quarta-feira, 3 de junho de 2026

Poema do arquitecto 9 e 10

 


Os primeiros traços

Nebulosa I

 


fig. 1 - Leonardo da Vinci, Uragano con enormi getti d’acqua che travolge cavalieri e alberi, c. 1514. Royal Library. Castello di Windsor.

 

“As vezes o que vem primeiro, tanta

Natural graça traz, que hũa das nove

Deosas parece que o inspira, e canta.”

António Ferreira [1]

 

 “os deuses dão-nos gratuitamente um primeiro verso;

mas cabe-nos compor o segundo,

que deve estar em consonância com o primeiro

 e não ser indigno do seu sobrenatural irmão mais velho.”

Paul Valery [2]

 

“…os outros que fizeram e praticam a profissão de Arquiteto

arrancam as suas obras de um pequeno desenho feito em papel,

a partir do qual fazem o modelo, o que, contudo, não é o suficiente.”

Benvenuto Cellini (1500-1571) [3]

 

"Costumaõ os Arquitectos quando intentaõ levantar alguma fabrica,

debuxala primeiro em huma pequena traça,

para depois se acertar melhor o edifício."

Manuel Severim de Faria [4]

 

I

Realiza um primeiro debuxo uma primeira traça

o inicial esboço, uma aparente caótica nebulosa

que os deuses amáveis por nada te dão de graça

primeiro esquisso que deles foi dádiva generosa

Esse esboço construído com os primeiros riscos

traçados com maestria a lápis, caneta ou carvão

desenhos de linhas imperfeitas e indeterminadas,

são quem pode aproximar-te da primeira solução

 

 

 

Poema do arquitecto 10

Nebulosa II

 


fig. 2 Vincent van Gogh (1853-1890), La Nuit étoilée, 1889. Huile sur toile 73,7 x 92,1 cm. MoMA (Museum of Modern Art), New York

 

 O Esboço são as primeiras linhas ou traços que se fazem com a pena ou com o carvão,

 feitos com grande maestria e rapidez, e esses traços incluem a ideia e a invenção

do que queremos fazer, e ordenam o desenho, mas são linhas imperfeitas e indeterminadas,

mas nos quais se colhe e se encontra o desenho daquilo que temos intenção de fazer.”

Francisco de Holanda [5]

  

 “Projectar: há um princípio quase em nebulosa, raramente arbitrário.

Perpassa a história toda, local ou estranha,e a geografia,

histórias de pessoas e experiências sucessivas, as coisas novas entrevistas,

 música, literatura, os êxitos e os fracassos, impressões, cheiros e ruídos,

encontros ocasionais.

Uma película em velocidade acelerada suspensa aqui e ali, em nítidos quadradinhos.

Uma grande viagem em espiral sem princípio nem fim,na qual se entra quase ao acaso.

Comboio assaltado em movimento. É preciso parar e ser oportuno na paragem.

Agora entra a razão, com os seus limites e a sua eficácia. Talvez retomar a viagem?

Álvaro Siza [6]

 

“Na folha branca de papel faço o meu risco,

Retas e curvas entrelaçadas,

E prossigo atento e tudo arrisco

Na procura das formas desejadas.”

Oscar Niemeyer [7]

 

Esse precioso primeiro esquiço é a génese, o ovo

da misteriosa nebulosa inicial que se vai formando

e se do primeiro esquisso nada reste que seja novo

foi aí que tudo começou, início do que se foi criando

Será essa inquieta nebulosa em si mesma enrolada,

se difusa e dispersa no céu nem parada ou tranquila

mas só se da noite conheceres o seu profundo sentir

verás como ao vento o seu longo e diáfano véu cintila. [8]

 

 

 

 



[1] Antonio Ferreira (1528-1569) Carta XII Livro I  a Diogo Bernardes in Poemas Lusitanos do Doutor Antonio Ferreira, segunda impressão Tomo II,Na Regia Officina Typografica  Lisboa anno M DCC LXXI (pág. 56 ).

[2] Paul Valery (1871-1945), Introduction de Au sujet d’Adonis (1920) in Adonis (1658 publicado 1669), par Jean de La Fontaine (1621-1695). Au Masque d’Or Devambez, 23, rue Lavoisier. Paris. 1921. (pág.XII).les dieux, gracieusement, nous donnent pour rien tel premier vers; mais c'est à nous de façonner le second, qui doit consonner avec l'autre,  et ne pas être indigne de son aîné surnaturel »

[3] “Gli altri, che hanno fatto e fanno professione d'architetto, tirano le opere loro da un piccol disegno fatto in carta, e di quello fanno il modello, e però sono manco sufficienti.”  In Benvenuto Cellini (1500-1571) Carta a Benedetto Varchi in Vita di Bienvenuto Cellini Orefice e Scultore Fiorentino, da lui medesimo scritta, ridotta abuona lesione ed illustrata da Gio. Palamede Carpani. Volume Terzo di Nicolo Bettoni, Vite di Uomini Illustri scritte daloro medesimi. Milano M.DCCC.XXI. (pág. 184).

[4] Manuel Severim de Faria (1584-1655), Ao Leitor de Discurso Varios Politicos, Por Manoel Severim de Faria, Chantre, & Cónego na Sé de Évora. Com as licenças necessarias Em Evora Impressos por Manoel Carvalho Impressor de Vniversidade Anno 1624. Edição de Varios Discursos Politicos Por Manoel Severim de Faria, Chantre, & Cónego na Santa Sé de Évora. Fielmente reimpressos por Joaquim Francisco Monteiro de Campos Coelho, e Souza. Na Offic. De António Gomes. Anno M DCC LXXXXI, Lisboa 1791.

[5] Francisco de Holanda Dialoghi romani, III, (pág. 136). “… appena l’idea è determinata e scelta, tal quale la si vuole mettere in opera, si farà e si porrà subito in Disegno; e prima ancora che questo si realizzi nella sua perfezione, si fa lo schizzo, o modello di esso. Schizzo sono le prime linee o tratti che si fanno con la penna o con il carboncino, dati con grande maestria e velocemente, i quali tratti comprendono l’idea e l’invenzione di ciò che vogliamo fare, e ordinano il disegno, ma sono linee imperfette ed indeterminate, nelle quali si coglie e trova il disegno e ciò che è nostra intenzione fare.”

[6] Álvaro Siza, Projectar 24.01.2005, in 01- Textos Álvaro Siza. Civilização Editora, rua Alberto Aires Gouveia, 27. Porto 2009. (pág.317).

[7] Oscar Niemeyer (1907-2012), Autodefinição (17.01.2003), in Minha arquitetura – 1937-2005. Editora Revan, Rio de Janeiro 2005. (pág.347).

[8] “La Via Lattea sembra che palpiti al vento come un lungo velo”

Gabriele d’Annunzio (1863-1938), La Città Morta. Tragedia. Fratelli Treves, Editori. Milano 1900. (Atto Terzo, Scena Seconda pág.189). Anna - a Via Láctea parece que palpita ao vento como um longo véu.

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