domingo, 1 de março de 2026

O Rosto da Cidade V

 


 

O Rosto da Cidade na pintura do século XX

Fotografia e Pintura

 “A arte não reproduz o visível, a arte torna visível”

Paul Klee [1]


As fotografias apresentadas no texto anterior – onde se poderiam acrescentar muitas, muitas outras – constituem, como assinala Mário Cláudio, “o compêndio ideal, e o mais belo, para acompanhar a dinâmica de toda a metamorfose. Em consequência do sopro de um novo vento, cresce e decresce o Porto que assimilámos, enriquecendo-se de saudades.” [2]

Mas se estas fotografias (a preto e branco), muito nos dizem e nos recordam, sobre o passar do tempo no Rosto da Cidade, melhor ainda nos dizem e mostram as composições, que os pintores ao longo do século XX e neste início de milênio, o foram pintando.

A pintura acrescenta a estas antigas fotografias a cor, permitindo uma diferente luminosidade e sobretudo, uma visão e uma mais profunda interpretação - porque pessoal - da realidade.

Mostrando como cada pintor, inserido na cultura do seu tempo, interpreta a realidade através da emoção.

Como no seu “Zeitgeist” ele “vê” e desenha o Rosto da Cidade, construindo a sua própria realidade…

Por isso, e porque toda a observação tem uma qualidade modulante / que a linguagem poética documenta;…” [3], a pintura revela uma realidade mais profunda, no que mostra e no que esconde, elaborando, poeticamente, uma realidade talvez menos “real”, mas certamente mais existencial

Se a fotografia mostra e descreve, a pintura interroga e inquieta.

 



[1] « L’art ne reproduit pas le visible, il rend visible. »  Paul Klee (1879-1940), Théorie de l’art moderne (1920) èditions Gonthier, Genève 1964. (pág 35).

[2] Mário Cláudio As Teias da Nostalgia. In Porto. Margens do Tempo. Livraria Figueirinhas Porto 1994. (pág. 7).

[3] Vasco Graça Moura (1942-2014), um dia passamos numa cidade do norte in instrumentos para a melancolia com 3 desenhos de José Rodrigues. O Oiro do Dia. Porto Setembro 1980 (pág. 109).


A Pintura

 

“O Porto, orgulho do norte, é essencialmente uma cidade dramática.

Possui, como se costuma dizer, um olhar apurado para o efeito dramático

e escolhe os momentos da sua primeira aparição com uma consumada maestria.”

 William Henry Koebel 1909. [1]

 
























fig. 1 - Susanna Roope Dockery (1856-1927) Quayside: Oporto, 1909. In William Henry Koebel (1872–1923) Portugal its land and people by W. H. Koebel with illustrations by mrs. S. Roope Dockery and from photographs Archibald Constable and Co. London 1909. (entre as pág 290 e 291).


O Rosto do Porto nos primeiros anos do século e na véspera da implantação da República, é pintado por Susanna Roope Dockery (fig.1 e 2), insertas no livro de William Henry Koebel, um comerciante inglês com negócios em Portugal. [2]

 As aguarelas de S. R. Dockery, mostram, embora parcialmente, o Rosto da Cidade ainda pintado de uma maneira convencional, salientando a Torre dos Clérigos, o casario, o cais e o Douro com as embarcações típicas.



fig. 2 - Susanna Roope Dockery (1856-1927) Oporto: from the Douro 1909 In William Henry Koebel (1872–1923) Portugal its land and people by W. H. Koebel with illustrations by mrs. S. Roope Dockery and from photographs Archibald Constable and Co. London 1909. (entre as pág. 276 e 277).

W. H. Koebel considera que o Porto possui “uma orla fluvial de grande interesse, pontes famosas” [3] e descreve assim o cais da Ribeira:

“Na margem do rio, a cena é tão animada como em qualquer outro lugar. Homens e mulheres pitorescos descarregam os produtos dos charmosos barcos com a plataforma de madeira * logo atrás do mastro, enquanto outros, igualmente pitorescos, contentam-se em observar — seja por necessidade ou escolha, é impossível dizer.

Pequenos barcos **, impulsionados com vigor, cruzam de um lado para o outro entre as margens, e recém-chegados continuam a aparecer, engrossando as multidões em torno dos poucos vendedores ambulantes que montaram suas barracas no local.” [4]

*Os rabelos

**Os valboeiros

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[1] Oporto, pride of the north, is essentially a dramatic town. It possesses, that is to say, a keen eye for dramatic effect, and chooses the moments of its first appearance with consummate skill. William Henry Koebel (1872–1923) Portugal its land and people by W. H. Koebel with illustrations by mrs. S. Roope Dockery and from photographs Archibald Constable and Co. London 1909. (pág. 258).

[2] Ver nota 1

[3] ...a riversine front of absorbing interest, famous bridges… William Henry Koebel (1872–1923) Portugal its land and people by W. H. Koebel with illustrations by mrs. S. Roope Dockery and from photographs Archibald Constable and Co. London 1909. (pág. 261).

[4] By the riverside the scene is as lively as elsewhere. Picturesque men and women are unloading the produce from thequaint boats with the wooden platform just behind the mast, while others, equally picturesque, content themselves with looking on — whether from necessity or choice, it is impossible to tell. Small boats, pulled along lustily enough, are crossing to and fro between the banks, and new-comers are continuously arriving to swell the crowds about the couple of hawkers that have set their pitches upon the spot. W. H. Koebel with illustrations by mrs. S. Roope Dockery and from photographs Archibald Constable and Co. London 1909. (pág. 270).


O Rosto da Cidade em alguma pintura da primeira metade do século XX

“…ó coisas grandes, banais, úteis, inúteis,
Ó coisas todas modernas,
Ó minhas contemporâneas, forma actual e próxima
Do sistema imediato do Universo!
Nova Revelação metálica e dinâmica de Deus!” 
 

Álvaro de Campos [1]

 

Nas primeiras décadas do século XX, período da República, as pontes metálicas, tornam-se tema do desenho e da pintura do Rosto da Cidade, como símbolos de progresso, acrescentando modernidade à paisagem e à imagem da cidade.
Nestas primeiras décadas, apesar das muitas fotografias, é na pintura que alguns artistas, que se querem modernos, concretizam poeticamente a sua visão moderna do Rosto da Cidade.


Eduardo Viana 

Eduardo Viana [2] durante a sua estadia no Porto nos anos 20, elege as pontes metálicas como tema para sinalizar o modernismo que então procura.

 


fig. 3 - Eduardo Viana (1881-1967), ponte D. Maria 1925, óleo s/tela 120 x 132 cm. Museu nacional Soares dos Reis.

 A par desta conhecida pintura da ponte ferroviária, Viana também pinta a ponte Luiz I.


fig. 4 - Eduardo Viana Ponte Luiz I, anos 20, óleo sobre tela 180 x 240 cm. Colecção particular (exposto na Exposição «Como alguns artistas viram o Porto» em 1951 no Gabinete de História da Cidade - Arquivo Histórico Municipal do Porto).

Esta pintura em que a ponte e o casario das margens, ocupam quase a totalidade do espaço da composição, “é construída, - dir-se-ia esculpida – por planos, largamente marcados pelos valores essenciais, com um desprezo por acessórios que mais intensifica os efeitos cromáticos.” [3]

 

A modernidade da pintura de Viana afirma-se “na cor navegando alta [4] - em que sobressai “o amarelo torpe das paredes e o rouge de venise alastra como barro” [5], cores do orfismo reencontrado no Minho no convívio com os Delaunay. [6]



[1] Álvaro de Campos/Fernando Pessoa, Ode Triunfal, in Fernando Pessoa, Obra Poética, Volume Único, Rio de Janeiro, GB, Companhia Aguilar Editora, 2.ª edição, 1965. (pág. 308).

[2] Eduardo Afonso Viana (1881-1967). Depois de frequentar a Academia de Belas-Artes de Lisboa parte para Paris em 1905 e aí permanece até 1915. Entretanto envia diversos trabalhos para as Exposições. Entre 1915 e 1917, convive com Sónia e Robert Delaunay, que fugindo da I Guerra se instalam em Vila do Conde na Av. Bento de Freitas. Em 1919 participa no III Salão dos Modernistas do Porto; em 1920 expõe individualmente no Porto, e em 1921 na Galeria da Santa Casa da Misericórdia do Porto. Em 1925 organiza o I Salão de Outono na SNBA. [ver no blogue do Porto e não só. https://doportoenaoso.blogspot.com/2025/02/o-1-salao-de-outono-um-apontamento.htm l

[3] Reynaldo dos Santos (1880-1970), A Exposição de Eduardo Viana, in Contemporânea n.º 8 de 1923, Director José Pacheco, Rua Nova do Almada 53, Sociedade Edições Contemporânea Lisboa. Texto reproduzido com o título Eduardo Viana 1923 em Colóquio Artes, n.º 48 Abril de 1968, Fundação Calouste Gulbenkian.

[4] António Ramos Rosa (1924-2013) e certas palavras  in Voz Inicial, Livraria Moraes, col. Círculo de Poesia, Lisboa 1960. E em António Ramos Rosa Obra Poética I.Assírio & Alvim- Porto Editora. Porto 2018. (pág. 122). 

[5] Fernando Azevedo (1923-2002) O Último Quadro de Eduardo Viana in Colóquio Artes n. º 44 Junho 1967.

[6] Sónia (1885-1979) e Robert Delaunay (1885-1941). Com o eclodir da I Grande Guerra vieram para Portugal tendo-se instalado em Vila do Conde na casa que chamaram de La Simultané, entre 1915 e 1917. Aqui reencontram Eduardo Viana que já conheciam de Paris.


António Soares

 

“Como o pássaro da floresta voa sobre os cumes,
Se arqueia sobre o rio, onde brilha a teus pés,
Na sua força ligeira, a ponte sonora de peões e viaturas.”

Hölderlin [1]

 

A partir de 1933, com a consolidação do Estado Novo, o Porto tem um momento de grande protagonismo e afirmação de modernidade com a realização da Exposição Colonial.
A ponte Luiz I, então com quase 50 anos, é ainda uma afirmação da modernidade indissociável do Rosto e da imagem da cidade.


Assim o entendeu António Soares [2], que a coloca no centro do seu quadro, pintado a partir do miradouro da Serra do Pilar, aquele ponto de vista, que se tornará canónico.


fig.
5 - António Soares (1894 — 1978) Ponte Luiz I, panorama da Ribeira-Porto,1935, CAM – FCG.


Olhando a pintura, ela terá sido pintada numa tarde de Verão “no silêncio morno das coisas do meio-dia” [3]  em que a luz é mais intensa e as sombras mais encolhidas, nesse momento em que “na justa monotonia do meio-dia se ouve o prodígio do repouso e a paixão adormecida.[4]


No centro, criando diagonais e conferindo um moderno dinamismo à composição, a grande Ponte Luiz I.
No fundo, intensamente iluminado, um apontamento do casario tripeiro, “renques de casario humilde a encastelar-se / irregular em ocres e granito” [5]  onde sempre “arde a luz / nos vidros da ternura.” [6]

O tabuleiro superior, desenhado com realismo, está povoado por um eléctrico, três automóveis e diversas figuras de peões.

O tabuleiro inferior deserto, é apenas uma mancha junto ao “arco de sombra que o rio reflecte” [7], talvez indicando a sua menor utilização para atravessar o Douro que corre tranquilo e esverdado, lembrando que “o ardor / do verão caiu ao rio” [8]



[1] Johann Christian Friedrich Hölderlin (1770-1800) Heidelberg 1790/ 1800 Traduzido do francês. No original: Wie der Vogel des Walds über die Gipfel fliegt,/ Schwingt sich über den Strom, wo er vorbei dir glänzt,/ Leicht und kräftig die Brücke, / Die von Wagen und Menschen tönt. Hölderin refere-se à ponte sobre o rio Neckar.

[2] António Soares (1894-1978). Expõe pela primeira vez no II Salão dos Humoristas em 1913. Participa na I Exposição dos Humoristas e Modernistas em 1915, e no ano seguinte na II Exposição dos Modernistas, ambas no Porto. Como ilustrador tem uma larga participação nas revistas Ilustração, ABC e Magazine Bertrand.

[3] Vinícius de Moraes (1913-1980), Mormaço in O caminho para a distância, 1ª edição Rio de Janeiro, Schmidt Editora, 1933 in Poesia completa e prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2004.

[4] António Ramos Rosa (1924-2013), Uma pausa, não de plumas, mas elástica in A Rosa Esquerda (1991) in Obra Poética II Assírio & Alvim Porto Editora 2020. (pág. 147).

[5] Vasco da Graça Moura, Poesias 1997/2000, Lisboa, Círculo de Leitores 2001.

[6] Eugénio de Andrade (1923-20), em louvor do fogo in Obscuro Domínio. Assírio & Alvim Porto Editora 2017. (pág. 159)

[7] Luísa Dacosta (1927-2015), ribeira velha in Daqui Houve Nome Portugal, Antologia de verso e prosa, homenagem à antiga, mui nobre, sempre leal e invicta cidade do Porto, nas comemorações dos 1100 anos da presúria de Portugale por Vímara Peres. Organizada e prefaciada por Eugénio de Andrade. Exemplar 1124. Editorial Inova Limitada Porto Junho de 1968. (pág.221)

[8] Eugénio de Andrade, Quando Junho voltar de O Outro Nome da terra, Assírio & Alvim Porto Editora 2017. (pág. 474)

 

CONTINUA 



 

 

 

 

 


 

 

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