Reencontro ao acaso
Paul
Klee (1879-1940), Amantes 1920. guache e grafite s/ papel 25,1 x 41,3 cm.
Metropolitan Museum of Art NY
“O
rumor do mundo não é mais que um sopro
de
vento, que ora aqui, ora ali passa,
e ao mudar de lugar muda de nome”. Dante *
na cornija da vetusta casa antiga
espiam-me seráficas alvas figuras
recordando a antiga perdida lenda
génese das enigmáticas criaturas
Eu era o
Vagabundo, o Deserdado...
de pés descalços cabelos no
vento!
na cega janela do marmóreo salão
angustiado em esquecido tormento
No efeito ruidoso e inquieto agitado
nesses acasos escritos em palácios
para ansiar
o momento atormentado
encontrar um velho desejo ampliado
mas o casual inesperado reencontro
com seu súbito transvase de alegria
essa amorosa consonância desejada
e transformada em renovada euforia
uma desavença recriada em nostalgia
como sonhos imersos em patina rubra
apenas fantasmas criados por poetas
em vastidão cega titubeante e obscura
as mimeses desse imenso reencontro
utopias imaginadas em que me tropeço
as vozes emanando e ecos de mentira
a forma com que sempre me despeço
Mas a dor
profunda exausta
vacilante
bússola
quebrada dando loucos sinais
mudaria de repente o mágico instante
em
penetrantes silêncios
e nada mais!
* Sophia de Mello Breyner Andersen tradução de
Dante Alighieri, A Divina Comédia. Vol. II. O Purgatório. Editorial Minotauro,
Lisboa 1961. (pág.119-120).
Dante Alighieri (1265-1321), La Commedia,
Purgatorio Canto Undecimo, vs. 100-102.
“Non el mondan romor altro chû fiato
di vêto ch’or viê quinci et hor viê quidi
& mutta nome perche mutta lato”
** Marcel Mouloudji (1922-1994), Un Jour tu
verras Canção com musica de Georges-eugene Van Parys (1902-1971). Disco Philips
microsillon 45 rpm faixa n,º 3, 1954.

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