O Rosto da Cidade II
E se no Rosto da Cidade houvesse ponte
“…a ponte lança-se sobre o
rio. Não liga apenas as duas margens já existentes. É a passagem da ponte que,
faz existir as margens como margens. É a ponte que as opõe uma à outra. É pela
ponte que a uma das margens se destaca face à outra” Martin
Heidegger [1]
Olhando o Rosto da Cidade
talvez ninguém a tivesse visto.
Mas quem, olhando o sítio
onde o rio se estreita, talvez pudesse ver o Douro com a ponte, como ela sempre
lá estivesse estado.
Viu-a primeiro em pedra e
imaginação, Carlos Amarante [2], num ambicioso
gesto de um só arco, ligando à
cota alta, o Porto com Gaia, o norte com o sul do país, unificando todo
território e a nação.
Para Carlos Cruz
Amarante o sonho era, sob esse vigoroso arco “de pedra / sombrear as águas prateadas do Douro.” [3]
fig. 1- Carlos
Luiz Ferreira da Cruz Amarante (1748-1815) Projecto d’huma Ponte para a Cidade
do Porto, sobre o Rio Douro. De hum arco de 600 palmos de diâmetro, desenhado
pelo primeiro Tenente do Real Corpo d’Engenheiros Carlos Luiz Ferra Cruz
Amarte. Anno de 1802. - 1 desenho : tinta-da-china e aguadas ; 127 x 67,5 cm.
Biblioteca Nacional Digital.
Mas como sempre acontece é “sobre o abismo pequeno que se torna difícil lançar uma ponte” [4], o sonho de
uma monumental ponte de pedra de Carlos Amarante não se realizou.
E abandonado o projecto dessa colossal e admirável ponte de pedra, o mesmo
Carlos Amarante, perante a inadiável necessidade de juntar ambas as margens do
Douro, cumprindo os interesses comerciais da cidade, sobretudo o comércio do
Vinho do Porto, em 1806, seguindo as antiquissimas formas de atravessamento do
rio, juntou várias barcas e fez-se ponte.
[1] Martin Heidegger (1889-1976) Bâtir, Habiter, Penser.
Essais et Conférences trad. A. Préau Ed. Gallimard Paris 1980 pag. 249. No original:
[le pont s’élance au-dessus du fleuve. Il ne relie pas seulement deux rives
déja existantes. C’ est le passage du pont qui, seul, fait exister les rives
comme rives. C’est le pont qui les oppose spécielment l’une à l’autre. C’est
par le pont que la seconde rive se détache en face de la première.] Reflexões
de Heidegger a partir de um poema de Hölderin.
[2] Carlos
Luiz Ferreira da Cruz Amarante (1748-1815). Foi o autor, entre outros dos
projectos das Igrejas do Bom Jesus, do Pópulo e do Hospital em Braga. Do
Palácio da Brejoeira em Monção. Da Igreja da Trindade no Porto e das pontes de
São Gonçalo em Amarante e das Barcas no Porto.
[3] António Machado (1875-1939), [“cruzar el largo puente, y
bajo las arcadas de piedra ensombrecerse las aguas plateadas del Duero”] de
Orillas del Duero in Campos de Castilla, Madrid, Renacimiento, Sociedade
Anonima Editorial, Pontejos, 8. 1912. (pág. 14).
[4] Friedrich
Wilhelm Nietzsche (1844-1900), Assim Falou Zaratustra: um livro para todos e
para ninguém (Also sprach Zarathustra: Ein Buch für Alle und Keinen) 1883/85,
tradução de Alfredo Margarido col. Filosofia & Ensaios, Guimarães Editores
2010.
A ponte de barcas
Uma Ponte de Barcas, permanente, a qual consistia num tabuleiro apoiado em barcaças movíveis permitindo, quando necessário, a passagem de embarcações.
Embora desenhada mais tarde em 1835, pelo Barão
de Forrester [1], esta vista a partir da margem esquerda do
rio, melhor consegue mostrar, com nitidez e abundância de pormenores, não só a ponte
de barcas, mas também o muro da Ribeira, já aberto de arcos.
fig. 2 - J. J.
Forrester (1809-1861), OPORTO. Delt R. J. Lane. À. R. À. *-J 4 Direxit. G. Childs Lith. Published in
Opor to by the Auther & for him in
London by J. Dicldnson New Bond S.t September 1835. Printed by Graf & Soret. Estampa n.° 2 da colectânea
do Barão de Forrester.
No Rosto da cidade as lágrimas de tristeza
Pouco anos depois da
construção da ponte, então ainda orgulho da cidade, as tropas napoleónicas
atacam a cidade.
fig. 3 - Bataille d'Oporto remportée par le maréchal Soult sur l'armée portugaise retranchée en avant de la ville le 29 mars 1809 .La fin de la bataille à 3 heures du soir. Le combat à l'entrée de la ville et fuite de la cavalerie portugaise traversant le pont sur le Douro. Jung Théodore (1803-1865), Aquarelle 116 x 210 cm. Châteaux de Versailles et de Trianon Versailles.
fig. 4 – A população do Porto fugindo do exército de Soult em 1809 Pintura existente na igreja de S. José das Taipas.
Arnaldo Gama em O Sargento Mor de Vilar, escreve:
"N'aquella meia dúzia de palmos de terra, n'aquella estreita fita de madeira que se estendia sobre o Douro, representou-se n'aquelle dia uma scena, que compendiou em breve resumo tudo quanto a agonia e o pavor tem de mais perfeito de mais horroroso.” [3]
E o poeta contemporâneo dos acontecimentos, António Joaquim de Mesquita e Mello (1792-1884), no seu poema O Porto Invadido e Libertado de 1815, descreve a tragédia:
“Quer fugir ás vinganças do tyranno
De ambos os sexos povo numeroso,
Succumbe a ponte em parte, e leva ao fundo
Este povo infeliz roubado ao mundo.”
“Junto do precipicio os que se achavaõ
Querendo recuar já não podiaõ,
Que huns nos outros forçosos carregavaõ,
E ao desastroso abysmo todos hiaõ:
Abysmo, de que as bordas igualávaō,
Dessa gente os montões que alli cahiaõ,
Com magoada grita o Ceo ferindo,
O Ceo, a terra, as agoas
aturdindo.” [4]
[1]
Joseph James Forrester (1809-1861) Produtor e comerciante de vinho, James
Forrester foi o primeiro barão de Forrester, título que lhe foi concedido por
D. Fernando II, em 1855. Publicou diversas obras Uma palavra ou duas sobre o
vinho do Porto, 1844 , O Douro Português e País Adjacente (1848) e
de Prize Essay on Portugal and its Capabilities (1859). Foi o autor de mapas
do vale do Douro de que se distingue o
seu Mapa do Rio Douro. Pintou várias aguarelas e foi um dos primeiros
fotógrafos em Portugal.
[2] Arnaldo
Gama (1828-1869), O Sargento-Mor de Villar, (Episódios da Invasão dos Francezes
em 1809) Vol. II Livraria Civilização Porto 1866. (pág. 242).
[3] Arnaldo
Gama (1828-1869), O Sargento-Mor de Villar, (Episódios da Invasão dos
Francezesem 1809). Livraria Civilização, Porto 1863. (pág. 247).
[4] António Joaquim de
Mesquita e Mello (1792-1884), O Porto Invadido e Libertado, Na
Officina de Joaquim Thomaz de Aquino Bulhões Porto 1815. (Est. 66 e 67 pág. 29).
Libertado, o rosto da cidade volta a sorrir.
“Avançai estandartes nossos, lançai-vos sobre o
inimigo
Que o nosso velho brado de coragem “Por S.
Jorge”
Nos inspire com o alento dos dragões de fogo.”
Shakespeare [1]
Mas libertada
a cidade pelas tropas anglo-portuguesas, sob o comando de
Wellesley (Duque de Wellington) no dia 12 de Maio de 1809,
“Em quanto as tropas nelles vao ſaltando,
Em Cubrantões as tropas se embarcáraõ;
Quando, da serra os bronzes vomitando
O desembarque seu lhes seguráraõ:
As agoas através prestes cortando,
Perto da terra á terra se atiraraõ,
Chovem balas
do pérfido contrario
Emboscado no
erguido Seminario.” [2]
Numa imagem de Henri l’Evêque [3], as tropas inglesas atravessam o Douro, em embarcações, junto do Seminário Velho e do Prado do Bispo e surpreendem Soult e as suas tropas.
fig. 5 – Henri l’Eveque PASSAGE OF THE DOURO, by the division under the Command of L.t Gen.l the Hon.ble Edward Paget. To L.t Gen.l the Hon.ble Edward Paget this plate respectfully inscribed by his most obedient humble Servent H. L'Evêqne. London; Pub.d April 2.1812, for the Proprietors by Mess.s Colnaghi & Co. Cockspur Street.
[1] "Advance our standards, set upon our foes,
Our ancient word of courage fair Saint
George
Inspire us with the spleen of fiery dragons." William Shakespeare
(1564 – 1616) - Richard III.," Act v. sc. 3.
[2] António Joaquim de
Mesquita e Mello (1792-1884), O Porto Invadido e Libertado, Na
Officina de Joaquim Thomaz de Aquino Bulhões Porto 1815. (Est. 69 pág. 58)
[3] Henri l'Éveque
(1769-1832), viajante, pintor, aguarelista e gravador suíço, esteve várias
vezes em Portugal, tendo registado graficamente, entre outros temas, numerosos
episódios das Invasões Francesas no seu álbum Campaigns of the British
Army in Portugal, under the command of general the Earl of Wellington de 1812 dedicado
a este militar, com 19 gravuras. Foi ainda autor de outro álbum Costume
of Portugal, um belo livro dos costumes portugueses publicado durante o
século XIX dedicado ao conselheiro, ministro e secretário de Estado António de
Araújo (António Araújo e Azevedo, 1º Conde da Barca 1754-1817).
O Rosto da cidade libertada
O rosto da cidade estabiliza-se na segunda década do século, entre as Invasões Francesas (1810) e a Revolução Liberal (1820).
Henri l’Evêque é o autor de uma gravura do Porto datada de
1817, ano em que, significativamente, Manoel Fernandes Thomaz (1771-1822), vem
da Figueira da Foz para o Porto para tomar posse como desembargador da Relação.
fig. 6 - Henri L’ Evêque (1769-1832) Vue de la Ville et du Port de Porto. H. L’Evêque. d. London P.ed 1817.
[Nota - Reproduzimos algumas das análises e dos comentários sobre esta imagem, já apresentada neste blogue em Setembro de 2020 com o título de “Aspectos do Porto na segunda década de oitocentos”.]
Para melhor analisar a
gravura, apresentamos uma outra versão da mesma, numerada.
fig. 7 – Henru L’Evêque, Vue de la Ville et du Port de Porto.
A gravura mostra a cidade debruçada sobre o rio, com uma grande actividade portuária e onde é salientado o comércio do vinho.
A Ponte das barcas cria uma diagonal
conferindo a toda a composição uma dinâmica às actividades no Douro e à ligação
entre as duas margens
L’Évêque mostra o Rosto do Porto como um anfiteatro, com uma verdejante escarpa sobre o Douro, desde a colina da Sé 1 com a Catedral 2 e o Paço Episcopal 3.
A ocidente do vale do rio de Vila, a colina da Vitória 3 com o
Mosteiro de S. Bento.
Na encosta o
convento de S. Domingos 4 e o convento de S.
Francisco 5
O cais da Ribeira 8 com as diversas portas e postigos da muralha medieval até à praia de Miragaia. 6
Junto à Porta da Ribeira, sensivelmente ao centro da imagem entre as duas embarcações a capela de Nossa Senhora do Ó 7 sobre a muralha.fig. 8 – Pormenor da fig. 7.
Após a curva do rio a poderosa Companhia das Vinhas do Alto Douro constrói entre 1761 e 1767 o armazém de Monchique e a cidade estende para poente as suas actividades portuárias. E em 1788 é decidida a abertura da marginal para ligar Miragaia com a Foz.
Já em 1789, com projecto de
Champalimaud de Nussane [1], iniciam-se
as obras do cais de Massarelos.
Na
imagem ao fundo ainda se vê a margem sul com os seus armazéns.
A ponte das barcas
Destaca-se ao centro a Ponte de Barcas 10, entre o cais de Vila Nova de Gaia 9 e a Porta da Ribeira.
Unindo uma pequena capela 9 na margem esquerda do Douro com o cais da Ribeira junto às portas da muralha no lado do Porto. Aqui, junto à ponte é visível a roda da grua de apoio à ponte e ao cais 8.
Na gravura de L’Évêque circulam
tranquilamente na Ponte de Barcas, um carregador com um fardo às costas p1, um soldado junto da prancha da embarcação p
2, um cavaleiro na sua montada p
3, um casal com uma sombrinha p 4, uma mula com o respectivo cavaleiro, outra transportando carga p
5, duas personagens que a meio da ponte trocam impressões
observando as embarcações fundeadas p 6, e junto ao cais da Ribeira um outro cavaleiro e mais algumas
figuras p 7.
A montante e a jusante da ponte diversas
embarcações.
fig. 9 - Pormenor da ponte das barcas na gravura de H.
l’Evêque.
A margem de Gaia
fig. 10 - Pormenor da gravura de L’Evêque.
[1]
José Champalimaud de Nussane (Paul Joseph Champalimaud,
Senhor de Nussane 1733-1799), engenheiro militar de origem francesa foi
director da Junta de Obras Públicas entre 1787 e 1794.
A gravura de Robert Batty
fig. 11 - Robert Batty (1789-1848), Oporto. From Vila Nova.
1829. Painted
by Lieut. Col.e Robert Batty. Engraved by William Miller (1796-1882).
O próprio Robert Batty anota:
“A vista aqui anexa, obtida da base da Serra, perto da Ponte das Barcas,
apresenta-nos a parte mais antiga da cidade do Porto. O espectador fica assim
localizado em frente do Palácio do Bispo, que juntamente com a Catedral e os
edifícios próximas, ocupam o alto da Colina Central da figura.” [2]
fig. 12 – A gravura de Batty numerada.
[1]
O tenente-coronel Robert BATTY (1789 - 1848) foi um ilustrador e topógrafo.
Filho de um cirurgião e também pintor de paisagens. Em 1813, Batty pertenceu ao
regimento Grenadier Guards que combateu na Guerra Peninsular. Ao longo da vida,
publicou diversos livros ilustrados das suas viagens: Um esboço da Campanha, no
final da Holanda, 1815; Um esboço histórico da campanha de 1815; Campanha da
ala esquerda do exército aliado,1823; Cenário Galês, 1823; Cenário alemão,
1823; Cenário do Reno, da Bélgica e Holanda, 1826; Cenário Hanoverian e
Saxónio, 1829; Seis Vistas de Bruxelas, 1830; Um passeio de família através de
Zuid-Holland, 1831; Vistas das principais cidades da Europa, 1832 e O motim e a
Apreensão da H.M.S. Bounty, 1876.
[2]
Na legenda da gravura.
[3] Inaugurado
em 13 de Maio de 1789, projectado por Vicenzo Mazzoneschi (1747-1806).
[4]O.
L. Filgueiras, Algumas Cenas e Cenários Ribeirinhos de Vila
Nova de Gaia em Gravuras dos Séculos XVII a XIX – Gabinete de História e
Arqueologia de Vila Nova de Gaia – 1984).
O Rosto do Porto Liberal
Afastados os franceses ficam os ingleses que com a Corte no Brasil tomam conta dos negócios do Reino.
Com a
morte de D. João VI, o conflito pela sucessão ao trono desencadeia uma guerra civil
entre Liberais e Absolutistas, entre D. Pedro e D. Miguel.
E o Porto sofre um cerco que atinge o Rosto da cidade.
O Rosto da Cidade após o Cerco do Porto
A gravura de George Vivian 1839
fig. 13 - Oporto
from Villanova. SCENERY OF
PORTUGAL & SPAIN. By G. Vivian Esq. re
on Stone by L. Haghe P. & D. Colnaghi and
Co., 1839. –litografia 18 de 35.
George Vivian [1] desenhou uma gravura litografada por L. Hage, onde o rosto da cidade é parcialmente desenhado, centrado na Sé e no paço Episcopal.
«A Sé ou Catedral e a grande ala do palácio
episcopal são visíveis no ponto mais alto da imagem. Mais ao longe, à direita,
surgem os edifícios e as muralhas do jardim de Santa Clara e, sob as primeiras
elevações, realizava-se a famosa travessia do Douro. Algumas das embarcações no
rio são os barcos de vinho do Porto ou do Alto Douro.» [2]
O
rosto magoado da cidade vê-se pelas destruições da artilharia miguelista
durante o cerco do Porto.
Foi
ainda publicada uma versão colorida do álbum Scenery Of Portugal & Spain.
fig. 14 - Oporto
from Villanova. M.R. VÍVIAN'S
SCENERY OF PORTUGAL & SPAIN. Ackermann & Co. Strand. London. 1839.
Edição Comemorativa da Inauguração da Ponte da Arrábida CMP 1963.
Não está figurada a margem de Gaia.
Por entre a
azáfama das muitas embarcações no Douro, destaca-se no primeiro plano, um
rabelo carregado com pipas, tornando-se um dos elementos, característico e
identificador, do Rosto da Cidade.
[1] George Vivian (1798-1873), desenhador e pintor em Londres, viajou através de Espanha e Portugal. No seu regresso, Vivian publicou uma colecção de litografias sob o título “Scenery of Portugal & Spain” constituído por 33 desenhos gravados em pedra por L. Haghe. Tornou-se célebre a gravura da praça de S. Bento no Porto e que foi reproduzida numa nota de 100 escudos do Banco de Portugal. Louis Haghe (1806-1885) nascido na Holanda mas trabalhando no reino unido foi um conhecido litógrafo tendo trabalhado para a Família Real.
[2] « The Sé or Cathedral and the great
file of the Bishop’s palace are seen on the highest point of the picture. More
distant to the right appears the building and battlement garden walls of Santa
Clara and under the firthest heights the famous passage of the Douro was
effected. Some of the craft on the
river consist of the Oporto, or Alto Douro Wine Boats. » legenda
da estampa XVIII.
CONTINUA














Sem comentários:
Enviar um comentário