[2] Andrea Navagero (1483-1529), Il Viaggio fatto in Spagna, et in Francia, dal Magnifico M. Andrea Navagiero, fu oratore dell’Ilustrissimo Senato Veneto, alla Cesarea Maesta di Carlo V. Com la descrittione particolare delli luochi, & costumi delli popoli di quele Provincie. In Vinegia apresso Domenico Farri. 1563. (pág. )

[3] Andrea Navagero (1483-1529), Il Viaggio fatto in Spagna, et in Francia, dal Magnifico M. Andrea Navagiero, fu oratore dell’Ilustrissimo Senato Veneto, alla Cesarea Maesta di Carlo V. Com la descrittione particolare delli luochi, & costumi delli popoli di quele Provincie. In Vinegia apresso Domenico Farri. 1563. (pág. 13a)

[4] Juan de Mal Lara (1524-1571), Recibimiento que hizo la muy noble y muy leal ciudad de Sevilla a la C. R. M. del Rey don Felipe N. S. Con una breve descripción de la ciudad y su tierra. En casa de Alonso Escrivano, Sevilla, 1570. (pág. 168 e 169).


4 – O quarto pormenor

 

fig. 63 - Georg Braun (1542-1622) e Franz Hogenberg (1535-1590). Pormenor de Hispalis, Sevilla Taraphae 1572.

 

No quarto pormenor estão assinaladas:

8 - La Casa de la contractacion de las Indias (A Casa da Contractação das Índias).

Criada pelos Reis Católicos em 1503, dava a Sevilha o exclusivo dos produtos das Índias Ocidentais.

Competia à Casa da Contratação em primeiro lugar receber e administrar todo o tráfico e mercadorias que viesse ou partisse para as Índias; desde 1508, sob a direção do Piloto Mor (entre os quais Americo Vespucio 1454-1512) cabia-lhe formar os pilotos de longo curso, recolher os seus relatórios e elementos para a realização de mapas e vistas; funcionava ainda como Tribunal.

Instalada inicialmente junto ao Guadalquivir rapidamente se transferiu para o um edifício no Alcazar, que sujeito a várias transformações se consolidou em 1539.

 

9 - El alcarçel. O Alcázar, (o Palácio Real) com os seus notáveis jardins.

Como salienta Juan de Mal Lara: “La qual es de grande sitio, y de mucha frescura, y como assiento para que los Reyes no se desdeñen de bivir en ella, porque aunque sea obra antigua, y se hayan mudado muchas partes, que están a lo moderno.”  [1]

 

Quando Carlos V aí se casou com Isabel de Portugal, foram efectuadas obras de restauro e foi construído o pavilhão Carlos V (1543/45), segundo a traça de Juan Hernandez (?-?).

Os jardins foram tratados e embelezados nos reinados dos Filipes pelo arquitecto Vermondo Resta (c.1555-1625).

Já antes, o poeta do século XV, Micer Francisco Imperial (c.1372-1408), - reconhecidamente influenciado por Dante Alighieri (1265-1321) e a sua Divina Comedia, - parece descrever os jardins do Alcazar de Sevilha, cidade onde viveu:

“Era çercado todo aquel jardín

d’aquel aroyo, a guissa d’una cava,

e [tien] por muro muy alto jazmin,

que todo a la redonda lo çercava.

El son del agua en [la] dulçor passava

harpa, duçayna, [com] vyhuela de arco;

e non me digan [y] que mucho abrarco:

ca non se sse sy dormia, o [sy] velava.” [2]

 

E Andrea Navagero também se refere ao jardim como o lugar mais aprazível de Espanha.

“Ha un spatio pieno di Naranzi, & Limoni belissimi, & da dietro piu giardini bellissimi, & tra quelli un bosco bellissimo de Naranzi, che non ammette il Sole, & invero non vi è forse il piu dilettevol loco in Spagna.” [3]

[tem um espaço cheio de Laranjas, & Limões belíssimos, & por trás mais belíssimos jardins, & entre eles um bosque belíssimo de Laranjas, que não deixa passar o Sol, & na verdade não vi lugar mais aprazível em Espanha]

 

Na margem do Guadalquivir:

 

10 - Puerta del Arenal (Porta do Areal).

A Porta do Arenal ligava o Arenal à Catedral e por isso, era a porta principal e a entrada simbólica da cidade.

Situava-se entre as Atrarazanas e os bairros da Cesteria (1485), onde se fabricavam cestos e outros objectos de junco, e da Carreteria, assim chamado pelo número de carros que aí circulavam ligados ao transporte de matérias primas para a construção naval, tanoaria e de mercadorias ligadas á navegação.

A porta medieval foi renovada em 1566 por Herman Ruiz II (c.1514-1569).

Tornou-a monumental com duas pilastras toscanas e uma placa comemorativa com uma inscrição no friso.

Luís de Peraza escreve na sua Historia de Sevilla:

“...Puerta famosísima por las grandes mercaderías de diversas cosas, que para cargar en las Naos, que van a las Indias, por ella comúnmente suelen sacar. Tiene esta puerta a un lado el grande arrabal de la Carretería, donde se hacen las pipas y va madera para llevar vino, vinagre, aceite y otras cosas a las-sijas de Indias, por el cual tracto los vecinos de allí son ricos y de muy buen caudal. A mano derecha, saliendo de esta puerta, están las tabernas o casas de trato en abundancia...” Llaman del Arenal a esta puerta, por una gran plaza de arena, muy llena, que tiene

delante de sí, donde hay muchedumbre de cordoneros que hacen maromas, sogas, cabestrantes, etc., cosas necesarias para los que navegan desde Sevilla como para llevarlas al Reino de Portogal”. [4]

 

11 - El Arenal (o Areal)

O Arenal era na margem esquerda do Guadalquivir a zona portuária, uma extensa faixa com aproximadamente 650 metros, entre o rio e a muralha desde a Ponte Triana até à Torre del Oro e ao cais onde se descarregavam os navios. No Arenal ancoravam as embarcações e aí se desenrolava toda a actividade portuária e grande parte da vida da cidade.


12 - La Puerta de Xerez (A porta de Xerez). A porta a oriente junto à Torre do Ouro.

Segundo Rodrigo Caro (?-?), na sua  Antiguedades y Principiado de la Ilustrissima Ciudad de Sevilla, publicada já em 1634, na porta de Xerez “en una tabla de marmol blanco se vem estas letras.”

“Hercules me edificò

Iulio Cesar me cercò

De muros y torres altas,

Y el Rey Santo me ganò

Com Garcia Perez de Vargas.”  [5]

 

[nota - O Rei Santo era Fernando III (1201-1252) que conquistou a cidade aos mouros. E Garcia Pérez de Vargas foi um dos 24 cavaleiros que acompanhou Fernando III na sua campanha da Reconquista em Andaluzia.] 

 

Sevilha, fundada por Hércules e povoada por Júlio César, já era cantada por Alfonso Villasandino no século XIV.

Hércoles que hedificó

La cibdat muy poderosa,

Su alma ssea gozossa

Que tal cibdat ordenó.

Por Sevilla demostró

En su muy alto ssaber

Que se avie de noblezer

Por Julio que la pobló.

Con ssaber é poderío

Estos dos la ordenaron,

E los que en ella poblaron

Fué proeza é muy grant brío,

Vigío é prez é amoryo,

Lealtanca é lindo amor:

Syenpre byve syn pavor

Bryberas del su grant rryo.”  [6]

 

13 - Torre dela platta (Torre da prata), inserida na muralha e como o nome indica local de armazenamento da prata descarregada dos navios vindos da América, das minas de Potosi na actual Bolívia.

Depois de desembarcados, a prata e o ouro, eram conduzidos em carros de bois como refere Alonso Morgado:

Cosa es de admiracion y no vista en outro Puerto alguno, las Carretas de a quatro bueyes, que en tiempo de Flota acarrean la suma riqueza de Oro, y Plata en Barras desde Guadalquivir hasta la Real Casa de la Contratacion de la Indias. [7]

 

14 - Las attarrassanas (Atarazanas. Arsenais). Construções árabes do século XII, sobre as quais, em 1252 Alfonso X constrói as Reales Atarazanas, e que no século XVI foram modificadas pela edificação da Alfândega.

 

14a - El Estante? (não identificado). [Penso, como hipótese, que a palavra será a espanholização da palavra Étang, que em francês quer dizer pântano. Em Sevilha existia uma zona pantanosa onde por volta de 1574 foi criada a Alameda de Hercules?]. (Sobre a Alameda ver Apontamento 9, a publicar)

 

15 - Torre del oro (Torre do ouro). Construída no início do século XIII, durante o domínio mouro, para proteger o acesso à cidade pelo rio Guadalquivir, e que servia para armazenar, como o nome indica, os bens preciosos que chegavam das Índias ocidentais.

Juan de Mal Lara descreve assim a Torre del Oro:

A Torre del Oro “…que es grande y alta, dozavada com doze Garitas, que salen una en cada ángulo, hazíendo proporción hermorsíssíma para desde alli defender a los que quisieren picar lo torre.” [8]

 

16 - El moille (o molhe). O Cais de chegada das embarcações das Índias no qual está representada a grua (ingenio). (Ver Apontamento 10 a publicar).


17 - S. Elmo. Sendo S. Elmo (Pedro Gonzalez c. 1190-1246), o padroeiro dos mareantes, a ele dedicada existia uma Ermida, em terrenos pertencentes à Inquisição. Em 1569, com estatutos aprovados por Felipe II foi criada a Universidade dos Mareantes.  Em 1682, foi iniciada a construção do palácio de Santelmo. 


18 - Las Sierras de Ronda

Apesar de Sevilha ser praticamente plana, rodeando a cidade estão as elevações de que se destaca a norte a sierra Morena, e um conjunto de elevações a sul.



[1] Juan de Mal Lara (1524-1571), Recibimiento que hizo la muy noble y muy leal ciudad de Sevilla a la C. R. M. del Rey don Felipe N. S. Con una breve descripción de la ciudad y su tierra. En casa de Alonso Escrivano, Sevilla, 1570. (pág. 176).

[2] Mircer Francisco Imperial (c.1372-1409), excerto de El dezir a las sete virtudes (1407) in Marcelino Menendez y Pelayo (1856-1912), Antologia de Poetas Liricos Castellanos, desde la formación del idioma hasta nuestros dias. Ordenada por D. Marcelino Menendez y Pelayo de la Real Academia Española. Tomo I. Libreria de la Viuda de Hernando Madrid 1890. (pág. 128).

O poema na sua versão original seria:

Era çercado todo aquel jardín

de aquel arroyo, a guissa de cava,

e por muro muy alto jazmín

que todo a la rredonda lo cercava.

el son del agua en dulçor passava,

harpa, duçayna, vyhuela de arco,

e non me digan que mucho abrarco,

que non ssé sy dormía o velava.”

[3] Andrea Navagero (1483-1529), Il Viaggio fatto in Spagna, et in Francia, dal Magnifico M. Andrea Navagiero, fu oratore dell’Ilustrissimo Senato Veneto, alla Cesarea Maesta di Carlo V. Com la descrittione particolare delli luochi, & costumi delli popoli di quele Provincie. In Vinegia apresso Domenico Farri. 1563. (pág. 13).

[4] Luis de Peraza, Historia de Sevilla (manuscrito) In Francisco Morales Padron (1978) La Historia de Sevilla de Luis de Peraza. Boletín de la Real Academia Sevillana de Buenas Letras: Minervae Baeticae, 6, 75-173. (cap. V, pag.160).

[5] Rodrigo Caro, Antiguedades y Principiado de la Ilustrissima Ciudad de Sevilla. Y Chorographia de su Convento Iuridico, o antigua Chancilleria. En Sevilla, por Andres grande. Impressor de Libros. Sevilla Año 1634. (pág. 6).

[6] Alfonso Alvares de Villasandino (c.1345- c. 1424) in antologia de poetas líricos castelhanos, ordenada por D. Marcelino Menendez Pelayo [1856-1912] Madrid 1890. (pág. 94).

[7] Alonso Morgado, Historia de Sevilla… En la Imprenta de Andrea Perscioni y Ioan de Leon Sevilla 1587. (libro segundo pág.55).

[8] Juan de Mal Lara (1524-1571), Recibimiento que hizo la muy noble y muy leal ciudad de Sevilla a la C. R. M. del Rey don Felipe N. S. Con una breve descripción de la ciudad y su tierra. En casa de Alonso Escrivano, Sevilla, 1570. (pág. 40).


5 – O quinto pormenor

 

fig. 64 - Georg Braun (1542-1622) e Franz Hogenberg (1535-1590). Pormenor de Hispalis, Sevilla Taraphae 1572.

 

19 - Triana. Triana era o arrabalde a sul na margem direita do Guadalquivir.

Andrea Navagero refere: “A quella parte del fiume se vi passa sopra un ponte fatto sopra barche, & passato il ponte si trova una parte de Sevilla che è bem habitata, & há molte case, ma non há il medesimo nome, anzi come luoco diverso si chiama Triana.” [1]

[naquela parte do rio passa-se sobre uma ponte pousada em barcas e passada a ponte encontramos uma parte de Sevilha bastante habitada e com muitas casas, mas que não tem o mesmo nome, e como lugar diferente chama-se Triana.]

 

E Lope de Vega em El Amante agradecido localiza Triana em relação a Sevilha:

“Sevilla y Triana

y el río en medio:

así estan de mis gustos

tu ingrato dueño.” [2]

 

20 - El Castillo (o Castelo). O Castelo de São Jorge, com chamas e fumo talvez pela explosão que ocorreu por essa altura na fábrica de pólvora de Triana. Era a sede da Inquisição.

O Castelo de S. Jorge ocupado até 1280 e depois abandonado em 1481, foi entregue à Inquisição onde se manteve até 1785.


21 – Alfarerias (olarias). Triana era ainda conhecida pelas suas olarias onde se fabricavam peças de barro e de cerâmica.

 

22 - Xavoneria (Reales Almonas). As oficinas de fabricação de sabões.

Agustin de Rojas Villandrando (1572-1635, em El Viagem Entretenido, estabelece o seguinte diálogo entre as suas personagens Ramirez e Solano:

“Ra. “…pero bolviendo a la grandeza de Sevilla (que no puedo olvidalla) no es bueno que tenga dos almonas de jabon, dõde se gastã mas de sesenta mil arrobas?

So. Yo he visto doze calderas, en que se hace el blanco, tan grandes, que cada una lleva mas de quatrociêtas arrobas de azeyte (sin la cal y ceniza que se gasta).” [3]

  

No Guadalquivir

 

fig. 65 - Pormenor com a ponte de Triana e o Guadalquivir.

 

23 - Camino por el Rio abaxo (Caminho pelo rio abaixo). Indicando a direção do Guadalquivir até à foz em Sanlucar de Barrameda.


24 - Puente de Triana (ponte de Triana). Desde 1171 com 13 barcas ligando as duas margens do Guadalquivir.


[1] Andrea Navagero (1483-1529), Il Viaggio fatto in Spagna, et in Francia, dal Magnifico M. Andrea Navagiero, fu oratore dell’Ilustrissimo Senato Veneto, alla Cesarea Maesta di Carlo V. Com la descrittione particolare delli luochi, & costumi delli popoli di quele Provincie. In Vinegia apresso Domenico Farri. 1563. (pág. 14a)

[2] Lope de Veja Carpio (1562-1635), El amante agradecido in Decima septima parte de Las Comedias de Lope de Veja Carpio.En Madrid por la viuda de Alonso Martin de Balboa, a costa de Miguel de Siles, 1618 (Acto III, pág.125). BNE.

[3]  Agustin de Rojas Villandrando (1572-1635), El Viagem Entretenido de Agustin de Rojas, natural de la villa de Madrid. En la Emprenta Real. En Madrid 1603. (pág. 29 e 30).