sábado, 19 de junho de 2021

Apontamentos sobre a Lisboa e Sevilha nos séculos XVI e XVII (3)


Apontamento 3 - Sevilha e Lisboa no Civitates Orbis Terrarum

 

[nota - Em Apontamentos posteriores iremos explorar nos seus pormenores, as imagens destas duas cidades que surgem desenhadas no Civitates Orbis Terrarum de Georg Braun (1542-1622) e Franz Hogenberg (1535-1590).]

 

Em primeiro lugar as imagens de Sevilha e Lisboa que aparecem na edição de 1572, curiosamente o ano da publicação de Os Lusíadas de Luís de Camões.

A vista de Sevilha (Hispalis) é acompanhada pelas vistas de Cadiz (Caliz olim Gadez) e de Málaga (Malaga), ou seja, as três cidades portuárias do sul de Espanha.

fig. 10 - Georg Braun (1542-1622) e Franz Hogenberg (1535-1590), Hispalis, Sevilla Taraphae, celebre et pervetus tum in Hispania 1572. Civitates Orbis Terrarum Vol. I 1572.

 

A vista de Lisboa (Olisipo nunc Lisbona) é acompanhada por uma vista de Cascais (Cascale), na entrada da barra do Tejo e Belém (Betheleem) o local de onde partiu em 8 de julho de 1497, a armada de Vasco da Gama (1469-1524). 

fig. 11 - Georg Braun (1542-1622) e Franz Hogenberg (1535-1590) Olisipo, sive ut persetustae lapidum inscriptiones habent, Ulysipo, vulgo Lisbona Florentissimum Portugalliae Emporiv 1572. Civitates Orbis Terrarum Vol. I 1572

 

E em edições posteriores do Civitates Orbis Terrarum, Georg Braun (1541–1622) e Franz Hogenberg (1535–1590), dos finais do século XVI, são publicadas imagens das duas cidades, algo semelhantes.

 

Sevilha surge numa imagem do IV volume do Civitates Orbis Terrarum, de 1588.

 


fig. 12 - Sevilha 1588 no Civitates Orbis Terrarum de Georg Braun (1542-1622) e Franz Hogenberg (1535-1590).

 

 

A imagem de Lisboa surge no V volume do Civitates Orbis Terrarum, publicado em 1598, o ano em que morre Felipe II de Espanha (1º de Portugal) e sobe ao trono Felipe III de Espanha (2º de Portugal).

       

fig. 13 - Lisboa 1598 no Civitates Orbis Terrarum de Georg Braun (1542-1622) e Franz Hogenberg (1535-1590).

 

Nestas representações de Sevilha e de Lisboa, as duas urbes, em perspectiva, abrangem a cidade intramuros, e os arrabaldes que então se desenvolviam.

Ambas são vistas tomadas de sul para norte, de um ponto de vista elevado de modo a melhor apresentar a totalidade da cidade e dos seus arrabaldes, numa visão urbana dos edifícios e dos espaços públicos por forma a não se encobrirem.


Ambas as imagens apresentam as duas cidades em vistas desenhadas a partir dos meados do século XVI, Sevilha durante o reinado de Carlos V (1516/1556) e de Felipe II (1565/1598) e Lisboa durante os reinados de D. João III (1521/1568), de D. Sebastião (1557/1578) e do Cardeal D. Henrique em Portugal (1578/1580) e Felipe I de Portugal.

Ambas as cidades se voltam para os rios: o Guadalquivir em Sevilha e o Tejo em Lisboa, rios que no século XVI, foram um factor determinante da riqueza e crescimento destas cidades, já que dos seus portos tiveram origem as navegações oceânicas.

As imagens mostram que as duas cidades, ainda apresentam vestígios, na sua estrutura, da sua origem romana e, sobretudo, da longa presença muçulmana.

Cinturadas pelas muralhas medievais, onde se abrem as portas e os postigos que estruturavam os percursos e relacionavam a cidade intramuros com a zona portuária e com os acessos aos arredores, dos quais, muitas vezes, recebiam os nomes.

O tecido urbano é desenhado de uma forma simplificada, dando às estreitas ruas medievais dimensões que não possuíam, sobretudo na imagem de Sevilha.

Na imagem de Lisboa a malha urbana intramuros mantem o seu sinuoso traçado.

As novas ruas, porém, são já traçadas mais direitas e com outras dimensões.

 

fig. 14 – Os arruamentos na imagem de Sevilha em 1588.

 

fig. 15 – Os arruamentos na imagem de Lisboa de 1598.

 [nota - É usada frequentemente a versão não colorida da imagem de Lisboa existente na Biblioteca Nacional de Portugal.]

Destacam-se em ambas as imagens, os monumentos, com uma forte carga simbólica, que traçam o perfil da cidade e são geradores da malha urbana.

São as Catedrais e os edifícios religiosos, as Alcáçovas e os Palácios e os edifícios que marcam a presença da - poderosa e temida - Inquisição.

Extramuros, nos arrabaldes, criam-se novas urbanizações, de traçado (mais) regular, dos quais se destacam, em Lisboa o Bairro Alto a poente; e em Sevilha, o bairro de Triana, a sul.

 

A vista de Sevilha

A imagem de Sevilha publicada no tomo IV, de 1588 é uma adaptação (quase uma cópia) de uma vista de Sevilha desenhada em 1585 por Ambrosio Brambilla (activo 1579–1599) e publicada por Pietro de Nobili (15??-15??).

 

fig. 16 - Ambrosio Brambilla, vista de Sevilla,1585. Biblioteca Nacional de España.

 


fig. 17 - Georg Braun (1542-1622) e Franz Hogenberg (1535-1590), Sevilla, in Civitates Orbis Terrarum 1588.

 

A imagem de Sevilha, tem na parte superior, da esquerda para a direita, as armas da cidade de Sevilha; ao centro as armas do rei Felipe II (1527-1598), junto ao título; e, à direita, o escudo dos condes de Olivares (Enrique de Guzman (1540–1607), 2º Conde Duque de Olivares, que foi conselheiro de Felipe II [1]).

 


fig. 18 – Pormenor da parte superior da imagem Sevilla do Civitates Orbis Terrarum 1588.

 

Na parte inferior tem uma legenda com os edifícios e os espaços públicos numerados (1 a 40).

fig. 19 - Pormenor da parte inferior da imagem Sevilla do Civitates Orbis Terrarum 1588.

 

 

A vista de Lisboa

A vista de Lisboa “OLISSIPO quae nunc Lisboa civitas amplissima Lusitaniae ad Tagum. Toti Orienttis, et multarum Insularum Aphricaeque et Americae emporium nobilissimum”

 

fig. 20 - Georg Braun (1542-1622) e Franz Hogenberg (1535-1590), Lissabon in Civitates Orbis Terrarum 1598.

 

Apresenta na parte superior o escudo das Armas Reais do século XVI (coroa real, 5 quinas e 7 castelos) e à direita o escudo das Armas de Lisboa (a nau com os 2 corvos), ladeando uma simplificada rosa dos ventos que orienta grosso modo a imagem.

 

fig. 21 – Pormenor da parte superior da imagem Lissabon  in Civitates Orbis Terrarum 1598.

 

Na parte inferior tem uma legenda com os edifícios e os espaços públicos numerados (1 a 120) e que se prolonga na parte superior de ambos os lados (120 a 140).

 

fig. 22 - Pormenor da parte inferior da imagem Lissabon in Civitates Orbis Terrarum 1588.

 


 



[1] O Conde de Olivares que se tornou mais conhecido foi o filho Gaspar de Guzman (1587-1645), o Conde–Duque de Olivares, ministro de Felipe IV.

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