quinta-feira, 3 de setembro de 2026

Soneto à cidade onde ora habito


 


António Neves (Ílhavo 1963) Moliceiros na Ria Aguarela “3” 37 x 102 cm. https://www.antonioneves.pt/aguarelas.html.


“(…) a ria dá-lhes a humidade durante todo o ano, e com a brisa do mar refresca durante o estio as plantas e os sêres. Uma atmosfera de humidade constante envolve a paisagem como um hálito.” Raul Brandão [1]

“A luz aqui estremece antes de pousar…” Raul Brandão [2]

«Morro de Amor pelas águas da Ria
Esta espuma de dor, eu não sabia
sou moliceiro do teu lodo fecundo
Sou a Ria de Aveiro, o Sal do mundo
Vara comprida, tamanho da vida
Braço de mar, a lavrar, a lavrar…
Morro de Amor nesta rede que teço
e é no Sal do Suor que eu aconteço.
Para além da Salina, o horizonte me ensina
que há muito Mar, para lavrar, para lavrar… .» 
José Carlos Ary dos Santos [3]


Que acaso me trouxe a esta terra onde habito?

paisagem onde nascem sombras e movimento

cidade à procura de espaço e desenho na vida

pinheiros ocasos o sossego no aroma do vento

 

tempo e espaço de que nos fomos esquecendo

procura da lucidez nos ares dum olhar profundo

o longo e confuso tempo onde outrora vivemos

nas muralhas longas que escorrem pelo mundo

 

tranquilidade em busca do que souber esquecer

caminho tocado no exilado vento sopro da tarde

luminosidade até aos limites do meu próprio ser

 

da ria onde gaivota impávida aqui vem desaguar

mar convulso sem praia sem fundo de sol a pino

estranhos brilhos ardentes que se sentem no ar

 

 



[1] Raul Brandão A Ria de Aveiro in Os Pescadores Livrarias Aillaud & Bertrand Paris Lisboa 1923. (pág. 87).

[2] Raul Brandão A Ria de Aveiro in Os Pescadores Livrarias Aillaud & Bertrand Paris Lisboa 1923. (pág. 89).

[3] José Carlos Ary dos Santos (1936-1984), Carlos Paredes (1925-2004), Carlos do Carmo (1939-2021). Fado Moliceiro do álbum Um Homem no País (1983).