Soneto ao vinho em tempo de vindima
Giorgio Morandi (1890-1964)
Natureza
morta 1946, óleo s/tela 37,5 x 45,7 cm. Tate Modern, Londres.
“O vinho, meu amigo, deve ser a veneração de todos, e de tudo.
He a muleta dos velhos, a vengála
dos moços, o apisto dos enfermos,
as cocegas dos tristes, a gaita dos alegres, a esmóla dos pobres
He o melaço dos marotos, o cacimbo dos pretos, e o chocolate dos
lacayos.
He o mimo das Damas, o beijo das Freiras, a mecha das moças, o borralho
dos velhos...”
Frei Lucas de Santa Catarina [1]
“Vino, enseñame el arte de ver mi propia historia,
como si esta ya fuera ceniza en la memoria.”
Jorge Luis Borges [2]
Pablo Neruda [3]
Vinho que nos ensina a arte
de viver
e alegre nos funde a ânsia
do tempo
no sem querer e no quase sem saber
a ilusão de
todo o ritmo do momento
quanto mais se bebe menos
se teme
vinho pisado pés que
esmagam mosto
vozes alegres que no vinho,
se desata
vida no vinho
ganhando um fino gosto
beber
por contínuas e elegantes taças
buscando a
lucidez onde nos revemos
sepultando
as tristezas e as desgraças
esse glamoroso encanto essa harmonia
só por falta nossa primeira e derradeira
fez esquecer o bom que no vinho havia
[1]
Frei Lucas de Santa Catarina (1660-1740), Carta A hum amigo, que lhe mandou hua botelha de
vinho. In Anatomico
jocoso, que em diversas operaçoens manifesta a ruindade do corpo humano, para
emenda do vicioso... / pelo Padre Fr.
Francisco Rey de Abreu Matta Zeferino. Tomo II. Na officina do Doutor Manoel Alvarez Solano Lisboa Anno MDCC LV
(pág. 327). Biblioteca Nacional.
[2] Jorge Luis Borges (1899-1986), Soneto al Vino in Obras Completas 1923-1972. Emecé Editores. Buenos Aires 1974. (pág.
919).
[3] Pablo Neruda (1904-1973). Oda al vino de Odas elementales (1954). In Trilogía «Odas elementales» - 01 ePub r1.2 Titivillus 16.11.15 ebookelo.com (pág. 231 a 233).

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