sexta-feira, 24 de julho de 2026

Poema

 

Reencontro ao acaso

 


Paul Klee (1879-1940), Amantes 1920. guache e grafite s/ papel 25,1 x 41,3 cm. Metropolitan Museum of Art NY

 

“O rumor do mundo não é mais que um sopro

de vento, que ora aqui, ora ali passa,

e ao mudar de lugar muda de nome”. Dante *

"Un jour, tu verras, on se rencontrera,
Quelque part, n'importe où, guidés par le hasard (…) » Mouloudji **

 

na cornija da vetusta casa antiga

espiam-me seráficas alvas figuras

recordando a antiga perdida lenda

génese das enigmáticas criaturas

 

Eu era o Vagabundo, o Deserdado...
de pés descalços cabelos no vento!

na cega janela do marmóreo salão

angustiado em esquecido tormento

 

No efeito ruidoso e inquieto agitado

nesses acasos escritos em palácios

para ansiar o momento atormentado

encontrar um velho desejo ampliado

 

mas o casual inesperado reencontro

com seu súbito transvase de alegria

essa amorosa consonância desejada

e transformada em renovada euforia

 

uma desavença recriada em nostalgia

como sonhos imersos em patina rubra

apenas fantasmas criados por poetas

em vastidão cega titubeante e obscura


as mimeses desse imenso reencontro

utopias imaginadas em que me tropeço

as vozes emanando e ecos de mentira

a forma com que sempre me despeço

 

Mas a dor profunda exausta vacilante

bússola quebrada dando loucos sinais

mudaria de repente o mágico instante

em penetrantes silêncios e nada mais!

 

* Sophia de Mello Breyner Andersen tradução de Dante Alighieri, A Divina Comédia. Vol. II. O Purgatório. Editorial Minotauro, Lisboa 1961. (pág.119-120).

Dante Alighieri (1265-1321), La Commedia, Purgatorio Canto Undecimo, vs. 100-102.

“Non el mondan romor altro chû fiato

di vêto ch’or viê quinci et hor viê quidi

& mutta nome perche mutta lato”

** Marcel Mouloudji (1922-1994), Un Jour tu verras Canção com musica de Georges-eugene Van Parys (1902-1971). Disco Philips microsillon 45 rpm faixa n,º 3, 1954.

 

 

 

Sem comentários:

Enviar um comentário