terça-feira, 25 de janeiro de 2022

Apontamentos sobre a Lisboa e Sevilha nos séculos XVI e XVII (10) 6ª parte

 


Apontamento 10 - Descrição de Sevilha a partir da imagem de Braun e Hogenberg 1588

 Sevilha extramuros (continuação)

Para além de Triana, Sevilha estendia-se para fora das muralhas.

Faremos um percurso através da Vista de Sevilha do Civitates, contornado a muralha no sentido contrário aos ponteiros do relógio, desde a Torre del Oro até ao mosteiro de las Cuevas.

fig. 1 - Sevilha 1588 no Civitates Orbis Terrarum de Georg Braun (1542-1622) e Franz Hogenberg(1535-1590).

Cap. 26

 Na zona extramuros a sul, entre a Torre del Oro (36) e a Porta de Carmona (33), está figurada a componente fluvial de Sevilha e um caminho sinuoso (A) que liga diversos equipamentos, mosteiros e arrabaldes até San Bernardo (H). 

fig. 2 - Arrabalde sul (legendado). Pormenor de Sevilha 1588 no Civitates Orbis Terrarum de Georg Braun (1542-1622) e Franz Hogenberg(1535-1590).

De facto, na imagem, a cidade está rodeada pelo Guadalquivir, pelo seu afluente o rio Tagarete, correndo junto à muralha e atravessado por duas pequenas pontes, uma pequena ponte (alcantarilla) (B) junto à Porta de Xerez (35) e outra (C) junto à Torre del Oro (36). E aparece representado por um pequeno tramo na extremidade direita da imagem o outro afluente o Tamarguillo (D).

fig. 3Pormenor de Sevilha 1588 no Civitates Orbis Terrarum de Georg Braun (1542-1622) e Franz Hogenberg(1535-1590).

(35) Porta de Xerez

Como já se afirmou no Apontamento 8, segundo Rodrigo Caro, na sua  Antiguedades y Principiado de la Ilustrissima Ciudad de Sevilla, publicada já em 1634, na porta de Xerez “en una tabla de marmol blanco se vem estas letras.”

“Hercules me edificò

Iulio Cesar me cercò

De muros y torres altas,

Y el Rey Santo me ganò

Com Garcia Perez de Vargas.”  [1]

[nota - O Rei Santo era Fernando III (1201-1252) que conquistou a cidade aos mouros. E Garcia Pérez de Vargas foi um dos 24 cavaleiros que acompanhou Fernando III na sua campanha da Reconquista em Andaluzia.] 

Sevilha, fundada por Hércules e povoada por Júlio César, já era cantada por Alfonso Villasandino no século XIV.

Hércoles que hedificó

La cibdat muy poderosa,

Su alma ssea gozossa

Que tal cibdat ordenó.

Por Sevilla demostró

En su muy alto ssaber

Que se avie de noblezer

Por Julio que la pobló.

Con ssaber é poderío

Estos dos la ordenaron,

E los que en ella poblaron

Fué proeza é muy grant brío,

Vigío é prez é amoryo,

Lealtanca é lindo amor:

Syenpre byve syn pavor

Bryberas del su grant rryo.” [2]

 

O Arrabalde de São Bernardo

Na parte superior direita da imagem, o Arrabalde de São Bernardo com os campos e as povoações que pertenciam aos Condes de Olivares. Está desenhado o Mosteiro de Santo Telmo (E), e ainda um conjunto de edifícios funcionais que, embora perto da cidade, não era conveniente estarem no seu interior.

(E) O mosteiro de Santelmo

fig. 4 - Pormenor de Sevilha 1588 no Civitates Orbis Terrarum de Georg Braun (1542-1622) e Franz Hogenberg (1535-1590).

 fig. 5 – Santelmo. Pormenor de Sevilha 1588 no Civitates Orbis Terrarum de Georg Braun (1542-1622) e Franz Hogenberg (1535-1590).

Rodrigo Caro ao descrever as campanhas de Cesar refere “en aquella parte del rio, que ay desde laTorre del oro por el rio abaxo, donde oy estan edificadas algunas casas que llaman S. Telmo;”  [3]

Santelmo refere-se ao dominicano Pedro Gonçalves Telmo (Pedro González Telmo) (c.1190-1246), que acompanhou Fernando III (1201-1252) na conquista de Cordova e Sevilha. Foi nomeado prior do Convento de Guimarães. É o santo padroeiro dos homens do mar e dos barqueiros.

Em 1569, com estatutos aprovados por Felipe II foi criada a Universidade dos Mareantes.  Em 1682, foi iniciada a construção do palácio de Santelmo. 

 

(11) El Quemadero. O Crematório da Inquisição. 

fig. 6 – Crematório. Pormenor de Sevilha 1588 no Civitates Orbis Terrarum de Georg Braun (1542-1622) e Franz Hogenberg (1535-1590).

O Quemadero de San Diego, assim chamado pela proximidade do convento franciscano, era onde se realizavam os autos de fé, queimando os que a Inquisição declarava hereges. Iniciou a sua actividade em 1481.


[1] Rodrigo Caro, Antiguedades y Principiado de la Ilustrissima Ciudad de Sevilla. Y Chorographia de su Convento Iuridico, o antigua Chancilleria. En Sevilla, por Andres grande. Impressor de Libros. Sevilla Año 1634. (pág. 6).

[2] Alfonso Alvares de Villasandino (c.1345- c. 1424) in antologia de poetas líricos castelhanos, ordenada por D. Marcelino Menendez Pelayo [1856-1912] Madrid 1890. (pág. 94).

[3] Rodrigo Caro (1573-1647), Antiguedades y Principiado de la Ilustrissima Ciudad de Sevilla. Y Chorographia de su Convento Iuridico, o antigua Chancilleria. En Sevilla, por Andres grande. Impressor de Libros. Sevilla Año 1634. (Libro primero, pág. 31 e 31v.)


Cap. 27

Vista de Sevilha Execution de Justitia de los cornudos patientes

 No volume V do Civitates surge uma curiosa Vista de Sevilla de Joris Hoefnagel (1542-1600), também denominada Execution de Justitia de los cornudos patientes. 

fig. 7 – Joris Hoefnagel (1542-1600). Vista de Sevilha no Civitates orbis terrarum de Georg Braun y Frans Hogemberg. Vol. V 1598.

 Na parte superior SEVILLA, com “Qui non há visto - non há visto maravilla” e ainda HISPALIS.

fig. 8 – Pormenor de Joris Hoefnagel (1542-1600). Vista de Sevilha no Civitates orbis terrarum de Georg Braun y Frans Hogemberg. Vol. V 1598.

Sevilha é vista ao longe, de sudeste, a partir do arrabalde de São Bernardo.

Na margem inferior: “D. NICOLAO MALEPART AMICO VETERI ET CONGERRONI HISPALENSI LEPIDISSIMO GEORGIVS HOVFNAGLIVS AMICITIE, MONVMENTVM D. ANNO M D XCIII. FRANCOF. AD MOENVM”

Em cada canto os pontos cardeais.

No canto superior esquerdo, correspondendo a Occidens, o Quemadero assinalado com a letra A (realçada a vermelho). 

fig. 9 - Pormenor de Joris Hoefnagel (1542-1600). Vista de Sevilha no Civitates orbis terrarum de Georg Braun y Frans Hogemberg. Vol. V 1598.

Estão ainda legendados neste pormenor da imagem

B – Nuestra Signora de abondanza   C - St. Elmo. CC Rio Tagarette  D- Fuente de Calderon  E - Rio guadalquivir.  F – S.t Juan del foratcc  G – Torre del oro  H - El Real Alcaçer casi Real  KK - quartos  (cc) - El arroyo Tagaret


Execution de Justitia de los cornudos patientes. 

fig. 10 – O cortejo do cornudo. Pormenor de Joris Hoefnagel (1542-1600). Vista de Sevilha no Civitates orbis terrarum de Georg Braun y Frans Hogemberg. Vol. V 1598.

 A imagem procura ilustrar o castigo, a que estava condenada a mulher adúltera e o marido que a tal consentiam, submetidos à humilhação de publicamente se dirigir às instalações do Santo Ofício no meio do escárnio público.

Assim a figura central da imagem é um homem cavalgando um muar, de mãos atadas e com umas enormes hastes encimadas por bandeirinhas e campainhas.

À sua frente montada também sobre um burro a mulher adúltera, nua da cintura para cima, rodeada de moscas já que os populares vão-lhe lançando lama e excrementos.

Ao lado do “cornudo patiente” cavalga uma mulher com a cabeça tapada por uma touca e pelos próprios cabelos fustigando-o com um feixe cheio de espinhos.

Segue-se o pregoeiro, identificado pela sua trombeta e que também fustiga o cornudo. E finalmente a autoridade, um cavaleiro com uma vara, possivelmente um vereador.

Cap. 28

(34) Puerta de la Carne. El Matadero (10).

 

fig. 11 – Porta da Carne e Matadouro. Pormenor de Sevilha 1588 no Civitates Orbis Terrarum de Georg Braun (1542-1622) e Franz Hogenberg (1535-1590).

 

(34) Puerta de la Carne

Alonso Morgado refere, entre as portas de Sevilha, La de la Carne, porque entra por ella toda la carne del Matadero para las Carnecerias de Sevilla, llamada assi por esta causa, por la misma razón que el repartimienta la nombra de luderia, porq se entrava y se entra tambien agora por ella primero, y forçosamente a las Collaciones de Sancta Cruz y de San Bartholome, que fueron Iuderia antiguamente.” [1] 

E Diego de Zuñiga, indica uma inscrição em latim, na Puerta de la Carne, que o autor dos Annales traduz por: “O fausto y feliz suceda: el varon clarísimo Don Francisco Zapata, Conde ilustrísimo, Asistente de Sevilla, cuidó de restaurar á mejor forma la puerta de la Carne, arruinada de la antigüedad en el año de 1577.” [2]

[Francisco Zapata y Cisneros (1520-1594), 1º Conde de Barajas em 1572 e Assistente de Sevilha entre 1573 e 1579.]

Miguel de Cervantes no Coloquio de Perros das Novelas Ejemplares, a sua personagem Berganza também refere, de passagem, o Matadero e a Puerta de la Carne.

“Berg. Paréceme q la primera vez q vi el Sol, fue en Sevilla, y en su matadero, q está fuera de la puerta de la carne;” [3]

(10) El Mattadero. O Matadouro.

 Um pouco mais acima o Matadero (10) (Matadouro), obviamente junto à Porta da Carne (34).

No Matadero matavam-se bois, cordeiros e outros animais cuja carne era depois distribuída pela porta da Carne para consumo dos sevilhanos, das populações dos arredores e para abastecimento das naus.

fig. 12 – Matadouro. Pormenor de Sevilha 1588 no Civitates Orbis Terrarum de Georg Braun (1542-1622) e Franz Hogenberg (1535-1590).

 

Afirma Alonso Morgado: “Y por aquella misma parte del Mediodía, fuera de la ciudad a la Puerta de la Carne está el Matadero en forma de gran Caseria con sus Corrales, y Naves, y todas pertenencias. Y unos Miradores que descubren una buena Plaça, donde se corren, y alancean Toros de verano ordinariamente.” [4]

 

Na vista de Hoefnagel o Matadero, assinalado com a letra K, ocupa uma posição central.

 

fig. 13 – O Matadero (K). Pormenor de Joris Hoefnagel (1542-1600). Vista de Sevilha no Civitates orbis terrarum de Georg Braun y Frans Hogemberg. Vol. V 1598. 

Junto ao edifício do Matadero eram corridos os touros, acirrados por cães, como mostra a imagem.


[1] Alonso Morgado, Historia de Sevilla en la cual se contienen sus antigüedades, grandezas y cosas memorables en ella acontecidas desde su fundación hasta nuestros tiempos, Compuesta y ordenada por Afonso Morgado, indigno Sacerdote, natural de la villa de Alcantara, en Estremadura. En la Imprenta de Andrea Perscioni y Ioan de Leon Sevilla 1587. (libro segundo pág.133).

[2] Diego de Ortiz de Zuñiga, Annales eclesiasticos, y seculares de la muy noble, y muy leal civdad de Seuilla, metropoli de la Andaluzia. Que contiene sus mas principales memorias desde el año de 1246. En Madrid: en la Imprenta Real, por Iuan García Infançon. Acosta de Florian Anisson, Mercader de Libros. Madrid 1677. (libro XVII pág. 329).

[3] Miguel de Cervantes, Coloquio que pasó entre Cipión y Berganza perros del hospital de la Resurrecion, que està en la Ciudad de Valladolid, fuera de la Puerta del Campo, à quien comunmente llaman los perros de Mahudes. Novelas Ejemplares En Madrid, Por Iuan de la Cuesta Año 1613. BNE.

[4] Alonso Morgado, Historia de Sevilla en la cual se contienen sus antigüedades, grandezas y cosas memorables en ella acontecidas desde su fundación hasta nuestros tiempos, Compuesta y ordenada por Afonso Morgado, indigno Sacerdote, natural de la villa de Alcantara, en Estremadura. En la Imprenta de Andrea Perscioni y Ioan de Leon Sevilla 1587. (libro segundo pág.159).


Cap. 29

A Forca e o Moinho de vento

Um pouco mais acima na imagem encontra-se uma forca, assinalada com a letra (F).

 fig. 14 – A Forca. Pormenor de Sevilha 1588 no Civitates Orbis Terrarum de Georg Braun (1542-1622) e Franz Hogenberg (1535-1590).

 Talvez o mais famoso enforcamento em Sevilha terá sido o do poeta Alonso Álvarez de Soria (1573-1603), em 1603, que foi condenado à forca por Bernardino González Delgadillo y Avellaneda (1544-1629), presidente da Casa da Contratação e então Assistente de Sevilha, o qual tinha sido ridicularizado e humilhado em versos de Alonso Soria.

O poeta Juan de la Cueva (1543-1612), pediu pela vida do sentenciado num poema A don Bernardino de Avellaneda, asistente de Sevilla, queriendo ahorcar a Alonso Álvarez de Soria”:

“No des al febeo Alvarez la muerte,

Oh gran don Bernardino, así te veas

Conseguir todo aquello que desea

En aumento y mejora de tu suerte.

El cruel odio en piedad convierte,

Qu’en usar del tu calidad afeas:

Cierra el oído, ciérrale, no creas

Al vano adulador que te divierte.

De ese que tienes preso, el dios Apolo

Es su juez, no sufraganeo tuyo:

Ponlo en libertad, dalo a su foro

Que de hacelo así, de polo a polo

Irá tu insigne nombre, y en el suyo

Hispalis te pondrá una estatua de oro.” [1]

 

fig. 15 – Forca. Pormenor de Sevilha 1588 no Civitates Orbis Terrarum de Georg Braun (1542-1622) e Franz Hogenberg (1535-1590).

O Moinho de vento (G) 


fig. 16 – Moínho de vento. Pormenor de Sevilha 1588 no Civitates Orbis Terrarum de Georg Braun (1542-1622) e Franz Hogenberg (1535-1590).


[1] Juan de la Cueva de Garoza (1543-16129, soneto A don Bernardino de Avellaneda, asistente de Sevilla, queriendo ahorcar a Alonso Álvarez de Soria”, in Ensayo de una Biblioteca Española de Libros Raros y Curiosos. Formado con los Apuntamientos de Don Bartolomé José Gallardo, coordinados y aumentados por D. M. R. Zarco del Valle y D. I. Sancho Rayon. Obra premiada por la Biblioteca Nacional en la junta publica del 5 de Enero de 1862. E Impresa à Expensas del Gobierno. Tomo Segundo. Imprenta y Estereotipia de M. Rivadeneyra. Madrid 1866. (pág. 679)

Cap. 30

(H) O arrabalde de São Bernardo (Sanbernardo) e as Hortas do Rei (Guerta del Rey)

O Arrabalde de São Bernardo, com os campos e as povoações, pertencia aos Condes de Olivares.

fig. 17 – San Bernardo e Hortas do Rei. Pormenor de Sevilha 1588 no Civitates Orbis Terrarum de Georg Braun (1542-1622) e Franz Hogenberg (1535-1590).

Zuñiga refere o mosteiro de São Domingos a Horta real e o arrabalde de São Bernardo.

“El Convento de Santo Domingo de Portaceli, extramutos de Sevilla, y segundo de su Religion en ella, junto a la huerta del Rey, y Arrabal de San bernardo, fue fundado, como dixe en el año de mil quatrocientos y cinquenta; es de buenos edifícios en Templo, y habitacion, y de numerosa Comunidad, de que há avido muchos hijos loables en todas las prendas de su estado.” [1] 

fig. 18 – San Bernardo. Pormenor de Sevilha 1588 no Civitates Orbis Terrarum de Georg Braun (1542-1622) e Franz Hogenberg (1535-1590).

 

As Hortas do rei (Guerta del Rei) (I)

Alonso Morgado também descreve o lugar:

“(…) que por aquella parte del Mediodía confina com Tablada, y huertas del Rey, ordeno el mismo Cabildo de treynta años a esta parte, que tambien alli uviesse outra Iglesia Parrochial com Titulo de San Bernardo. [2]

 

fig. 19Huertas del Rey. Pormenor de Sevilha 1588 no Civitates Orbis Terrarum de Georg Braun (1542-1622) e Franz Hogenberg (1535-1590).


[1] Diego de Ortiz de Zuñiga, Annales eclesiasticos, y seculares de la muy noble, y muy leal civdad de Seuilla, metropoli de la Andaluzia. Que contiene sus mas principales memorias desde el año de 1246. En Madrid: en la Imprenta Real, por Iuan García Infançon. Acosta de Florian Anisson, Mercader de Libros. Madrid 1677. (Libro XVII pág. 727).

[2] Alonso Morgado, Historia de Sevilla en la cual se contienen sus antigüedades, grandezas y cosas memorables en ella acontecidas desde su fundación hasta nuestros tiempos, Compuesta y ordenada por Afonso Morgado, indigno Sacerdote, natural de la villa de Alcantara, en Estremadura. En la Imprenta de Andrea Perscioni y Ioan de Leon Sevilla 1587 (libro quarto pág.110).

Cap. 31

Puerta de Carmona, Caños de Carmona (Aqueduto), Cruz (Ermida da Cruz de el Campo) e Casas del Duq de Alcala

(33) Porta de Carmona 

fig. 20 – Porta de Carmona. Pormenor de Sevilha 1588 no Civitates Orbis Terrarum de Georg Braun (1542-1622) e Franz Hogenberg (1535-1590).

A Porta de Carmona, era uma das portas principais de Sevilha já que por ela a cidade era abastecida de produtos agrícolas entre os quais se destacava o vinho.

Junto da Porta vê-se um depósito da água vinda de Alcalá de Guadaira pelos Canos de Carmona, e que daí era distribuída pela cidade. A Porta de Carmona será reconstruída e monumentalizada em 1578.

(9) Caños de Carmona (Aqueduto)

O Aqueduto chamado de Caños de Carmona, uma das principais construções, é destacado na imagem do Civitates, como sendo uma monumental estrutura de abastecimento de água à cidade de Sevilha.

 

fig. 21 - Caños de Carmona. Pormenor de Sevilha 1588 no Civitates Orbis Terrarum de Georg Braun (1542-1622) e Franz Hogenberg (1535-1590).

Na Vista de Sevilha, a partir da Porta de Carmona (33) o caminho que se dirige para essa povoação é acompanhado por um aqueduto. A norte do aqueduto o Mosteiro de Santo Agostinho e a ermida da Cruz.

(Hieronymus Monetarius) Jerónimo Münzer (1437-1508), um austríaco que viajou por Espanha e Portugal entre Setembro de 1494 e Fevereiro de1495, logo no início do seu texto dedicado a Sevilha, considera que a cidade vista da altísima torre de la catedral”, aparenta uma “forma casi circular”.

Depois de referir que “al pie de sus murallas, hacia el occidente, corre el Betis” Münzer destaca que “Hay en Sevilla mucha agua potable y un acueducto de trescientos noventa arcos, algunos duplicados por un cuerpo superior, para vencer el desnivel del terreno; va por este artificio gran cantidad de agua y presta muy buen servicio para el riego de jardines, limpieza de calles y viviendas, etc.” [1]

 

Em 1563, também o viajante e embaixador veneziano Andrea Navagero já se surpreendia pelo aqueduto que abastecia Sevilha.

“Da questa parte del rio, nella strada che va à Carmona, vi è un aqueduto, per il quale viene un’acqua da Carmona, i volti del aqueduto durano circa un miglio, o poco più fora di Sovilla, il resto del caminho da Carmona fin lì, vien l’acqua per canali, parte sotto terra, & alle volta di sopra, in capo gli archi verso Carmona si vede un pezzo di substruttion antiqua rovinata, per laqual si compreende che ancho antiqui conducevano quell’acqua.” [2]

[deste lado do rio, na estrada que vai para Carmona, existe um aqueduto, que traz a água de Carmona, água que vem em canais, em parte subterrâneos e por vezes por cima, e no final estão os antigos arcos por vezes arruinados, os quais nos fazem compreender, que também os antigos assim transportavam a água.]

 

E no texto que acompanha a estampa de Sevilha do Civitates Orbis Terrarum, de 1572 pode ler-se:

“Um dos mais belos adornos desta cidade é o gracioso aqueduto construído pelos mouros no passado com um incrível custo, em forma de abóbada, que, através de um canal feito à mão, percorre meia milha, abastecendo de água os habitantes, algo extraordinário de se ver. Deste aqueduto derivam várias fontes que atendem às necessidades da cidade. É maravilhoso ver como, por um caminho tão longo, ou seja, a seis quilômetros da cidade de Carmona, as águas das nascentes são canalizadas para o subsolo por essa conduta. Por isso os espanhóis chamam-na de Los Caños de Carmona.”

[“Vehementer Hispalensium civitatem commendat aquæductus insignis, à Mauris incredibilibus impensarum sumptibus opere fornicato cõstructus, qui excavato rivo to di midia miliaris spatio, incundam incolis aquationem præber, unde quam plurimi fontes ad civitatis necessitates derivantur. Mirabile dictu, quanto itinere, nimirum fex miliarium, per cæcos terre meatus à Carmona civitate, scaturientes fontes in hunc aquæductum, deducantur. Unde Los Cannos de Carmona Hispanis dicitur.”]

 

Alonso Morgado dedica um capítulo aos Caños de Carmona destacando que

“Muchos sumptuosos edificios labraron los Moros (…) Entre los quales se deve contar por demas vtilidad, y provecho en el particular, que se va prossiguiendo, el de los famosos Caños de Carmona, que los mismos Moros fabricaron a grandissima costa suya, pudiendo juntamente hazer notable mencion deste Insigne

Aqueducto, y referirle por señalada grandeza de Sevilla (…) tiene su Origen en la Villa de Carmona, siendo la verdad (segun yo he visto) lo que escrive Iuan de Malalara, de que entre las cosas, que tiene de notar la Villa de Alcala de Guadayra (distante como ya se dixo dos leguas de Sevilla) es la Fuente de los Caños, que llaman de Carmona, no porque vengan de Carmona, sino porque desde Torre Blanca (pequeña legua de Sevilla) vienen por el mismo camino, y calçada, que va a Carmona.” [3]

De facto, a água vinha de Alcalá de Guadaira pelos Caños de Carmona, o aqueduto elevado sobre numerosos arcos, de edificação árabe.

E Rodrigo Caro salienta que o aqueduto abastece de água as fontes da cidade:

“En toda la ciudad en común, se derivan de los caños de Carmona, y acueductos del Arzobispado tantas fuentes que casi no hay casa principal que las tenga, con muchos huertos y jardines: lo cual, con otros reparos, en el mas ardiente verano, junto con las suaues mareas que correden de ordinario, hazen la ciudad notablemente apacible, fresca y regalada.” [4]

E Rodrigo Caro prossegue:

“Mas aunque Sevilla dentro de si tenia agua bastance, no es creíble, que creciendo la ciudad en grandeza y policía de vezindad, y edificios, dexaise de tener otras fuentes derivadas por aqueductos de fuentes de la parte de ticria. Vemos oy el famoso aqueducto de los caños que llaman de Carmona, que teniendo su principio en la villa de Alcala de Guadaira dos leguas de Sevilla, (porque entra en ella por la puerta de Carmona) toma su nombre, siendo ingrato a la tierra que le dio principio, y ser. No se contentaron los que emprendieron esta gran hazaña con el agua, que espontaneamente las fuentes brotavan, sino que con trabajo Herculeo taladraron aquel gran cerro lleno de peñascos, y hizieron de sus escondidas venas, y mineros un rio artificial debaxo de la tierra, tan abundante, y impetuoso, que muelen con el seys molinos de pan, y caminando por varios rodeos; unas vezes por debaxo de tierra, y otras por cima, liega a una milla poco mas, o menos de Sevilla, a la parte Oriental, donde lo comiençan a recebir arcos de ladrillo, y canteria, hasta entrar en la ciudad por cima de las murallas, como que triunfa de tantas dificultades. [5]

E Alonso Morgado nota que:

“Tiene sus Acequias, que duran mas de legua y media. El Maestro Pedro de Medina en su libro de las grandezas de España dize, que viene mas de quatro léguas por baxo de tierra, por Minas hondas hechas a mano, y como llega quanto algo mas de una legua de la ciudad, parece el agua sobre la tierra, y de alli deciende haziendo una buelta casi en arco, donde ay muchos Molinos; que muelen cõ esta agua. Y luego torna su: corrida hazia la ciudad hasta la Cruz, que es un Humilladero de mucha devoción en el mismo caminho de Carmona, poco trecho antes de llegar a Sevilla.

Llegada pues el agua a la ciudad, y subiêdo por cima de la Puerta de Carmona, donde se haze su repartimiento, va desde alli mucha parte della por los Muros, que encaminan a la Puerta de la Carne hasta el Alcaçar Real.” [6]


Os Caños de Carmona na Vista de Sevilla de Joris Hoefnagel.

 fig. 22 - Pormenor de Joris Hoefnagel (1542-1600). Vista de Sevilha no Civitates orbis terrarum de Georg Braun y Frans Hogemberg. Vol. V 1598.

 Ainda na imagem está assinalada com a letra (M) - S.t Marcos, com a letra (N) - S.t Augustin e com a letra (Q) - S.ta Trinidad.


La Cruz (inscrito na imagem). Ermida da Cruz de el Campo.

A Cruz era um pequeno templo que marcava a aproximação à cidade pelo caminho que, acompanhando os Caños de Carmona, levava até à Porta do mesmo nome.

Segundo Diego de Zuñiga, terá sido erguido por ordem de Don Diego de Merlo (14??-1482), para assinalar aquele aqueduto que abastecia de água a cidade de Sevilha. Uma “pequeña ermita hay junto a la Cruz del Campo, único humilladero, pero muy celebre por su gran devocion y freqüencia, y por su fundador el famoso Asistente Diego de Merlo, como dixe en el año de 1482.” [7] 

Alonso Morgado assinala a sua localização.

“Y luego torna su corrída hazia la ciudad hasta la Cruz, que es un Humilladero de mucha devoción en el mismo caminho de Carmona, poco trecho antes de llegar a Sevilla.” [8]

fig. 23 – Mosteiro de Santo Agostinho e La Cruz. Pormenor de Sevilha 1588 no Civitates Orbis Terrarum de Georg Braun (1542-1622) e Franz Hogenberg (1535-1590).

 

A sua forma resulta de uma intervenção em 1520. E em 1571 foi erguida uma cruz em mármore com uma imagem da Virgem de um lado e do Crucificado do outro. Esta Cruz é atribuída a Juan Bautista Vásquez o Velho (1510 ou 1525-1588).

Para se ter uma ideia da Cruz e da sua relação com a cidade, socorremo-nos de uma pintura do século XIX, um quadro de Joaquin Bécquer. O quadro mostra o pequeno templo da Cruz do Campo, tendo ao fundo a cidade de Sevilha, numa tarde ensoleirada.

 

fig. 24 - Joaquin Dominguez Bécquer (1817-1879), La Cruz del Campo 1854, óleo s/tela 60 x 100 cm. Museo San Telmo.

 

 (3) Casas del Duq de Alcala

 Embora no interior da muralha, junto à Porta de Carmona, situavam-se as Casas do Duque de Alcalá.

fig. 25 - Pormenor de Sevilha 1588 no Civitates Orbis Terrarum de Georg Braun (1542-1622) e Franz Hogenberg (1535-1590).

 

De entre as propriedades dos duques de Alcalá sobressai o Palácio denominado Casa de Pilatos.

Iniciado em 1483 por D. Pedro Enríquez de Quiñones (c.1435-1492), IV Adelantado Mayor de Andalucia, a sua construção prolongou-se até 1571.

Importa assinalar que Fadrique Enríquez de Ribera (1476-1539), 1º marquês de Taifa e VI Adelantado Mayor de Sevilha, depois de uma viagem a Jerusalém (1518/19), descobriu que a distância entre o palácio de Pôncio Pilatos e o monte Gólgota seria a mesma entre a sua casa de Sevilha e o templeto da Cruz do Campo.

Por isso, na celebração da Semana Santa, iniciou-se uma Via Crucis entre o seu Palácio - que a partir de então se chamou Casa de Pilatos - e a Cruz do Campo, procissão que se crê estar na origem das celebrações da Semana Santa em Sevilha.

Mas foi, Per (Pedro) Afán de Ribera (c.1508-1571) sobrinho de Fadrique Enriquez de Ribera, e 2º Marquês de Taifa, que recebeu em 1558 de Felipe II o título de Duque de Alcalá.



[1] Jerónimo Münzer (1437-1508), Itinerarium siue peregrinatio excellentissimi viri artium ac vtriusque medicine doctoris Hieronimi Monetarii de Feldkirchen ciuis Nurembergensis (1495) in J. PUYOL, Jerónimo Münzer, Viaje por España y Portugal en los años de

1494 y 1495, in «Boletín de la Real Academia de la Historia», 84. Madrid 1924. (pág. 14).

[2] Andrea Navagero (1483-1529), Il Viaggio fatto in Spagna, et in Francia, dal Magnifico Andrea Navagiero, fu oratore dell’Ilustrissimo Senato Veneto, alla Cesarea Maesta di Carlo V. Com la descrittione particolare delli luochi, & costumi delli popoli di quele Provincie. In Vinegia apresso Domenico Farri. 1563. (pág. 15).

[3] Juan Mal Lara, (pág, 132).

[4] Rodrigo Caro (1573-1647), Antiguedades y Principiado de la Ilustrissima Ciudad de Sevilla. Y Chorographia de su Convento Iuridico, o antigua Chancilleria. En Sevilla, por Andres grande. Impressor de Libros. Sevilla Año 1634.

[5] Rodrigo Caro (1573-1647), Antiguedades y Principiado de la Ilustrissima Ciudad de Sevilla. Y Chorographia de su Convento Iuridico, o antigua Chancilleria. En Sevilla, por Andres grande. Impressor de Libros. Sevilla Año 1634. (libro primero, pág. 26).

[6] Alonso Morgado, Historia de Sevilla, en la cual se contienen sus antigüedades, grandezas y cosas memorables en ella acontecidas desde su fundación hasta nuestros tiempos, Compuesta y ordenada por Afonso Morgado, indigno Sacerdote, natural de la villa de Alcantara, en Estremadura. En la Imprensa de Andrea Fescioni y Iuan de Leon Sevilla 1587. (pág.50).

[7] Diego de Ortiz Zuñiga, Annales eclesiasticos, y seculares de la muy noble, y muy leal civdad de Seuilla, metropoli de la Andaluzia. Que contiene sus mas principales memorias desde el año de 1246. En Madrid: en la Imprenta Real, por Iuan García Infançon. Acosta de Florian Anisson, Mercader de Libros. Madrid 1677. (Libro XVI. pág. 623).

[8] Alonso Morgado, Historia de Sevilla en la cual se contienen sus antigüedades, grandezas y cosas memorables en ella acontecidas desde su fundación hasta nuestros tiempos, Compuesta y ordenada por Afonso Morgado, indigno Sacerdote, natural de la villa de Alcantara, en Estremadura. En la Imprenta de Andrea Perscioni y Ioan de Leon Sevilla 1587 (pág.).

 


sexta-feira, 10 de dezembro de 2021

Apontamentos sobre a Lisboa e Sevilha nos séculos XVI e XVII (10) 5ª parte

 

Apontamento 10 - Descrição de Sevilha a partir da imagem de Braun e Hogenberg 1588

 

Cap. 23

(25) Puerta de Triana. A Porta de Triana

 

fig. 72 – A Porta de Triana. Pormenor de Sevilha 1588 no Civitates Orbis Terrarum de Georg Braun (1542-1622) e Franz Hogenberg (1535-1590).


A Porta de Triana, que dava acesso à ponte do mesmo nome, era apenas um discreto e pequeno acesso à cidade intramuros, mas foi totalmente reformulada em estilo renascença na segunda metade do século XVI, tornando-se também uma porta de cerimónia.

 

fig. 73 – Porta de Triana. Pormenor da pintura de Sanchez Coello.

 

Afirma Diego de Zuñiga:

La puerta de Triana, obra del ano de mil quinientos y ochenta y ocho, es entre todas la mas autoriçada, y sumptuosa, com magestuosa altura, y ornato a una y outra vista, de orden Dorico, com robustíssimas colunnas, coronanla sobre el ostentoso cornijamento, balcones voleados com igual ornato y frontispício, rematedo de estatuas; a la parte interior se vè entre escudos de las armas de el Assistente el de las de la Ciudad, a la exterior en lugar de ellas en blanco losa esta Inscripcion: [1]

A inscrição em latim é traduzida pelo autor da seguinte forma

“Siendo poderosíssimo, y gloriosísimo Rey de las Españas, y de muchas Provincias por las partes del Orbe Filipo Segundo, el amplísimo Regimiento de Sevilla, juzgó deber ser adornada esta nueva puerta de Triana, puesta en nuevo sitio, favorecendo la obra y asistiendo á su perfeccion Don Iuan Hurtado de

Mendoza y Guzman, Conde de Orgaz, Superior vigilantíssimo de la misma floreciente Ciudad, en el año de la salud Christiana 1588.” [2]

 

fig. 74 – Porta de Triana. Pormenor da pintura de Sanchez Coello.

 


[1] Diego de Ortiz de Zuniga, Annales eclesiasticos, y seculares de la muy noble, y muy leal civdad de Seuilla, metropoli de la Andaluzia. Que contiene sus mas principales memorias desde el año de 1246. En Madrid: en la Imprenta Real, por Iuan García Infançon. Acosta de Florian Anisson, Mercader de Libros. Madrid 1677. (Libro XVI pág. 653).

[2] Diego de Ortiz de Zuniga, Annales eclesiasticos, y seculares de la muy noble, y muy leal civdad de Seuilla, metropoli de la Andaluzia. Que contiene sus mas principales memorias desde el año de 1246. En Madrid en la Imprenta Real, por Iuan García Infançon. Acosta de Florian Anisson, Mercader de Libros. Madrid 1677. (Libro XVI pág. 653).


Cap. 24

 (39) Puente de Triana. A Ponte de Triana

No primeiro plano, em frente do Arenal, a Ponte de Triana (39) uma ponte de 13 barcas sobre as quais um passadiço de madeira, ligando as duas margens do Guadalquivir, construída em 1171 por ordem de Isbiliya Jucef Abu Jacub.

  

fig. 75 – Ponte de Triana. Pormenor de Sevilha 1588 no Civitates Orbis Terrarum de Georg Braun (1542-1622) e Franz Hogenberg (1535-1590).

 

Andrea Navagero refere: “A quella parte del fiume se vi passa sopra un ponte fatto sopra barche, & passato il ponte si trova una parte de Sevilla che è bem habitata, & há molte case, ma non há il medesimo nome, anzi come luoco diverso si chiama Triana.” [1]

[ Naquela parte do rio passa-se sobre uma ponte pousada em barcas e passada a ponte encontramos uma parte de Sevilha bastante habitada e com muitas casas, mas que não tem o mesmo nome, e como lugar diferente chama-se Triana.]

 

fig. 76 -  A Ponte de Triana. Pormenor da Vista de Sevilha de Ambrosio Brambilla.


E Alonso Morgado escreve:

“Nõ deve de aver (segundo en esto soy unformado) alguna Puente, ni passo en general, màs frequentado, ni de tanto concurso de gente, Cavalgaduras, Ganados, Coches y Carretones como esta Puente de Triana, ni por donde entrê en ninguna outra ciudad, como en Sevilla, tantas recuas de Azeyte, y de Vino de solo su Axaraphe, ni que en tan poco trecho, como hasta el passaje de los Barcos, incluya tantas otras riquezas, y rentas, q por abreviar no digo.” [2]

 

Na pintura de Sanchez Coello, a ponte parece ilustrar a descrição de Alonso Morgado.

 

fig. 77 – A ponte de Triana. Pormenor da pintura de Sanchez Coello.

 


[1] Andrea Navagero (1483-1529), Il Viaggio fatto in Spagna, et in Francia, dal Magnifico M. Andrea Navagiero, fu oratore dell’Ilustrissimo Senato Veneto, alla Cesarea Maesta di Carlo V. Com la descrittione particolare delli luochi, & costumi delli popoli di quele Provincie. In Vinegia apresso Domenico Farri. 1563.(pág. 14a)

[2] Alonso Morgado Historia de Sevilla en la qual se contienen sus antiguidades, grandezas, y cosas memorables en ella acontecidas, desde su fundacion hasta nuestros tempos. Compuesta y ordenada por Afonso Morgado, indigno Sacerdote, natural de la villa de Alcantara, en Estremadura. En la Imprensa de Andrea Fescioni y Iuan de Leon Sevilla 1587.(Libro segundo, pág. 57v e 58).

 

Sevilha extramuros

 

Cap. 25

O Arrabalde de Triana

 

“Sevilla y Triana

y el río en medio:

así es tan de mis gustos

tu ingrato dueño.”  [1]

 

A ponte de Triana dava acesso ao arrabalde do mesmo nome, que se considerava mais como bairro com uma identidade própria do que uma extensão de Sevilha.

Diz Rodrigo Caro: “de la otra vãda del rio está el arrabal llamadoTriana, y se junta con una puente de madera sobre barcos a la ciudad.” [2]

 

fig. 78 - Pormenor de Sevilha 1588 no Civitates Orbis Terrarum de Georg Braun (1542-1622) e Franz Hogenberg (1535-1590).

 A estrutura urbana do arrabalde assentava nas ruas perpendiculares ao rio (Calle de Castilla, de Santa Catalina e de Cadenas), que entroncavam no eixo longitudinal, a Calle de Santa Ana.

O pintor flamengo Anton Van den Wyngaerde (c.1525-1571), nos anos 60 do século XVI desenhou, por encomenda de Felipe II, uma série de panorâmicas de cidades espanholas. Num desses desenhos vemos Triana vista do Arenal.

 

fig. 79 – Anton Van den Wyngaerde (c.1525-1571), Triana vista do Arenal.1567 desenho 10,8 x 90 cm. Biblioteca Nacional Viena. Austria.

 

fig. 80 – O cais de Triana. Pormenor da pintura de Sanchez Coello.

 

E Miguel de Cervantes canta as delícias de Triana:

“O uvas albarazadas,

Qu en el pago de Triana

Por la noche sois cortadas,

Y os hallais à la mañana

Tan fresca, y aljofaradas,

Que no hay cosa mas hermosa,

Ni fruta, que à la golosa

Voluntad ansi despierte!” [3]

 

Triana era também conhecida pelas fábricas de sabão (Almonas), pelas olarias, e ainda pelo fabrico de pólvora.

 O sabão

Essas Almonas de Triana fabricavam o sabão branco, como assinala Alonso Morgado:

“Yo me acuerdo, que de sola la Xaboneria, que es en la Collacion de San Salvador, se sacaron compradas en solo un dia quatrocientas y quarenta y cinco arrobas de Xabon de lo prieto, llamado assi a diferencia de lo Blanco, que se haze en panes en la outra Almona deTriana. (…) Desto Blanco provee tambien Sevilla a muchas partes de España, de las lndias y de Flandes, y de Inglaterra.” [4]

 

A louça

Como já foi afirmado, era conhecido o fabrico e venda de louça, como assinala Agustin Rojas:

“Ra. Por lo dixistes de Triana: aueys notado, la loza q a yen ella?

Ri. A propósito fray jarro.

So. Por esso q dezis de albarda, mi padre tiene una ratonera de golpe.

Ro. Oydo he dezir q ay mas de sessenta tendas, dõde se haze y vende, andi vedriado como amarillo y blanco, y aun muy buenos azulejos de diferêtes colores.” [5]

A pólvora

E como refere Alonso Morgado em triana também se situavam as fábricas de pólvora.

“Y en su Triana ay MoIinos de Pólvora; donde se haze tanta della, que de mas de sus Armadas puede Sevilla bastecer a muchas otras Artillerias.” [6]

E Morgado refere ainda a explosão que destruiu um conjunto de edifícios na Segunda feira 18 de Maio de 1579, como aparece desenhada na vista de Sevilha de Georg Braun (1542-1622) e Franz Hogenberg (1535-1590), Hispalis, Sevilla Taraphae, celebre et pervetustum in Hispania 1572, publicada no Volume I do Civitates Orbis Terrarum. (ver o Apontamento 8).

 

S. Ynquisitione (Inquisição), inscrito na imagem.

 O Castelo de São Jorge (A)

No arrabalde de Triana, onde as edificações chegavam quase ao rio, à entrada da ponte situava-se o Castelo de S. Jorge ocupado até 1280 pela Ordem Militar de S. Jorge e depois abandonado até 1481, quando foi entregue à Inquisição (La S. Ynquisition) Bíven enel castillo deTriana los juezes Y officiales deste sancto officio”[7] que aí se manteve até 1626 e de seguida entre 1639 e 1785. 

fig. 81 – Castelo de São Jorge. Pormenor de Sevilha 1588 no Civitates Orbis Terrarum de Georg Braun (1542-1622) e Franz Hogenberg (1535-1590).

 

fig. 82 – O Castelo de S. Jorge (19). Pormenor de Ambrosio Brambilla, vista de Sevilla,1585. Biblioteca Nacional de España.


A Igreja de Santa Ana (B)

Ao centro a Igreja de Santa Ana (B) “rica y de grande vecindad”, ao fundo da rua central por onde um homem com um cesto duplo ao ombro caminha em direção ao Guadalquivir.

 

fig. 83 – Igreja de Sant Ana. Pormenor de Sevilha 1588 no Civitates Orbis Terrarum de Georg Braun (1542-1622) e Franz Hogenberg (1535-1590).


A Igreja de Santa Ana foi edificada na segunda metade do século XIII, correspondendo a uma promessa de Alfonso X perante uma doença nos olhos. Com o terramoto de 1356 teve de ser reedificada e nos séculos XV e XVI foi aumentada a capela-mor e construídas outras capelas nas naves laterais.

Assim o afirma Rodrigo Caro:

“Es tan grande este populoso arrabal, que en otra parte hiziera de per si una ilustre ciudad con su Parrochia de Santa Ana, fundación del Rey dõ AIonso el Sabio.” [8]

 

E Mal Lara elenca as igrejas de Triana:

“En Tríana ay una yglesia de sancta Ana, rica y de grande vezindad, el monasterio de la Victoria, las Monjas de Cosolaciõ, la yglesia de sant Iorge dentro del Castillo…” [9]


O Mosteiro de Nossa Senhora da Vitória (C)

Na extremidade à direita o mosteiro de Nossa Senhora da Vitória (C), que assinala Augustin Rojas na sua El Viagem entretenido:

“Solano. Estuvistes en el monasterio de la Vitoria?

Rojas. Es un têplo muy bueno.

Rios. No es temeridad los q tiene Sevilla, ansi de frayles, como monjas.” [10]

 

fig. 84 – Nossa Senhora da Vitória. Pormenor de Sevilha 1588 no Civitates Orbis Terrarum de Georg Braun (1542-1622) e Franz Hogenberg (1535-1590).



[1] Lope de Veja Carpio (1562-1635), El amante agradecido in Decimaseptima parte de Las Comedias de Lope de Veja Carpio.En Madrid por la viuda de Alonso Martin de Balboa, a costa de Miguel de Siles, 1618 (Acto III, pág.125). BNE.

[2] Rodrigo Caro, Antiguidades y Principiado de la Ilustrissima Ciudad de Sevilla. Y Chorographia de su Convento Iuridico, o antigua Chancilleria. En Sevilla, por Andres grande. Impressor de Libros. Sevilla Año 1634. (pág. 47v).

[3] Miguel de Cervantes, El rufián dichoso in Ocho Comedias Y Ocho Entremeses nunca representados compuestas por Miguel de Cervantes Saavedra. Viuda de Alonso Martin, Madrid 1615. (pág.177).

[4] Alonso Morgado, Historia de Sevilla en la qual se contienen sus antiguidades, grandezas, y cosas memorables en ella acontecidas, desde su fundacion hasta nuestros tempos. Compuesta y ordenada por Afonso Morgado, indigno Sacerdote, natural de la villa de Alcantara, en Estremadura. En la Imprensa de Andrea Fescioni y Iuan de Leon Sevilla 1587. (libro segundo pág. 157).

[5] Agustin Rojas (1572-c,1635), El viagem entretenido de Agustin de Rojas, natural de Madrid. En la Empreta Real Madrid M. DC. III. BNE. (pág. 57).

[6] Alonso Morgado, Historia de Sevilla en la qual se contienen sus antiguidades, grandezas, y cosas memorables en ella acontecidas, desde su fundacion hasta nuestros tempos. Compuesta y ordenada por Afonso Morgado, indigno Sacerdote, natural de la villa de Alcantara, en Estremadura. En la Imprensa de Andrea Fescioni y Iuan de Leon Sevilla 1587. (pág.177)

[7] Juan de Mal Lara (1524-1571), Recibimiento que hizo la muy noble y muy leal ciudad de Sevilla a la C. R. M. del Rey don Felipe N. S. Con una breve descripción de la ciudad y su tierra. En casa de Alonso Escrivano, Sevilla, 1570. (pág. 33).

[8] Rodrigo Caro, Antiguidades y Principiado de la Ilustrissima Ciudad de Sevilla. Y Chorographia de su Convento Iuridico, o antigua Chancilleria. En Sevilla, por Andres grande. Impressor de Libros. Sevilla Año 1634. (pág. 47v).

[9] Juan de Mal Lara (1524-1571), Recibimiento que hizo la muy noble y muy leal ciudad de Sevilla a la C. R. M. del Rey don Felipe N. S. Con una breve descripción de la ciudad y su tierra. En casa de Alonso Escrivano, Sevilla, 1570. (pág. 145)

[10]  Agustin de Rojas, El viagem entretenido de Agustin de Rojas, natural de Madrid. En la Empreta Real Madrid M. DC. III. BNE. (pág. 57).