segunda-feira, 8 de abril de 2024

poemas recuperados 17

 


Henri-Edmond Cross (Henri-Edmond-Joseph Delacroix) (1856-1910). La plage de saint-Clair 1896 óleo s/tela 54,5 x 65,4 cm. Museu Barberini Postdam Alemanha.

Je cherche l’or du temps

“…Je cherche l'or du temps, et tu ne comprends pas

Je cherche l'or du temps, et la beauté des choses…”

Charles Dumont *


Passar horas quebradas de ternura

nessa praia mão-cheia de rochedos

flutua nas areias um tempo de ouro

colhendo ávidos sopros nos cabelos

 

Essa árvore como mastro abanado

por um vento de carinho trabalhado

 

No vazio silêncio só de luz e sombra

em tarde sábia perfeita e de ventura

respirar em baços traços escondidos

precoce recordar a instável aventura

 

Tudo enfim que nos ajude a encantar

deliciosos ares que mareiam no lugar

 

Lugar que sempre n’alma permanece

guardando funda marca reconhecida

os riscos que qualquer um escolherá

memória em que sabemos fazer vida

 

História é só cinza e sonho passado

pegada dum corpo em sofá cansado.

 

*Charles Dumont (n.1929). Canção Je cherche l’or du temps do LP Pathé 1975 França.


sábado, 6 de abril de 2024

poemas recuperados 16

 




Gustave Doré (1832-1883), les Océanides, 1860/69. Óleo s/tela 127 x 185,5 cm. Col. particular.

destino perdido

“Solo un sussurro

che è la voce del mare fatta ricordo” Cesare Pavese *

 

Saber que o bom o melhor o excelente

sempre se gasta e morre ou apodrece

saber que o raro a maravilha o sublime

rapidamente como fumo se desvanece

 

Dilacerado por tanta inquieta desilusão

aos gritos que no mar provocam ondas

cintila no corpo essa satânica vibração

como luz que se esvai criando sombras

 

Aquelas ninfas que nos foram negando

as brandas águas e brisas passageiras

nesse escondido rochedo desaparecido

 

como a cristalina filigrana que entoando

os sedutores cantos as sensuais sereias

foram presságios do meu destino perdido.

 

* “Só um sussurro / Que é a voz do mar feita saudade”

Cesare Pavese (1908-1950). Mattino in Lavorare stanca, 1936. in  Poesie di Cesare Pavese. Arnoldo Mondadori1966 (pág. 41).

 


segunda-feira, 1 de abril de 2024

poemas recuperados 15


Gaspar David Friedrich (1774-1840), caminhante sobre um mar de névoa c.1817. Óleo s/tela 98 x74 cm. Hamburger Kunsthalle.


preso ao peso da idade

De onde vem a vagabunda, profunda e podre tristeza

que floresce em mim e não cresce em mais ninguém?

A doentia dúvida que me destrói, a estranha incerteza,

que não se sabe porquê, como se forma e d’onde vem.

 

Será da infância onde não havia ainda tantos enganos?

havia melhor tempo, havia outro espaço, havia mais luz.

Tempos sem amarguras que não estavam envenenados

aos quais o desejo a vontade de voltar ainda me conduz?

 

Onde se diluiu o descuidado entusiasmo com que traçava

lúcido futuro naquele amplo acontecer - com que energia?

Porque sinto agora este cansaço preso ao peso da idade?

 

Perdidas estão aquelas lutas solidárias em que acreditava

poder criar com entusiasmo e alegria tudo o que perseguia,


com essa ávida vontade de me ir construindo em liberdade!

terça-feira, 26 de março de 2024

poemas recuperados 14

 


Paul Klee (1879-1940). New harmony 1936. Óleo s/tela 93,7 x 66,4 cm. Solomon R. Guggenheim Museum, New York.

só com sol e sombra

 Ao querer que o planeta azul fique mais verde

somar ao verde a luz do sol criando castanho

a cor da terra e dos esguios troncos da floresta

para se recriar os justos equilíbrios de antanho.

 

Ouvir a voz na água, nos bosques e nos prados

beber a névoa que se esparsa de tanta maneira

pisar arcanos e crespos caminhos empedrados

praias de água terra e espuma unidas pela areia.

 

Tudo o que nasce, cresce, morre e por fim acaba.

se move, flui, voa, corre, sopra, nunca mais torna

correm rios, voam nuvens, toda a floresta suspira.

 

Molhada é a terra ao caírem frias gotas de geada

se tudo se vai, nada se perde, tudo se transforma

só com o cantar do sol toda a terra por fim respira.

terça-feira, 19 de março de 2024

poemas recuperados 13

 



Imagem não identificada possivelmente de Abraham Bosse (1604-1676)?


De seguro apenas cada escolha que errei

 “Cubramos, ó silenciosa, com um lençol de linho fino o perfil hirto da nossa Imperfeição.” Fernando Pessoa*

 

Nesse estendido lençol de cheiro a terra

estremece como sonho aéreo inatingível

água madrinha em areais de cor dourada

nasce ardente ardor fogo febril inevitável

 

Os cantares crispados das ocultas feridas

de presentes ao sol e à murta indiferentes

como barco ébrio e aventuras não vividas

desgovernado pelos longes transparentes

 

As mãos afanosas com sensual brandura

nesse amor passageiro de encanto breve

sempre a escorrer as vindimas da ternura

 

Sinuosos quelhos por onde sempre andei

tornando tão esparso o que neles percorri

de seguro apenas cada escolha que errei.

 

*Fernando Pessoa, Floresta do Alheamento in Obra Poética, Companhia Aguilar Editora, Rio de Janeiro 1965. (pág.439).

 


sábado, 9 de março de 2024

poemas recuperados 12

 

René Magritte (1898-1967), Les merveilles de la Nature 1953. Óleo s/tela 77,5 x 98,1cm. Museum of Contemporary Art Chicago USA.

mar onde mergulhar é coisa incerta

Sobre uma pintura de Magritte

 

Na praia de airoso vento e suave mar

um rochedo sem retrato ou identidade

que pintou compondo como escultura

perfeita no gesto que o é de liberdade

 

Trabalhados nessa tão verdenta rocha

os amantes se dizem pedra enlaçados

como num desviado inverso de sereias

nessa paixão em peixes transformados

 

Ao fundo no tempo azul a nave avança

tétrico espectro qual navio de ninguém

sequer um vulto mareando na coberta

 

Nesse extenso areal que o azul amansa

não se sabe em que ondas se banharam

nesse mar onde mergulhar é coisa incerta.


terça-feira, 5 de março de 2024

poemas recuperados 11

 

Fernand Léger (1881-1955). Le réveille-matin 1914óleo s/tela 100 x 81 cm. Centre Pompidou. Musée national d'art moderne Paris,

Leve e suave sopra em mim

 

De forma leve suave sopra em mim

silenciosa melodia que nem escuto

são restos dos sons quase sem cor   

tiquetaques lambendo o tempo curto.

 

Imagino-me a despertar em flagelo,

névoa nascente de modo repentino,

difícil acordar de perplexo pesadelo

tropel de ideias em delírio peregrino.

 

Espio-me em vulto astuto na cidade,

fiapos de suaves árias em sol maior

crescendo na constante fútil vontade

 

de ir compondo pelo espaço aberto,

descartado o sonho quiçá reparador,

matinal melodia, quando eu desperto. 


segunda-feira, 26 de fevereiro de 2024

poemas recuperados 11

 

René Magritte (1898-1967) La reproduction interdite, 1937. Óleo s/tela 79 × 65 cm. musée Boijmans Van Beuningen Roterdão.

Nota -O livro pousado na prateleira “Aventures d’Arthur Gordon Pym” é de Edgar Poe (1809-1849), na tradução de Charles Baudelaire (1821-1867). Michel Levy Frères Libraires – Éditeurs Paris 1858.

aquele que já sou e que serei não sendo

 Sed fugit interea fugit irreparabile tempus” Virgílio*

 

No mar amargo e vento incerto onde navego

reaparecem receios que ficaram escondidos

tempo curto para que se mudem as certezas

lugar onde moram tantos medos clandestinos.

 

O enigma da tarde que aparece nos espelhos

imagens da verdadeira verdade ou da fingida

com sonhos enevoados e pesados pesadelos

que se mais duram menos tempo são na vida.

 

Estas rudes mãos que apenas um nada tendo

com que se traçam vários círculos imperfeitos

que no mar se criam e se esfumam pelo vento.

 

Nunca pareça e não pereça que o modo lento

de receitar escondidos remédios sem defeitos

para aquele que já sou e que serei não sendo.

 

*“Mas entretanto o irreparavel tempo / Nos vae fugindo”

Publius Vergilius Maro ( 70 -19 a.C.) As Georgicas de Virgilio. Traduzidas do original em verso endegasyllabo com anotações exclusivamente agronómicas e zootechnicas por João Felix Pereira. Agronomo, medico, emgenheiro civìl e professor jubilado do Lyceo Nacional de Lisboa.Typographia Universal Lisboa 1875 (vs. 283 pág. 53).


 

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2024

poemas recuperados 10

 



Thomas Eakins (1844-1916) Sailing c.1875. óleo s/tela 81 x 117,5 cm. Philadelphia Museum of Art.


o mar é da liberdade o grito mais fecundo

Homme libre, toujours tu chériras la mer!  Charles Baudelaire *

 

Aparelhar o barco, a mão firme no leme

medir o sol, caçar a vela, asa levantada.

Pelo vento azul na luz pálida que treme

partir com a vela grande toda enfunada.

 

Ir mapeando mares, mareando tempos.

Onda saltando à proa a talhar as águas,

inefável paz desses seguros momentos,

ao zarpar e esquecer todas as mágoas.

 

Saber se o sol encobre a dourada maré

ao virar de bordo sem receio nem medo

qual vento venta vagueando pelo mundo.

 

Que horizonte ousar para sem o alcançar

revelar o mais escondido do seu segredo:

o mar é da liberdade o grito mais fecundo.

 

*Charles Baudelaire (1821-1867), L’Homme et la mer XIV in Les Fleurs du Mal 2ª ed. Poulet-Malassis et de Broise Éditeurs, Paris 1861. (pág.35 e 36).

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2024

poemas recuperados 9

 


Adolfo Bellocq (1899-1972). El demagogo, 1925. Zincografia. 23 x 26 cm. Museu de Artes Plásticas Eduardo Sívori. Museu de arte de Buenos Aires.

longe é tempo incerto. Perto está a ânsia de mandar

“- Ó glória de mandar, ó vã cobiça

Desta vaidade a quem chamamos fama!” Camões *

 

Para aí andam muitos com barbas bem crescidas

fazendo restolhos de promessas juízos e opiniões

discursos parecendo limpos, eruditos, eloquentes,

filigranas de palavras escorreitas e belas citações.

 

Mas se são tão elaborados, eficazes e insinuantes  

falta-lhes a modesta verdade grave e a pertinência,

já que falam muito, pouco dizem, nada convencem

e não se conseguem afirmar na sua independência.

 

Ainda assim há quem procure alcançar no imediato,

no teatro do mundo um papel tão desejado e imune,

um poder mesmo que modesto, pequeno, particular.

 

Para o que tudo vale, seja a intriga ou o vicioso pacto

não prevendo nem o longo e médio, só o tempo curto.

Longe é tempo incerto. Perto está a ânsia de mandar.

 


*Luís de Camões (1524-1580), Os Lusíadas Canto III est. CXV. Lello & Irmão Editores Porto 1970. (pág. 1236).


sábado, 10 de fevereiro de 2024

poemas recuperados 8

 





Ergon Schiele (1890-1918). O Abraço 1917. Óleo s/tela 100 x 170 cm, Belvedere Palace Museum Vienna

nova jogada

 

O fogo lento que é permanente nos amores

dura mais tempo e as chamas não magoam.

O fogo curto da paixão em ápice se extingue

na cinza de rubras brasas que nos queimam.

 

De noite o misterioso escuro nunca distingue

o que é amor o que é paixão o que é espanto.

Dois corpos acesos que enlaçados em desejo

um cobrindo o outro em suave e morno manto.

 

Mas a maior paixão, a mais audaz cedo acaba,

roída nos enganos e nas virtudes que apregoa,

em enfeites amáveis, sentimentos que exagera.

 

Se como teimosos ousamos tentar nova jogada

é indiferente como se acaba, sempre se perdoa.

Importa é sentir de novo o prazer que assevera.

segunda-feira, 5 de fevereiro de 2024

poemas recuperados 7

 


Edward Munch (1863-1944).  Separação 1896 óleo s/tela 96 x 127 cm. Museu Munch, Oslo. Google Art Project

 

Comovidos dias esquecidos

Quando ainda sonhava nesses cabelos de vento

e a luz sustinha o peso da sombra que esperava

não era um engano ou invenção do pensamento

mas o epítome e o fim da paixão que se acabava.

 

Em todo o abandono se descalça uma despedida

a qual torna necessário saber perder a esperança

só nos resta esperar que essa esperança perdida

o tempo a acalme depois, e além dessa mudança.

 

Na monótona chuva que belisca a janela pequena

onde tremem finas gotas fugidias que, encerradas

e passageiras, escorrem fazendo cantar os vidros,

 

Os ébrios lamentos dessa presença d’água serena

em tantos sonhos de pausa amarga desencontrada

só os recordaremos em comovidos dias esquecidos.

 

 

 


 

terça-feira, 30 de janeiro de 2024

poemas recuperados 6

 

Pablo Picasso (1881-1973).  “Pomba da Paz”, 28. 12. 61. litografia s/papel 48 x 60 cm. coleção particular.


tudo se acaba em versos em quase nada

 

A floresta iluminada suaviza a sombra

no rumor distante do declinar da tarde.

Só o brando murmúrio daquela pomba

me eleva o quotidiano até à eternidade.

 

Vagueio com esse outro eu, um inimigo

a quem desafio neste tempo tão incerto.

Tropeço caindo em mim como o castigo

de longe ir buscar o que se abriga perto.

 

Desse diálogo comigo, sempre consigo,

na seara da alma descobrir algo perdido

aquele meu outro eu que foi um inimigo

com quem me batia em combate antigo.

 

Travei com esse avesso lutas esquecidas

de onde restaram ruínas, terra queimada

por fim já cansados lambendo as feridas

tudo se acaba em versos em quase nada.

quarta-feira, 24 de janeiro de 2024

poemas recuperados 5

José de Ribera (1591-1652), Filósofo com um espelho 1ª metade do século XVII. Óleo s/tela 113 x 89 cm. Rijksmuseum Amesterdão.


Espelho

"Para hum homem se ver a si mesmo, saõ necessarias tres cousas: olhos, espelho & luz. Se tem espelho, & é cego, não se póde ver por falta de olhos; se tem espelho & olhos, & he de noyte, não se pode ver por falta de luz. Logo há mister luz, ha mister espelho & ha mister olhos."  Padre António Vieira *


Nesse espelho em que me vejo esquecido

está esse outro eu, um quase semelhante.

É outro eu, o negativo, simétrico de sentido,

a vigiar-me fixo nesse espaço equidistante.

 

Sou eu ou apenas quem eu penso que sou?

Sou eu ou apenas minha figura mal-olhada?

Ou é o amável sussurro em que se esconde

o cansaço do olhar em lágrima tão salgada?

 

Esqueço que nesse espelho como em janela

onde, como amigo que não sou, ele espreita.

Desconfio-me da invertida visão, porque nela

sempre se vai trocando esquerda com direita.

 

Pesando o que me vejo e o que me fui vendo

no outro eu com quem sempre me confundo,

o que fui, o que senti, em tudo o que fui sendo,

patética intimidade em que sempre me afundo.

 

Podes tu? – diz o outro eu, em tom assaz duro,

aprender esses ocultos mistérios e os segredos

que só eu guardo como teu eco. O íntimo escuro,

dos restos já gastos de murmurantes pesadelos?

 

Farto de me ver em tais andanças não respondo.

Olhos nos olhos, eu e o outro, qual o mais velho,

não tendo como lhe responder, assim de pronto,

apago a luz. logo se vai o eu-maldito do espelho.

 

* Padre Antônio Vieira (1608-1697), Semam da Sexagesima Prégado na Capella Real 1655 in Sermoens do P. Antonio Vieira da Companhia de Jesus. Prégador de Sua Alteza Primeyra parte dedicada ao Principe N.S. Na Officina de Ioam da Costa, Lisboa MDCLXXIX. (pág. 18).

 

segunda-feira, 22 de janeiro de 2024

poemas recuperados 4

Fernando Lanhas (1923-2012). Cais 44 1944, óleo s/tela 31 x 45 cm. Museu Nacional de Arte Contemporânea. Museu do Chiado. Lisboa.

porto seguro

Vai-se a frescura a sombra o perfume e o abrigo

se as árvores esquecerem os frutos que pariram

e se todas elas no seu conjunto correrem perigo

dê-se-lhes descanso de tudo isso que passaram.

 

No mundo que vivemos de prazeres e dissabores

somos nós que os queremos e que os desejamos

é por finos corredores que as mercedes e favores

só em nós acharemos mais aquilo que buscamos.

 

Pois é tão grande toda a carga e a vida trabalhosa

planos, intervalos, quebras, saltos, o que se quiser

se a plena luz nos dilui e nos faz exatos no escuro.

 

Não se faça mais amarga toda a batalha temerosa

que de ano a ano vamos elaborando para perceber

só com um bom vento se pode arribar porto seguro.