Não cuido forçar o que não sei
tornar a entrar onde não
há saída
largos passos através do
infinito
René Magritte, La
Victoire 1939
Não cuido forçar o que não sei
tornar a entrar onde não
há saída
largos passos através do
infinito
René Magritte, La
Victoire 1939
A mulher que junto de uma janela lê uma carta, é um tema por demais tratado na pintura. São inúmeras as pinturas onde uma figura feminina lê uma carta junto ou iluminada por uma janela. Assim foi necessário dividir o tema por vários textos.
No século XVII, o tema aparece em
pinturas de Vermeer, Hooch e em Dirck Hals.
No chamado “século de ouro” da pintura flamenga, o tema da jovem mulher a ler uma carta, “onde lembranças mata a larga ausência / Em temeroso mar, em guerra dura” [2] procura retratar a relação com o ente amado, provávelmente embarcado num navio de guerra ou nos navios das Companhias das Índias.
Por isso, na parede do fundo surgem paisagens
marítimas com navios ou mapas, aludindo às viagens mencionadas nas cartas.
O tema da mulher lendo uma carta, na pintura flamenga, é intimista e recatado, como a preservar a privacidade do interior doméstico. Como as pinturas não tinham títulos foram-lhes, posteriormente, atribuídos.
1 - Johannes Vermeer (1632-1675), “Jovem rapariga lendo uma carta à janela” 1657/59.
fig. 1 - Johannes Vermeer (1632-1675), jovem lendo uma
carta à janela, 1657/59, óleo s/ 83 x 64,5 cm. Gemäldegalerie Dresden.
Staatliche Kunstsammlungen Dresden.
Na pintura de Vermeer, a janela apenas deixa entrar a luz e essas janelas apenas permitem imaginar o exterior.
A janela tem aqui como única
função iluminar o compartimento de uma burguesa casa da Holanda do século XVII,
a carta e o rosto da figura feminina.
Este, reflecte-se na portada da direita, como num claro e repentino espelho, onde a imagem aparece mesclada com o que se vê através dela, como diz Rilke: "onde de repente o nosso rosto se olha / misturado com o que vemos através dele” [3]
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A jovem de pé, está compenetrada na leitura de uma carta, possivelmente de amor, que segura com as duas mãos distanciada do mundo externo.
Enquadra a cena uma pesada
cortina, pendendo do lado direito e que funcionalmente servia para isolar o
espaço, surge propositadamente aberta, para mostrar a cena íntima da leitura da
carta.
No primeiro plano uma taça entornada espalha os frutos sobre uma rica coberta de lã.
[ Nota - Em 2017 um profundo restauro permitiu, pelo
raio x, descobrir na parede do fundo um Cupido que não se sabe se foi pintado
por Vermeer, nem por quem, nem as razões pelas quais foi escondido. Indica
contudo o provável teor amoroso da carta.]
fig. 3 - Johannes Vermeer (1632-1675), Jeune femme lisant une lettre à la lumière d’une fenêtre, 1657/59, óleo s/ 83 x 64,5 cm. Restaurado em 2017. Gemäldegalerie Dresden. Staatliche Kunstsammlungen Dresden.
Existe uma
outra versão de Vermeer da “Jovem lendo
uma carta”, mas onde a figura feminina traja de azul. Na parede está
pendurado um mapa, e a luz que ilumina a cena surge de uma janela que não se
vê.
fig. 4 – Johannes Vermeer, Jovem de azul lendo uma carta 1662/3. Óleo s/ tela 46,6
x 39,1 cm. Rijksmuseum Amesterdão.
Pieter Hooch, o contemporâneo e compatriota de Vermeer, também pinta o tema de uma jovem lendo uma carta, mas tratado de uma forma diferente.
Há em toda a composição a
procura de uma serena intimidade, num mundo doméstico traquilo e organizado.
Em Hooch, a figura feminina
sentada, está iluminada pela forte luz do meio-dia que entra pela janela,
aberta para uma paisagem citadina.
fig. 5 - Pieter Hooch (1629-1684?), lendo
uma carta 1664, óleo s/tela 55 x 55 cm. Szépmûvészeti Múzeum, Budapest.
No rosto da jovem, concentrada na
leitura da carta há:
Um medo sem ter culpa; um ar sereno;
Um
longo e obediente sofrimento; [4]
3 – Dirck Hals (1591-1656), Mulher rasgando uma carta 1631 e Esperando o Amor 1633.
Dirck Hals pinta dois quadros
com o mesmo tema mas com significados diferentes.
fig. 6 - Dirck Hals (1591-1656), Woman Tearing a Letter 1631 óleo s/madeira 45 x 55 cm. Landesmuseum Mainz.
No primeiro, uma jovem desesperada, num
gesto de raiva e tristeza, prepara-se para rasgar a carta, da qual uma folha
está caída no chão.
Lembra os versos de uma canção de Camões:
“E por mim ficarás
Chorando e suspirando,
Porque,
ao mundo mostrando tantas mágoas
Como
üa larga história,
Minhas lágrimas fiquem por memória.” [5]
No quadro o tom sombrio, escuro e de terra, e o mobiliário reduzido a uma cadeira e um aparador, criam um ambiente de melancolia e tristeza.
No entanto, o contraste entre a luz que
ilumina o rosto e a branca gola, e o fundo escuro, faz com que a sua figura se
destaque e se torne o centro das atenções da pintura.
Na parede de acordo com os sentimentos da jovem
retratada, uma significativa tormentosa paisagem marítima com embarcações
adornadas pelo vento forte.
Como no Soneto da Separação de Vinicius
de Morais:
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.” [6]
Na outra pintura de Dirck Halls, (lembrando mais o seu irmão Franz Halls (1580-1666), surge num tom bem mais alegre, uma sorridente jovem, vestindo azul e dourado, com a mesma gola branca, sentada de frente para o espectador, num aposento semelhante ao da outra pintura.
fig.
7 - Dirck Hals (1591-1656 ), mulher sentada
com uma carta, também conhecido como Esperando o Amor 1633, óleo s/painel 34 x
29 cm. Philadelphia Museum of Art.
Philadelphia.
[1] Luís de
Camões, Soneto CLXXXII in Obras de Luís de Camões. Lello & Irmão - editores
Porto 1970. (pág.95).
[2]
Luís Vaz de Camões (1524-1580),
Soneto CVII in
Obras de Luís de Camões. Lello & Irmão – editores. Porto 1970.
(pág. 57).
[3] Rainer Maria
Rilke (1875-1926), La Fenêtre, de Vergers, in Œuvres poétiques et théâtrales,
Collection de la Pléiade Gallimard, Paris 1987. (pág.1104).
[glace, soudain, où notre figure se mire / mêlée à ce qu’on voit à travers ;]
[4] Luís Vaz de Camões (1524-1580), Soneto XXX in Obras de Luís de Camões. Lello & Irmão - editores Porto 1970. (pág.18).
[5] Luís Vaz de Camões (1524-1580), Canção IV in Obras de Luís de Camões. Lello &
Irmão - editores Porto.1970. (pág. 234 a 236).
[6] Vinicius de Morais, Soneto
da separação, Oceano Atlântico, a bordo do Highland Patriot, a caminho da
Inglaterra, 09.1938 in Antologia Poética 2ª ed. aumentada Editora do Autor, Rio de Janeiro 1960. (pág.104).
[7] Honoré de Balzac (1799-1850). Le Lys dans la Vallée. (nouvelle édition revue et corrigée). Charpentier Éditeur, Paris 1839. (pág. 229). [Le voluptueux balancement d'une barque imite vaguement les pensées qui flottent dans l'âme.]
na indecisa madrugada que respiro
heróis que só a eles se assombram
Mark
Kostabi (n.1960) true believers 1992. Óleo s/ tela 45,72 x 55.88 cm. Col.
particular.
1 - Henri
de Braekeleer pinta uma
jovem que um “interesse enganoso, amor fingido, / Fizeram desditosa
a fermosura.” [2]
fig. 1 - Henri de Braekeleer (1840-1888), The Teniersplaats Antwerp 1878, óleo s/tela 82 x 65 cm. Koninklijk Museum voor Schone Kunsten Antwerpen.
O tédio, o ennui, o spleen, que se advinha nas personagens femininas, que olham a janela, é retratado no soneto de Jules Laforgue.
“Tudo hoje me aborrece.
Corro a minha cortina,
No alto o céu cinzento raiado de uma chuva eterna,
Em baixo a rua onde em uma névoa de fuligem
sombras entre as poças de água vão na neblina.
Escavando o meu velho
cérebro eu olho sem ver,
E mecanicamente no vidro manchado
faço com a ponta do dedo uma caligrafia,
Bah! Saiamos, talvez algo de novo possa haver.
Nenhum livro novo
surgiu. Ninguém passa só animais,
Fiacres, muita lama e aquela chuva de sempre ...
E a noite, o gás e eu regresso com passos pesados demais...
Eu como e bocejo, e
leio, nada me enaltece ...
Bah! Vou-me deitar. - Meia noite. Uma hora. Ah! Todos dormem!
Só, eu não consigo dormir e cada vez mais tudo me aborrece.” [4]
2 - O pintor dinamarquês Carl Vilhelm Holsøe parece ilustrar este estado de espírito.
Numa pintura com tons claros e luminosos,
parece sublinhar a esperança com que a jovem sentada parece fixar o reflexo da
janela, talvez duvidando se vale a pena esta longa espera à qual a janela, impassível, nunca responde ou só responde com com esse equívoco e misterioso pedaço de luz.
fig. 2 - Carl Holsøe (1863–1935), Kvinde ved vindue, (Esperando à janela) s/d, óleo s/tela 73,7 x 68,5 cm. Col. particular.
A pintura de Holsøe caracteriza-se por retratar elegantes interiores, onde uma única figura feminina, nunca mostrando o rosto, provoca uma sensação de tristeza e abandono. Ela é geralmente retratada em austeras salas, pouco mobiliadas, onde a justaposição cuidadosa dos objetos, o uso de tons e cores harmoniosas, e, sobretudo, a inclinação da luz suave, cria ambientes, ao mesmo tempo tranquilos e enigmáticos.
3 - O pintor austríaco Carl
Probst, também pinta uma figura feminina sentada junto a uma janela, com a
cabeça apoiada no braço direito, e um olhar vazio.
A janela onde nada se vê do
exterior, deixa apenas entrar luz suficiente para iluminar o compartimento carregado
de significantes objectos.
O pintor intitulou o quadro com os versos de um poema do poeta romântico Heinrich Heine do livro “Buch der Lieder” de 1827, o livro que, significativamente, ela tem pousado sobre os joelhos e que a faz recordar o seu abandono por alguém amado.
O poema de Heine que dá o título ao quadro diz:
“…Eu me desesperei de início, declarando
O que nunca poderia suportar; e agora,
agora suporto, ainda desesperando.
Só nunca me perguntem como!” [5]
Esta
desesperada resignação da mulher, é ainda indiciada,
quer pelo pequeno cofre onde repousam cartas, quer pelo emoldurado retrato,
ambos colocados sobre a mesa.
[1] Luís de
Camões, Soneto CXXX, in Obras de Luís de Camões, Lello & Irmão Editores,
144, Rua das Carmelitas, Porto 1970. (pág. 69).
[2] Luís de
Camões, Soneto XL, in Obras de Luís de Camões, Lello & Irmão Editores, 144,
Rua das Carmelitas, Porto 1970. (pág.23).
[3]
Florbela Espanca (1894-1930), À Janela de
Garcia de Resende, de Reliquiae
versos póstumos publicados com Charneca
em Flor in Sonetos Completos, Livraria Gonçalves, Rua Sá de Miranda, 60,
Coimbra MCMXXXIV. (pág.146).
[4] Jules Laforgue, Spleen, 7 novembre 1880 in Les Complaintes et les premiers poèmes, Gallimard, Paris,1979. (pág.248).
[Tout
m'ennuie aujourd'hui. J'écarte mon rideau,
En
haut ciel gris rayé d'une éternelle pluie,
En
bas la rue où dans une brume de suie
Des ombres vont, glissant parmi les flaques d'eau.
Je
regarde sans voir fouillant mon vieux cerveau,
Et
machinalement sur la vitre ternie
Je
fais du bout du doigt de la calligraphie.
Bah ! Sortons, je verrai peut-être du nouveau.
Pas
de livres parus. Passants bêtes. Personne.
Des
fiacres, de la boue, et l'averse toujours...
Puis le soir et le gaz et je rentre à pas lourds...
Je mange, et baille, et lis, rien ne me passionne...
Bah ! Couchons-nous. - Minuit. Une heure.
Ah ! Chacun dort ! Seul, je ne puis dormir et je m'ennuie encore.]
[5] Heinrich Heine (1797 - 1856), Anfangs wollt ich
fast verzagen de Book of Songs in Poems of Heinrich Heine, Three Hundered and
Twenty-Five Poems, Selected and translated by Louis Untermeyer. Henry Holt and
Company, New-York 1917. (pág.25).
[Anfangs wollt ich fast verzagen,
Und ich glaubt’ ich trüg’ es nie,
Und ich hab’ es doch getragen, –
Aber fragt mich nur nicht, wie?]
Como não domino o alemão
procurei e traduzi a versão inglesa.
[I despaired at first, declaring
It
could not be borne; and now
Now I bear it, still despairing.
Only never ask me how!]
Quando
a cidade inteira cabia num só olhar
os
meus passos sim? quem podia ouvi-los?
Maria Helena Vieira da Silva (1908-1992), Urbi et orbi, óleo s/ tela 300 x 401 cm. Musée des Beaux-Arts de Dijon.