Fontes de Energia no Porto dos anos vinte
1.3. uma divagação pela iluminação a petróleo na pintura
Nos anos vinte do século passado, beneficiando dos produtos petrolíferos pela
rápida difusão do motor de combustão, em particular pelos veículos motorizados,
o petróleo tornou-se mais uma fonte de energia das cidades.
Figura
1- Anúncio da Vacuum Oil Company in Ilustração
Ano 1, n.º11 de 1 de Junho de 1926.
O petróleo usado na iluminação pública
Contudo
na cidade do Porto para a iluminação pública, aos óleos de origem animal e ao
azeite, rapidamente sucedeu o gás e a este a electricidade, e assim o petróleo
foi usado sobretudo para a iluminação doméstica.
“Não obstante, deixei-me ficar a conversar com um amigo, para poder comparar as noites da Foz com as de Mattosinhos.
Havia mais luz. e melhor, porque é de gaz, tanto nas ruas, como nos
estabelecimentos, que são numerosíssimos, porta sim, porta não.” [2]
Figura 2 - Mario Sironi
(1885-1961), Il viandante c.1930. tinta, aguarela e pincel s/papel, 32.5 x 22.3
cm. Col. particular.
A nova noção do conforto no interior
Para
concretizar esta nova ideia de conforto - para os que possuíam os meios para o
fazer - o interior das casas vai-se alterando. Um novo sistema de aquecimento
para além do velho fogão de sala; a distribuição a domicílio de água, permitindo
a instalação de casas de banho, de lavandarias e de água na cozinha.
A
iluminação que ao uso ancestral das velas e lamparinas de azeite, utiliza o
candeeiro a petróleo enquanto se difunde o uso da electricidade.
Nas
casas e nos escritórios banaliza-se o telefone, e a máquina de costura.
A
influência dos conceitos higienistas, obriga à procura da organização da casa e
a uma diferente distribuição dos espaços, a uma maior insolação e ventilação
que se irá reflectir, quer na implantação quer nas dimensões e desenho das janelas
e claraboias, quer no aparecimento dos saguões e terraços.
o candeeiro de petróleo
“A luz eletrica invadiu já a cidade com a
sua luz pálida e romântica, como um meigo luar de balada. Pois pelos Mercadores
e Codeçal ainda, em noites festivas de aniversários, o azeite alimenta a
torcida no candieiro de três bicos, de cobre polido, que era o luxo discreto e
sóbrio da velha e honrada casa portuguesa.” [6]
Firmino Pereira, reproduz Pimentel lembrando o candeeiro
de três bicos como “luxo discreto e
sóbrio”:
“…o azeite alimenta a torcida no candieiro de três bicos, de cobre polido, que era o luxo discreto e sóbrio da velha e honrada casa portuguesa.” [7]
E Alberto Pimentel regressa à velha candeia de azeite para estabelecer a diferença entre a casa urbana e a periférica, e no interior o espaço dos patrões e o dos empregados.
“Mas eu desejo especialmente falar da candeia de azeite, d'essa singela
e antiga lâmpada domestica, de ferro ou de lata, que é ainda hoje nas províncias
septentrionaes o único systema de iluminação adoptado em todos os lares
humildes e pobres.
O petróleo, que veio fazer concorrência ao azeite, já o substitue nos
casaes saloios dos arredores de Lisboa, alimentando as candeias; mas no Norte
do paiz é ainda e sempre o azeite que serve para accender a candeia aldeã, que
se fixa no «velador».
Bons tempos aquelles em que o candieiro de latão, com trez bicos,
allumiava os patrões na sala, e a candeia de ferro os criados na cozinha.” [8]
A Lanterna
Porém o calor guarda.
Não poderão os ventos
opressivos
Apagar tua luz;
Nem teu calor, disperso, irá
ser frio
No inútil infinito.”
Ricardo
Reis [9]
Em meados do século XIX surgem os candeeiros portáteis
(lanternas) muito usados nos caminhos de ferro, nas viaturas hipomoveis e nos
primeiros automóveis, na navegação e nas minas.
Figura 4 – Lanterna de petróleo. 36 x 19 cm. Museu de Aveiro.
No quadro de James Ensor a figura do Lampista, com uma lanterna e sobre a mesa um candeeiro de petróleo.
Figura 5 - James Ensor (1860-1949), Le Lampiste 1880. Óleo s/tela 151,5 x 81 cm. Musées Royaux des Beaux-Arts de Belgique
Os mineiros com as suas lanternas de petrróleo para
iluminar a constante escuridão das galerias da mina.
Figura 6 - Constantin Meunier (1831-1905), Descida dos mineiros ao poço da mina.(La
Descente des mineurs dans la bure) 1882. Óleo s/tela 116 x 159 cm. Col.
particular.
à luz da chama tremente do petróleo
“…. Subiu
a um quarto que viu
à luz do petróleo…”
José Galhardo Fado
Malhoa
Figura 7 - José Malhoa (1855-1933), O Fado 1910. Óleo s/tela 150 x 183 cm. Museu da Cidade de Lisboa.
De facto, é na iluminação doméstica, que o petróleo foi (e ainda é…) usado, enquanto não surgiu a energia eléctrica e mesmo quando esta, por
qualquer motivo, falhava.
Figura 8 – O mais simples e mais difundido candeeiro a
petróleo.
O doméstico candeeiro de petróleo surge na pintura e faz parte da decoração do
interior doméstico da casa burguesa.
Figura 9 - Aizik Feder, dito Adolphe Feder (1886-1943). Natureza
morta (antes de1939). Wikipédia
Figura 10 - Harold Gilman (1876-1919), Natureza morta, óleo s/tela estendida sobre madeira 25,5 x 29 cm. Col. particular.
Figura 11 - John Singer Sargent (1856-1925) Le verre de porto (A Dinner Table at Night) Albert and Edith Vickers 1884. Óleo s/tela 51,1 x 68,8 cm. Fine Arts Museum of San Francisco.
O Candeeiro Carcel desenvolveu-se
com novos desenhos.
Figura 12 - Candeeiro Carcel Klagmann 1848, Magnufacture de Sèvres.
Figura 13 - Candeeiros Carcel séc. XIX.
A luminação a petróleo estende-se ainda aos estabelecimentos comerciais.
Figura 14 - Charles Mertens (1865-1919), Cabaret 1890. Óleo s/tela 78.3 x 99.3 cm. Royal Museum of Fine Arts, Antwerp.
Alberto
Pimentel faz uma descrição de um café desses tempos.
“O café era mobilado por bancos e mesas de pinho. As duas portas das trazeiras tinham vidraças, que já nem mesmo nos dias claros deixavam entrar mais do que uma luz duvidosa, do que uma claridade de dia invernoso, tal era a espêssa capa de annosa immundicie, que o tempo e as exhalações de toda a especie tinham ido accumulando sobre ellas. De noute era alumiado por um candeeiro de latão de quatro bicos, suspenso do tecto. A mais de tres quartas partes do comprimento da salêta havia um balcão de pinho coberto de manchas de toda a qualidade, inclusivè sangue; e por traz d'elle estava sempre magestosamente sentado n'uma poltrona do seculo XVI, já quasi sem vestigios archeologicos, ou de pé, mão sobre um copo de quartilho, e a outra enfiada na algibeira, o snr. Antonio Porto, vulgo o Pepino, respeitavel proprietario do estabelecimento”. [11]
E Eça de Queiroz, também em Os Maias, faz uma outra referência ao candeeiro de petróleo no interior de um estabelecimento de bebidas:
“Entraram
n’uma pequena venda, onde a mancha amarella d’um candieiro de petroleo
destacava n’uma penumbra de subterraneo, allumiando o zinco humido do
balcão, garrafas nas prateleiras, e o vulto triste da patroa com um lenço
amarrado nos queixos. [12]
Figura 15
Mas é Fernando Pessoa que melhor reflecte sobre a iluminação a petróleo, cuja luz faz meditar sobre a vida:
“Em tôrno ao candeeiro desolado
Cujo petróleo me alumia a vida,
Paira uma borboleta, por mandado
Da sua inconsistência indefinida...”
Fernando
Pessoa [13]
Figura 16 - Christian Clausen (1862-1911), interior com um
homem sentado à luz de candeeiro a petróleo. 1866. Óleo s/tela estendida sobre
painel. 37 x 26 c. Col. Particular.
“Que fazes, camarada, da janela com luz?
Sonho, falta de sono, vida?
Tom amarelo cheio da tua janela
incógnita...
Tem graça: não tens luz eléctrica.
Ó candeeiros de petróleo da minha
infância perdida!”
Fernando Pessoa Álvaro de Campos [14]
Figura 17 – ?? Pinterest
I poeti lavorano di notte [15]
Sur le vide papier que la blancheur
défend » [16]
Figura 18 - Fritz Kraul (1862-1935), retrato de Laurids
Jonsen.(1850-1920) 1884. Óleo s/tela 42 x 32 cm.
Col. particular. Wikipédia.
Figura 19 - Henri de Smeth (1865-1940), The Attic Room 1888.óleo s/tela 46 x 56 cm. Col. Particular.
Figura 20 - Édouard-Antoine Marsal (1845-1929),
Alfred Bruyas [17] dans son
cabinet de travail 1876. Óleo s/tela 61 x 48 cm. Musée Fabre Montpellier.
Figura 21 - Adriano Sousa Lopes (1879-1944), atelier do pintor. óleo s/tela 81 x 54,5 cm. Museu Nacional de Arte Contemporânea – Museu do Chiado.
A intimidade pelo candeeiro de petróleo
Para
dos que se sentam em volta de uma mesa o candeeiro pousado no centro da mesa cria
um cone de luz, um círculo um abrigo de intimidade, “o candeeiro com o seu canto leve, doce como se ouve nos búzios. Ele
estende as suas mãos que apaziguam.” [18]
Figura 22 - Edouard Vuillard (1868-1940), Les Amis autour de la table,
Saint-Jacut 1909. gouache à la colle sur papier marouflé sur toile 96,5 x
135,0 cm. Musée d’Orsay Paris.
E para melhor criar esse efeito, são ainda utilizados os candeeiros suspensos reunindo as famílias burguesas ou as desfavorecidas.
Figura 23 - Claude Monet
(1840-1926) Le Diner 1869 óleo s/ tela 50 x 65 cm.
Foundation E. G. Bührle Zurich.
Figura 24 - Ernest Duez (1843-1896), Autour de la lampe
c.1882. óleo s/tela 150,5 x 175 cm. RMN-Grand
Palais (Musée d’Orsay) / Adrien Didierjean
Figura 25
O candeeiro suspenso reúne também famílias dos
mais desfavorecidos como lembra Van Gogh no seu conhecido quadro Os Comedores
de Batatas,
Figura 26 - Vincent van
Gogh, Os comedores de batatas 1885. Óleo s/tela 82 cm × 114 cm.
Museu Van Gogh Amesterdão.
Figura 27 - Edouard Léon Cortès (1882 - 1969) a
família bretã óleo s/tela 48.3 × 61cm. Col.
particular.
Eça de Queiroz refere
as reuniões em volta mesa.
“Aos domingos à noite havia em casa de Jorge uma
pequena reunião, uma cavaqueira, na sala, em redor do velho candeeiro de
porcelana cor de rosa. Vinham apenas os íntimos.” [19]
Figura 28 – Willard Metcalf (1858-1925), The ten cent
breakfast (pequeno almoço de dez cêntimos) 1887 óleo s/tela 37,5 x 54,6 cm. Denver Art Museum.
Figura 29 - Viggo Johansen
(1851-1936) Um encontro de artistas (Malerne mødes)1903 óleo sobre tela 148
x 222 cm. Nationalmuseum Estocolmo.
Figura 30 - Charles-Édouard Boutibonne (1816-1897), Ladies playing Billiards 1869. Óleo s/painel 64,7 x 52 cm. Col. particular.
Ou em encontros privados ou íntimos de apenas duas
pessoas.
Figura 31 - Elin
Danielson-Gambogi (1861-1919) Winter Night (1898/99),
óleo s/tela 69 x 49 cm. Col. particular
Wikimédia.
Figura 32 - Columbano duas figuras 1887 Grafite sobre papel
17,3 × 21,5 cm. MNAC-Chiado.
Sironi pinta uma personagem junto ao candeeiro
suspenso que a presença do gato e a paisagem fabril que se antevê pela janela
evocam a sua solidão.
Figura 33 - Mario Sironi (1885-1961). Homem, candeeiro e gato. 1920-25. Óleo s/painel 67 x 49 cm. Blog de Pavel Otdelnov A substância da existência.
A publicidade do petróleo e do candeeiro é
ilustrada pelos cartazes de Jules Chéret, o conhecido publicista da transição
entre os séculos XIX e XX, a chamada Belle
Époque.
Figura 34 - Jules Chéret (1836-1932), Affiche: Saxoléine 1895. Wikimedia Commons.
O petróleo na cozinha e no aquecimento
No
Porto no interior das casas, enquanto na cozinha se mantém (e se manterá por
largos anos), o uso do fogão a lenha, surge, nestes anos vinte, o fogareiro a
petróleo, que rapidamente se democratiza e generaliza, sendo pelo menos, até
meados do século XX, instrumento ou aparelho indispensável para cozinhar quer
na habitação burguesa quer nas casas das “ilhas” onde nem cozinha havia.
Figura 36 - Fogareiro a petróleo anos vinte.
Nos
anos vinte, surge em jornais e revistas, a publicidade ao fogão Vacuum a
petróleo (de preferência Sunflowwer, cujo nome diz tudo…) da Vacum Oil Company
(mais tarde a Mobiloil).
Figura 37 - Anúncio de Março de 1927, Na legenda:
"Enquanto o Diabo Esfrega um Olho...Um Fogão da Vacuum, ferve um litro de
água". "Este Fogão pode preparar uma refeição em duas horas,
consumindo apenas meio litro de petróleo". "Use Exclusivamente
Petróleo Sunflower para obter mais rendimento". "Vacuum Oil
Company".
Figura 38 - Publicidade ao calorífero da Vacuum, Revista
ABC 1929.
E para o aquecimento da casa, para além do tradicional fogão de sala, surge o calorífero a petróleo permitindo outra mobilidade e economia.
A Vacuum Oil produz e publicita o
calorífero a petróleo.
Figura 39 – publicidade ao calorífero da Vacuum. Ilustração Portuguesa 12 de Abril
1924. (pág. 33).
Figura 40– publicidade aos caloríferos Vacuum.
Na pintura, numa tela onde Carlos Reis pinta o seu atelier, surge um
calorífero a petróleo aos pés da modelo.
Figura 41 - Carlos (António Rodrigues dos) Reis (1863-
1940). Tarde no atelier Óleo s/tela. Sede do Banco Internacional de Crédito.
[1]
Alberto
Pimentel (1849-1925), Atravez do Passado. Guillard Aillaud, e Cia.
Lisboa 1888. (pág. 50).
[2]
Idem.
[3]
Alberto
Pimentel, (1849-1925), Chronicas de Viagem. typographia. e lytographia a vapor
de Eduardo da Motta Ribeiro. Porto 1888. (pág.67).
[4] Cruz e Sousa (1861-1898). Umbra in Missal Brazil-Sul. M a g a l h ã e s & Ca. E d i t o r e s 3 e 5 Rua da Quitanda. 3 e 5. Livraria Moderna Rio de Janeiro 1893. (pág. 149 e 150).
[5] ver
neste blogue A “Exposition
Internationale des Arts Décoratifs et Industriels Modernes” Paris 1925 1.
[6]
Alberto
Pimentel (1849-1925), O Porto d’outros tempos. Notas históricas – Memórias –
Recordações. Livraria Chardron de Lello & Irmão Porto 1914. (pág. 58 e 59).
[7] Firmino Pereira O Porto d’outros tempos. Notas Historicas, Memorias, Recordações. Livraria Chardron, de Lello & Irmão. Porto 1914. (pág. 59).
[8]
Alberto
Pimentel (1849-1925), Espelho de Portuguezes Vol. I Parceria Antonio Maria
Pereira (Livraria Editora) Lisboa 1901. (pág.50 e 51).
[9] Ricardo Reis Poema n.º 140 de 3-3-1929. In Poemas de Ricardo Reis. Fernando Pessoa. Edição Crítica de Luiz Fagundes Duarte. (1994). Imprensa Nacional - Casa da Moeda, Lisboa: 2015. (pág. 104).
[10] Eça de Queiroz, Os Maias, Episodios
da Vida Romantica. Vol. I Cap. V. Livraria Internacional de Ernesto Chardron,
Porto 1888. (pág. 150).
[11] Alberto Pimentel, o Porto há trinta anos. Livraria Universal de Magalhães & Moniz, editores. Porto 1893. (pág. 218).
[12] Eça de
Queiroz, Os Maias. Episodios da Vida Romantica. Vol. I Cap. VI. Livraria
Internacional de Ernesto Chardron, Porto 1888. (pág. 238).
[13] Fernando Pessoa 1-9-1928 in Poemas inéditos in Fernando Pessoa Obra Poética. Companhia Aguilar editora Rio de Janeiro 1965. (pág. 514)
[14] Álvaro
de Campos Acordo de noite, muito de noite, no silêncio todo 25-11-1931. Livro
de Versos. Fernando Pessoa. (Edição crítica. Introdução, transcrição,
organização e notas de Teresa Rita Lopes.) Lisboa: Estampa, 1993.
[15] Alda
Merini (1931-2009), I poeti lavorano di notte in Il suono dell’ombra,
Mondadori, Milano 2010.
[16] Stephane Mallarmé (1842 – 1898), Brises
marines de Poèmes d’enfance et de jeunesse 1858-1863. In Œuvres Complètes de
Stephane Mallarmé, Bibliothèque de La Pleiade n.º 65. Librairie
Gallimard. Paris 1951. (pag.38).
[17]
Alfred
Bruyas conhecido galerista cujo verdadeiro nome era Jacques Louis
Bruyas (1821-1877).
[18] Léon-Paul Fargue (1876 - 1947) Une odeur nocturne, indéfinissable in Poèmes, éditions de la Nouvelle Revue Française Marcel Rivière & Cie Paris 1912 (pág.90). « La lampe fait son chant léger, doux comme on l’entend dans les coquillages. Elle étend ses mains qui apaisent. »
[19]
Eça de Queiroz, O Primo Bazilio (Episódio Doméstico). 2ª edição Livraria
Internacional de Ernesto Chardron Porto e braga 1878. (pág. 39).
[20] Léon-Paul
Fargue (1876 - 1947) Une odeur nocturne, indéfinissable in Poèmes, éditions de
la Nouvelle Revue Française Marcel Rivière & Cie Paris 1912 (pág.90). “Une odeur nocturne, indéfinissable et qui
m’apporte un doute obscur, exquis et tendre, entre par la fenêtre ouverte dans
la chambre où je travaille… Mon chat guette la nuit, tout droit, comme une cruche.
Un trésor au regard subtil me surveille par ses yeux verts… »









































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