quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

O Rosto da Cidade IV

 

A grande ponte que fez (o Rosto da) Cidade

No final do século XIX, depois do período das duas pontes atravessando o Douro à cota baixa, é retomada a visão de Carlos Amarante, de um novo atravessamento do Douro naquele sítio em que sempre apeteceu ponte, uma ponte que unisse não apenas as duas margens do Douro, mas todo o território nacional.
Concretizada a ponte ferroviária Maria Pia (1877), logo se pensou numa ponte que pudesse substituir a já esgotada e insegura Ponte Pênsil.

No dia 1 de Dezembro de 1881, é colocada “a primeira pedra” na presença da família real e inicia-se a construção da nova ponte segundo um projecto de Téophile Seyrig. [1]

fig. 1- Ponte D. Luiz I, no Porto – Estado actual das obras (segundo uma photographia da Casa Biel & Cª do Porto. O Occidente n.º 229 de 1 de Maio de 1885. (pág. 100).

 

“Da margem esquerda da vida
Parte uma ponte que vai
Só até meio, perdida
Num halo vago, que atrai.

É pouco tudo o que eu vejo,
Mas basta, por ser metade,
P'ra que eu me afogue em desejo
Aquém do mar da vontade.

Da outra margem, direita,
A ponte parte também.
Quem sabe se alguém ma espreita?
Não a atravessa ninguém.”

Reinaldo Ferreira
[2]

 

E em 31 de Dezembro de 1886, dia do aniversário de D. Luiz, a ponte foi inaugurada.

Desde então, “essa soberba obra de arte, campeia altiva e elegante, oferecendo aos habitantes da cidade do Porto não só mais uma grande comodidade, como também um dos passeios mais seductores pela formosura da paisagem pitoresca e dos explendidos golpes de vista que se deparam do centro do taboleiro superior, e mesmo das suas extremidades n’uma das quaes se ergue a histórica serra do Pilar, de onde se estende um panorama magnífico.”  [3]


fig. 2 – George Danson Tait (1850-1900),  A Ponte Pênsil e a Ponte Luiz I. 1886-87.

A ponte Luiz I irá ter um impacto decisivo na evolução da cidade do Porto e da cidade de Gaia. [4]

 



[1] François Gustave Téophile Seyrig (1843-1923). Em 1869 funda a Eiffel e Companhia com Gustave Eiffel, tendo desempenhado papel relevante na concepção da ponte Maria Pia. Em 1881, tendo-se desentendido com Eiffel passa a colaborar com a empresa belga Société de Construction Willebroeck, com a qual ganha o concurso para a ponte Luiz I.

[2] Reinaldo Ferreira (1922-1959). Poemas Portugália Editora, Lisboa 1962. Reinaldo Edgar de Azevedo e Silva Ferreira era filho do célebre jornalista Reinaldo Ferreira, o Repórter X.

[3] Ponte Luiz I in O Occidente n.º 285, 21 de Novembro de 1886. (pág.259). Assinado R. [Manuel Maria Rodrigues (1847-1899) ?]

[4] Desde a sua inauguração até 1963, data da inauguração da ponte da Arrábida, os seus dois tabuleiros irão ser a passagem exclusiva de atravessamento pedonal e rodoviário do Douro, provocando o desenvolvimento do centro do Porto, a abertura das Avenidas da Ponte e dos Aliados, e em Gaia da Avenida da República, numa margem e na outra unindo os respectivos Paços do Concelho e ambos os cais na cota baixa.


A ponte que do sítio fez lugar


“Este “sítio” não existia como entidade antes da ponte 
(se bem que existem numerosos “sítios” ao longo das margens,

onde pudesse ser construída) e apenas é descoberto com a ponte.

O fim essencial da construção (da arquitectura) é o de transformar um sítio num lugar.” [1]

 

Com a ponte completa-se o Rosto do Porto numa imagem que ainda hoje identifica a cidade.

A ponte como se sempre tivesse aí existido, dando razão à visão de Carlos Amarante, passou a fazer parte do Rosto da Cidade, “como se fosse para ele a paisagem do meu eu profundo” [2].

Esta é a imagem do Rosto do Porto, da sua identidade, que dura até aos nossos dias, e que é quase sempre utilizada para indicar a Cidade do Porto, como canta Rui Veloso:

“Quem vem atravessa o rio

Junto à serra do Pilar

Vê um velho casario

Que se estende até ao mar…” [3]

 



fig. 3 - Fotografia da Foto Beleza n.º 83 In Porto. Margens do Tempo. Livraria Figueirinhas Porto.


 

 



[1]. No original: « Ce “lieu” n’existait pas comme entité avant le pont (bien qu’il existe de nombreux “sites” le long de la rive, ou il aurait pu être construit) on le découvre avec le pont. Le but essenciel de la construction (de l’architecture) est donc celui de transformer un site en un lieu. » Christian Norberg-Schulz (1926-2000) Genius Loci: Paysage, ambiance, architecture, Editions Mardaga Éditeur, Bruxelles 1981.

[2] Mário de Andrade (1893-1945) Pauliceia Desvairada, Prefácio Interessantíssimo 1922 Editora Itaiaia Limitada Belo Horizonte in Poesias completas, Mário de Andrade. Edição crítica de Diléa Zanotto Manflo. Editora ltatiaia Belo Horizonte e Editora da Universidade de São Paulo. São Paulo, 1987. (est. 50, pag.74).

[3] Carlos Tê e Rui Veloso Porto Sentido in Álbum Rui Veloso EMI 1986.

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