O Rosto do Porto na cidade do Progresso
"Passou o reinado dos ideólogos, dos poetas, e dos homens das abstracções, e começou o dos homens prosaicos e positivos" D. Pedro V [1]
“— Quem não admirará os progressos dêste
século?”
Eça de
Queiroz [2]
Nos reinados de D. Maria II
(1819-1853) rainha de 1826 a1853 e dos seus filhos D. Pedro V (1837-1861) rei
de 1853 a 1861 e D. Luís I (1838-1889) rei entre 1861 e 1889, Portugal dá os
primeiros passos na industrialização. O carvão torna-se a principal fonte de
energia permitindo o aparecimento da máquina a vapor. Assim revolucionam-se os
transportes com o caminho de ferro e o navio a vapor. Melhoram-se as estradas e
as ruas e surge a iluminação pública a gás [3].
Criam-se os correios (selos em 1872) e a mala posta. Desenvolvem-se as
comunicações com o telégrafo eléctrico (1857) e o telefone (1879).
As novas dimensões da cidade
e o aumento da população impõe a criação: da Guarda Municipal (1836); da
Polícia civil (1867) e do Corpo de Bombeiros (1875).
A interdição dos enterros nas igrejas leva à criação dos cemitérios municipais sendo criado a oriente o cemitério do Prado do Repouso (1839) e a ocidente o cemitério de Agramonte (1855). Criam-se fábricas nas zonas ribeirinhas de Miragaia, Massarelos e Lordelo, e ainda no Bonfim, nos Guindais e Campanhã.
O
Porto industrializa-se e o Rosto da Cidade ganha tons de carvão e fumo negro, e
conservando a sua centralidade, amplia-se a ocidente e a oriente como em 1858
já escrevia Alexandre Herculano:
“A populosa e vasta cidade do Porto, que hoje se estende por mais de uma légua desde o Seminário até além de Miragaia, ou antes até à Foz pela margem direita do rio…” [4]
E sobretudo,
o Rosto do Porto ganha uma primeira ponte de carácter permanente sobre o Rio
Douro, esgotada que estava a Ponte das
Barcas.
A
Ponte D. Maria II, conhecida por Ponte Pênsil, lançada a primeira pedra em 1841
e inaugurada em 1843. [5]
Como escreve o Visconde de Villa Maior “descendo o Douro chegámos à Serra do Pilar e transposto este passo
entramos agora nos limites da cidade que à nossa direita se eleva em
amphitheatro, ficando-nos à esquerda, e em frente d’ella, a populosa Villa Nova
de Gaya; ambas apenas separadas pelas águas do Douro, que entre ellas corre, mas communicando-se em
contínuo trafico por meio d’uma elegante e magestosa ponte suspensa, e por
inumeráveis barcos que incessantemente se cruzam de uma para a outra margem.” [6]
O Barão de Forrester [7] desenha a ponte pênsil, (de uma forma ainda
romântica, atravessando o Douro que corre entre as colinas da Sé na margem
direita, e da Serra do Pilar, na margem esquerda.
fig. 1
- Gravura do Barão de Forrester, destinado a ilustrar, com outros, a litografia
do seu mapa “O Douro portuguez e Paiz adjacente”, estampado em 1860.
[1] D. Pedro V Diário 29 de Maio 1855. Citado em Júlio de Vilhena (1845-1928), D. Pedro V e o seu reinado, volume II. Imprensa da Universidade Coimbra 1921. (pág. 358).
[2] Eça de Queiroz, Civilização (1892) in Contos (1902) 3ª edição. Livraria Chardron, de Lello & Irmão, Porto 1913.
[3] A iluminação pública a gás da cidade do Porto iniciou-se em Setembro de 1855 com 161 candeeiros, mas no ano seguinte contava já com 1.166 candeeiros, número que foi sendo gradualmente aumentado. Durante os primeiros anos os portuenses não manifestaram grande interesse em adoptar a iluminação a gás em suas casas e a Companhia Portuense de Iluminação a Gás, a primeira empresa exploradora deste serviço, canalizou ruas inteiras, como a da Constituição, a de Costa Cabral, a da Prata e a dos Bragas, o Monte Pedral e a margem do rio desde Massarelos até ao Ouro, sem encontrar um único consumidor particular. (O Commercio do Porto, XI Ano, n.º 39, 19 de Fevereiro de 1864).
[4] Alexandre Herculano (1810-1877), Uma barregan rainha de Arras por Foro de Espanha in Lendas e Narrativas (1851) 2ª edição Tomo I Em casa de viúva Bertrand e Filhos. Lisboa 1858. (pág.156).
[5] A sua construção deve-se à empresa Claranges Lucotte e Cª., com um projecto do engenheiro Stanislas Bigot. (1820- ?) com a colaboração do engenheiro Vitorino Damásio (1807-1875). Ver Pont suspendu de Porto; détails des travaux, suivi de trois planches explicatives. Lisboa, Na Typographia de José Baptista Morando, Rua do Moinho de Vento n.º 59, 1843.
[6] Júlio Maximo d’Oliveira Pimentel (1809-1884) Visconde de Villa Maior, in O Douro Illustrado. Album do Rio Douro e Paiz Vinhateiro, [com texto em Português, Francês e Inglês], Porto, Livraria Universal de Magalhães & Moniz – Editores 12-Largo dos Loyos-14, 1876.
[7] Joseph James Forrester (1809-1861) o barão de Forrester, título concedido por D. Fernando II, em 1855. Empresário do Vinho do Porto foi o autor de Uma palavra ou duas sobre o vinho do Porto (1844), O Douro Português e País Adjacente (1848) e de Prize Essay on Portugal and its Capabilities (1859). Desenhou diversos mapas do Douro. Foi pintor de aguarelas e fotógrafo. Morreu afogado em 1861 num naufrágio no Cachão da Valeira.
A gravura de Deroy 1850
Em 1850 Isidore-Laurent
Deroy desenha uma Vista do Porto com o objectivo de mostrar a ponte Pênsil, razão porque é
relativamente discreta a actividade no rio Douro.
fig. 2 – Isidore-Laurent Deroy (1797-1886),Vue de Porto. 1850. Litografia 31 x 48 Paris. L. Turgis J.ne Imp.r r. dês Ecoles et á New York Duane S.t 78. Dessiné et Lithog. par Deroy.
Ao Rosto da Cidade é acrescentado o Palácio da Bolsa (com o n.º 1)
fig. 3 – Isidore-Laurent Deroy (1797-1886),Vue de Porto. 1850. Litografia 31 x 48 Paris. L. Turgis J.ne Imp.r r. dês Ecoles et á New York Duane S.t 78. Dessiné et Lithog. par Deroy.
O Palácio da Bolsa resultou da adaptação do velho Convento de S. Francisco, que, em 1841 o Governo de Ávila cedeu ao "Corpo de Comércio da Cidade do Porto" para aí se instalar a Bolsa e o Tribunal de Comércio, e daí a instalação da Associação Comercial do Porto (fundada em 1834 com o nome de Associação Mercantil Portuense).
O Palácio da Bolsa
Do projecto encarregou
- se J. Costa Lima, professor na Academia, tendo as obras sido iniciadas em
1842 (o Salão Árabe é de 1862, o Páteo das Nações projectado em 1880/82,
inaugurado em 1891 e dado por concluído em 1910).
No estilo Neo Clássico
de influência Paladiana, apresenta ao centro da fachada, uma "loggia"
com quatro colunas que suportam um frontão preenchido por uma grinalda.
O Palácio da Bolsa
constituiu também o motivo e o pretexto para a organização do espaço e dos
arruamentos adjacentes, criando a praça do Infante, à época o centro das principais
actividades comerciais da cidade.
O barco a vapor
A
gravura também apresenta um vapor movido a rodas a caminho da barra do Douro.
fig. 4
– Pormenor da Vue de Porto. 1850.
Um barco a vapor surge numa outra
litografia da ponte Pênsil, desenhada por Louis Lebreton [1] onde significativamente entre vários barcos, destaca-se
em primeiro plano, um barco a vapor movido a rodas, contemporâneo da ponte.
A gravura de Lebreton
fig. 5 - Louis Lebreton (1818-1866), Porto. Vue du Ponte suspendu et d'une
partie de la ville. Porto. Vista da Ponte pênsil
e de parte da cidade. c. 1850. Paris. Lith. Becquet frères., Dépôt chez Bulia fr.es, r.
Tiquetonne, 16. Lisboa Manuel Costenha, rua
do Loreto, 58. Porto, Depozito de estampas de C. Steffanina, rua trás da Sé,
14.
Repare-se na representação da deslocação da água, do fumo da chaminé e da bandeira. [2]
O barco a vapor passa a fazer parte do Rosto da Cidade.
fig. 6 – Pormenor de Vue du Ponte suspendu et d'une partie de la ville. Porto.
[1]
Louis Auguste Marie Lebreton, (1818 - 1866) junto à assinatura e antecedendo-a,
desenhava uma âncora, provavelmente para referenciar a sua dedicação às imagens
de barcos e de portos.
[2] A partir dos anos vinte, e até ao aparecimento do caminho de ferro, as viagens entre Porto e Lisboa eram normalmente feitas de navio. As viagens marítimas iniciaram-se em 1821 com o navio Lusitânia da empresa João Baptista Ângelo da Costa & C.a, mas essa carreira foi suspensa em 1823 após um naufrágio em 1823 junto a Ericeira. Em 1825 um novo vapor denominado Restaurador Lusitano retoma as viagens entre Lisboa e Porto. O Restaurador Lusitano naufragou a 11 de Setembro de 1832, quando se dirigia para o Porto ao serviço de D. Miguel em plena Guerra Civil.
O moderno barco a vapor e o romântico barco à vela
Em
1839 o pintor inglês Joseph M. W. Turner (1775-1851), apresenta um dos seus quadros, intitulado “The
Fighting Temeraire tugged to her Last Berth to be broken up” que se tornou
uma das suas obras mais conhecida já que, de certo modo, é um precursor do
Impressionismo, utilizando o fumo da máquina a vapor para criar sugestivas
atmosferas nas suas composições.
O
quadro representa um facto real, a última viagem do Temeraire, um navio da frota de Lord Nelson na batalha de
Trafalgar, em 1805.
fig. 7
- Joseph Mallord William Turner (1775 – 1851), The Fighting Temeraire tugged to her Last Berth to be broken up, 1838/39.
Óleo sobre tela 90,7 x 121,6 cm. The National Gallery London.
Em 1838 o Temeraire, já sem qualquer uso, foi rebocado até ao Tamisa para ser desmantelado.
Mas a tela de Turner, com um navio a vapor no primeiro plano e o Temeraire ao fundo a ser rebocado, significa o fim da era da navegação à vela, com a utilização da máquina a vapor, no início da revolução industrial
Turner pode ter querido representar a nostalgia das energias naturais e o início da máquina alimentada a carvão (com a consequente poluição do ambiente), ao pintar o velho e ultrapassado Temeraire como um moribundo quase branco, e o novo barco a vapor, de um tom escuro, triunfante, cuspindo fogo, com as suas rodas de pás energicamente agitando a água.
Do mesmo modo, Manoel Pinheiro Chagas (1842-1895),
compara o horrendo barco a vapor com o
elegante barco à vela.
“Conhecem alguma coisa mais horrenda,
mais prosaica, mais repugante do que um vapor? Todo negro,
como um habitante do inferno que parece ser, sem uma vela branca, sem um mastro airoso, vomitando fumo, resmungando, ralhando, caturrando, tossindo!
Quanto differe d'esses botes leves,
graciosamente inclinados, com a candida aza aberta ao sopro do vento, resvalando à flor do rio, sem bulha, sem agitação, como uma sylphhide sobre o calice das flores, como gentil menina sobre o macio tapete do salão do baile, no rapido volteiar da valsa! O vapor, pelo contrario, é um velhote de botas grossas, que vae correndo para se aquecer, fazendo um estrepito dos demonios, todo esbofado, e suado, e ralhador!” [1]
O vapor no rio Douro entre o Porto e a Foz
Faustino Xavier de Novais num poema intitulado “Um passeio à Foz e datado de 8 de Outubro 1852 descreve com ironia a ida à Foz no barco a vapor Duriense:
“…Immensa multidão lá se descobre
No logar onde esperam passageiros,
Que o vapor
os vá pôr na Porta Nobre,
Ri-se a gente do
tom, dos cavalleiros
Que, sem que áureo
metal assaz lhe sobre,
Fidalgos querem ser, e não caixeiros;
Em quanto que o patrão, lá na cidade,
Ficou de mãos erguidas na Trindade.
O Duriense (*) partiu;
marchei, por terra,
Porque sou mui cobarde nos revezes,
E escuto como alguma gente berra,
Quando o lindo
vapor, não poucas vezes,
Com pedras, água e vento, em crua guerra,
Se dispõe a mangar dos portuguezes:
O passeio findei, bom de saúde,
Se mal o descrevi, fiz o que pude.”
(*) Pequeno barco, movido a vapor, que morreu de paixão por não poder andar tanto como um carroção puxado a bois.” [2]
Alberto
Pimentel no final do século XIX escreve:
«Durante algum tempo, uma companhia lembrou-se de organizar um serviço de navegação fluvial entre o Porto e a Foz. Havia um vaporzinho que fazia carreira entre a cidade e a Cantareira, mas a empresa não deu bom resultado, tal era o apego ao burro, no Porto daquele tempo, como meio de transporte.» [3]
Mas, de facto o transporte pelo barco a vapor entre o Porto e a Foz continuou como por ocasião da romaria de Nossa Senhora da Luz, que se continuou a realizar mesmo após a desactivação da capela de Nossa Senhora da Luz em 1832, como num anúncio no jornal “O Commercio do Porto” de Setembro de 1888 se referem as carreiras de “vaporzinhos” entre a Ribeira e a Foz.
“É no próximo domingo que se realiza na Foz a romaria da Senhora da Luz, que costuma ser muito concorrida. Os vaporzinhos «Leão» e «Ligeiro», desde as 5 horas da manhã, farão corridas entre os Banhos e a Cantareira.”
No
entanto o mais célebre dos vapores do Douro foi o navio “Porto” ainda de madeira, com 150 cavalos e atingindo uma
velocidade de 9,5 milhas por hora, construído em 1836 pelos Estaleiros de
Plymouth para a Empresa do Barco a Vapor
do Porto, que o colocou ao serviço de correio, passageiros e carga entre o
Porto e Lisboa, com eventual paragem na Figueira da Foz.
Funcionava
a vapor movido a rodas e entrou ao serviço no Porto em 24/12/1836.
Em
29/03/1852 naufragou, tragicamente, na foz do rio Douro, a cerca de 100 metros
do local da estação de embarque, que estava fora de serviço, com a morte de 36
passageiros e 15 tripulantes. Apenas 7 tripulantes foram salvos.
Numa
gravura do Rosto da cidade, circula em primeiro plano o vapor “Porto”.
fig. 8 – António Joaquim de Sousa Vaz Vista da Cidade do Porto. Tirada da Quinta de Campo Bello. António Joaquim de Sousa Vaz.dezenhou. Porto. Lith. Rua da Reboleira No 29 e 30.
fig. 9
– O vapor PORTO. Pormenor da gravura de António Joaquim de Sousa Vaz.
[1]
Manuel Joaquim Pinheiro Chagas (1842-1895), O Vapor e o Barco de Vela in Scenas
e Phantasias Portuguezas, Livraria de Campos Júnior Editor. Lisboa sem data.
(alguns textos estão datados de 1865).
[2] Faustino Xavier de Novais Um passeio à Foz” (8 de Outubro 1852) in Poesias na Typographia de Sebastião José Pereira, Porto 1855. (pág. 37).
[3]
Alberto Pimentel (1849-1925), em O
Porto ha Trinta Anos. Livraria Universal de Magalhães & Moniz Editores.
Porto s/d. (1892 na dedicatória). (pág.242).
Três gravuras com o Rosto da cidade nos meados do século XIX
fig. 10
- Enrico Gonin (1799-1870), Oporto Veduta
della Città presa dalla Serra do Pilar. 1851. Gravura E. Gonin dis. dal
vero e Lit. Torino Lit. F.lli Doyen e G.ia.AHMP.
fig. 11 - VISTA DA CIDADE DO PORTO E RIO DOURO. Ved.se na Off. de Souza Porto em Beja. F. P. Graça. 1855. AHMP
fig. 12
- Cesário Augusto Pinto (des.), Porto", Joaquim Cardoso Vitória Villanova
(litograf.). "Margens do Douro. Pinto dei. Lith. de J. V.
V.a Nova. Porto, 1848. Álbum de doze vistas por Cesário Augusto Pinto (Porto,
1849). AHMP.
A fotografia
Contemporâneos da Ponte Pênsil (1842-1886), aparecem no Porto os primeiros ensaios de fotografia.
fig. 13 - Frederick Flower - End of City Wall, Oporto of old religious House and Suspension Bridge, from Villa Nova de Gaya. Prova actual em papel salgado a partir do original em calotipo 267 x 220 mm ANF/D-FWF/11. catálogo da Exposição F. W. Flower um pioneiro da fotografia portuguesa Electa 1994
fig. 15 - Francis Frith (1822-1898) & Co. Vista do Porto. Prova em papel salgado a partir do calótipo de Flower Flower.
fig. 16 - Comte Henri de Lestrange ( 1853-1926) – Vista do Porto 1897 Positif noir et blanc pour projection Gélatino-bromure Support verre;Recadrage au papier collé Ministère de la Culture (France), Médiathèque de l'architecture et du patrimoine (archives photographiques) diffusion RMN.
O Rosto da Cidade ilumina-se com os candeeiros a gás.
Lady Jackson ao chegar ao Porto vinda de Vila Nova de Gaia, descreve a sua nocturna entrada no Porto de ónibus: “Subimos e depois descemos vagarosamente uma íngreme encosta e passamos a ponte-pênsil, alumiada pelos lampejos dos raros lampeões. Começava a tremular no rio o radiar da lua, dando feitios fantásticos às sombras dos objectos, quando íamos em solavancos a entrar na cidade, que se eleva na montanha fronteira a nós. Passava de onze horas quando entramos no Porto.” [1]
[1] Lady
Jackson, (Catherine Hannah Charlotte Elliott) - Fair Lusitania – Formosa
Lusitânia, traduzida e anotada por Camilo Castello Branco, Livraria
Portuense Editora, Rua do Almada 121-123 Porto, 1878. (pag.284).
Dois grandes edifícios que ampliam e marcam o Rosto da cidade
fig. 19
– A mesma fotografia com a identificação das alterações no Rosto da Cidade.
A Alfândega Nova
“…quando eu, da celebrada
Miragaia,
sósinho me sentei, na amena
praia.”
Faustino Xavier de Novais [1]
Construída
sobre a praia de Miragaia, o poderoso edifício da nova Alfândega irá alterar a
relação da cidade com o rio.
O projecto de
Colson, implanta-se na antiga praia de Miragaia.
A sua construção iniciou-se em 1859 e prolongou-se pelas duas décadas seguintes.
“Quem se
dirigir á rua dos Inglezes encontra num vasto, mas arruinado edifício, a
alfândega, que pelas suas paredes velhas e privação de luz mais se assemelha a
um cárcere: (Em tempos remotos vinham
hospedar-se os reis de Portugal nesta casa, e foi nella que nasceu o grande
Infante D. Henrique.) pedia
pois a necessidade e o grande movimento commercial, um outro edifício mais
próprio á nobre classe dos negociantes, e mais digno d‘ esta cidade: estas
considerações levaram o governo ao propósito da construcção de uma alfândega,
precedendo o alvitre do corpo commercial, que opinou pela edificação na mesma
rua com a expropriação das casas sitas na rua dos Banhos: estas considerações levaram o governo ao propósito
da construcção de uma alfândega, precedendo o alvitre do corpo commercial, que
opinou pela edificação na mesma rua com a expropriação das casas sitas na rua dos
Banhos: esta opinião ajustava-se com a conveniência do local, com o
aformoseamento d‘ ésta rua mui transitada e com menor dispêndio:
o governo,
desprezando todas estas considerações bem cabidas,- e levado, ou por conselhos
alheios (que revertem quasi sempre em beneficio do proponente) ou por parecer
próprio, julgou mais acertado o local na alameda de Miragaia, onde, por falta
de base solida no terreno, se têm consumido e enterrado sommas enormes para uma
boa collocação de alicerces, que excederam consideravelmente o custo das
expropriações necessárias para a edificação da alfândega no sítio
primitivamente escolhido pelo corpo commercial.
Desconsiderou,
pois, o governo a classe, não attendendo ao seu parecer, inutilisando um dos
mais lindos passeios da margem do Douro.
A nova alfândega vae já muito adiantada, e a conclusão d'ésta obra pelo menos revelará o fabuloso custo de centenares de contos de réis. [2]
Também Pinho Leal
escreve sobre a Alfândega e a nova rua.
“Com a abertura da nova
rua desappareceu o bairro dos Banhos, um dos mais immundos da cidade; a Porta
Nobre, o postigo dos Banhos, a maior parte da rua de Cima do Muro e uma parte
da da Reboleira.
A rua está ao abrigo das
cheias e absorveu enorme volume de terras, pela maior parte extrahidas do corte
feito para o alargamento da rua de Ferreira Borges.
A porção construída pela
camara é desde a rua dos Inglezes até um pouco adiante da antiga Porta Nobre.
Não esta empedrada ainda, havendo, porem, já em deposito grande porção de
parallelipipedos (pedra de esteio, de Canellas).
Na parte direita da rua
estão-se construindo já novos prédios, subordinados na fachada a um typo
apresentado pela camara.” [3]
O Palácio de Cristal 1862/1865 (demolido em 1951)
Construído para a Exposição Internacional do Porto realizada em 1865 e
projectado por Thomas Dillen Jones e W. Shields (tendo ainda trabalhado nas
suas obras de construção o eng. Gustavo Gonçalves de Sousa), o Palácio de
Cristal, era propriedade da Associação Industrial Portuense, criada em 1852.
Construído em ferro e vidro, com influências do Chrystal Palace de
Londres de John Praxton, tinha três naves e três pisos: cave, rez do chão e um
piso.
Estava integrado num amplo jardim da autoria de Émile David, onde
estavam colocadas duas fontes, um lago, um chalet, um circo, e diversos
equipamentos de jardim.
Em 1868 cria-se o teatro Gil Vicente.
Na fachada principal inscrevia-se a legenda PROGREDIOR, de acordo com as ambições dos seus fundadores.
Alberto Pimentel descreve assim o Palácio de Cristal:
"Palácio de Crystal - Pela sua deliciosa posição, pela grande amenidade
dos seus bosques e jardins, e ainda para muitas pessoas pêlos seus theatros,
bilhares e demais diversões, o Palácio de Crystal, sendo durante a semana muito
pouco frequentado, - ó assombro! - é, todavia, o encanto e admiração de todas
as pessoas de mais fino gosto que visitam o Porto.
O domingo é o dia
habitualmente destinado ao Palácio de Crystal, porque n'esse dia é costume
haver musica de tarde e queimarem-se fogos de artificio á noite. Mas, por Deus,
que n'esse dia o Palácio de Crystal, petulante de garridice domingueira,
involto em turbilhões de gente e pó, é simplesmente um passeio como qualquer
outro, sem as suas grutas remançosas, sem as suas sombras cheias de silencio e
mysterio, sem a tranquilla doçura das suas arvores e das suas ruas. Verdade é
que, se grande numero de pessoas começasse a frequental-o á semana, o Palácio
de Crystal perderia essa deleitosa serenidade que para nós é o seu maior
encanto, e atravessaria uma ininterrompida serie de domingos, quer dizer, de
dias em que a concorrência é tamanha, que chega a molestar-se.
Ha males que vem por bens.
Continue a população portuense a procurar o Palacio de Crystal ao domingo para ouvir musica e ver queimar fogos d'artificio, e deixe-o em paz durante a semana, como sempre tem feito, para que o visitem as pessoas mais namoradas da paizagem que dos effeitos acústicos e pyrotechnicos." [4]
O Palácio de Cristal e a Alfândega
Nova numa panorâmica de Juan (Jean) Laurent.
fig. 20
Para finalizar, o Rosto da Cidade numa fotografia de Carlos Relvas dos meados do século XIX onde estão apontados os três grandes edifícios.
fig. 21
[1] Faustino Xavier de Novais (1820-1860), Um Passeio à Foz in Poesias na Typographia de Sebastião José Pereira,Porto 1855. (pág. 32).
[2] Francisco Ferreira Barbosa, Elucidario do Viajante no Porto. Coimbra 1864.
[3]
A. de Pinho Leal, Miragaia in
Portugal Antigo e Moderno, Vol. 5 (pág. 297 e 298)
[4]
Alberto Pimentel. Guia do Viajante na Cidade do Porto e seus
Arrabaldes, 1876.




















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