segunda-feira, 12 de outubro de 2026

il dolce far niente


 

Edme-Jean Pigal (1794-1872) des. Pierre Langlumé (1790-1830) imp. Il Dolce far niente, litografia 32, 2 x 27 cm. Planche n. º 1 do Album Rome Affaires du Jour 1828. Gihaut Frères éditeur. Musée Carnavalet Paris.

 

  Il dolce far niente

 

“Um murmúrio de omissões, um cântico do ócio.
Eu vou contigo, voz silenciosa, voz serena.”

António Ramos Rosa [1] 

“Ai que prazer / Não cumprir um dever…”

Fernando Pessoa [2]

 

Na preguiça deixei-me ficar

dos esforços inúteis isento

vivendo a modorra familiar

do segredo dúbio do tempo

 

paralítico remorso da idade

dia aberto e depois fechado

injusta poeira e maturidade

luzidio repolho do passado

 

azulada gramática do viver

iluminada no acontecendo

lúcida cabriola sem se ver

 

voo íntimo e desconhecido

salto de risco sem lamento

ânsia em círculo escondido

 



[1] António Ramos Rosa (1924-2013), O Jardim de Volante Verde. (1986). In Obra Poética I. Assírio & Alvim-Porto Editora 2018. (pág. 1073).

[2] Fernando Pessoa (1888-1935) Liberdade, (1935. 1.ª publicação: Seara Nova, n.º 526, Lisboa, 11 de Setembro de 1937). In Fernando Pessoa Obra Poética Companhia Aguilar Editora, Rio de Janeiro 1965. (pág. 188)

 

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