O Rosto da Cidade I
“uma realidade que transcende
a própria imagem sua debuxada
no rosto do mistério, nos abismos.”
Carlos Drummond de Andrade
Nem todas as cidades têm um rosto, um “rosto nu na luz directa” , que nos permita de imediato
reconhecê-las.
Nem em todas, uma simples imagem - no escorrer do tempo - pode
condensar a sua fisionomia, a sua face, rosto onde se vão desenhando os velhíssimos
pormenores da sua história e da sua vida.
O
Rosto da Cidade é a sua “beleza
/ é essa luta de sombras / é o sobressalto da luz / num tremor de água” .
É a sua identidade e a sua
alma.
O rosto da cidade do Porto
“Uma cidade pode
ser
apenas um rio, uma torre, uma rua…”
Albano
Martins
fig. 1
– O Porto visto de Vila Nova de Gaia . Publicação de Porto photo. 16 de novembro
2014.
O Porto é uma cidade com rosto,
a face voltada na direção do sol, procurando deixar para trás, as suas sombras.
E se algumas vezes, em dias mais
sombrios, a chuva cai de mansinho, essas gotas de água lavam suavemente o seu rosto cor de granito,
enquanto o vento suave vai refrescando a sua invicta urbanidade.
A
passagem do tempo imprime, na imagem da cidade, um mundo de que falam várias
histórias, e é essa imagem que permanece na memória dos que, de coração
aberto, dela se aproximam.
O rosto da cidade vai
mudando dia a dia, mas apesar das diferenças, das rugas e cicatrizes que o
tempo lhe imprime, a quem o sabe olhar, sempre o reconhece.
É essa imagem, esse Rosto do
Porto, que como um espelho, emerge do
abismo profundo, onde, na névoa que sempre o rio traz, nessa neblina onde o
tempo se esconde, é esse rosto que permite que encontremos a nossa própria
face, a nossa própria e singular identidade de tripeiros.
A criação de um rosto para o Porto
“Quem desce de Gaia, com os olhos ainda presos à bonomia sólida e, às vezes, idílica dos subúrbios (…) quem traz ainda
consigo essa indiferença que as coisas felizes nos provocam, suspende-se de repente ao encontrar a face da cidade.” Agustina Bessa Luís
São duas, as primeiras imagens
que - de início - nos aproximam e traçam um primeiro retrato da cidade do
Porto: a Vista do Porto de Pier Maria Baldi de 1669 e a Vista do Porto de
Humphrey Duncalf de 1733.
São já duas vistas viradas
para o meio-dia, onde a cidade “cae sobre o Douro, que faz porto á
cidade, e lava as muralhas, que decem a beber na agoa.”
1 – A Vista do
Porto de Pier Maria Baldi
“Seu rosto é de um desenho muito
antigo”
Cecília Meireles.
Esse primeiro esboço de um retrato do Porto, a cidade cabendo num só olhar, terá sido realizado por Pier Maria Baldi.
O Porto é representado em dois desenhos que
adicionados formam uma vista completa da cidade, desde a Serra do Pilar ao
convento de Vale Piedade , na
margem sul, e da colina do Seminário até à Torre da Marca , na
margem norte.
fig. 2
- Pier Maria Baldi (c.1630-1686), Vista do Porto Estampa LXIV in Viaje de
Cosme de Médicis por España y Portugal (1668-1669) / edicion y notas por Angel
Sánchez Rivero y Angela Mariutti de Sánchez Rivero. - Madrid : Sucesores de
Rivadeneyra, [1933]. Da
Relazione ufficiale del viaggio di Cosimo III dei
Medici da Biblioteca Medicea Laurenziana de Florença.
É o segundo desenho, com a parte oriental da cidade, que
nos aproxima do rosto da cidade, onde “o
morro granítico da Serra do Pilar, avançando, como se fora um promontório,
parece unir-se com a escarpa do monte fronteiro e fechar alli o leito às aguas”
.
Neste desenho, o Porto e Gaia dando
as mãos, inclinam-se sobre o Douro, esse rio caudaloso que separa e une estas colinas,
e cujas actividades, deram origem ao nome da cidade.
fig.
3 - Pier
Maria Baldi (c.1630-1686),Desenho 2 da Vista do Porto Estampa LXIV in Viaje de
Cosme de Médicis por España y Portugal (1668-1669) / edicion y notas por Angel
Sánchez Rivero y Angela Mariutti de Sánchez Rivero. - Madrid : Sucesores de
Rivadeneyra, [1933].Da Relazione ufficiale del viaggio di Cosimo III
dei Medici da Biblioteca Medicea Laurenziana de Florença.
2 – A Vista do
Porto de Humphrey Duncalf
"As
verdadeiras imagens são gravuras. / A imaginação
grava-as na memória. /Elas
aprofundam lembranças vividas para se tornarem lembranças da
imaginação." Gaston Bachelard
A Poética do Espaço.
No
século XVIII, Humphrey Duncalf (1707?- 17..?), um inglês estabelecido no Porto
pinta uma vista do Porto.
fig. 4
– Humphrey Duncalf, Vista do Porto 1730/33. óleo s/ 155 X 90 cm. AHMP
Câmara Municipal do Porto.
Desta pintura é elaborada, em 1736, uma gravura (água-forte),
significativamente intitulada “OPORTO”, desenhada
por Duncalf e impressa por William Henry Toms ( c.1700–1765).
fig.
5
- H. Duncalf, OPORTO. Água-forte colorida 38 x 61 cm. H. Duncalf delin. H. Toms sculp. Publish'd According to
Act o f Parliament Augt. 3. 1736.
Tem uma legenda bilingue
com dez números em Português e Inglês dos principais edifícios.
1 -Os
frades de S. Bento 2 -A Igreja
da Vittória 3 -Os
Agostinhos 4 -Os Congregados 5 -S. Domingos 6 -S. Francisco 7 -A Igreja da Sé 8 -O Paço do Bispo 9 -Os padres da Companhia 10
-A Igreja de S. Nicolau
Nesta e noutras “gravuras tão inglesas com o panorama do
Porto, o rio, os barcos ancorados e a muralha da cidade” , Humphrey
Duncalf traça, com maior precisão, um
retrato do Porto, a imagem do Rosto da Cidade.
O tratado “dos
panos e dos vinhos” ,
trouxe para o Porto os ingleses e acrescentou à sua imagem o Vinho do Porto
Por isso, e porque agora “o Douro é um rio de vinho” , Duncalf na sua gravura desloca
para poente o ponto de vista do autor, conferindo ao
Douro e às actividades portuárias o principal protagonismo.
Quatro grandes navios de longo curso, ancorados sobre as
águas de uma pequena enseada, lembram o comércio com a Inglaterra.
E no rio, por entre diversos escaleres,
uma tartana e um rabelo, este lembrando o Vinho do Porto transportado
rio abaixo.
Na
margem sul diversas personagens dedicam-se às actividades do rio: do lado
esquerdo da imagem, pescadores lançam uma rede sob o olhar atento de uma
personagem de casaca, dois frades e um serviçal com uma cesta.
Ao centro e à direita diversas personagens como
carregadores, tanoeiros e comerciantes, ligadas ao comércio do vinho, que
assume já uma importância fundamental na economia da cidade.
fig. 6
– Pormenor da gravura de H. Duncalf.
Na zona ribeirinha destaca-se a praia de
Miragaia, a Porta Nova, com o fortim de D. Manuel, e uma reentrância
correspondente à Porta de Banhos.
A muralha “com a cintura rodeada de nevoeiros,
generosa e tímida, com a sua coroa provinciana e a luva suja na mão descalça…” está, a ocidente, interrompida
para a expansão da cidade que então, anda “à
procura de espaço / para o desenho da vida” .
Correspondendo à cidade joanina e
barroca, no Rosto do Porto destaca-se o papel da Igreja.
Assim, por entre grandes zonas não
edificadas, a gravura está centrada na colina da Vitória, dominada pelo convento
de S. Bento (construído ao longo do século XVII) e a igreja da Vitória
(correspondendo à edificada em 1638), junto ao vale das Virtudes onde corre o
Rio Frio.
Na cidade baixa, o mosteiro dos “Agostinhos” de S. João
Novo, cuja fachada foi refeita em 1726.
E os conventos de S. Domingos e
de S. Francisco, este com o portal da igreja já modificado adquirindo a sua
expressão barroca.
Ainda na zona ribeirinha a igreja de S. Nicolau edificada
entre 1671 e 1676. (será reconstruída em 1758, após um incêndio).
A colina da Sé - a acrópole da cidade – é remetida
para o plano de fundo.
A Sé com as transformações
barrocas como as cúpulas bolbosas e as balaustradas nas torres, o frontão entre
elas sobre o portal principal.
Na imagem é visível a Casa do Cabido construída entre
1717 e 1719 e o Paço do Bispo ainda
na sua versão primitiva.
Destaque ainda para “Os padres da Companhia”, ou
seja, igreja e o Colégio de S. Lourenço (Grilos).
Para nascente da muralha, “a tapeçaria bela e fina/Com
que se cobre o rústico terreno…”, das Fontaínhas e do
verdejante vale de Campanhã.
Duas gravuras que criam o rosto da cidade
A gravura de
Teodoro de Sousa Maldonado
“Que
diz além, além montanhas,
O Rio Doiro à tarde, quando passa?
Não há canções mais fundas, mais estranhas,
Que as desse rio estreito, de água baça!...
Que diz ao vê-lo o rosto da cidade?”
A
cidade ganha, por fim, uma inconfundível imagem que
se irá consolidando como a face da cidade e o Rosto
do Porto.
E mesmo ganhando algumas rugas e cicatrizes, mesmo envelhecendo,
irá manter-se até hoje para os que a querem apresentar ou resumir a uma só
imagem.
fig. 7 - Teodoro de Sousa Maldonado (1759-1799), T. S. Maldonado
delin.; Godinho sculp.. na Officina de António Alvares Porto 1789.
Na parte superior dois anjos seguram uma fita com “C.ª DO PORTO”.
Em
baixo rodeando a legenda de 56 números, as Armas da Cidade com a imagem de
Nossa Senhora da Vandoma entre duas torres e o dístico: “Civitas Virginis”.
Na legenda à direita: 29 Caza Antiga da Moeda
30 Hospital de S. Crispim 31 Igreja da Lapa 32 Congregados do Orat. 33
Agostinhos descalços 34 Senado 35 Praça Nova da Ribeira 36 Senhora do Ó 37
Cathedral 38 Paço do Bispo 39 Pelourinho 40 Patibulo 41 Caridade 42 Porta de
Sima da V.ª 43 Recolhime.to do Ferro 44 Igreja de S. Ildefonso 45 Convento de S.
Clara 46 Porta do Sol 47 Capuchos 48 Recolhim.to das Orfas 49 Escadas dos
Guindaes 50 Muro da Cidade 51 Rio Douro 52 Estaleiro 53 Santa Marinha 54
Armazens 55 Villa Nova 56 Convento da Serra
Na legenda à esquerda: 1 Torre da Marca 2
Convento de Monchique 3 Passeio de Miragaya 4 Quarteis Militares 5 Parochia de
S. Pedro 6 Forte da Porta Nova 7 Fabrica de Louça 8 Hospital dos Inglezes 9
Porta dos Banhos 10 Gracianos 11 Porta das Virtudes 12 Hospital Novo 13
Terceiros Francisc.os 14 Franciscanos 15 Benedictinos 16 Praça da Victoria 17
Igreja da Victoria 18 Igreja de S. Nicolao 19 Terceiros Trinitários 20 Relação
21 Porta do Olival 22 Terceiros Carmelitas 23 Dominicos 24 Collegio dos Orfãos
25 Igreja dos Clérigos 26 Mizericordia 27 Porta da lingoeta 28 Alfandega
Na legenda à direita: 29 Caza Antiga da Moeda
30 Hospital de S. Crispim 31 Igreja da Lapa 32 Congregados do Orat. 33
Agostinhos descalços 34 Senado 35 Praça Nova da Ribeira 36 Senhora do Ó 37
Cathedral 38 Paço do Bispo 39 Pelourinho 40 Patibulo 41 Caridade 42 Porta de
Sima da V.ª 43 Recolhime.to do Ferro 44 Igreja de S. Ildefonso 45 Convento de
S. Clara 46 Porta do Sol 47 Capuchos 48 Recolhim.to das Orfas 49 Escadas dos
Guindaes 50 Muro da Cidade 51 Rio Douro 52 Estaleiro 53 Santa Marinha 54
Armazens 55 Villa Nova 56 Convento da Serra.
Em 1789, o padre Agostinho Rebelo da Costa (17..?-1791)
publica a sua “Descripçaõ Topografica e
Historica da Cidade do Porto”. Em subtítulo escreve “Que contém a sua origem, situaçaõ e antiguidades: a magnificencia dos
seus templos, mosteiros, hospitaes, ruas, praças, edificios, e fontes...&tc.”
Um livro que descreve e promove a cidade do Porto,
mostrando todas as suas vantagens e características, com a preocupação de a
valorizar nacional e internacionalmente.
No livro, Teodoro de Sousa Maldonado insere
esta imagem que, acompanhando a descrição literária, pretende promover o Porto
como cidade portuária de “Commercio e
Navegação”, dar-lhe uma personalidade com o objectivo claro da sua
afirmação económica e política com “o
immenso cabedal, que enriquece a negociaçaõ da Praça do Porto” [24]
À cidade da
primeira metade do século VIII “barroca na forma,
nos volumes e no movimento do seu casario, na forma túrgida do burgo, nos meandros
do rio, nas perspectivas várias dos múltiplos planos“ , acrescenta-se a cidade iluminista e neoclássica dos
Almadas , que com os “cabedais” da Companhia Geral das
Vinhas do Alto Douro (fundada em 1756), “que é sem exageração, a base principal
do comércio desta cidade, um dos maiores e mais fecundos ramos que o promove, e
a grande alma que o anima, assim como na indústria como nos interesses gerais.”
Para promover as obras na cidade é criada em 1758 a Junta das Obras
Públicas, sendo o seu financiamento obtido com um imposto lançado sobre o
comércio do vinho. Aos arquitectos-artistas do Barroco, substituem-se
agora os engenheiros-militares, com uma visão mais racional e
estratégica do desenvolvimento e embelezamento urbano.
Esta gravura, a
primeira gravura feita por portuenses, acrescenta ao rosto da
cidade, uma torre, a Torre da Igreja dos Clérigos, “…hum dos maiores Obeliscos”, que servindo “de
Balisa, ou Marca para se dirigirem por elle todas as embarcações que entraõ na
barra do rio Douro.” .
Por isso Sousa Maldonado desenha a Torre ocupando uma
posição central, mostrando que ela ao assumir um incontornável papel na estruturação visual
e urbana do Porto, altera e consolida o perfil e a imagem da
cidade, para quem de fora dela se aproxima e/ou para quem nela circula.
E assim se completa o Rosto da Cidade, com a presença da Torre
dos Clérigos, esse rosto onde a “luz terá a cor do granito” .
fig. 8
– A Torre dos Clérigos. Pormenor da gravura de Teodoro de Sousa Maldonado.
E nasce ainda a descrição da cidade como um anfiteatro
sobre o rio:“O prospecto da Cidade observado da parte meridional do Rio
Douro, he bem similhante a hum grande Amphitheatro” .
Na gravura, o Porto surge assim, como uma urbe
debruçada sobre o Douro em anfiteatro por cima dos telhados de Gaia e tendo à direita a
Serra do Pilar, e estendendo-se entre a Torre da Marca e o Recolhimento da
Órfãs (Na. Sra. da Esperança).
A imagem do Porto de Teodoro
de Sousa Maldonado estabelece e consagra, a decisiva intervenção dos Almadas , criando esta nova e
completa visão da cidade, onde no dizer de Paulino de Cabral (1719-1789), Abade
de Jazente, “se extendem ruas, se sustentaõ pontes” e se faz
sentir a inadiável necessidade e vontade de um atravessamento do Douro,
consagrando “que os precipícios /Já saõ Cidade, e deixaõ de ser môntes”.
A cidade já
então bracejara amplamente para fora do recinto das suas espessas muralhas, “Havendoce
aumentado no prezente seculo o commercio desta cidade ao auge a que se acha,
cresceu com elle igualmente a sua povoação e opulência e nam sendo ja
suficiente o lemitado âmbito que lhe constituirão as suas muralhas para
comprehender todos os moradores fundarão estes para sua habitação novos bairros
que lhe sam contíguos e hoje maiores que a cidade antiga…”
A cidade apresenta ainda alguns panos da sua
muralha que “discorre ao Meio dia, quasi em linha recta
pela margem do Rio Douro; e depois de formar huma varanda espaçosa de dous mil
pés de comprimento, faceada de bellissimos, e disposta em forma, que serve de
agradavel passeio Publico, chega aos Guindais…”.
À cidade chega-se pelo rio e nela se entra pelas Portas ribeirinhas. Nela
estão assinaladas “as maiores Portas, e as de maior concurso”: a
Porta Nova, a Porta dos Banhos, a Porta da Lingueta,
a Porta do Peixe e a Porta da Ribeira que faceaõ com o Rio”.
Mas, das cinzas da memória, emerge na gravura “Junto d’uma d’estas portas, a da
Ribeira, estavam d’um lado a forca e do outro o pelourinho da cidade,
terríveis insígnias da idade média, permanentemente de pé em todas as terras
importantes.”
A Forca, deslocada em 1714 do “sitio chamado Mija-velhas, e arvorar-se
no caes da Ribeira. Em 14 de junho de 1725 se tomou assento ácerca das ruas por
onde haviam de transitar os padecentes; redusiram-se as ruas mais breves e
direitas á Ribeira.”
A gravura de Manoel Marques de Aguilar 1791
“O sol, que pelas ruas da cidade / Revela as marcas do viver humano / Sobre teu belo rosto soberano / Espalha apenas pura claridade.” Vinicius de Moraes
fig. 9
- Manoel Marques de Aguilar (1767/8-1816/7) Vista da Cidade do Porto, desde a
Torre da Marca athe as Fontainhas, tomada da parte de Filia Nova do sítio
chamado Choupello. Dedicada Ao Ulmo. e Exmo. Senhor JOZE DE SE ABRA DA SILVA,
Ministro e Secretario de Estado de Sua
MAGESTADE FIDELÍSSIMA da Repartição dos Negócios do Reyno. Por Manoel Marques
de Aguilar Alumno das Aulas Regias, Náutica, e Dezenho, estabelecidas na dita
Cidade. Aguilar Delin e Esculp no Anno de 1791 e da por Completos os Edifícios
dos Números seguintes: No. 11. 28. 29. 34. Gravura aberta a buril 35x103 cm. Exemplar
colorido da Biblioteca Nacional Digital.
Na parte
inferior, ao centro, o brasão dos Seabras com dois leões virados um para o outro e ao
centro um S coroado.
É
dedicada ao Senhor JOZE DE SEABRA DA SILVA, Ministro e Secretario de Estado de
Sua MAGESTADE FIDELÍSSIMA da Repartição dos Negócios do Reyno. [40]
A gravura de Marques de
Aguillar, do final do século XVIII, consolida este retrato da cidade do Porto
como o Rosto da Cidade.
A cidade, vista de Gaia,
estende-se da Torre da Marca até às Fontaínhas
A cidade muralhada está centrada na Torre dos Clérigos,
(definitivamente o ex-libris da cidade), que se ergue entre os morros da
Vitória com o convento de S. Bento e o morro onde a Sé repousa.
fig. 10
- A gravura reproduzida na Edição Comemorativa da Inauguração da Ponte da
Arrábida 1963 - CMP
Como se estivessem
acabados, estão representados alguns edifícios, em construção, como o Hospital
de S. António (com a torre prevista no projecto de John Carr), a igreja da Lapa
e o Paço Episcopal.
A gravura mostra
sobretudo a intensa actividade no Douro e nas suas margens,
No “Douro, meu belo país do vinho e do suor” , destaca-se a rota do
Vinho do Porto desde o Alto Douro até Vila Nova de Gaia, que os “barcos rabelos carregavam pelo rio sossegado
seus largos barris.”
1 - Na
gravura, Marques de Aguilar desenha um primeiro rabelo de “espadella
longa e esguia estirando- se ao lume d'agua como a cauda de um cetáceo." , transportando rio abaixo o
vinho que “logo que as pipas que o
contéem são carregadas no barco, que as ha de trazer aos vastos armazéns de
Gaya, o vinho deixa de ser do Douro, e passa a ser do Porto, sem que os
cultivadores protestem contra a uzurpação de um titulo, que certamente lhes
daria honra.”
O rabelo apronta-se “a chegar
ao término da sua viagem, carregado de cascos cheios, com água rasando as
bordas, a carga arrumada a preceito
fig. 11
- O rabelo descendo o rio. Pormenor da
gravura de Marques de Aguilar.
2
- Após atracar ao cais de Gaia, o “barco rabelo descarrega pipas pelo processo ainda usado nos
nossos dias (os cascos passados sobre as pranchas de carga, puxados por cabos,
e manobrados com o auxílio dos paus ou travessas de carga, usados como
alavancas)…”
fig. 12
– Descarregando o rabelo na margem de Gaia. Pormenor da gravura de Marques de
Aguilar.
Descarregada a carga para os armazéns de Gaia, o rabelo, “vela branca, rio acima” , de
regresso às terras do Alto-Douro,”com o arrais a governar nas apegadas e, à
proa, três marinheiros, dois em
descanso (um parece estar a beber), e o terceiro, vigiando o percurso, como proeiro.”
fig. 13 – O barco rabelo rio acima de
vela enfunada,
E, para além deste ciclo do rabelo, a
gravura mostra
a importância da cidade na construção e na manutenção das embarcações de longo
curso.
fig. 14
– As actividades náuticas nas margens do Douro. Pormenor da gravura de Marques
de Aguilar.
No lado esquerdo da
gravura Marques de Aguilar desenha uma fragata “em
construção…” , e
mais para a direita uma outra embarcação com o casco adornado a querenar.
E no
Douro, o rio que é porto da cidade, estão ancoradas diversas fragatas, navegam
valboeiros, e ainda, um bergantim e uma lancha poveira, uma galeota e diversos
botes e escaleres.
Concluindo
esta I Parte e antes de observar o Rosto do Porto nos séculos posteriores,
terminámos com Agustina Bessa Luís, sentindo nesta “admirável e antiquíssima gravura uma
simplicidade dramática, como se ela
contivesse uma só forma moral, apesar dos seus imbricados mundos de classes,
dos seus preconceitos, das suas confidências de vizinhança impassível a todas
as leis, excepto à da não-semelhança com o seu próximo.”
CONTINUA
Carlos
Drummond de Andrade (1902-1987) a máquina
do mundo in Claro Enigma (1951) 10ª edição Editora Record Rio de Janeiro
(pág. 122)
[2] Sofia de Mello Breyner (1919-2004), Rosto do livro Coral in Sophia de Mello
Breyner Andressen. Obra Poética. Assirio & Alvim, Porto Editora. Porto
2015. (pág.301).
[3] Mia Couto (1955), no teu rosto (Janeiro de 1981) in Raíz de Orvalho e outros poemas
(1ª edição 1999). Editorial Caminho 2010. (pág. 48).
[4] Albano Martins (1930-2018), "Castália e Outros Poemas".
Campo de Letras. Porto 2001.
O
mosteiro de Vale da Piedade foi fundado em 1569, pelos religiosos franciscanos
(antoninos) da província da Soledade, ou reformados menores de S. Francisco.
“Ao lugar onde se fundou este mosteiro
(em frente de Miragaia, na margem esquerda do Douro) se chamava até então Vale
de Amores. Deu-se-lhe este nome, porque sendo um matagal, com árvores
silvestres, era a alcoice (local de prostituição) dos moradores do Porto e
Gaia. Os frades mudaram o nome para o de Vale da Piedade.” Francisco
Ferreira Barbosa, Elucidário do Viajante
no Porto. Coimbra 1864.
Dos teus, ó Porto, antigos Orizôntes
Apenas se descobrem os indícios;
Porque até dos penháscos nos refquícios
Se extendem ruas se sustentaõ pôntes.
Novos Cáes, novas Praças, novas Fôntes,
Torres, Templos, Palácios, Frontespícios
Te daõ tanta extensaõ, que os precipícios
Já saõ Cidade, e deixaõ de ser môntes.
.Cada vez cresces mais: Oh sempre cláro
Te assista o Céo, e tenha decretáda
Duraçaõ, que resista ao tempo aváro.
E serás immortal, se mensuráda
A vires pelo nome do Precláro
Teu fundador segundo, o Illustre Almada.