sábado, 15 de agosto de 2026

Poema do arquitecto 14

 

a espessa natureza dos materiais I

 

“(…) Os homens a constroem com materiais

Que vão buscar à terra

Pedra vidro metal madeira cimento cal

Com suas mãos e pensamento a constroem (…)”

Sophia [1]

 

 

 “Cada material comunica à sua maneira,

transporta uma carga expressiva,

é preciso deixá-lo falar.”

Antoni Tapiès [2]

 



Figura 1- Antonio Tapiès, C.89 ocre gris carré tecn. Mista 90 x 90 cm. Col. particular.

 

Para conhecer a natureza dos materiais

procura a sua textura a sua plasticidade

procura sentir nos segredos da matéria

o peso e as cicatrizes da sua intimidade

 

Busca o silêncio no que diz cada material

qual a sua visão táctil? que solene poesia

eles nos dizem se os ouvirmos lentamente

que humildade? que majestosa sabedoria?


 

 

a espessa natureza dos materiais II


“As pedras falam? pois falam
mas não à nossa maneira,…”

 Maria Alberta Meneres [3]

 

 



Figura 2 - Silva Porto (1850-1893), Quinta do Covelo, Porto 1873. óleo sobre tela 34,5 x 48,5 cm. Museu Nacional de Soares dos Reis.

 

 

Muro hirsuto toscamente encastelado

escaldante pedra brilhando aparelhada

momento e silêncio no canto da matéria

tisnada velhice rústica beleza encantada

 

Os humildes rosados tijolos de cozedura

os emaranhados traços calor da madeira

toda a força telúrica da pesada cobertura

protecção íntima mais antiga e verdadeira



a espessa natureza dos materiais III

 

 

 “Nós, os que perecemos, tocamos os metais,

o vento, as margens do oceano, as pedras,
sabendo que seguirão, imóveis ou ardentes,
e eu fui descobrindo, dando nome às coisas:
foi meu destino amar e despedir-me.”

Pablo Neruda [4]


 

 

 


 

Figura 3 - Ângelo de Sousa (1938-2011), Sem título, 17-5-65, 1965, cartolina sobre platex. 100 x 70 cm. Galeria Quadrado Azul.

 

 

Para saber alcançar a leveza dos materiais

tentando eliminar o seu peso e espessura

procura o cimento vidro e todos os metais,

criar beleza em diferente nova arquitectura

 

Ensaiando renovada expressão e desenho

obstinado paciente rigor preciosa harmonia

confronto conforto íntimo de novos espaços

emoção aguda lâmina da encantada melodia

 

 

 



[1] Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004), A Casa de Deus (1990) in Obra Poética Assírio & Alvim – Porto Editora. Porto 2015. (pág. 922).

[2] Antoni Tapiés (1923-2012) Entrevista ao canal de televisão Antenne 2 1994.

« Chaque matériau communique à sa façon,

est porteur d’une charge expressive,

il faut le laisser parler ».

[3] Maria Alberta Meneres (1930-2019), As Pedras in “Conversas com Versos” (Afrodite, Lisboa 1968) Maria Alberta Meneres, Conversas com versos. Ilustrações de Rui Castro. Asa Editores S. A. Porto 2005. (pág. 72):

[4] Pablo Neruda (1904-1973) Poema XV de Aun (1969). Editorial Lumen, Colección Palabra Menor. Barcelona. 1971 (pág. 43).

“Nosotros, los perecederos, tocamos los metales,

el viento, las orillas del oceano, las piedras,

 sabiendo que seguiran, inmoviles o ardientes,

y yo fui descubriendo, nombrando todas las cosas:

fue mi destino amar y despedirme.”

 

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