sexta-feira, 14 de novembro de 2025

janelas 9

 

A janela e a condição da mulher

 

“Tua sedução é menos
de mulher do que de casa:
pois vem de como é por dentro
ou por detrás da fachada…
[1]

João Cabral de Melo Neto


1 - O tema da figura feminina junto da janela atravessa toda a história da pintura.

E na pintura do século XIX o tema da mulher junto de uma janela é um tema frequente e com um particular significado.

 


fig. 1 - Caspar David Friedrich (1774-1840), Frau am Fenster 1822, óleo s/ tela 44 x 37 cm.  Alte Nationalgalerie Berlin.

E se desde sempre o interior da casa foi considerado o universo feminino e nele as actividades associadas: tarefas domésticas, educação infantil, conversação (possivelmente confidencial); e na melhor das hipóteses, a possibilidade de expressar talentos artísticos, desde o bordado à prática da música ou do desenho, passando pela decoração da casa…

Na época vitoriana esta realidade sociológica assumiu, nos meios burgueses, quase um estatuto de regra inviolável.



[1] João Cabral de Melo Neto (1920-1999), in A educação pela pedra e depois, Editora Nova Fronteira, Rio de Janeiro, 1997.



2 - Esta condição da mulher parece retratada numa pintura de Gustave Caillebotte que coloca uma mulher de costas olhando para o exterior através de uma janela. [1]

 



fig. 2 - Gustav Caillebotte, L’intérieur 1880, óleo s/tela 116 x 89 cm. Col. Particular.

 

O crítico de arte Joris Karl Huysmans (1848-1907), escreveu sobre este quadro, comentando a Exposição dos Independentes de 1880. Considerando-o uma obra-prima, salientava “la vie de cette scène”, confirmando esse pobre estatuto concedido à mulher.

“Uma senhora vira as costas para nós, de pé em uma janela, e um cavalheiro, sentado num cadeirão, visto de perfil, lê o jornal ao seu lado - isso é tudo; - mas o que é realmente bonito é a franqueza, é a vida dessa cena!

A mulher que olha, ociosa, a rua, palpita, mexe-se; vemos as suas ancas moverem-se sob o maravilhoso veludo azul-escuro que as cobre; vamos tocá-la com o dedo, ela vai bocejar, virar-se, trocar uma conversa inútil com o marido, distraído pela leitura da notícia de um fait-divers.

Esta suprema qualidade da arte, a vida, emerge desta tela com uma intensidade verdadeiramente incrível; e se já falei da luz, no início deste artigo; é aqui que é se deve vê-la, a luz de Paris, num apartamento situado voltado para a rua, a luz abafada pelos vidros das janelas, e peneirada pela musselina das pequenas cortinas.

No fundo da composição, na encruzilhada pela qual o dia se estende, vê-se a casa em frente, as grandes letras douradas que a indústria faz rastejar nos balaústres das varandas, nos apoios das janelas, neste abertura para a cidade. O ar circula, parece que o rolar surdo dos carros vai subir com o barulho dos transeuntes batendo na calçada, lá em baixo. É um momento da existência contemporânea fixado tal como é.

O casal está entediado, “como muitas vezes acontece na vida; um cheiro de um casal em uma situação de dinheiro fácil, escapa-se deste interior.[2]

 

Mas o quadro tem ainda outras leituras. A mulher, que olha para o edifício do outro lado da rua, está de facto a ver uma figura que surge espreitando de uma das janelas.

 



fig. 3 – Pormenor da figura anterior.

 

Nesta época a atribuição da casa ao universo feminino, ao confinar a mulher ao espaço doméstico, dava-lhe apenas muito limitadas possibilidades de sair e realizar sempre ou quase sempre sob vigilância.

Quanto ao homem, o exterior era o seu domínio. Para ele, era o lugar das actividades profissionais, mas também o lugar de aventuras, do jogo ou do lazer, das cavalgadas e caçadas, da prática de armas e no limite da guerra.

Por isso Caillebotte coloca na pintura a figura do marido, distraído na leitura de um jornal, na época o principal meio de comunicação com a vida na cidade e no mundo.

 A partir dessa bipolaridade resultam para a mulher múltiplas narrativas possíveis, dentro das quais a janela intervém como ponto de encontro, um desejo de fuga e transgressão, quer se concretize ou apenas seja imaginado.

 



[1] Compare-se com a pintura de Caillebote,“jeune homme à la fenêtre”, do texto anterior.

[2] Joris Karl Huysmans (1848-1907), Exposition des Indépendants en 1880, in L’Art Moderne, Librarie le Plon Les petits-fils de Plon et Nourrit, imprimeurs-éditeurs 8 rue Garancière 6e. 1883, Paris 1883. (pág.107 a 109).

[Une dame nous tourne le dos, debout à une fenêtre, et un monsieur, assis sur un crapaud, vu de profil, lit le journal auprès d'elle, — voilà tout — mais ce qui est vraiment magnifique, c'est la franchise, c'est la vie de cette scène ! La femme qui regarde, désœuvrée, la rue, palpite, bouge ; on voit ses reins remuer sous le merveilleux velours bleu sombre qui les couvre ; on va la toucher du doigt, elle va bâiller, se retourner, échanger un inutile propos avec son mari à peine distrait par la lecture d’un fait-divers. Cette qualité suprême de l'art, la vie, se dégage de cette toile avec une intensité vraiment incroyable, puis, j'ai parlé de la lumière, au commencement de cet article ; c'est ici qu'il faut la voir, la lumière de Paris, dans un appartement situé sur la rue, la lumière amortie par les tentures des fenêtres, tamisée par la mousseline des petits rideaux. Au fond de la scène, par la croisée d'où s'épand le jour, l'œil aperçoit la maison d'en face, les grandes lettres d'or que l'industrie fait ramper sur les balustres des balcons, sur l'appui des fenêtres, dans cette échappée sur la ville. L'air circule, il semble que le sourd roulement des voitures va monter avec le brouhaha des passants battant le pavé, en bas. C'est un coin de l'existence contemporaine, fixé tel quel. Le couple s'ennuie, comme cela arrive dans la vie, souvent ; une senteur de ménage dans une situation d'argent facile, s'échappe de cet intérieur.]



 

O tédio feminino

 

3 - A Emma de “Madame Bovary” de Flaubert [1] ou a Luiza de “O primo Bazilio” de Eça de Queiroz [2], representam bem essa mulher casada, na esquina dos séculos XIX e XX, fechadas em casa no seu tédio quotidiano, e onde a janela é o sítio privilegiado para o devaneio e o sonho de liberdade ou libertação, no limite através do adultério.



fig. 4 – Alfred Stevens (1823-1906)Mélancolie 1876, óleo s/painel 76,8 x 54,6 cm. Col. particular.

 

A janela, abre e une ao mundo, rompendo esse espaço doméstico e fechado.

 E se é um obstáculo, também incita ao devaneio, desta ausência onde ela se encontra até àquela presença onde ela se sonha e imagina…

 Por isso essas personagens estavam predispostas a imaginar a sua existência nessa vida agitada e elegante das grandes cidades: Emma “comprou um mapa de Paris e, com a ponta do dedo, na planta fazia passeios pela capital.” [3];

Luiza “…ambicionava um coupé; e queria viajar, ir a Paris, a Sevilha, a Roma…” [4].

 É o que sonham e é para onde querem escapar, fugindo à banalidade e ao quotidiano em que de tédio se definham…

 Em Madame de Bovary, Flaubert descreve esse énnui, esse vazio, em que Emma passa os dias.

 “O seu coração, mais uma vez, permaneceu vazio, e assim a série de dias iguais recomeçou. Sucederam-se em sequência, sempre idênticos, incontáveis ​​e sem nada trazer! Outras vidas, por mais monótonas que fossem, tinham pelo menos a hipótese de um acontecimento. Uma aventura trazia, por vezes, infindáveis peripécias, e a paisagem mudava. Mas, para ela, nada acontecia. Era a vontade de Deus! O futuro era um corredor completamente escuro, com uma porta fechada no final. Ela desistiu da música; para quê tocar? Quem a ouviria? (...) Deixou as suas pranchetas e a tapeçaria no armário. Para quê? Costurar irritava-a. - Já li tudo, dizia para si mesma. E ficava ali, ou a sujar as pinças de sangue, ou a olhar a chuva a cair.” [5]

 

E é o próprio Eça de Queiroz que justifica as suas personagens Luiza e Bazilio, escrevendo a propósito do seu romance:

No Primo Bazilio, que apresenta, sobretudo, um pequeno quadro doméstico, extremamente familiar a quem conhece bem a burguesia de Lisboa; — a senhora sentimental, mal-educada, nem espiritual (porque cristianismo já a não tem; sanção moral da justiça, não sabe a que isso é), arrasada de romance, lírica, sobrexcitada no temperamento pela ociosidade e pelo mesmo fim do casamento peninsular que é ordinariamente a luxúria, nervosa pela falta de exercício e disciplina moral, etc., etc. — enfim a burguesinha da Baixa; por outro lado o amante — um maroto, sem paixão nem a justificação da sua tirania, que o que pretende é a vaidadezinha de uma aventura, e amor grátis;…” [6]

Desses encontros irão resultar os enredos dos dois romances e significativamente a morte das duas personagens femininas.

 


fig. 5 - Georg Friedrich Kersting (1785-1847), Paar am Fenster 1815, óleo s/tela 47 x 37 cm. Col. Particular.

 

Do mesmo modo, Julien Green no seu romance Adrienne Mesurat”, cuja protagonista se assemelha um pouco à Bovary de Flaubert (e à Luísa de Eça de Queiroz), mas mais melancólica e deprimida, escreve que ela para vencer esse tédio. Ela “sentava-se numa grande poltrona na sala de estar, com a cabeça virada para a janela, as mãos cruzadas sobre os joelhos, e assim permanecia durante uma hora, como se estivesse absorvida por algo que via no céu.” [7]

 


 fig. 6 - Carl Vilhelm Holsøe (1863-1935),  A woman at a sunny window s/d, dimensões desconhecidas. Col. particular.

 

E Frederico Garcia Lorca descreve esta mulher prisioneira na sua própria casa olhando através da janela.

« …A imensa tristeza que flutua nos seus olhos

diz-nos a tua vida quebrada e fracassada,

a monotonia da tua envolvente empobrecida,

vendo passar gente desde a tua janela,

ouvindo a chuva cair sobre a amargura

dessa velha rua provinciana,

enquanto ao longe soam os clamores

turvos e confusos de uns campanários… » [8]

 


fig. 7   –Edmund Hodgson (1873-1942), Dawn 1907, óleo s / tela 155,6 x 111,1 cm. Smithsonian American Art.



[1] Gustav Flaubert (1821-1880), Madame Bovary Mœurs de province, Librairie de France, Paris,1929.

[2] Eça de Queiroz O Primo Basílio. Episódio domestico. Segunda Edição Livraria Internacional de Ernesto Chardron Porto 1878.

[3] Gustav Flaubert (1821-1880), Madame Bovary Mœurs de province, Librairie de France, Paris,1929. (pág. 120).

[ s’acheta un plan de Paris, et, du bout de son doigt, sur la carte, elle faisait des courses dans la capitale.]

[4] Eça de Queiroz O Primo Basílio. Episodio domestico. Segunda Edição Livraria Internacional de Ernesto Chardron Porto 1878. (pág.218).

[5] Gustav Flaubert (1821-1880), Madame Bovary Mœurs de province, Librairie de France, Paris,1929. (pág. 131).

 [Son cœur, de nouveau, resta vide, et alors la série des mêmes journées recommença. Elles allaient donc maintenant se suivre ainsi à la file toujours pareilles, innombrables, et n’apportant rien ! Les autres existences, si plates qu’elles fussent, avaient du moins la chance d’un événement. Une aventure amenait parfois des péripéties à l’infini, et le décor changeait. Mais pour elle, rien n’arrivait. Dieu l’avait voulu ! L’avenir était un corridor tout noir, et qui avait au fond sa porte bien fermée. Elle abandonna la musique, pourquoi jouer ? Qui l’entendrait ? (…) Elle laissa dans l’armoire ses cartons à dessin et la tapisserie. À quoi bon ? La couture l’irritait. – J’ai tout lu, se disait-elle. Et elle restait à faire rougir les pincettes, ou regardait la pluie tomber.]

[6] Eça de Queiroz, Carta a Teófilo Braga, Newcastle 12 de Março de 1878. In Correspondência Ed. Livros do Brasil Lisboa 2000 (pág.35).

[7] Julien Green (1900-1998), Adrienne Mesurat (1927), in Œuvres complètes I, Bibliothèque de la Pléiade Gallimard, Paris 1972. (pág. 306).

[s’asseyait dans un grand fauteuil, au salon, et la tête tournée vers la fenêtre, les mains croisées sur ses genoux, elle restait ainsi une heure et comme absorbée par quelque chose qu’elle voyait dans le ciel.]


[8] Federico García Lorca (1898-1936), Elegia. Diciembre de 1918 (Granada) in Obras Completas, Aguilar S.A. Ediciones, Juan Bravo 38, Madrid 1969. (pág.203).

[ “…La tristeza inmensa que flota en tus ojos

nos dice tu vida rota y fracasada,

la monotonía de tu ambiente pobre

viendo pasar gente desde tu ventana,

oyendo la lluvia sobre la amargura

que tiene la vieja calle provinciana,

mientras que a lo lejos suenan los clamores

turbios y confusos de unas campanadas…” ]

 

quinta-feira, 13 de novembro de 2025

janelas 8

  

 Figura vista de costas (“Rückenfigur”)


Avez-vous quelquefois, calme et silencieux,
Monté sur la montagne, en présence des cieux ?

Victor Hugo [1]


No período do Romantismo, que Novalis definia como “dar ao comum um significado elevado, ao banal um sentido de mistério, a esse conhecido, a dignidade do desconhecido, ao finito, a aparência de infinito” [2], Caspar David Friedrich pinta o conhecido quadro “Wanderer über dem Nebelmeer” (Caminhante Sobre o Mar de Névoa) de 1818.



fig. 1 - Caspar David Friedrich (1774-1840), The Wanderer above the Sea of Fog 1818, óleo s/tela 94,8 × 74,8 cm. Kunsthalle Hamburg.

 

Perante esta pintura, o pintor e médico Carl Gustave Carus [3], amigo Caspar Friedrich, em 1831, teorizou o conceito de “Rückenfigur” (figura vista de costas), uma imagem que, muitas vezes, passou a constituir o centro das composições românticas.

Carus nota que essa “figura solitária perdida na contemplação de uma silenciosa paisagem, incita o espectador do quadro a colocar-se, pelo pensamento, no lugar dessa figura.” [4] 

A personagem vista de costas no centro da pintura, olha (ou vê?), o que o espectador não sabe, nem o que ela olha, e sobretudo, nem o que ela vê…

Apenas sabemos que olha para dentro e medita sobre si própria, sobre o seu estar no mundo e sobre a condição humana perante a Natureza.

E, para que o mistério da presença do mundo se nos revele, o nosso olhar deve ser desinteressado e introduzir o silêncio numa reflexão interior, esquecendo quem somos na contemplação do mundo.

 

 



[1] Victor Hugo (1802-1885), O altitude! Ce qu'on entend sur la montagne de Feuilles d’Automne in Oeuvres Complètes Tome IV Poésie Eugène Renduel, Èditeur-Libraire, Paris 1834. (pág.51).

[Alguma vez, calmo e silencioso, / Subiste à montanha na presença dos céus?]

[2] Novalis (Georg Philipp Friedrich Freiherr von Hardenberg 1772 - 1801), Le monde doit être romantisé, trad. Olivier Schefer éditions Allia,16 rue Charlemagne Paris 2002. (fragment 105, pág.45). 

[Le romantisme, c’est donner au commun un sens élevé, à l’ordinaire, un sens de mystère, au connu, la dignité de l’inconnu, au fini, l’apparence de l’infini.]


[3] Carl Gustav Carus (1789-1869), Neuf lettres sur la peinture de paysage écrites dans les années 1815-1824, précédées d'une préface de Goethe. 1831 in Caspar David Friedrich, Carl Gustav Carus, De la peinture de paysage, présentation de Marcel Brion, Klincksieck, coll. L'Esprit et les formes, 1988. (pág. 75 e 76).

[Une figure solitaire, perdue dans la contemplation d’un paysage silencieux, incitera le spectateur du tableau à se mettre, par la pensée, à la place de cette figure.]

[4] idem.



Meditando perante a janela

 

 

« Qu’est-ce que le moi ?

Un homme qui se met à la fenêtre pour voir les passants » 

Blaise Pascal [1]

 

 


que 
fig. 2Henri Jean Augustin De Braekeleer ou Hendrik De Braekeleer (1840-1888),  Homem à janela 1873/76, óleo s/tela 80,5 x 70c m. Royal Museum des Beaux-Arts Belgique.


Nos finais do século XIX, com o Realismo, é introduzida uma janela, ou como diz Pessoa no heterónimo de Bernardo Soares: “Entre mim e a vida há um vidro ténue. Por mais nitidamente que eu veja e compreenda a vida, eu não lhe posso tocar.” [2]

A janela, distanciando a figura da paisagem, que agora é cada vez mais uma paisagem urbana, reflexo da cidade tentacular, burguesa e industrial.

A personagem que medita e contempla o exterior, voltando as costas ao observador, ganha outro significado, tornando-se um tema habitual na pintura e na literatura, particularmente no último quartel do século XIX e nos primeiros anos do século XX.

 



[1] Blaise Pascal (1623-1662), Art. XVIII in Pensées de Blaise Pascal precédées d’une notice sur sa vie, par Mme Périer, sa sœur. A Paris, Chez Lefèvre, Libraire, rue de l'Éperon, nº 6. M DCCC XXXVI. (pág. 132).

[2] Bernardo Soares (Fernando Pessoa), Fragmento 80 Intervalo Doloroso in O Livro do Desassossego. Composto por Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros na cidade de Lisboa. Assírio & Alvim. Lisboa 2018.



O Homem que medita à janela


“Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta” [1]

Álvaro de Campos

 

O pintor Gustave Caillebotte [2], também seguindo o modelo da “Rückenfigur”, pinta uma figura masculina de costas, olhando para uma janela, mas agora, sem romantismo, num ambiente burguês e parisiense do último quartel do século XIX.

 


fig. 3 - Gustave Caillebotte (1848-1894), jeune homme à la fenêtre 1875, óleo s/tela 116 x 80,9 cm. Col. Particular. Figurou na Exposição dos Impressionistas de Março de 1876.

 

Nesta composição de Caillebotte a personagem masculina, de costas e mãos nos bolsos, que olha para o exterior, sabe-se que é um retrato de René Caillebote (1851-1876), o irmão do pintor, que veio a falecer seis meses após a pintura ser exposta na 2ª Exposição dos Impressionistas de 1876.

Émile Zola, considerando a influência que a fotografia tem na época, considera esta imagem de Caillebote, que “é uma pintura antiartística, uma pintura límpida como um vidro, uma pintura burguesa, pela precisão da cópia. A fotografia da realidade que não tem a marca original do talento do pintor é uma coisa pobre.” [3]

Mas o que fixa a atenção da personagem - o motivo da sua meditação - não é apenas a paisagem urbana de uma cidade que nos é conhecida no tempo e no espaço. A cidade de Paris transformada pelo barão de Haussmann.


fig. 4 – Pormenores da fig.3.

O que a janela da rua de Miromesnil [4] mostra é, mais prosaicamente, uma figura feminina que surge atravessando a rua de Lisbonne, na sombra do edifício Caillebote, sombra criada pelo sol poente. Na rua estacionam dois fiacres.

 Quem é esta dama que caminha “devagar [porque] as janelas olham.” ? [5]


E o homem à janela diria como Yannis Ritsos num seu poema:

“Como poderia, então, eu desta janela lamentar-me ?

Podes entreabri-la, se quiseres, sem nada olhar para fora,

permanecendo invisível nos vidros

as verdadeiras cenas da rua, num espaço mais profundo e

mais duradouro,

com a luz suave de uma grande distância…”  [6] 

Há assim neste quadro, um jogo duplo entre exibição e dissimulação, que serve de catalisador do imaginário.

A ambivalência, desta pintura de um homem perante a Janela, é sublinhada por Bernardo Soares, “Ha o ceu azul alto, limpo e sereno, onde boia qualquer nuvem imperfeita. Ha a brisa leve, que agita os ramos densos das arvores, se é no campo; que faz oscillar as roupas extendidas, nos quartos andares, ou quintos, se é na cidade. Ha o calor ou o fresco, se os ha, e sempre, no fundo, uma memoria, ou uma saudade, ou uma esperança, e um sorriso de ninguem á janella do nada...” [7]

 

 



[1] Álvaro de Campos, Tabacaria in Obra Poética de Fernando Pessoa. Companhia Aguilar Editora Rio de Janeiro (pág. 364)

[2] Gustav Caillebote (1848-1894). Apesar da sua formação em Direito, após a guerra franco-prussiana dedicou-se à pintura. Possuidor de enorme fortuna que utilizou apoiando artistas seus amigos (Monet, Pissarro e Renoir), financiou as exposições dos Impressionistas. A sua pintura de um realismo - que muito deve à fotografia, em grande desenvolvimento na época – não se insere propriamente no impressionismo dos seus amigos e companheiros.

[3] Émile Zola, "Deux expositions d'art en mai", in Le messager de l'Europe, juin 1876.

[C’est une peinture antiartistique, une peinture proprette comme du verre, une peinture bourgeoise, en raison de la précision de la copie. La photographie de la réalité n'est pas marquée du sceau original du talent du peintre c'est une piètre chose.] 

[4] A família Caillebote habitou o n.º 77 da rua Miromesnil (Armand Thomas Hue, marquis de Miromesnil, 1723-1796) no cruzamento da rua de Lisbonne em Paris.  

[5] Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), Cidadezinha qualquer. Alguma poesia (edições Pindorama Bello Horizonte 1930) Companhia das letras S. Paulo 2013. (pág. 49).

[6] Yannis Ritsos (1909-1990), La Ventana de El Pireo, Abril de 1959, traducción de Juan L. Ortiz. Ediciones el Lagrimal Trifurca de Francisco Gandolfo y Hugo Diz, Rosario 1973.

Traduzido do castelhano:

[…Cómo podría, entonces, de esta ventana lamentarme?
Puedes entreabrirla, si quieres, sin mirar del todo afuera,
seguir invisible en los vidrios
las escenas verdaderas de la calle, en un espacio más profundo, y más durable,
con la dulce iluminación, de una distancia grande…]

[7] Bernardo Soares, 23-12-1933. Livro do Desassosego. ed. de Jerónimo Pizarro, Lisboa, Ed. Tinta-da-china, MMXIII, (pág. 456).