segunda-feira, 14 de setembro de 2026

poema

 

Soneto ao vinho em tempo de vindima

 



Giorgio Morandi (1890-1964) Natureza morta 1946, óleo s/tela 37,5 x 45,7 cm. Tate Modern, Londres.

 

 

“O vinho, meu amigo, deve ser a veneração de todos, e de tudo.

 He a muleta dos velhos, a vengála dos moços, o apisto dos enfermos,

as cocegas dos tristes, a gaita dos alegres, a esmóla dos pobres

He o melaço dos marotos, o cacimbo dos pretos, e o chocolate dos lacayos.

He o mimo das Damas, o beijo das Freiras, a mecha das moças, o borralho dos velhos...”

Frei Lucas de Santa Catarina [1]

 

“Vino, enseñame el arte de ver mi propia historia,

como si esta ya fuera ceniza en la memoria.”

Jorge Luis Borges [2]

 

“Amo sobre una mesa,
cuando se habla,
la luz de una botella
de inteligente vino.”

Pablo Neruda [3]

 

 

Vinho que nos ensina a arte de viver

e alegre nos funde a ânsia do tempo

no sem querer e no quase sem saber

a ilusão de todo o ritmo do momento

 

quanto mais se bebe menos se teme

vinho pisado pés que esmagam mosto

vozes alegres que no vinho, se desata

vida no vinho ganhando um fino gosto

 

beber por contínuas e elegantes taças

buscando a lucidez onde nos revemos

sepultando as tristezas e as desgraças

 

esse glamoroso encanto essa harmonia

só por falta nossa primeira e derradeira

fez esquecer o bom que no vinho havia



[1] Frei Lucas de Santa Catarina (1660-1740), Carta A hum amigo, que lhe mandou hua botelha de vinho. In Anatomico jocoso, que em diversas operaçoens manifesta a ruindade do corpo humano, para emenda do vicioso... / pelo Padre Fr. Francisco Rey de Abreu Matta Zeferino. Tomo II. Na officina do Doutor Manoel Alvarez Solano Lisboa Anno MDCC LV (pág. 327). Biblioteca Nacional.

[2] Jorge Luis Borges (1899-1986), Soneto al Vino in Obras Completas 1923-1972. Emecé Editores. Buenos Aires 1974. (pág. 919).

[3] Pablo Neruda (1904-1973). Oda al vino de Odas elementales (1954). In Trilogía «Odas elementales» - 01 ePub r1.2 Titivillus 16.11.15 ebookelo.com (pág. 231 a 233).

 

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