António Neves (Ílhavo 1963)
Moliceiros na Ria Aguarela “3” 37 x 102 cm. https://www.antonioneves.pt/aguarelas.html.
“(…) a ria dá-lhes a humidade durante todo o ano, e com a brisa do mar refresca durante o estio as plantas e os sêres. Uma atmosfera de humidade constante envolve a paisagem como um hálito.” Raul Brandão [1]
“A luz aqui estremece antes de pousar…” Raul Brandão [2]
«Morro de Amor pelas águas da Ria
Esta espuma de dor, eu não sabia
sou moliceiro do teu lodo fecundo
Sou a Ria de Aveiro, o Sal do mundo
Vara comprida, tamanho da vida
Braço de mar, a lavrar, a lavrar…
Morro de Amor nesta rede que teço
e é no Sal do Suor que eu aconteço.
Para além da Salina, o horizonte me ensina
que há muito Mar, para lavrar, para lavrar… .» José Carlos Ary dos Santos [3]
Que acaso me trouxe a esta terra onde habito?
paisagem onde nascem sombras e movimento
cidade à procura de espaço e desenho na vida
pinheiros ocasos o sossego no aroma do vento
tempo e espaço de que nos fomos
esquecendo
procura da lucidez nos ares dum olhar
profundo
o longo e confuso tempo onde
outrora vivemos
nas muralhas longas que
escorrem pelo mundo
tranquilidade em busca do
que souber esquecer
caminho tocado no exilado
vento sopro da tarde
luminosidade até aos limites do meu próprio
ser
da ria onde gaivota impávida
aqui vem desaguar
mar convulso sem praia sem fundo de sol a
pino
estranhos brilhos ardentes que se sentem no ar
[1] Raul
Brandão A Ria de Aveiro in Os Pescadores Livrarias Aillaud & Bertrand Paris
Lisboa 1923. (pág. 87).
[2] Raul
Brandão A Ria de Aveiro in Os Pescadores Livrarias Aillaud & Bertrand Paris
Lisboa 1923. (pág. 89).
[3] José
Carlos Ary dos Santos (1936-1984), Carlos Paredes (1925-2004), Carlos do Carmo
(1939-2021). Fado Moliceiro do álbum Um Homem no País (1983).

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