terça-feira, 17 de março de 2026

O edifício com rosto humano

 

O edifício com rosto humano

As fachadas das casas com um rosto humano são um exemplo perfeito do que se designa por pareidolia, já que elas possuem um conjunto de elementos que o nosso cérebro associa a características faciais humanas.

O rosto no pavilhão Carlos Ramos da Faup

“El ojo que ves no es

Ojo porque lo veas;

Es ojo porque te ve.”

Antonio Machado [1]


 


fig. 1 –Álvaro Siza, Pavilhão Carlos Ramos1986. FAUP. Foto Nelson Garrido.

Quando o Curso de Arquitectura se instalou como Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto (criada em 1979), e ocupou no Campo Alegre [2] a Casa Cor-de-rosa (Casa da Quinta da Póvoa), então adaptada e recuperada por Álvaro Siza logo se tornou evidente a necessidade de novas instalações.

Assim, numa primeira fase das novas instalações, foi construído o Pavilhão Carlos Ramos (1985/86), destinado a ampliar as salas que as aulas de projecto requeriam.


Quem então se dirigia à faculdade, o único acesso era pelo portão da quinta, e ao fundo do jardim, surgia o pavilhão Carlos Ramos.

fig. 2 – Álvaro Siza, alçado sul do pavilhão Carlos Ramos. Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto.

Assim, os que entravam na (ou para) a Faculdade de Arquitectura, o primeiro olhar, o primeiro contacto com a Arquitectura, era o rosto sorridente e acolhedor do braço poente da fachada sul do pavilhão Carlos Ramos.



fig. 3 – Álvaro Siza, Pavilhão Carlos Ramos. Faculdade de Arquitectura da Universidade do Porto.

Lembre-se que, para as gerações de estudantes de arquitectura que durante décadas entraram para a Escola de Belas Artes do Porto, dirigida por Mestre Carlos Ramos, a primeira imagem da Arquitectura que os recebia, era a escultura de Álvaro de Brée (1903-1962), colocada no jardim da entrada [3], que tinha sido realizada para o incontornável Congresso de Arquitectura de 1948.

 


fig. 4 - Álvaro de Brée (1903-1962) – Arquitectura (I Congresso de Arquitectura 1948) Jardins da Escola Superior de Belas Artes do Porto (FBAUP).


A Arquitectura, hirta, sóbria com uma túnica cintada e de sandálias, segurava na mão esquerda o esquadro e o compasso e na direita uma maqueta de um edifício de um neo-neo-clássico dos anos 40.

 


fig. 5 - Escola de Belas Artes do Porto anos 50. A estátua da Arquitectura de Álvaro de Brée 1948. Pavilhão de Tecnologias (Desenho)1950. Arq. Manuel Lima Fernandes de Sá (1903-1980).


fig. 6 - Escola de Belas Artes do Porto anos 60. A estátua da Arquitectura no Pavilhão de Exposições junto ao Pavilhão de Arquitectura. Junto ao lago a escultura “repouso” 1961 de Gustavo Bastos (1928-2014). In Gonçalo Canto Moniz, O Ensino Moderno da Arquitectura. A Formação do Arquitecto nas Escolas de Belas-Artes em Portugal (1931-1969)

Na entrada do Pavilhão de Arquitectura, também o fresco Prometheu de 1954 pintado por Dordio Gomes (1890-1976).

 

 

fig. 7 - Dordio Gomes, Estudo para o Prometheu aguarela sobre pape l 64 x 49cm. Col. Particular

Os etimologistas referem que o nome Prometheu a figura mitológica é considerada como o titã que deu aos homens o fogo que havia roubado a Zeus, significa pré-aprendizagem ou previsão, o que seria adequado a um pavilhão onde se desenhavam projectos de arquitectura na Escola de Belas Artes.

 

A face house de Kazumasa Yamashita

«Ma maison me regarde et ne me connaît plus.»

Victor Hugo [4]

 

Das inúmeras casas em cuja fachada se pode ver um rosto humano, aquela cuja imagem é mais difundida, é a “Face House” em Kioto no Japão.

Projectada em 1973 pelo arquiteto Kazumasa Yamashita (1937), e construída no ano seguinte, a "Face House", tornou-se conhecida pela publicação em 1977, de “The Language of Post-Modern Architecture” [5] pelo arquitecto e crítico Charles Jencks (1939-2019), quando se discutia a possibilidade de ultrapassar o Movimento Moderno por novos conceitos de uma Arquitectura Pós-Moderna mais adequada a uma sociedade que se considerava pós industrial.



fig. 8 – Kamzumasa Yamashita, face House Kioto 1974. In Charles Jencks, Le Langage de L’Architecture Post-Moderne, (pág.116).


No seu livro Charles Jencks afirma sobre a Face House, que o arquitecto “levou essa tendência antropomórfica ao seu limite e à sua conclusão lógica e absurda” e que “a sua Face-House, com os seus olhos redondos e o nariz em forma de cano de espingarda, franze as sobrancelhas, grita e, por fim, engole o ocupante.” [6]

A Casa chama-se assim, porque os atributos zoomórficos da fachada são evidentes: as janelas são os olhos, o nariz do rosto é uma clarabóia e a entrada da casa é uma boca cheia de dentes.



fig. 9 - Kazumasa Yamashita (1937-), Face House, Élévations des façades este et sud, 13 septembre 1973. Centre Pompidou Paris.

 

 

fig. 10 - Kazumasa Yamashita, Face House in Architectural Review n.º 946, Dec.1974.

 

Inserida no caótico tecido urbano de Kioto, a casa coloca a questão: poderão estes projectos de  criar um edifício ou uma casa com estas características, contribuir para a humanização de um espaço ou de um ambiente inóspito ou caótico?

 

A casa com rosto humano servindo a religião

Mas a casa de rosto humano é uma imagem simbólica, muito mais antiga e aparece associada a Santo Agostinho pela frase “os olhos são as janelas da alma”.

O edifício de rosto humano é sobretudo uma alegoria à morte, que entra pelos olhos as janelas da casa.

Giuseppe Arcimboldo desenhou no século XVI, uma alegoria à morte, como uma arquitectura com rosto humano. Os olhos são as janelas, uma varanda a orelha, o nariz um alpendre sobre a entrada que é a boca com os degraus semelhantes a uma língua. A cobertura em cúpula com ameias, formam um barrete.  Na imagem de Arcimboldo a morte é representada pela personagem que, subindo uma escada, entra por uma janela.



fig. 11 - Giuseppe Arcimboldo (1527–1593),Alegoria da morte. Pena, tinta castanhae lavissobre traços de lápis.,17,5 x 13,3 cm. Gabinetto dei disegni e delle stampe degli Uffizi. Firenza. E Capa de Heinrich Wölfflin (1864-1945), Prolegomenon to a Psychology of Architecture (1886). Translated by Michael Selzer KeepAhead Books Colorado Springs, 2017.

 

O desenho de Theodor Galle (1671-1733)

Para ilustrar o livro Verdicus christianus [O Verdadeiro Cristão] do jesuíta Jan David (1545?-1613) publicado em 1601,Theodor Galle (1671-1733) criou um conjunto de 100 gravuras, correspondendo a cada um dos capítulos.

A estampa n.º 66 “Aspectus incauti dispendium”, [A aparência descuidada é um desperdício], mostra uma casa simbolicamente transformada em cabeça humana.

O telhado de colmo faz o cabelo; as janelas superiores são os olhos; uma abertura central faz o nariz (com um bigode) e a porta aberta é a boca.

Os arbustos que rodeiam o edifício lembram as golas da época.

 


 

fig. 12 - Theodor Galle (1671-1733), Aspectus incauti dispendium, estampa 66 pag. 218ª, Cap. LXVI in Jan David, Sacerdote Societatis IESV. Antverplae Ex oficina Plantiniana Apvd Ioannem Moretvm. M. DCI. Biblioteca da Bélgica.


E a imagem tem na parte inferior uma legenda em latim, holandês e francês,

que recomenda não deixar os sentidos abertos para a tentação, pois a casa pode ser invadida pela morte por uma escada.

Em latim:

“Quid, qui emissitios nusquam non iactat ocellos?

Hoc agit, vt pandas mors inuolet atra fenestras.” [7]

E em francês

Qui laisse s’esbatre / Sa veue folatre / Quel malheur l’attend? / La mort aeternelle / Par ces trous eschelle / L’ame, et la surprend » [8]

 “A morte entra pelas janelas dos olhos” escreve Jan David e por isso, por uma das janelas/olho entra um esqueleto (C) subindo uma escada. (fig.13).

 E na gravura alguns exemplos de quem cedeu à tentação do olhar:

. com a letra A, Eva com a maçã na mão esquerda e a mão direita junto ao olho;

. com a letra B a mulher de Lot, as mãos tapando os olhos e que será transformada em sal por ter olhado para a destruição de Sodoma e Gomorra;




.e com a letra E o rei David numa varanda olhando e cobiçando Betsabá no banho.


fig. 13 - Theodor Galle (1671-1733), Aspectus incauti dispendium, estampa 66 pag. 218ª, Cap. LXVI in Jan David, Sacerdote Societatis IESV. Antverplae Ex oficina Plantiniana Apvd Ioannem Moretvm. M. DCI. Biblioteca da Bélgica.


O padre jesuíta Jan David procurava, através desta imagem, sublinhar nas mentes do público, aquele princípio da vida cristã, que recomenda não abrir os sentidos abertos à tentação, mostrando como o olhar pode conduzir à tentação, provocando a morte a invadir a alma, pelas janelas que são os olhos.

 

 

 

 



[1] Antonio Machado (1875-1939), (Antonio Cipriano José María y Francisco de Santa Ana Machado Ruiz), Proverbios y Cantares CLXI 1(Nuevas Canciones, Editorial Mundo Latino 1930) .in Antonio Machado Poesias Completas. Prólogo de Manuel Alvar. Espasa-Calpe, S. A. Madrid 1975. (pág, 268).

[2] Esse Campo Alegre que em 1934 Francisco Pereira de Sequeira (1893-1952) visionava que “nas longas e românticas estradas de há um século, erguer-se-ão edificações modernas e ele­gantes com as suas pérgolas, bairros ope­rários cheios de luz e de higiene.”

[3] Primeiro no pavilhão de Tecnologias Arq. Manuel Lima Fernandes de Sá. e de seguida no pavilhão de Exposições 1954. Arqu. Manuel Lima Fernandes de Sá com a colaboração de Alfredo Leal Machado (1904-1954).

[4] A minha casa observa-me e já não me conhece”. Victor Hugo (1802-1885), poème XXXIV La Tristesse d’Olympia in Les Rayons et les Ombres. Chez les principaux libraires et chez Ch. Gruaz. imp.- éditeur. Genève, 1840. (pág. 131). Gallica BnF.

[5] Versão em francês, Charles Jencks, Le Langage de L’Architecture Post-Moderne, Academy Editions-Denöel, London 1979.

[6] O arquitecto “a poussé cette tendance anthropomorphique jusqu’à son point d’aboutissement logique et absurde.” “sa maison-visage avec ses yeux ronds et son nez en canon de fusil, fonce les sourcils, hurle et en définitive avale l’occupant. »  Charles Jencks, Le Langage de L’Architecture Post-Moderne, Academy Editions-Denöel, London 1979. (pág.116).

[7] Quem nunca arranca os seus próprios olhos? / É isso que faz com que a morte se pareça com as janelas negras.

[8] Quem deixa vaguear  / o seu olhar malicioso?  / Que infortúnio o espera? // A morte eterna, / por estes buracos, penetra / na alma e surpreende-a.

 

 

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