a espessa natureza dos materiais I
“(…) Os homens a constroem com materiais
Que vão buscar à terra
Pedra vidro metal madeira cimento cal
Com suas mãos e pensamento a constroem (…)”
Sophia [1]
“Cada material
comunica à sua maneira,
transporta uma carga expressiva,
é preciso deixá-lo falar.”
Antoni
Tapiès [2]
Figura 1- Antonio Tapiès, C.89 ocre gris carré tecn. Mista 90 x 90 cm. Col.
particular.
Para
conhecer a natureza dos materiais
procura a sua textura a sua plasticidade
procura sentir nos segredos
da matéria
o peso e as cicatrizes da
sua intimidade
Busca o silêncio no que diz cada material
qual a sua visão táctil? que
solene poesia
eles nos dizem se os ouvirmos lentamente
que humildade? que majestosa sabedoria?
a espessa natureza dos materiais II
“As pedras falam? pois
falam
mas não à nossa maneira,…”
Maria Alberta Meneres [3]
Figura 2 - Silva
Porto (1850-1893), Quinta do
Covelo, Porto 1873. óleo sobre tela 34,5 x 48,5 cm. Museu
Nacional de Soares dos Reis.
Muro hirsuto toscamente encastelado
escaldante pedra brilhando aparelhada
momento e silêncio no canto
da matéria
tisnada velhice rústica beleza encantada
Os humildes rosados tijolos de cozedura
os emaranhados traços calor
da madeira
toda a força telúrica da pesada cobertura
protecção íntima mais antiga e verdadeira
a espessa natureza dos materiais III
o vento, as margens do oceano, as pedras,
sabendo que seguirão, imóveis ou ardentes,
e eu fui descobrindo, dando nome às coisas:
foi meu destino amar e despedir-me.”
Pablo Neruda [4]
Figura 3 - Ângelo
de Sousa (1938-2011), Sem título, 17-5-65, 1965, cartolina sobre platex. 100 x 70 cm. Galeria Quadrado Azul.
Para saber alcançar a leveza dos materiais
tentando eliminar o seu peso e espessura
procura o cimento vidro e todos
os metais,
criar beleza em diferente
nova arquitectura
Ensaiando renovada expressão e
desenho
obstinado
paciente rigor preciosa harmonia
confronto conforto íntimo de novos
espaços
emoção aguda lâmina da encantada
melodia
[1] Sophia
de Mello Breyner Andresen (1919-2004), A Casa de Deus (1990) in Obra Poética
Assírio & Alvim – Porto Editora. Porto 2015. (pág. 922).
[2] Antoni
Tapiés (1923-2012) Entrevista ao canal de televisão Antenne 2 1994.
« Chaque matériau
communique à sa façon,
est porteur d’une
charge expressive,
il faut le laisser parler ».
[3]
Maria Alberta Meneres (1930-2019), As Pedras in “Conversas com Versos” (Afrodite, Lisboa
1968) Maria Alberta Meneres, Conversas com versos. Ilustrações de Rui Castro.
Asa Editores S. A. Porto 2005. (pág. 72):
[4] Pablo Neruda (1904-1973) Poema XV de Aun (1969). Editorial
Lumen, Colección Palabra Menor. Barcelona. 1971 (pág. 43).
“Nosotros, los perecederos, tocamos los metales,
el viento, las orillas del oceano, las piedras,
sabiendo que
seguiran, inmoviles o ardientes,
y yo fui descubriendo, nombrando todas las cosas:
fue mi destino amar y despedirme.”

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