sexta-feira, 28 de novembro de 2025

poema curto 12

 

 

Não cuido forçar o que não sei

tornar a entrar onde não há saída

largos passos através do infinito

 


René Magritte, La Victoire 1939 , óleo s/tela 72,5 x 53,5 cm. Col. Particular.

 

quarta-feira, 26 de novembro de 2025

Janela 11 primeiro


À janela lendo uma carta

 A carta, o bilhete, foi durante séculos o único meio possível da relação entre o interior doméstico e o exterior, fosse através de um portador ou de um pombo-correio.

A mulher que junto de uma janela lê uma carta, é um tema por demais tratado na pintura. São inúmeras as pinturas onde uma figura feminina lê uma carta junto ou iluminada por uma janela. Assim foi necessário dividir o tema por vários textos.

À Janela lendo uma carta 1

“Lembranças, que lembrais meu bem passado, / Pera que sinta mais o mal presente” [1]

No século XVII, o tema aparece em pinturas de Vermeer, Hooch e em Dirck Hals.

No chamado “século de ouro” da pintura flamenga, o tema da jovem mulher a ler uma carta“onde lembranças mata a larga ausência / Em temeroso mar, em guerra dura” [2] procura retratar a relação com o ente amado, provávelmente embarcado num navio de guerra ou nos navios das Companhias das Índias.

Por isso, na parede do fundo surgem paisagens marítimas com navios ou mapas, aludindo às viagens mencionadas nas cartas.

O tema da mulher lendo uma carta, na pintura flamenga, é intimista e recatado, como a preservar a privacidade do interior doméstico. Como as pinturas não tinham títulos foram-lhes, posteriormente, atribuídos.


1 - Johannes Vermeer (1632-1675), “Jovem rapariga lendo uma carta à janela” 1657/59.



fig. 1 - Johannes Vermeer (1632-1675), jovem lendo uma carta à janela, 1657/59, óleo s/ 83 x 64,5 cm. Gemäldegalerie Dresden. Staatliche Kunstsammlungen Dresden.


Na pintura de Vermeer, a janela apenas deixa entrar a luz e essas janelas apenas permitem imaginar o exterior.

A janela tem aqui como única função iluminar o compartimento de uma burguesa casa da Holanda do século XVII, a carta e o rosto da figura feminina.

Este, reflecte-se na portada da direita, como num claro e repentino espelho, onde a imagem aparece mesclada com o que se vê através dela, como diz Rilke: "onde de repente o nosso rosto se olha / misturado com o que vemos através dele”  [3]

fig. 2 – O rosto reflectido na portada da janela aberta. Pormenor da figura anterior.

A jovem de pé, está compenetrada na leitura de uma carta, possivelmente de amor, que segura com as duas mãos distanciada do mundo externo.

Enquadra a cena uma pesada cortina, pendendo do lado direito e que funcionalmente servia para isolar o espaço, surge propositadamente aberta, para mostrar a cena íntima da leitura da carta.

No primeiro plano uma taça entornada espalha os frutos sobre uma rica coberta de lã.

[ Nota - Em 2017 um profundo restauro permitiu, pelo raio x, descobrir na parede do fundo um Cupido que não se sabe se foi pintado por Vermeer, nem por quem, nem as razões pelas quais foi escondido. Indica contudo o provável teor amoroso da carta.]


fig. 3 - Johannes Vermeer (1632-1675), Jeune femme lisant une lettre à la lumière d’une fenêtre, 1657/59, óleo s/ 83 x 64,5 cm. Restaurado em 2017. Gemäldegalerie Dresden. Staatliche Kunstsammlungen Dresden.

Existe uma outra versão de Vermeer da “Jovem lendo uma carta”, mas onde a figura feminina traja de azul. Na parede está pendurado um mapa, e a luz que ilumina a cena surge de uma janela que não se vê.


fig. 4 – Johannes Vermeer, Jovem de azul lendo uma carta 1662/3. Óleo s/ tela 46,6 x 39,1 cm. Rijksmuseum Amesterdão.

 

 2 – Pieter Hooch (1629-1684 ?), Lendo uma carta 1664

Pieter Hooch, o contemporâneo e compatriota de Vermeer, também pinta o tema de uma jovem lendo uma carta, mas tratado de uma forma diferente.

Há em toda a composição a procura de uma serena intimidade, num mundo doméstico traquilo e organizado.

Em Hooch, a figura feminina sentada, está iluminada pela forte luz do meio-dia que entra pela janela, aberta para uma paisagem citadina.



fig. 5 - Pieter Hooch (1629-1684?), lendo uma carta 1664, óleo s/tela 55 x 55 cm. Szépmûvészeti Múzeum, Budapest.

 

No rosto da jovem, concentrada na leitura da carta há:

 “Um encolhido ousar; üa brandura;

Um medo sem ter culpa; um ar sereno;

Um longo e obediente sofrimento; [4]

 

3 – Dirck Hals (1591-1656), Mulher rasgando uma carta 1631 e Esperando o Amor 1633.

Dirck Hals pinta dois quadros com o mesmo tema mas com significados diferentes.



fig. 6 - Dirck Hals (1591-1656), Woman Tearing a Letter 1631 óleo s/madeira 45 x 55 cm. Landesmuseum Mainz.

No primeiro, uma jovem desesperada, num gesto de raiva e tristeza, prepara-se para rasgar a carta, da qual uma folha está caída no chão.

Lembra os versos de uma canção de Camões:

E por mim ficarás

Chorando e suspirando,

Porque, ao mundo mostrando tantas mágoas

Como üa larga história,

Minhas lágrimas fiquem por memória.”  [5]

No quadro o tom sombrio, escuro e de terra, e o mobiliário reduzido a uma cadeira e um aparador, criam um ambiente de melancolia e tristeza. 

No entanto, o contraste entre a luz que ilumina o rosto e a branca gola, e o fundo escuro, faz com que a sua figura se destaque e se torne o centro das atenções da pintura.

Na parede de acordo com os sentimentos da jovem retratada, uma significativa tormentosa paisagem marítima com embarcações adornadas pelo vento forte.

Como no Soneto da Separação de Vinicius de Morais:

 “…De repente da calma fez-se o vento

Que dos olhos desfez a última chama

E da paixão fez-se o pressentimento

E do momento imóvel fez-se o drama.” [6]

Na outra pintura de Dirck Halls, (lembrando mais o seu irmão Franz Halls (1580-1666), surge num tom bem mais alegre, uma sorridente jovem, vestindo azul e dourado, com a mesma gola branca, sentada de frente para o espectador, num aposento semelhante ao da outra pintura.

O quadro na parede do fundo é agora uma paisagem de um mar de águas calmas, onde “O voluptuoso balanço de uma barca imita vagamente os pensamentos que flutuam numa alma." [7]


fig. 7 - Dirck Hals (1591-1656 ), mulher sentada com uma carta, também conhecido como Esperando o Amor 1633, óleo s/painel 34 x 29 cm.  Philadelphia Museum of Art. Philadelphia.



 [1] Luís de Camões, Soneto CLXXXII in Obras de Luís de Camões. Lello & Irmão - editores Porto 1970. (pág.95).

[2] Luís Vaz de Camões (1524-1580), Soneto CVII in Obras de Luís de Camões. Lello & Irmão – editores. Porto 1970. (pág. 57).

[3] Rainer Maria Rilke (1875-1926), La Fenêtre, de Vergers, in Œuvres poétiques et théâtrales, Collection de la Pléiade Gallimard, Paris 1987. (pág.1104).

[glace, soudain, où notre figure se mire / mêlée à ce qu’on voit à travers ;]

[4] Luís Vaz de Camões (1524-1580), Soneto XXX in Obras de Luís de Camões. Lello & Irmão - editores Porto 1970. (pág.18).

[5] Luís Vaz de Camões (1524-1580), Canção IV in Obras de Luís de Camões. Lello & Irmão - editores Porto.1970. (pág. 234 a 236).

[6] Vinicius de Morais, Soneto da separação, Oceano Atlântico, a bordo do Highland Patriot, a caminho da Inglaterra, 09.1938 in Antologia Poética 2ª ed. aumentada Editora do Autor,  Rio de Janeiro 1960. (pág.104).

[7] Honoré de Balzac (1799-1850). Le Lys dans la Vallée. (nouvelle édition revue et corrigée). Charpentier Éditeur, Paris 1839. (pág. 229). [Le voluptueux balancement d'une barque imite vaguement les pensées qui flottent dans l'âme.]

domingo, 23 de novembro de 2025

poema curto 11

 

poema curto 11

 

na indecisa madrugada que respiro

heróis que só a eles se assombram


 

















Mark Kostabi (n.1960) true believers 1992. Óleo s/ tela 45,72 x 55.88 cm. Col. particular.

 

sexta-feira, 21 de novembro de 2025

janelas 10


À janela…”espero e temo, quero e aborreço…” [1]

 3 pinturas das inúmeras do mesmo tema.

1 - Henri de Braekeleer pinta uma jovem que uminteresse enganoso, amor fingido, / Fizeram desditosa a fermosura.” [2]


Está sentada, junto a uma janela aberta, com um olhar que se advinha triste, observa um recanto de Antuérpia de uma “Janela antiga sobre a rua plana...” [3]

 


fig. 1 - Henri de Braekeleer (1840-1888), The Teniersplaats Antwerp 1878, óleo s/tela 82 x 65 cm. Koninklijk Museum voor Schone Kunsten Antwerpen.

O tédio, o ennui, o spleen, que se advinha nas personagens femininas, que olham a janela, é retratado no soneto de Jules Laforgue.

“Tudo hoje me aborrece. Corro a minha cortina,
No alto o céu cinzento raiado de uma chuva eterna,
Em baixo a rua onde em uma névoa de fuligem
sombras entre as poças de água vão na neblina.

Escavando o meu velho cérebro eu olho sem ver,
E mecanicamente no vidro manchado
faço com a ponta do dedo uma caligrafia,
Bah! Saiamos, talvez algo de novo possa haver.

Nenhum livro novo surgiu. Ninguém passa só animais,
Fiacres, muita lama e aquela chuva de sempre ...
E a noite, o gás e eu regresso com passos pesados demais...

Eu como e bocejo, e leio, nada me enaltece ...
Bah! Vou-me deitar. - Meia noite. Uma hora. Ah! Todos dormem!
Só, eu não consigo dormir e cada vez mais tudo me aborrece.”
  [4]

 

2 - O pintor dinamarquês Carl Vilhelm Holsøe parece ilustrar este estado de espírito.

Numa pintura com tons claros e luminosos, parece sublinhar a esperança com que a jovem sentada parece fixar o reflexo da janela, talvez duvidando se vale a pena esta longa espera à qual a janela, impassível, nunca responde ou só responde com com esse equívoco e misterioso pedaço de luz.



fig. 2 - Carl Holsøe (1863–1935), Kvinde ved vindue, (Esperando à janela) s/d, óleo s/tela 73,7 x 68,5 cm. Col. particular.

A pintura de Holsøe caracteriza-se por retratar elegantes interiores, onde uma única figura feminina, nunca mostrando o rosto, provoca uma sensação de tristeza e abandono. Ela é geralmente retratada em austeras salas, pouco mobiliadas, onde a justaposição cuidadosa dos objetos, o uso de tons e cores harmoniosas, e, sobretudo, a inclinação da luz suave, cria ambientes, ao mesmo tempo tranquilos e enigmáticos.


3 - O pintor austríaco Carl Probst, também pinta uma figura feminina sentada junto a uma janela, com a cabeça apoiada no braço direito, e um olhar vazio.

A janela onde nada se vê do exterior, deixa apenas entrar luz suficiente para iluminar o compartimento carregado de significantes objectos.


fig. 3
- Carl Probst (1854-1924). “Anfangs wollt ich fast verzagen,/ Und ich glaubt’ ich trüg’ es nie… 1885, óleo s/madeira 61 x 33 cm. Col. particular.

O pintor intitulou o quadro com os versos de um poema do poeta romântico Heinrich Heine do livro “Buch der Lieder” de 1827, o livro que, significativamente, ela tem pousado sobre os joelhos e que a faz recordar o seu abandono por alguém amado.

O poema de Heine que dá o título ao quadro diz:

 “…Eu me desesperei de início, declarando

O que nunca poderia suportar; e agora,

agora suporto, ainda desesperando.

Só nunca me perguntem como!”  [5]


 
fig. 4 – Pormenor de Anfangs wollt ich fast verzagen.

Esta desesperada resignação da mulher, é ainda indiciada, quer pelo pequeno cofre onde repousam cartas, quer pelo emoldurado retrato, ambos colocados sobre a mesa.

 


fig. 5 - Pormenor de Anfangs wollt ich fast verzagen.

 E o pintor coloca ainda, pousada no chão, uma arca com objectos e recordações, decorada com desenhos de flores as quais acompanham o abandonado pequeno ramo de rosas amarelas, que por terra vão murchando.

 



 fig. 6 - Pormenor de Anfangs wollt ich fast verzagen.
 


 

 



[1] Luís de Camões, Soneto CXXX, in Obras de Luís de Camões, Lello & Irmão Editores, 144, Rua das Carmelitas, Porto 1970. (pág. 69).

[2] Luís de Camões, Soneto XL, in Obras de Luís de Camões, Lello & Irmão Editores, 144, Rua das Carmelitas, Porto 1970. (pág.23).

[3] Florbela Espanca (1894-1930), À Janela de Garcia de Resende, de Reliquiae versos póstumos publicados com Charneca em Flor in Sonetos Completos, Livraria Gonçalves, Rua Sá de Miranda, 60, Coimbra MCMXXXIV. (pág.146).

[4] Jules Laforgue, Spleen, 7 novembre 1880 in Les Complaintes et les premiers poèmes, Gallimard, Paris,1979. (pág.248).

[Tout m'ennuie aujourd'hui. J'écarte mon rideau,

En haut ciel gris rayé d'une éternelle pluie,

En bas la rue où dans une brume de suie

Des ombres vont, glissant parmi les flaques d'eau.

Je regarde sans voir fouillant mon vieux cerveau,

Et machinalement sur la vitre ternie

Je fais du bout du doigt de la calligraphie.

Bah ! Sortons, je verrai peut-être du nouveau.

Pas de livres parus. Passants bêtes. Personne.

Des fiacres, de la boue, et l'averse toujours...

Puis le soir et le gaz et je rentre à pas lourds...

Je mange, et baille, et lis, rien ne me passionne...

Bah ! Couchons-nous. - Minuit. Une heure. 

Ah ! Chacun dort ! Seul, je ne puis dormir et je m'ennuie encore.] 

[5] Heinrich Heine (1797 - 1856), Anfangs wollt ich fast verzagen de Book of Songs in Poems of Heinrich Heine, Three Hundered and Twenty-Five Poems, Selected and translated by Louis Untermeyer. Henry Holt and Company, New-York 1917. (pág.25).

[Anfangs wollt ich fast verzagen,
Und ich glaubt’ ich trüg’ es nie,
Und ich hab’ es doch getragen, –
Aber fragt mich nur nicht, wie?]

Como não domino o alemão procurei e traduzi a versão inglesa.

 [I despaired at first, declaring

It could not be borne; and now

Now I bear it, still despairing.

Only never ask me how!]

 

terça-feira, 18 de novembro de 2025

Poema curto 10

 

 

Urbis et Civitas

 

Quando a cidade inteira cabia num só olhar

os meus passos sim? quem podia ouvi-los?

 

Maria Helena Vieira da Silva (1908-1992), Urbi et orbi, óleo s/ tela 300 x 401 cm. Musée des Beaux-Arts de Dijon.

 

segunda-feira, 17 de novembro de 2025

 

poema curto
 
o nó escuro que prende o céu à noite
vulto agarrado a tudo que não é firme



Dario Alves (1940), Porto 2006, acrílico s/tela 50 x 60 cm. Col. particular.