O Rosto da Cidade depois da 2ª Guerra
“São múltiplas as faces da cidade. Matinal ou nocturna, para a conhecer é indispensável descobrir todos os seus disfarces. Quem dela se abeira em busca do rosto único e imutável, busca a simplicidade, que é engano, a evidência no que é íntimo, misterioso, oculto.” Daniel Filipe [1]
fig. 1 – Almanaque do Porto 1950. Livraria Civilização L.a Porto.
A partir do final da segunda guerra mundial, edifica-se o Porto que se
quer moderno, “o Porto de betão armado, recém-saído da novidade arquitectónica…”.
[2]
Nesse Porto dos anos 50 e 60, ocorreu todo um conjunto de transformações que contribuíram para o crescimento da cidade [3], mas que conduziram à lenta degradação, física e social, da frente ribeirinha do Porto, e a um certo abandono do Rosto da Cidade.
Com efeito, os que pela sua
acção, na voluntariosa ânsia de modernização da cidade, cometeram “o
grande erro de querer renovar a cidade esquecendo-se inteiramente a valorização
do seu aspecto mais típico, o flanco voltado para o rio” [4] como apontava então Sant’Ana Dionísio. [5]
A reabilitação social e do construído do Centro Histórico, só se produzirá a partir do 25 de Abril de 1974 (que culminará na sua classificação de Património Mundial em Dezembro de 1996).
[1] Daniel
Filipe (1925 – 1964) discurso sobre a cidade crónicas no Diário Ilustrado,
entre Dezembro de 1956 e Setembro de 1957 e em Daniel Filipe, Discurso sobre a
cidade crónicas. Editorial Presença L.da, 1977 (pág. 15).
[2]
Daniel Filipe (1925 – 1964) uma cidade onde
acontecem coisas inndiscurso sobre a cidade crónicas no Diário Ilustrado, entre
Dezembro de 1956 e Setembro de 1957 e em Daniel Filipe, Discurso sobre a cidade
crónicas. Editorial Presença Lda,, 1977. (pág.
52).
[3] A ponte Luiz I, único acesso rodoviário, prolonga-se para o centro pelo tabuleiro superior pela avenida da Ponte (Afonso Henriques) e para a praça do Infante pelo tabuleiro inferior com a abertura do Túnel da Ribeira. Os Paços do Concelho iniciados em1920, instalam-se finalmente no novo edifício no topo da Avenida dos Aliados, 37 anos depois, e esta imagem da Avenida com a Câmara Municipal no topo norte que constituirá - em fotografias, postais e pinturas – a nova imagem do Porto moderno. Abrem-se as praças d. João I e Filipa de Lencastre. A cidade estende-se para norte com a criação dos Bairro Camarários pelo Plano de Melhoramentos. Prolonga-se a avenida Fernão de Magalhães, abre-se a praça Velasquez (Sá Carneiro) e constrói-se o estádio do FCP e a Igreja das Antas. Constrói-se o Hospital Escolar de S. João. A marginal prolonga-se para oriente até ao Freixo dando acesso à estrada para Entre-os-Rios. Inaugura-se o aeroporto de Pedras Rubras (Sá Carneiro). Da Rotunda da Boavista abre-se a via de ligação com Matosinhos e o porto de Leixões cuja crescente importância, irá conduzir à decadência do porto fluvial. Na década seguinte, com a construção da ponte da Arrábida [3], e da Doca nº 2 do porto de Leixões, mais se acentuará esta tendência.
[4] Sant’Ana Dionísio Guia de Portugal Entre Douro e Minho 4º volume I Douro Litoral (1969) 3ª edição FCG 1994 (pág. 106).
[5] Sant’Ana Dionísio (José Augusto de Santana Dionísio 1902-1991), Professor Liceal, Pedagogo e Filósofo, Em 1969 é encarregado pela Fundação Calouste Gulbenkian de concluir o 4.º volume do "Guia de Portugal".
As artes plásticas no Porto no pós-guerra
No rumor cultural que no Porto sempre existiu, e apesar de, por esses tempos, “dissidir, inovar, ousar – sequer pensar – se tornara perigoso” [1], despontou, contudo, um amplo e nervoso movimento que envolveu a elite cultural, política e social da cidade. [2]
Os artistas plásticos não se alhearam desse movimento e organizaram-se em Exposições colectivas e individuais.
“Nunca houve no Porto tantas exposições de pintura como ultimamente. Além do “clássico” salão Silva Porto, as exposições alastraram da Livraria Portugália, do salão de Festas do Coliseu, da elegante casa Fantasia, até aos “stands” de automóveis e aos átrios dos cinemas, etc. etc.” [3]
E
nesse frenesim, o Porto esboça um tímido mercado de arte, com a abertura das
primeiras galerias de arte: a Portugália de 1945, a Alvarez de 1954 e a
Divulgação de 1958.
A
Câmara Municipal contribui organizando em 1951, no seu Gabinete de História uma
exposição “Como alguns pintores viram o
Porto.”
E cabe à Escola de Belas Artes, dirigida a partir de 1952 pelo arquitecto Carlos Ramos [4], a iniciativa de um conjunto de exposições anuais, as Exposições Magnas, que irão mostrar a produção da Escola de Belas Artes de 1952 a 1969, [5] e que constituirão um acontecimento de grande projecção cultural na cidade e no país, de consagração de artistas e de lançamento de novos. Exposições onde “se podem apreciar trabalhos ao sabor das mais variadas tendências que traduzem outras tantas predilecções, caminhos diferentes, mas igualmente respeitáveis, apontados para um ideal vivido e sonhado.” [6]
E
porque “dois olhos não são bastantes / para captar o que se oculta / no rápido florir de um gesto…” [7],
um grupo de artistas plásticos funda em 1963, uma cooperativa, a ÁRVORE, no
sentido de promover a Arte, nas suas diversas expressões, sem estar sujeitos
aos condicionamentos de qualquer instituição.
[1]
Helena Vaz da Silva (1939-2002), Introdução a Portugal nas artes, nas letras e
nas ideias. 45-95. Centro Nacional de Cultura Lisboa 1998. (pág. 7).
[2] Profissionais
liberais (médicos, advogados, engenheiros, arquitectos, farmacêuticos, etc),
professores, empresários, toda uma elite burguesa e culta, que então utilizando
instituições culturais da cidade, Ateneu Comercial, Associação dos Jornalistas
e Homens Letras do Porto, criando um conjunto de novas instituições como o
Círculo de Cultura Musical, o Círculo de Cultura teatral (TEP) e o Cine clube
do Porto.
[3]
António
Ramos de Almeida (1912-1961), Mundo Literário n.º 10 13 de Julho de 1946.
[4]
Carlos João Chamber Ramos (1897-1969), arquitecto, da geração do Futurismo
Português e da geração dos arquitectos do “efêmero modernismo” dos anos 20 e 30
do século XX. Assim, participou no I Salão de Outono de 1925 e no Salão dos
Independentes de1930 com diversos projectos. Mas, sobretudo , teve um
extraordinário papel como docente em 1940 e sobretudo, entre 1952 e 1968, como
director da Escola de Belas Artes do Porto.
[5]
A partir de 1955 com o apoio da Fundação Calouste Gulbenkian então criada,
instituição com uma acção incontornável na promoção e divulgação, nacional e
internacional, da Arte e dos artistas.
[6]
Carlos Ramos Catálogo da II Exposição Magna.1953.
[7] Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), Diante
das Fotos de Evandro Teixeira, in Amar se Aprende Amando. Editora Record
Rio de Janeiro, 1985. (pág.51).
O Rosto da Cidade na pintura do pós-guerra
“E
vemos sempre nos excelentes artesãos um esboço com mais força e vivacidade do
que o acabamento de suas obras. Porque o furor da arte
expressa subitamente o conceito da alma, o que não consegue a diligência e a fadiga em obras limpas.”
Giorgio Vasari [1]
No pós-guerra e nos anos 50, os pintores do Porto procuram outros caminhos. O “furore dell’Arte” do influente neorrealismo, e os difíceis - para o regime de Salazar - surrealismo e abstracionismo, e os que com maior “diligenza e la fatica”, procuram pintar o Rosto da Cidade - o Porto visto do rio – tratando-o e representando-o com novas e outras formas de expressão plástica.
Entre estes, se por um lado há os que retratam o pitoresco e o que
caracteriza a cidade, outros há que, por seu lado, nesta época que sucede à
guerra, estão atentos e procuram incluir nas suas pinturas, as difíceis
condições dos que aí vivem e trabalham, aqueles que, apesar do abandono desta
frente ribeirinha, ainda lhe dão vida, e que sempre foram parte da alma da
cidade. “Da
Sé à Ribeira um pulo escasso pelas escadas do Barredo. Mas um longo caminho de
lutas sem grandeza, de pequenas e terríveis derrotas, de sonhos, de dor e
desesperança. O caminho do Homem, afinal.” [2]
[1] “E vedesi negli artefici egregi aver sempre le bozze piú forze e vivacità che non ha la fine nelle opere loro. Perché il furore dell’arte in un subito esprime il concetto dell’animo, il che non può fare la diligenza e la fatica nelle cose pulite. Giorgio Vasari (1511-1574). Le vite de più eccellenti architetti, pittori et scultori italiani, da Cimabue insino a' tempi nostri, descritte in lingua toscana, da Giorgio Vasari, Firenza M.D.L. (1550). (pág. 249).
[2]
Daniel Filipe (1925 – 1964) da Sé à Ribeira
pela estrada do Barredo in discurso sobre a cidade crónicas no Diário
Ilustrado, entre Dezembro de 1956 e Setembro de 1957 e em Daniel Filipe,
Discurso sobre a cidade crónicas. Editorial Presença Lda, .1977 (pág.
36 e 37).
Dordio Gomes
Dordio Gomes - como assinalámos – que nos anos 30 pintou vistas do Douro incluindo a ponte Luiz I, prosseguirá pintando o Rosto da Cidade, mas significativamente, valorizando agora a cascata do morro da Penaventosa, faz desaparecer, das suas pinturas, o Douro e as fainas fluviais, indiciando a perda de importância do rio e do porto fluvial.
Nessas pinturas (fig. 2 e 3), aquela luminosidade que
dourava a paisagem em alegria, torna-se tímida e discreta, uma luz quieta e duvidosa,
senão mesmo triste.
fig. 2 - Dordio Gomes Vista do Porto1955. óleo s/platex
32 x 38,5 cm.
fig. 3 - Dordio Gomes (1890-1976), Ribeira do Porto e Paço
Episcopal 1958. Óleo sobre tela, 107 x 127 cm. Cl. Particular.
Exposto no Museu Nacional Soares dos Reis em1963.
Dois pintores que são e fazem cidade
Mas, nesta procura dos valores pictóricos do Rosto da Cidade há dois pintores, de gerações diferentes, que se destacam neste período: António Cruz e Jaime Isidoro.
António Cruz
“Adoro o nevoeiro” António Cruz [1]
António Cruz [2] por vezes, ainda inclui as pontes metálicas, nos seus desenhos ou aguarelas, procurando a sua simplicidade estrutural, fazendo parte do Rosto da Cidade. (fig. 4).
fig. 4 - António Cruz sem título 1964, desenho in Catálogo da Exposição no Museu Nacional Soares dos Reis 14 de Dezembro 2007 a 31 Janeiro 2008. Edicão Árvore COOPERATIVA DE Actividades Artísticas CRL Porto 2007.
Mas é nas suas aguarelas, que
António Cruz - com aquela suavidade e delicadeza que o desenho a aguarela impõe
- elabora as suas paisagens húmidas de poesia, que são ainda o melhor retrato do
Porto e do Douro.
fig. 5 – António Cruz, Escarpa da Serra do Pilar 1937, aguarela Catálogo da Exposição no Museu Nacional Soares dos Reis 14 de Dezembro 2007 a 31 Janeiro 2008. Edicão Árvore Cooperativa de Actividades Artísticas CRL Porto 2007.
Ao contemplar esta imagem (fig.5), ainda dos anos 30, sentimos a humidade da bruma pousada na aguarela, na qual, lentamente, suspensas na neblina fina e matinal do rio, vão surgindo: o esfumado da colina da Sé e da escarpa do rosto da cidade, e mais além a mancha da Serra do Pilar e, juntando as duas margens, apenas uma ténue sugestão da ponte.
É nestas manhãs fininhas e naquela hora inaugural do dia,“que há aquelas brumas sobre o Douro, a desfazer-se de manhã, a levantar-se e começa a aparecer, a surgir uns pedaços da cidade do Porto…” [3]
E o
pintor procura essa luz, a luz que “inventou para a cidade, uma luz de cobre
que, vinda do alto, paira sobre o casario e as águas do Douro, fluindo cheia de
vagares para a Foz.” [4]
fig. 6 - António Cruz, Embarcação no Douro 1949, n.º 74 do Catálogo da Exposição no Museu Nacional Soares dos Reis 14 de Dezembro 2007 a 31 Janeiro 2008. Edicão Árvore, Cooperativa de Actividades Artísticas C.R.L. Porto 2007.
António Cruz desenha tranquilamente como um barco
navegando nas águas do Douro.
Numa outra aguarela (fig. 6), porque um barco navega
tranquilo nas águas do Douro e avança por entre a névoa para o perdido cais,
não é possível não referir António Cruz como o “O
Pintor e a Cidade”, o título do documentário de Manoel de Oliveira de 1956,
onde é filmado a pintar as suas delicadas aguarelas em suaves e tranquilas
paisagens da cidade e do Douro, enquanto Manoel de Oliveira filma as suas
movimentadas imagens cinematográficas, procurando momentos da agitada e difícil
vida das gentes de todas as classes, em imagens que sempre pretendem humanizar
o espaço urbano.
Ambos se concentram no Rosto da Cidade, no rio Douro e na Ribeira que tão bem conhecem, onde António Cruz sempre andou aguarelando e que Manoel de Oliveira foi filmando, como lugar de preferência das suas primeiras películas: Douro Faina Fluvial e Aniki-Bóbó. [5]
Sobre as aguarelas de António Cruz (fig. 7 e 8), Agustina
Bessa-Luís afirma “sabeis como são: dão a luz da
cidade, a luz violeta e dourada do Paris de Outono." [6]
fig. 7 - António Cruz, sem título, aguarela. Catálogo da Exposição no Museu Nacional Soares dos Reis 14 de Dezembro 2007 a 31 Janeiro 2008. Edicão Árvore Cooperativa de Actividades Artísticas CRL Porto 2007.
A
que Ana Harthely acrescenta a bruma, essa “misteriosa bruma que esfumava” nessa “hora
do entardecer, quando o vento subitamente parava e uma enorme doçura invadia a
cidade como se fosse uma carícia, tão inefável que só podia ser sonhada.” [7]
fig. 8 - António Cruz sem título aguarela 1957 Catálogo da Exposição no Museu Nacional Soares dos Reis 14 de Dezembro 2007 a 31 Janeiro 2008. Edicão Árvore Cooperativa de Actividades Artísticas CRL Porto 2007.
Por fim, (fig. 9) escreve
Eugénio de Andrade que ao fim da tarde, “no
cais da Ribeira avistam-se já manchas francas de sombra, as pequenas
embarcações perdem os contornos, e Gaia começa a confundir-se com a neblina
crepuscular. Ouve-se um silvo distante, que arrepia a água. Não há dúvida, a
noite vai cair. Uma noite antiga, de há cinquenta anos, onde ninguém poderá
pressentir a desgrenhada noite dos nossos dias, ruidosa, insegura, desumana.
Olhadas assim, com os olhos fatigados, as aguarelas de que estivemos a falar
escorrem, também elas, melancolia”.[8]
fig. 9 - António Cruz, sem título. aguarela Catálogo da
Exposição no Museu Nacional Soares dos Reis 14 de Dezembro 2007 a 31 Janeiro
2008. Edicão Árvore, Cooperativa de Actividades Artísticas C.R.L. Porto 2007.
[1] António Cruz. António Cruz
na primeira pessoa in Catálogo da Exposição no Museu Nacional Soares dos Reis
14 de Dezembro 2007 a 31 Janeiro 2008. Edicão Árvore, Cooperativa de
Actividades Artísticas C.R.L. Porto 2007. E em uma entrevista por Antónia de
Sousa, publicada no Diário de Notícias 1983, in António Cruz. Edição do
Centenário Modo de ler, Editores e Livreiros Lda. Porto 2007.
[2] António Amadeu Conceição Cruz (1907-1983) é no
dizer de Abel Salazar o maior aguarelista português dos tempos moderno. Em 1930
tornou-se aluno da Escola de Belas Artes do Porto, onde teve como mestres
Joaquim Lopes e Dordio Gomes (aqui referidos). Depois de uma estadia em Londres
regressa e em 1939, realiza a sua primeira exposição individual, no Salão Silva
Porto. Em 1956 foi figura principal no filme O Pintor e a Cidade, de Manoel de
Oliveira, apresentado no Festival de Veneza. In Eugénio de Andrade, “António
Cruz, O Pintor e a Cidade”1997.
[3] Antónia
de Sousa, Entrevista a António Cruz, 1983 in Diário de Noticias 12-6-83. No
Catálogo António Cruz 1907-2007, Exposição no Museu Nacional Soares dos Reis de
14 de Dezembro de 2007 a 31 de Janeiro de 2008, Árvore – Cooperativa de
Actividades Artísticas, C.R.L. Porto 2007. E em Uma entrevista por Antónia de
Sousa, publicada no Diário de Notícias 1983, in António Cruz. Edição do
Centenário. Modo de Ler, Editores e Livreiros Lda.. Porto 2007
[4] Eugénio de Andrade Melancolia in 21 Retratos
do Porto para o século XXI. Asa Editores SA Porto 2004. (pág. 92).
[5] Nuno Portas (1934-2025), sobre O Pintor e a
Cidade, escreve “A cidade do pintor é ainda a mesma da faina fluvial do Douro:
uma cidade dos homens. É certo que revelada de modo diferente: o Douro, Faina
Fluvial (1931) era visto a preto e branco e agora tivemos na frente uma
sinfonia de cor; no Douro era apenas o rio o centro da acção e agora é todo o
Porto: o monumental e o proibido, o do Barredo e o da arquitectura moderna, o
religioso e o profano, o do trabalho e o do descanso, o da alegria e o da
morte. Mas o ritmo permanece, sendo de todo este mundo a espinha dorsal: mais
do que a estrutura, a alma.” Nuno Portas
(1934-2025), Para um Cinema Novo. Obrigado Manuel de Oliveira in Diário de
Lisboa, 27 de novembro de 1956, (pág. 7 e 13).
[6] Agustina Bessa-Luís in Agustina Bessa Luís, “O
Pintor e a Cidade”, ed. Oiro do Dia, Porto 1982.
[7] Ana Harthely, Memórias da Cidade do Porto in
21 Retratos do Porto para o século XXI. Asa Editores SA Porto 2004. (pág. 37).
[8] Eugénio de Andrade, “António Cruz, O Pintor e
a Cidade” 1997.in Melancolia in 21 Retratos do Porto para o século XXI. Asa
Editores SA Porto 2004. (pág. 92).
Jaime Isidoro
fig. 10 - Jaime Isidoro Rio
Douro 1987, Aguarela sobre papel 61x85 cm. Col. particular.
Jaime Isidoro [2] também pintou o Rosto da Cidade (fig.10). Em aguarelas - em que pinta vistas do Porto - que são como “uma transfiguração do real amena, afável” [3], quadros que “são duma beleza calma, exercem a sedução pela marcação das cores e dos volumes.” [4]
O perfil da cidade estende-se
ao longe para além das colinas esfumando-se onde para nascente o céu é cor de
cinza.
A cidade ergue-se, ténue na neblina (fig.11), e depois e “depois, é o rio, com seu quê de charco de chumbo derretido, e as casa baixas alongando-se ao correr das águas mansas” [5]
Ali, sobre as águas afloram sombras
negras dos barcos que ainda calcam o rio.
fig. 11– Jaime Isidoro (1924-2009), Porto Serigrafia sobre papel 27 x 42 cm. Col. particular.
Numa pintura
mais recente - Porto 2003 (fig. 12) - um excelente exemplo da
pesquisa de Jaime Isidoro, no percorrer daquele percurso que o aproxima e leva
mesmo à ausência de figuração. Sem deixar, no entanto, de conservar uma permanente
reconciliação, entre figurativo e abstracto, motivo
de velhas e ultrapassadas polémicas dos anos 50 e 60.
fig. 12 - Jaime Isidoro (1924-2009), Porto 2003. Óleo s/ tela 170 x 210 cm. Col.
Instituto Politécnico do Porto.
E para captar essa outra realidade que
habita no mais escondido de nós, Jaime Isidoro organiza a composição por largas manchas, em planos verticais
e horizontais, densos e empastados, com os quais
se realiza na sua luminosa visão
da praça da Ribeira. Uma vista “em paralelepípedos de arestas biseladas, com
presenças humanas semidesfeitas na húmida neblina.” [7]
fig. 13 - Jaime Isidoro (1924-2009), Pormenores de Porto 2003. Óleo s/ tela 170 x
210 cm. Col. Instituto Politécnico do Porto.
[1] Mário Cláudio, Città
Ideale 2003 in O Porto de Jaime Isidoro, Porto Galeria Alvarez, 2003 e em Laura
Castro, Jaime Isidoro. A História de um Olhar. ASA Editores S.A. Porto 2004.
Edição do quadragésimo aniversário da Fundação Dr. António Cupertino de
Miranda. (pág. 117).
[2] Jaime
Isidoro (1924-2009). Realizou a sua 1ª Exposição em 1945. Fundou a Galeria
Alvarez em 1954. A sua pintura tem dois períodos de tempo: de 1945 aos meados
dos anos 50 e uma segunda fase a partir dos anos 80. Foi um dos promotores dos
Encontros Internacionais de Arte e das bienais Internacionais de Arte em Vika
Nova de Cerveira.
[3] Joaquim Matos Chaves (1938-1992) Jaime Isidoro
aguarelas in Jornal de Notícias 25 de Novembro 1986. in Laura Castro, Jaime Isidoro. A História de um
Olhar. ASA Editores S.A. Porto 2004. Edição do quadragésimo aniversário da
Fundação Dr. António Cupertino de Miranda. (pág. 104).
[4] Agustina Bessa-Luís, Par e Impar. Aguarelas de
Jaime Isidoro in O Primeiro de Janeiro 12 de Novembro 1986. In .in Laura Castro, Jaime Isidoro. A História de um
Olhar. ASA Editores S.A. Porto 2004. Edição do quadragésimo aniversário da
Fundação Dr. António Cupertino de Miranda. (pág. 107).
[5]
Daniel Filipe (1925 – 1964), da Sé à Ribeira
pela estrada do Barredo in discurso sobre a cidade, crónicas no Diário
Ilustrado, entre Dezembro de 1956 e Setembro de 1957 e em Daniel Filipe, discurso
sobre a cidade crónicas. Editorial Presença Lda. Lisboa 1977 (pág.
36).
[6] Mário
Sá-Carneiro (1890-1916), Partida Paris 1913 de Dispersão in Mario Sá-Carneiro,
Verso e Prosa, Assírio & Alvim Porto Editora 2012. (pág. 17).
[7]
Daniel Filipe (1925 – 1964), saudades para longe in discurso sobre a
cidade crónicas no Diário Ilustrado, entre Dezembro de 1956 e Setembro de 1957
e em Daniel Filipe, Discurso sobre a cidade, crónicas. Editorial Presença Lda.
Lisboa 1977. (pág.80).
CONTINUA













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